Clarice Lispector
Perto do Coração Selvagem
PALAVRAS SECAS E ÚMIDAS
EM CLARICE LISPECTOR
Ercília Bittencourt
A cantiga do Rei-Trovador
- Ai flores, ai flores do verde
pino,
Se sabedes novas do meu amigo?
ai Deus, e u é?
- Ai flores, ai flores do verde
ramo,
Se sabedes novas do meu amado?
ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo?
ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi á jurado?
ai Deus, e u é?
- Vós preguntades polo voss'amigo?
E eu ben vos digo que é san' e vivo
Ai Deus, e u é?
- Vós me preguntades polo
voss'amado?
E eu ben vos digo que é viv' e sano
Ai Deus, e u é?
E eu ben vos digo que é
san' e vivo,
e será vosc'ant'o prazo saído
Ai Deus, e u é?
E eu ben vos digo qu' é
viv' e sano,
e será vosc ant' o prazo passado
Ai Deus, e u é?
(D. Dinis)(1)
Por que uma cantiga medieval portuguesa
para iniciar essa tentativa de compreensão de A paixão
segundo G.H., de Clarice Lispector? Qual a relação
entre uma cantiga de amigo e um romance contemporâneo? Entre
a poesia portuguesa e a prosa brasileira? Entre a Idade Média
e o século XX?
Analisando a estrutura de ambos,
o poema e o romance, vimos pontos de contato e achamos interessante
tecer algumas idéias e considerações a respeito
do tema.
A cantiga de amigo citada é
das mais conhecidas de D. Dinis, apresentando como características
o paralelismo das estrofes, a alternância vocálica
(a - i) e o refrão. O poeta canta na voz de uma mulher e
pergunta pelo seu amigo/amado. Escrita por um homem, exprime um
sentimento feminino: o sentimento de abandono pela ausência
do namorado perjuro induz a camponesa ao diálogo com as flores
do pinheiro que, sensibilizadas, personificam-se e lhe respondem
que logo ele virá.
O sentimento é um só
e se afirma pela repetição: repetem-se as idéias
nas oito cobras (estrofes) compostas de um dístico
com pequenas variações sinonímicas e um refrão
que confirma a existência de um coro.
Evidencia-se a utilização
do leixa-pren (deixa-prende), que sugere um "primitivo
processo de composição improvisada, que obriga um
dos improvisadores a repetir o último verso do outro, para
o qual devia achar seqüência."(2) Esse processo
ainda persiste no desafio do cordel nordestino brasileiro, de reconhecida
influência medieval.
A comunhão entre a jovem e
a natureza revela o primitivismo mágico desse mundo medieval,
possível de associar-se a estados de consciência arcaicos
em que os limites entre as pessoas e os outros seres (no caso, as
flores do pinheiro) simplesmente inexistem.
Essa coita (sofrimento amoroso) feminina
se expande em muitos estados de alma da donzela enamorada: mágoa,
ciúme, dúvida, saudade, tristeza, desconfiança,
exigência, compondo diferentes tipos psicológicos,
o que leva o estudioso de tais cantigas a constatar (como o fazem
Saraiva e Lopes): "a simpatia com que alguns poetas sabem colocar-se
dentro do ponto de vista da mulher e dos interesses femininos."(3)
Ou como diz Cleonice Berardinelli:
Não podemos deixar de admirar
os seus autores [das cantigas de amigo] pela acuidade com que
penetram o coração da mulher e revelam-lhe virtudes
e defeitos, ansiedades e desdéns, receios e esperanças.
Dessa compreensão da alma feminina resulta a veracidade
e sinceridade das cantigas, nas quais ouvimos, realmente, a voz
das raparigas de então.(4)
É preciso lembrar, no entanto,
que "a voz das raparigas de então" capaz de expressar-se
nas cantigas de amigo não lhes pertence, analfabetas que
eram, mesmo fidalgas, e sim, ao homem que assume ambos os papéis,
o masculino e o feminino.
O trovador da cantiga de amigo expressa
literariamente uma dualidade amorosa: a da mulher que ama e a do
homem amado (ele próprio). Essa ambivalência é
reveladora, não somente como psicologia literária,
mas também no âmbito das relações humanas,
ilustrando nos tempos medievais a Literatura e a Vida.
É preciso, também,
lembrar que, além de D. Dinis, os outros autores desses textos
medievais são homens doutos, políticos, nobres, clérigos.
Eles os escreviam sob forma de papiros e através deles expressavam
suas idéias sobre Arte. Não havia como controlar esses
impulsos. Eles os significavam de forma erudita e não tinham
controle sobre eles. Alguns desses textos chegaram até nós,
mas muitos se perderam. Havia necessidade de escrevê-los.
Era a literatura da época. Sem mais delongas, não
tinham como expressar suas mensagens, a não ser desse jeito.
E todos gostavam de fazê-lo.
Naquela época, havia muitas
outras coisas em jogo. O bem-estar do povo, o progresso da sociedade,
a conquista de outros povos, tudo isso eram preocupações
presentes e renovadas. Não se sabia ao certo como escrever
tais textos, mas os trovadores tentavam. E muitas vezes dava certo.
Pois ao lerem tais peças, todos gostavam. E aplaudiam essas
obras que, na verdade, não eram suas: pertenciam ao patrimônio
da humanidade, ao acervo comum de todos. Não importa; todos
ficavam felizes com essas obras: eles e o público.
Segundo Arnold Hauser, esses cantores
davam às homenagens que
prestavam às damas a forma de canções de
amor expressas em termos corteses mas não inteiramente
"fictícios"; foram os primeiros a conceder um
lugar ao serviço de sua dama, a par do serviço do
senhor; foram eles que interpretaram a lealdade feudal como amor
e o amor como lealdade feudal(5)
Na verdade, essas canções
predominavam de forma tal que se tornaram bastante populares. O
acompanhamento musical facilitava e muito. Os versos eram secundários.
Primeiro se fazia a música, depois a letra. Seus instrumentos
eram toscos, mas bastante sonoros.
E assim percorriam vários
castelos, mas também as reuniões populares, feiras,
festas. E as distâncias se tornavam pequenas diante da necessidade
de propagar tais canções. Elas então se tornavam
populares e os trovadores prosseguiam sempre em busca de lugares
onde cantá-las. Era um ciclo inesgotável de música
e torneios de amor.
Não se está fazendo
apologia das cantigas, mas que outra forma de literatura estava
tão próxima da Beleza e do Bem, propagados por Descartes(6)?
Esse senso de lógica nas cantigas: tudo muito certinho, sem
emoções. Já no escalão superior, tudo
se passava de forma íntegra. A literatura das cantigas se
faz presente, numa instabilidade entre estes padrões europeus
e os padrões locais sem afirmar, contudo, nem uns nem outros.
Ao recital do cantor todos compareciam
e deixavam suas impressões aflorarem de forma bastante agradável.
Todos participavam. Era sempre uma festa. Nesses momentos se esqueciam
das guerras, das brigas intestinas, das lutas por mais terras. O
que as cantigas traziam era uma lufada de prazer, harmonia, descontração.
Um momento único de lazer e prazer.
Enfim, essa poesia trovadoresca era
uma atividade transitiva indispensável em todos os acontecimentos
sociais (nascimentos, episódios amorosos, grandes aventuras,
falecimentos) e tanto o cavaleiro e o cantor de estradas como o
nobre e o rei poeta exerciam uma prestigiada função
na sociedade como cronistas da vida medieval.
A cantiga de Clarice
Já no ensaio O mundo de
Clarice Lispector (1966) com que inaugura uma profícua
e abalizada interpretação da obra clariceana, Benedito
Nunes apontava no seu estilo o que denominou "técnica
de desgaste": a neutralização dos significados
abstratos das palavras alternada à sua utilização
na sua máxima concretude, pela repetição obsessiva
de verbos e substantivos, "como se em vez de escrever, ela
descrevesse7, conseguindo um efeito mágico de refluxo da
linguagem que deixa à mostra o 'aquilo', o inexpressado."(8)
Essas observações são
aprofundadas em livro posterior, Leitura de Clarice Lispector (1973)(9),
no qual o crítico identifica a repetição como
"o traço de mais largo espectro"(10) na obra da
escritora. Ele o vê como um processo consciente que, se por
um lado atua como recurso enfático, por outro concorre para
a redução das significações e, conseqüentemente,
uma preparação para o silêncio. Nesse jogo da
linguagem, a obra caminha do expressionístico para o alegórico,
conjugando o poder da palavra e do silêncio.
Reynaldo Bairão, em apontamentos
para um estudo sobre Clarice Lispector (1969), tece comentários
sobre um específico recurso de repetição: iniciar
um capítulo com a última frase do capítulo
anterior (no caso de PSGH). Embora o denomine de "cacoete",
ele reconhece sua qualidade como interligação do livro
todo, dando-lhe essa "unidade alucinatória que é
seu maior objetivo. Seria assim uma espécie de 'deixa' que
o mesmo personagem toma, a fim de prosseguir o monólogo que
ele mantém consigo mesmo."(11)
Em 1973, Assis Brasil reedita, com
pequenas modificações, o estudo Clarice Lispector:
ensaio, de 1969, que, por sua vez, era uma compilação
de artigos sobre a escritora publicados na imprensa ao longo da
década de 60.
No volume I, dedicado ao romance,
da série de quatro da coleção História
crítica da literatura brasileira (1973), Assis Brasil observa
que, no romance PSGH, "Clarice Lispector encadeia a última
frase de um capítulo com a primeira do capítulo seguinte,
ou a repete dando uma unidade temporal ao relato."(12) Nega,
contudo, que a narrativa seja um monólogo direto ou indireto.
Em notas para os textos de uma Seleta
de Clarice (1975), Amariles Guimarães Hill, referindo-se
ao romance PSGH, destaca:
Um curioso procedimento desse romance
é iniciar cada capítulo exatamente com a última
frase do capítulo anterior. Essa técnica lembra
o leixa-pren (larga e pega) das cantigas medievais portuguesas,
o qual consistia em começar uma estrofe com as palavras
que terminavam a estrofe anterior.(13)
Também Olga de Sá,
em A escritura de Clarice Lispector (1979), chama a atenção
para essa característica do romance PSGH: "um recurso
técnico original: começa um capítulo com a
última frase do capítulo anterior. Dá assim
à sua introspecção um aspecto de ininterrupta
continuidade e à voz de sua narrativa, uma tonalidade de
canção, como as velhas cantigas medievais."(14)
O fato é que não passou
despercebido à crítica o recurso do leixa-pren no
romance PSGH. Visto inicialmente como parte de um processo de repetição
mais abrangente a que o crítico Benedito Nunes chamou "técnica
de desgaste", enquanto outros ressaltaram o seu poder de conferir
ao romance sua unidade - seja uma "unidade alucinatória"
(Reynaldo Bairão) ou uma "unidade temporal" (Assis
Brasil), o leixa-pren é finalmente associado às velhas
cantigas medievais (Olga de Sá) ou, mais particularmente,
às portuguesas (Amariles Guimarães Hill).
Discordamos apenas que esse determinado
tipo de repetição seja classificado como um "cacoete"
(segundo Reynaldo Bairão), pois isso implicaria uma ação
repetida e involuntária, um tique ou mania, e não
nos parece ser esse o caso. Em Clarice, o ato de escrever não
é involuntário ou gratuito, fácil ou simples:
"Não, não é fácil escrever. É
duro como quebrar rochas. Mas voam faíscas e lascas como
aços espelhados.", Lispector (1987a:25), "Que ninguém
se engane, só consigo a simplicidade através de muito
trabalho.", Lispector (1987a:17).
Concordamos, pois, com Benedito Nunes
que vê no recurso estilístico da repetição
um processo consciente e significativo na obra de Clarice. E nesse
processo em que se repetem palavras, frases inteiras, sobressai
o leixa-pren de PSGH, que aproxima distantes momentos literários:
a cantiga medieval portuguesa e o romance brasileiro do século
XX.
A repetição sugere
o eterno retorno, a imagem do mesmo, do círculo em sua invariável
perfeição homogênea, circuito fechado do tempo-serpente
que morde continuamente a própria cauda. Aqui a repetição
não é a supremacia da identidade, mas a representação
obsessiva de uma busca: "------ estou procurando, estou procurando.
Estou tentando entender", Lispector (1972:7) que expõe
sua perplexidade: "todo momento de achar é um perder-se
a si próprio", Lispector (1972:13) e sua inconclusão:
"A vida se me é, e eu não entendo o que digo.
E então adoro ------", Lispector (1972:217).
Essa busca que inicia e termina com
seis travessões reconhece que a tranqüilidade e a proteção
configuradas pelo círculo, pelo eterno retorno não
correspondem à realidade, pois a repetição
nunca é fidedigna, como afirma Nietzsche:
No fundo, tudo o que foi possível
uma vez não pode voltar a ser possível, a menos
que os pitagóricos tivessem razão, ao crer que sempre
que se apresenta uma mesma conjugação dos astros
se devem repetir sobre a terra os mesmos acontecimentos até
ao mais insignificante dos pormenores de tal maneira que quando
os astros atingem uma determinada posição um estóico
deve fazer aliança com um epicurista, César deve
ser assassinado e Colombo deve descobrir a América. Só
se a terra, no fim do quinto ato, retomasse desde o começo
o seu drama e estivesse provado que o mesmo encadeamento de causas,
o mesmo Deus ex machina, a mesma catástrofe voltassem com
intervalos regulares, é que o homem poderia desejar que
a história monumental se repetisse com uma fidelidade iconográfica,
isto é, até ao mais pequeno pormenor, cada fato
com a sua particularidade e a sua unicidade bem definidas. Mas
isso não acontecerá, a não ser que os astrônomos
se transformem em astrólogos.(15)
O leixa-pren em PSGH, ao remontar
à temática da busca e exprimir, pela repetição,
a vontade de representar o infinito, sugere não o círculo,
mas o labirinto.
Nesse "livro" labiríntico
entrecruzam-se os caminhos da enunciação: o lírico,
pelo uso do presente e da primeira pessoa e o épico, pela
ampliação do eu ao infinito de suas possibilidades,
infringindo seus limites e apoderando-se do plano do não-eu,
como já é anunciado na epígrafe de Bernard
Berenson:
A complete life may be one ending
in so full identification with the non-self that there is no self
to die. Lispector (1972:6)
[ Uma vida completa pode acabar numa identificação
tão absoluta com o não-eu que não haverá
mais um eu para morrer.]
É através do "corredor
escuro", Lispector (1972:41) que G.H., penetrando nesse "quarto-minarete",
Lispector (1972:43), refaz a experiência iniciatória
do ateniense Teseu no labirinto de Creta.
Após abater o Minotauro, Teseu
só alcança a saída do labirinto com o auxílio
espiritual não apenas do fio de Ariadne, mas graças
à sua coroa luminosa (um anjo?) com a qual ela ilumina os
caminhos escuros do palácio.
O labirinto em que o monstro simbólico
se alimenta de jovens vítimas é o inconsciente de
Minos, habitado pela tendência perversa de dominação.
Embora destruindo o monstro do outro, Teseu não consegue
escapar ao seu próprio, configurado na ingratidão
ao abandonar Ariadne que lhe havia dado fio condutor e luz, presentes
salvadores para o labirinto.(16)
Diante do seu "labirinto",
G.H. esbarra, ao contrário do que supunha, "na visão
de um quarto que era um quadrilátero de branca luz e seus
olhos franziram em reverberação", Lispector (1972:41).
Esse "aposento todo limpo e vibrante", Lispector (1972:42)
é metaforizado num "quarto-minarete", Lispector
(1972:43).
Ora, "minarete", ensina
o dicionário do Aurélio, é palavra de origem
árabe que nos chegou através do francês: "minaret
<ár. marana(t), 'lâmpada', 'farol', 'a torre do
farol': pequena torre de mesquita de três ou quatro andares
e balcões salientes, de onde se anuncia aos muçulmanos
a hora das orações; almádena." (17)
Portanto, o "labirinto"
ou "quarto-minarete" de G.H. não necessitaria de
luz para iluminar as trevas interiores já que, etimologicamente,
é "lâmpada", "farol". Muito menos
de guia ou companhia para percorrer seus meandros.
Mas G.H., ao narrar a experiência
que chama de "desorganização profunda",
Lispector (1972:7), precisa inventar uma presença, que, embora
sem rosto ou voz, lhe dê solidariamente, a mão. Essa
mão ora é a "mão mal-assombrada do Deus",
Lispector (1972:16), ora é a mão de "meu amor",
Lispector (1972:78). "Estou tão assustada que só
poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém me está
dando a mão.", Lispector (1972:15).
G.H. empenha-se nessa busca em leixa-pren
que pode conduzi-la, apesar do medo, a insuspeitados mistérios
do ser, irrecusáveis viagens ao inconsciente, através
principalmente das sensações.
Em busca do eu
O processo que Clarice utiliza para
o autoconhecimento de G.H. parece ser o recurso do leixa-pren, que,
ao ressaltar a repetição, empresta às palavras
um significado mais amplo do que significariam se não viessem
repetidas. Por que ela repete? Por que isso já se tornou
uma convenção literária? Ouçamos a própria
Clarice:
... a chance de usar um tom monótono
que me satisfaz muito: a repetição me é agradável,
e repetição acontecendo no mesmo lugar termina cavando
pouco a pouco, cantilena enjoada diz alguma coisa., Lispector
(1999:70)(18)
Existe o prazer da repetição que ela chama de "enjoada"
e "diz alguma coisa", mas que ela, sábia, se abstém
de explicar, deixando o caminho livre para nossas interpretações.
O romance se desenvolve em trinta
e três capítulos, mantendo uma certa unidade quanto
à sua extensão: trinta capítulos não
excedem as dez páginas; os três restantes não
ultrapassam quinze páginas. O primeiro capítulo, que
é o mais longo de todos, é uma introdução
reflexiva e posterior ao enredo que se inicia realmente no segundo
capítulo.
Examinando a série de trinta
e dois leixa-pren em PSGH, acreditamos que é possível
acompanhar o discreto e secreto fio narrativo do romance. Esse encadeamento,
que sugere um primitivo e improvisado diálogo, segue um percurso
lógico-seqüencial - não há interrupções
- do qual não se consegue precisar nem o começo nem
o fim - os seis travessões o indicam.
De início, observamos na série
de leixa-pren o campo lexical relativo aos órgãos
dos sentidos. A visão, o tato, o paladar apresentam-se de
forma expressiva, configurando em G.H. a busca através dos
sentidos e sensações. Mas o que procura a personagem?
"Eu procurava uma amplidão", Lispector (1972:125).
Para "entender" ela busca
uma "amplidão", que não está ligada
à extensão do espaço, mas à profundidade,
à profundidade da busca de si mesma, de sua individuação.
Do final de um capítulo para o início do capítulo
seguinte, a personagem "desce" ao fundo para depois "subir":
ela está repetindo a mesma idéia nesse movimento ascendente/descendente
do leixa-pren.
Bem adequada nos parece a imagem
de uma piscina de água azul e limpa, na qual a personagem
pula do trampolim, imerge e depois emerge. Ao mergulhar até
o fundo da piscina, ela desce procurando achar a solução
para a sua problemática. Não a encontrando, volta
à tona, mas com a mesma idéia fixa, trazendo o último
questionamento, a última passagem (o leixa-pren).
Mas a nadadora não se deixa
abater pelo insucesso. É perseverante e repete o mesmo movimento:
novo mergulho, levando o motivo de suas preocupações
(o leixa-pren) até retornar de mãos vazias pois não
se satisfaz com as respostas (o mesmo leixa-pren). E assim sucessivamente.
Cada capítulo é uma
tentativa de a nadadora/narradora buscar no fundo da alma a resposta
às suas angústias. Como a angústia é
uniforme, também o texto é uniforme e a idéia
desse movimento em S (descida/subida) do leixa-pren é também
uma idéia estética.
A água da piscina contém
cloro, é límpida e não sofre interferência
externa como a água do mar. É a água ideal
para esses trinta e três mergulhos na alma. A simbólica
da água é vasta mas pode ser reduzida, segundo Chevalier
e Gheerbrant, a três temas dominantes: "fonte da vida,
meio de purificação e centro de regenerescência"(19).
No romance a água é
reconhecida como fonte de fecundação do entendimento
da alma sequiosa e angustiada de G.H. Mas a água translúcida
não consegue responder aos anseios da alma também
translúcida.
Eu tinha a capacidade da pergunta,
mas não a de ouvir a resposta. (...) Então eu me
havia perdido num labirinto de perguntas, e fazia perguntas a
esmo, esperando que uma delas ocasionalmente correspondesse à
da resposta, e então eu pudesse entender a resposta., Lispector
(1972:161-162)
A pergunta essencial parece ser relativa
à identidade: quem é G.H., essa mulher de quem o leitor
recebe vagas informações e que se esconde atrás
de iniciais? "E eu também não tenho nome, e este
é o meu nome. E porque me despersonalizo a ponto de não
ter o meu nome, respondo cada vez que alguém disser: eu",
Lispector (1972:211)
Jung, ao estudar a função
do inconsciente, aponta uma destinação ou meta para
a diferenciação de conteúdos pessoais e coletivos
da psique: o caminho da individuação. E distinguindo
individualismo - "acentuar e dar ênfase deliberada a
supostas peculiaridades, em oposição a considerações
e obrigações coletivas"(20), de individuação
- "a realização melhor e mais completa das qualidades
coletivas do ser humano"(21), conclui que esta última
é "um processo mediante o qual um homem se torna o ser
único que de fato é"(22).
Essa "mulher educada que sou",
Lispector (1972:40), "essa mulher calma que eu sempre fora",
Lispector (1972:62), "G.H. até nas valises, eu, uma
das pessoas", Lispector (1972:80-81), afinal é uma persona
irreal, a máscara para o papel a desempenhar na coletividade,
reduzindo-se a uma aparência: nome (?), endereço, ocupação,
etc.: "Para escapar do neutro, eu há muito havia abandonado
o ser pela persona, pela máscara humana", Lispector
(1972:109).
A experiência narrada por G.H.
é a tentativa de desreprimir o si-mesmo inconsciente, a sua
verdadeira individualidade oculta e fragmentada: "eu, uma das
pessoas", Lispector (1972:81). Talvez por esse motivo, as referências
a suas fotografias remetam à velha questão da identidade:
"... eu olhava a vista, provavelmente com o mesmo olhar inexpressivo
de minhas fotografias", Lispector (1972:39), "... eu agora
olhava com o olhar de minhas fotografias de praia", Lispector
(1972:40).
Quem é essa personagem de
olhar inexpressivo que julga olhar com o mesmo olhar de suas próprias
fotografias? "Todos os retratos de pessoas são um retrato
de Mona Lisa", Lispector (1972:28). Olhar a atualidade com
os olhos do passado? Mas não qualquer passado: o passado
das fotografias de praia (novamente a água...).
A questão do retrato é
uma forma simbológica da busca do outro (eu) em si-mesmo.
Através da fotografia, vê-se o insuspeito se desvelar
de forma impensada. Será que eu, eu mesmo, sou aquele da
foto? Ou o outro que vê esta foto?
O que eu havia visto de tão
tranqüilo e vasto e estrangeiro nas minhas fotografias escuras
e sorridentes - aquilo estava pela primeira vez fora de mim e
ao meu inteiro alcance, incompreensível mas ao meu alcance.
Lispector (1972:75)
A idéia da fotografia é
captar um momento presente na vida da pessoa, e não a vida
em si. Quando se inverte a situação, as coisas mudam
de configuração - o estabelecido passa a ser o estabelecimento
- e o ser vivente busca na imagem fixa a vida a qual pretende nomeá-lo
assim.
Já que o eu interior não
responde às questões propostas, observar a foto seria
a maneira de reconhecer esse outro eu buscando sua própria
identidade antes que ela se esfarele e se dilua. Só que isso
jamais irá acontecer pois, mesmo na confusão espiritual,
corpo e alma ainda se conjugam, fornecendo ao ser uma unidade concreta,
simples, porém unidade - meio básico para a administração
da vida.
É no décimo oitavo
capítulo que G.H. parece aproximar-se da "identidade
mais última", Lispector (1972:159), pois no anterior
ela reconhece que "crescera", Lispector (1972:126), deixando
de ser uma "criança inquisidora", Lispector (1972:126).
A idade de dezoito anos é
uma idade-chave, representa a maioridade, o limiar do mundo adulto
no qual avultam as responsabilidades. Por isso a personagem revela:
"Para rezar as areias, eu como eles já fora preparada
pelo medo", Lispector (1972:133). Enfrentar o mundo adulto
é atravessar as areias do deserto: agora não há
mergulho na piscina, pois o deserto é a ausência da
água.
A personagem que "crescera"
plena de esperanças, de repente se vê cônscia
de si, de suas angústias, das pessoas e do mundo que a cerca.
Está só, no deserto, voltada para o eu interior. Ninguém
ensina a enfrentar o mundo: o árido deserto é um desafio
a vencer. "O deserto é um modo de ser", Lispector
(1987b:122).
A sobrevivência nessa esterilidade
imposta pela sociedade, nesse vazio humano, nessa amargura é
a sobrevivência que o Senhor concedeu a Moisés e seu
povo no deserto: do céu veio a carne sob a forma de codornizes
e o maná, o pão celestial, semelhante à semente
de coentro, branco e com sabor de uma torta de mel23. G.H. também
sobrevive.
A narrativa poderia terminar aí:
G.H. encarou e transpôs o deserto: está lúcida
e consciente de si, cresceu. Ela é uma espécie de
beduína, pois só os beduínos conseguem atravessar
a aridez do deserto.
Mas isso é cíclico:
o ser humano deve recomeçar sua trajetória feita de
eternas buscas, num questionamento infindável e, logo em
seguida, novamente a personagem mergulha: "somos criaturas
que precisam mergulhar na profundidade para lá respirar,
como o peixe mergulha na água para respirar", Lispector
(1972:137), "somos os que nadam", Lispector (1972:137).
Volta o círculo vicioso, mas
o que se repete agora é diferente, pois aumenta o grau de
consciência da personagem. A lição que aprendeu,
"o segredo no deserto", Lispector (1972:140), é
que ela deve retornar ao mundo atual. Consciente, ela percebe que
não pode mudá-lo para melhor, mas pode mudar a si
para enfrentá-lo.
Se G.H., nesse mergulho na própria
alma, decidisse ficar no fundo, seria perder a responsabilidade.
Por isso, ela volta à superfície para respirar e não
pode deixar de levar a umidade na pele molhada, resíduo da
água, resíduo do mergulho na alma (o leixa-pren).
Ao emergir, G.H. traz um pouco dessa experiência íntima
para o alto, para a cabeça, para o intelecto. À imersão
correspondem as sensações, configurando seu lado racional.
Os trinta e três mergulhos na alma vão-lhe ensinar
algo sobre si e sobre o mundo.
Afinal o que cada leixa-pren representa
é uma letra aprendida no fundo da alma, é uma letrinha
que nasce dessa experiência única e intransferível.
Mas de que adiantam letras soltas? G.H. tem que formar palavras.
Mas como? É o restante de cada capítulo, que nada
mais é do que uma forma de apreender as letras e formar palavras
(emoção + razão). Cada mergulho na alma é
uma emoção, é uma letra. Vamos aprender a formar
palavras? É a razão.
Ao trazer umidade para a superfície,
G.H. traz um resíduo de vida (água é vida)
e de alma. Cada capítulo é uma tentativa de trabalhar
racionalmente esse resíduo, essa partícula da alma
que ela trouxe de cada mergulho. Não saber trabalhar essas
questões na mente pode ser a loucura. Cada capítulo
é uma tentativa de explicação do mundo.
Isso é uma parábola:
é a parábola do leixa-pren em PSGH, da viagem
em busca do seu significado na construção do romance.
Emoção e razão, sonho e realidade, paixão
e verdade nesses mergulhos na alma e no mundo que também
são mergulhos na linguagem, que podem nos remeter ao velho
Aristóteles: "Tudo quanto se exprime pela linguagem
é do domínio do pensamento".(24)
No romance PSGH, o leixa-pren
é a palavra úmida e o pensamento é a palavra
seca.
Acordar uma nova mulher?
As cantigas de amigo foram escritas
por homens, pois as mulheres na sua condição inferior
em seu papel perante a sociedade (mesmo as nobres cortesãs
da fidalguia, como analfabetas) não poderiam ter registrado
esses cantares.
Insistimos nesse ponto: o homem,
dando voz à alma feminina, revestindo seu espírito
com os anseios, angústias e questionamentos interiores dessas
mesmas cortesãs, dessas mesmas fidalgas fazem com que a literatura
cumpra o seu papel de transpor quadros herméticos, assim
desvelando a alma feminina, desvela o eu feminino.
Há todo um trabalho de incorporação
desse sentimento, o que nos leva a concluir que quando Clarice,
trilhando os passos desses cantares de amigo, incorpora não
a mulher medieval, mas sim a condição da mulher atual
e a condição masculina que escrevia esses textos sob
essa ótica, podemos dizer que ela subverte a ordem, colocando
a mulher no seu devido papel.
Daí ela frisar essa consciência
(uma mulher consciente) e voltar sua atenção à
ótica masculina, como se tivesse "travestido" a
sua consciência nesse jogo de espelhos. O moderno cantar feito
por essa mulher lúcida, que assume ambivalentemente os dois
papéis, o masculino e o feminino.
Perdi alguma coisa que me era essencial,
e que já não me é mais. Não me é
necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira
perna que até então me impossibilitava de andar
mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira
perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei
a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente
com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência
inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que
fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem
sequer precisar me procurar. Lispector (1972:8)
Clarice fez o mesmo que Guimarães
Rosa nas cantigas de amigo: transpôs o espírito dessas
cantigas para a realidade do século XX, quer dizer, tomou
o universal e colocou a sua realidade feminina, quer dizer, localizou.
Temos assim um trabalho do universal para o local, só que
as suas questões femininas, as suas angústias pessoais
se tornam novamente universais.
É um cantar de amigo moderno,
reestruturado. Isso porque Clarice, ao usar o elemento masculino
na sua voz(25), universaliza esse cantar, reelaborando todo o seu
ponto de vista.
Ora, na Idade Média temos
o homem cantando a alma feminina e seus anseios. Portanto, o homem
estava numa posição diametralmente superior à
posição feminina. A mulher era mero objeto de especulação.
Hoje, com essa nova consciência,
Clarice nos mostra que a mulher está, não nivelada
com o homem - como queriam as feministas - mas sim, superior a ele,
pois agora é ela que subverte a ordem, fazendo o seu papel,
falando como mulher e homem ao mesmo tempo.
Portanto, a mulher está numa
posição superior como esse homem da Idade Média
esteve. Criadora e geradora de canções que trabalham
e perpassam a alma feminina, sem o auxílio luxuoso do homem.
Desse homem que se achava senhor e dono de tudo e de todos, principalmente
porque sabia fazer esses cantares e "captar" a alma feminina.
Caberia aos estudiosos dos cantares
dos séculos XIII e XIV pesquisar e aprimorar essa questão
ainda não elucidada. Será que o homem, o "cantor"
realmente captou a alma feminina? Ou, como tudo na Idade Média,
esses cantares também são ideológicos, isto
é, nos fazem crer (como o fizeram na época, cumprindo
o seu papel) que essa mulher medieva é, quer dizer foi, como
as abordadas nas letras e versos desses cantares? Seria esse um
retrato fiel?
Como não temos respostas definitivas,
caberia aos pesquisadores aprofundarem nessa questão tão
cara e tão íntima a nós (mesmo que aparentemente
não se perceba) que tocou o coração de Clarice,
fazendo-a reviver essa forma impressionista numa linguagem reelaborada,
mas cujos anseios e fremências são os mesmos das mulheres
medievais. Pois o homem não muda: ele atravessa os tempos
com esses mesmos anseios, angústias, paixões e desilusões,
num eterno ciclo. O mesmo se passa com as mulheres em diferentes
épocas.
A grande questão em PSGH é
a seguinte: apesar da influência trabalhada da canção
de amigo teria essa mulher hoje consciência do seu ser e da
sua angústia como mulher, nesse mundo de impasses e dúvidas
em que uma outra mulher tem que escrever isso de forma clara e quase
confidencial para despertar esse sentimento em leitores de ambos
os sexos?
A literatura é maior que todas
essas questões e Clarice se utiliza desse projeto (abertura
primordial da consciência feminina através do eu profundo
e profano) em que nada mais importa: o que interessa é despejar
esse anticlímax, que são suas narrativas, no papel
antes que a cabeça exploda, antes que os pensamentos nos
dominem, antes que o inconsciente se faça presente, antes
que a humanidade se olhe no espelho, pois a reflexão começa
primeiro em sua casa (a cabeça) para depois conquistar as
ruas (o mundo) e assim tentar suportar esse viver de uma outra época
cujos valores se perderam e a deterioração física,
moral e ética só tende a acentuar.
Nada mais poderemos dizer sob essa
ótica, pois enquanto o homem não se mira nesse espelho,
essa tentativa literária, esse "enigma" Clarice
(e tantos outros enigmas) se faz necessário. A Literatura
é a arma do Amor.
Quando Clarice fala do tripé
no texto(26), ela está falando da condição
feminina em relação ao mundo hoje. O tripé
é uma metáfora de uma muleta existencial. Mais que
isso: é um apoio espiritual para a condição
feminina.
Quando ela dá conotação
sexual ao texto, está ironizando a condição
masculina, mas na verdade, no fundo, a angústia é
porque ser mulher hoje e trabalhar essas questões é
doloroso.
Ela faz um jogo de palavras que brinca
com essas questões. Como já foi dito, ela é
nesses dias uma mulher lúcida e consciente, mas nessa abertura
do livro, ela está apenas começando.
Por isso, ela parodia o mito da criação.
É o homem e a mulher e a crítica social que estão
contidas nessas linhas. Mas isso não é feminismo.
Nunca foi. Isso é anterior ao feminismo. Isso é uma
questão existencial. Mas não o existencialismo de
Sartre e outros existencialistas. É uma questão existencial
de Clarice. São impressões da escritora.
Não sabemos quanto aos outros.
Mas ela tinha de escrever essas coisas, sobre essas coisas. É
apenas isso.
A forma leixa-pren é ideológica.
Clarice trabalha-a operando, transforma, adapta para o século
XX e seus questionamentos de mulher do século XX. Isso é
uma forma um tanto obscura de pensar, porém sob a égide
do leixa-pren, observamos que sua escrita revolucionária
e às vezes reacionária vem mostrar que a mulher como
ser pensante, enquanto mulher, se faz presente nesse paradigma obtuso
que é o nosso viver hoje, no qual cada ser se mostra único
e todos estão na mesma situação.
É o leixa-pren do leixa-pren:
é a releitura de uma releitura do mundo, o que nos faz convergir
diretamente para as Sagradas Escrituras devido à influência
ocidental sob a exegese dessas mesmas Escrituras (árabe,
portuguesa, judaica, malaica, asiática, indiana e aborígene),
pois o homem é um só, como já falamos, e vários
concomitantemente, o que nos leva a crer que a universalidade da
escritura-Clarice é quase que sacramental do ponto de vista
ético-filosófico, porém mundano do ponto de
vista tradicional-civilizado. Uma reforma cujo ato de reformar é
a reforma em si e não o seu fim. O seu fim é a conseqüência
que repercutirá no leitor.
Ser é saber?
O mundo medieval tem uma característica:
a recristianização do homem. Todo o clero, as pessoas
de vulto na sociedade, todos estão preocupados em voltar
ao Cristo e seus ensinamentos.
O que é o amor cortês?
Um ideal de gentileza amorosa que, apesar das classes sociais nítidas,
ainda está presente na Idade Média. A mulher, objeto
desse amor, se sentia mais feminina, mais mulher.
Hoje não há muito lugar para cortesias com a mulher.
Ela quis igualar-se ao homem. Ora, igualar-se ao homem significa
perder um pouco de sua feminilidade. O homem não quis igualar-se
à mulher. Isso para ele seria perder um pouco de sua masculinidade.
Mas a mulher o quis e conseguiu.
Ora, o resultado é visível
hoje: ela conquistou lugares diferentes no campo profissional, mas
por outro lado perdeu parte de seu senso de feminilidade: saiu à
rua para trabalhar, para estudar. Obviamente, suas antigas tarefas
como mãe e esposa foram um pouco desprezadas. O que aconteceu?
Filhos e maridos foram ocupar um espaço deixado no lar pela
mãe e esposa reivindicadora. Eles adquiriram um certo senso
do feminino. A isso foram obrigados por força das circunstâncias.
Portanto, a ligeira troca de papéis deve ter influído
e muito para a perda das características da vida familiar
que existia, por exemplo, na Idade Média.
Lá, a mulher ainda estava
certa e firme no seu papel feminino. Sem querer o lugar do homem
ou igualar-se a ele, ela obviamente sofria os reveses de sua condição.
Era, às vezes, desprezada, abandonada, e nunca estava muito
certa de que seu amante realmente a amava. Era o campo da dúvida
e do sofrer. Daí, as coitas de amor femininas. Porque as
coitas de amor masculinas apenas espelhavam os "sofrimentos"
de mentirinha de quem tinha o poder como sexo dominante. Eram fingimentos
de sofrimentos. Porque, mesmo quando estavam falando de coitas masculinas
em relação às fidalgas, eram ainda eles que
estavam em posição superior. Porque, sendo analfabetas,
cortesãs ou camponesas, a elas era vedado o conhecimento.
E o conhecimento é a fonte
principal de onde pode emanar a igualdade entre os seres, sejam
eles homens ou mulheres. É apenas através do conhecimento
que as pessoas podem sentir-se iguais ou melhores em relação
às outras. Ou, como na Idade Média, com raras exceções
no caso das mulheres, superiores. Apenas as mulheres no convento
possuíam instrução, conheciam o latim e podiam
manifestar-se através dele. Às demais, essa luz do
saber era negada.
Mas a Palavra Divina ainda era propagada:
havia cortesia, havia respeito, havia o amor cortês. Tão
belo e tão distante de hoje em dia, em que palavras secas
e duras nas relações amorosas são tão
comuns e não espantam a mais ninguém.
Hoje não há mais lugar
para o amor cortês, porque os ideais platônicos caíram
de moda. Mas é uma pena, porque mesmo dessa forma, sem conhecimento
das letras, a mulher era respeitada como mulher, mãe e esposa.
Que diferença de hoje em dia, quando tantas mulheres ultrajadas
correm às delegacias de mulheres para reivindicar justamente
os direitos que lhes eram negados nessa época distante e
mais feliz! Todos eram mais felizes: homens e mulheres. Todos eram
mais corteses...
A obra de Clarice, e principalmente
PSGH, é o renascimento do homem pelo homem. Aliás,
como todo escritor devia fazer. Homem em geral: homem, mulher, criança.
Todo escritor devia fazer uma obra assim.
Infelizmente, estamos vivendo uma
época em que a literatura está atravessando uma fase
comercial, em que esses valores humanísticos estão-se
perdendo. Daí esse novo retorno. Em todas as épocas,
isso é cíclico.
No início do século
XXI, estamos vivendo esse retorno através das obras de auto-ajuda.
Em todas as épocas existiu esse tipo de literatura. Só
que elas não ajudam o homem, nem aos valores humanísticos.
Isso nunca resolveu nada.
Na Idade Média, e depois na
Renascença, essa ideologia era colocada da seguinte maneira:
fazer com que o homem, através das lições dos
heróis, dos épicos, dos romances de cavalaria, aprendesse,
através dos heróis dos romances, valores perenes da
vida.
Então acontecia a catarse:
ele se sentia próximo do herói, pois ambos falavam
a mesma linguagem. E conhecendo as aventuras do herói e,
aprendendo com ele sua cortesia, gentileza, honra, etc., a intenção
do autor era que o leitor se espelhasse no exemplo do herói
e o imitasse.
Já a literatura de Clarice
não é para ser imitada, e sim para ser refletida:
o homem refletir sobres essas coisas ditas, pensadas, sentidas,
questionadas.
Voltamos ao início, não?
____________________
NOTAS
1- MOISÉS, M. (1967), p.28
- Em português moderno: pino = pinheiro; u = onde; pôs
= combinou; san' e vivo = são e vivo; e será vosc'ant'
o prazo saído = e estará convosco quando terminar
o prazo (do serviço militar).
2- SARAIVA, A.; LOPES, O. (s.d),
p.50
3 -Ibidem, p.54
4- BERARDINELLI, C. (1953), p.6-7
5- HAUSER, A. (1998), p.221 - Segundo
o autor, era compreensível a vassalagem amorosa no espaço
restrito das cortes e castelos em que havia maior número
de homens solteiros do que mulheres. O erotismo se concentrava na
senhora do castelo, alvo de um amor cortesão-cavaleiresco
que, pela impossibilidade de realização, se tornava
ideal.
6- "Mas se não soubéssemos
de modo algum que tudo quanto existe em nós de real e verdadeiro
provém de um ser perfeito e infinito, por claras e distintas
que fossem nossas idéias não teríamos qualquer
razão que nos assegurasse que elas possuem a perfeição
de serem verdadeiras". DESCARTES, R. (1979), p.50
7- É possível ter ocorrido
falha tipográfica. Na edição original (1966),
consta "descrevesse", o que poderia levar à confusão
com o imperfeito do subjuntivo do verbo "descrever". Como
o sentido do texto aponta para a "negação de
escrever", a forma mais adequada seria "descrevesse".
Por fidelidade ao texto, mantivemos a grafia original.
8- NUNES, B. (1966), p.74-5 - O ensaio
foi reeditado como o Capítulo II em O dorso do tigre, com
o acréscimo do adjetivo no título: "O mundo imaginário
de Clarice Lispector".
9- Reeditou-se o livro citado com
inclusão de mais dois estudos ao capítulo final -
"O improviso ficcional" e "O jogo da identidade"
- que atualizam a interpretação da obra clariceana.
NUNES, B. (1989)
10- Ibidem, p.136
11- BAIRÃO, R. (1969), art.
citado. Salvo engano, essa é a primeira menção
da crítica à "deixa" (ou leixa-pren) em
PSGH.
12- BRASIL, A. (1973), p.75
13 - GOMES, R.C.; HILL, A.G. (1976),
p.99 - Hill explicita finalmente a associação do procedimento
de leixa-pren às cantigas medievais portuguesas.
14- SÁ, O. de (1993), p.259
15- NIETZSCHE, F.W. (1983), p.61
- "Da utilidade e dos inconvenientes da História para
a vida"
16- Consultar em CHEVALIER, J., GHEERBRANT,
A. (1999) e BULFINCH, T. (1965) os verbetes sobre Teseu e a lenda
do Minotauro
17- FERREIRA, A.B.H. (1999), p.338
18- In: "A explicação
inútil", crônica na qual Clarice explica como
e por que escreveu alguns de seus contos. A citação
refere-se ao conto "Imitação da rosa"
19- CHEVALIER, J, GHEERBRANT, A.
(1999), p.15
20- JUNG, C.G. (1997), p.49
21- Ibidem
22- Ibid.
23- BÍBLIA Sagrada (1999),
Êx. 16, 13 e 16, 31; p.116-117
24- ARISTÓTELES (s.d.), Cap.
XIX, 3
25- Vide LISPECTOR, C. (1972), p.8
26- Ibidem
____________________
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Paulo: PUC.
SARAIVA, A.J.; LOPES, O. (s.d.) História
da literatura portuguesa. 4.ed. cor. Porto: Porto Ed., Lisboa:
Emp. Lit. Fluminense.
* Este ensaio é parte do livro
Duas visões: Guimarães Rosa e Clarice Lispector (Editora
Ágora da Ilha, 2000), em co-autoria com Carlos Theobaldo.
Ercília Bittencourt
é doutoranda em Teoria Literária pela Universidade
Federal do Rio de Janeiro, professora de língua portuguesa,
literatura brasileira e literatura comparada e co-autora do livro
Duas visões: Guimarães Rosa & Clarice Lispector
(Ágora da Ilha, 2000). [email protected]
Dados obtidos em livros da autora, sites da
Internet.
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