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CLARICE LISPECTOR - Contos e Crônicas
GERTRUDES
PEDE UM CONSELHO
"Sentou-se
de modo que seu próprio peso "passasse a ferro" a saia
amarrotada. Endireitou os cabelos, a blusa. Agora, só esperar.
Lá fora,
tudo muito bom. Podia ver os telhados das casas, as flores
vermelhas duma janela, o sol amarelo derramado sobre tudo. Não
havia hora melhor que as duas da tarde.
Não queria
esperar porque ficaria com medo. E assim não daria à doutora a
impressão que desejava causar. Não pensar na entrevista, não
pensar. Inventar depressa uma história, contar até mil,
recordar-se das coisas boas. O pior é que só se lembrava da
carta que mandara. "Minha senhora, eu tenho dezessete anos e
queria..." Idiota, absolutamente idiota. "Estou cansada de andar
de um lado para outro. Às vezes não consigo dormir, mesmo porque
minhas irmãs dormem no mesmo quarto e se remexem muito. Mas não
consigo dormir porque fico pensando nas coisas. Já resolvi me
suicidar, mas não quero mais. A senhora pode me ajudar?
Gertudres.""
____________________ LISPECTOR, Clarice.
A bela e a fera. 2ª ed. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1979.
OBSESSÃO
"Agora
que já vivi o meu caso, posso rememorá-lo com mais serenidade.
Não tentarei fazer-me perdoar. Tentarei não acusar. Aconteceu
simplesmente.
Não me
recordo com nitidez de seu início. Transformei-me independente
de minha consciência e quando abri os olhos o veneno circulava
irremediavelmente no meu sangue, já antigo no seu poder.
É necessário
contar um pouco sobre mim, antes do me contato com Daniel.
Apenas assim conhecer-se-á o terreno em que suas sementes foram
jogadas. Embora não acreditasse que se pudesse compreender
inteiramente por que as sementes resultaram em tão tristes
frutos.
Sempre fui
sossega e nunca dei provas de possuir elementos que Daniel
desenvolveu em mim. Nasci de criaturas simples, instruídas
naquela sabedoria que se adquire pela experiência e se adivinha
pelo senso comum."
____________________ LISPECTOR, Clarice.
A bela e a fera. 2ª ed. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1979.
O
DELÍRIO
"O
dia está alto e forte quando se levanta. Procura os chinelos
embaixo da cama, tateando com os pés, enquanto se aconchega no
pijama de flanela. O sol começa a cobrir o guarda-roupa,
refletindo no chão o largo quadrado da janela.
Sente a
cabeça endurecida na nuca, os movimentos tão difíceis. Os dedos
dos pés são qualquer coisa gelada, impessoal. E os maxilares
presos, cerrados. Vai até a pia, enche as mãos de água, bebe
avidamente e ela se balança dentro dele como num frasco vazio.
Molha a testa e respira desafogado.
Da janela
enxerga a rua clara e movimentada. Guris brincam de botão à
porta da Confeitaria Mascote, um carro buzina junto ao botequim.
As mulheres, de sacola na mão, suadas, vêm da feira.
Pedaços de nabos e alfaces se misturam à poeira da rua estreita.
E o sol, puro e cruel, espalhado por cima de tudo.
"
____________________ LISPECTOR, Clarice.
A bela e a fera. 2ª ed. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1979.
A
FUGA
"Começou
a ficar escuro e ela teve medo. A chuva caía sem tréguas e as
calçadas brilhavam úmidas à luz das lâmpadas. Passavam pessoas
de guarda-chuva, impermeável, muito apressadas, os rostos
cansados. Os automóveis deslizavam pelo asfalto molhado e uma ou
outra buzina tocava maciamente.
Quis sentar-se num banco do jardim, porque na verdade não sentia
a chuva e não se importava com o frio. Só mesmo um pouco de
medo, porque ainda não resolvera o caminho a tomar. O banco
seria um ponto de repouso. Mas os transeuntes olhavam-na com
estranheza e ela prosseguia a marcha.
Estava cansada. Pensava sempre: "Mas que é que vai acontecer
agora?" Se ficasse andando. Não era a solução. Voltar para casa?
Não. Receava que alguma força a empurrasse para o ponto de
partida."
____________________ LISPECTOR, Clarice.
A bela e a fera. 2ª ed. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1979.
UM DIA A MENOS
"Eu
desconfio que a morte vem. Morte?
Será que uma vez os tão longos dias terminem?
Assim devaneio calma, quieta. Será que a morte é um blefe? Um
truque da vida? É perseguição?
E assim é.
O dia começara às quatro da manhã, sempre acordara cedo, já
encontrando na pequena copa a garrafa térmica cheia de café.
Tomou uma xícara morna e lá ia deixá-la para Augusta lavar,
quando se lembrou de que a velha Augusta pedira licença por um
mês para ver seu filho.
Teve preguiça do longo dia que se seguiria: nenhum compromisso,
nenhum dever, nem alegrias nem tristezas."
____________________ LISPECTOR, Clarice.
A bela e a fera. 2ª ed. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1979.
MAIS
DOIS BÊBADOS
"Surpreendi-me.
Não é que abusava de minha boa vontade? Por que mantinha ele um
ar de tão denso mistério? Podia contar seus segredos sem receio
de qualquer julgamento. Meu estado de embriaguez me inclinava
especialmente à benevolência e além disso, afinal, ele não
passava de um estranho qualquer... Por que não falava ele de sua
vida com a objetividade com que pedira o copo de chopp ao
garçom?
Recusava-me
a conceder-lhe o direito de ter uma alma própria, cheia de
preconceitos e de amor por si mesmo. Um destroço daqueles, com a
inteligência suficiente para saber que era um destroço, não
deveria ter claros e escuros, como eu, que podia contar minha
vida desde o tempo em que meus avós ainda não se conheciam. Eu
possuía o direito de ter pudor e de não me revelar. Era
consciente, sabia que ria, que sofria, lera obras sobre o
budismo, fariam um epitáfio sobre meu túmulo quando morresse. E
embebedava-me não puramente, mas com um objetivo: Eu era alguém."
____________________ LISPECTOR, Clarice.
A bela e a fera. 2ª ed. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1979.
A
BELA E A FERA OU A FERIDA GRANDE DEMAIS
"Bem,
então saiu do salão de beleza pelo elevador do Copacabana Palace
Hotel. O chofer não estava lá. Olhou o relógio: eram quatro
horas da tarde. E de repente lembrou-se: tinha dito a "seu" José
para vir buscá-la às cinco, não calculando que não faria as
unhas dos pés e das mãos, só a massagem. Que devia fazer? Tomar
um táxi? Mas tinha consigo uma nota de quinhentos cruzeiros e o
homem do táxi não teria troco. Trouxera dinheiro porque o marido
lhe dissera que nunca se deve andar sem nenhum dinheiro.
Ocorreu-lhe voltar ao salão de beleza e pedir dinheiro. Mas -
mas era uma tarde de maio e o ar fresco era uma flor aberta com
o seu perfume. Assim achou que era maravilhoso e inusitado ficar
de pé na rua - ao vento que mexia com os seus cabelos. Não se
lembrava quando fora a última vez que estava sozinha consigo
mesma. Talvez nunca. Sempre era ela - com outros, e nesses
outros ela se refletia e os outros refletiam-se nela."
____________________ LISPECTOR, Clarice.
A bela e a fera. 2ª ed. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1979.
DEVANEIO
E EMBRIAGUEZ DUMA RAPARIGA
"Pelo
quarto parecia-lhe estarem a se cruzar os elétricos, a
estremecerem-lhe a imagem refletida. Estava a se pentear
vagarosamente diante da penteadeira de três espelhos, os braços
brancos e fortes arrepiavam-se à frescurazita da tarde. Os olhos
não se abandonavam, os espelhos vibravam ora escuros ora
luminosos. Cá fora, duma janela mais alta, caiu à rua uma cousa
pesada e fofa. Se os miúdos e o marido estivessem à casa, já lhe
viria à idéia que seria descuido deles. Os olhos não se
despregavam da imagem, o pente trabalhava meditativo, o roupão
aberto deixava aparecerem nos espelhos os seis entrecortados de
várias raparigas.
"A Noite!",
gritou o jornaleiro ao vento brando da Rua Riachuelo, e alguma
cousa arrepiou-se pressagiada. Jogou o pente à penteadeira,
cantou absorta: "quem viu o pardal-zito... passou pela jane-la...
voou pr'além do Mi-nho!" - mas, colérica, fechou-se dura como um
leque."
____________________ LISPECTOR, Clarice.
Laços de família. Rio de Janeiro:
Rocco, 1998.
AMOR
"Um
pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô,
Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou
a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num
suspiro de meia satisfação.
Os filhos de
Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam,
tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez
mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado
dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos
poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma
cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a
testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara
as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E
cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de
luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos,
crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e
sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício."
____________________ LISPECTOR, Clarice.
Laços de família. Rio de Janeiro:
Rocco, 1998.
UMA
GALINHA
"Era
uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove
horas da manhã.
Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha.
Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a
escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não
souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinhara nela
um anseio.
Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo,
inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do
terraço. Um instante ainda vacilou - o tempo da cozinheira dar
um grito - e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em
outro vôo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno
deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi
chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma
chaminé."
____________________ LISPECTOR, Clarice.
Laços de família. Rio de Janeiro:
Rocco, 1998.
A
IMITAÇÃO DA ROSA
"Antes
que Armando voltasse do trabalho a casa deveria estar arrumada e
ela própria já no vestido marrom para que pudesse atender o
marido enquanto ele se vestia, e então sairiam com calma, de
braço dado como antigamente. Há quanto tempo não faziam isso?
Mas agora ele estava de novo "bem", tomariam o ônibus, ela
olhando como uma esposa pela janela, o braço no dele, e depois
jantariam com Carlota e João, recostados na cadeira com
intimidade. Há quanto tempo não via Armando enfim se recostar
com intimidade e conversar com um homem? A paz de um homem era,
esquecido de sua mulher, conversar com outro homem sobre o que
saía nos jornais. Enquanto isso ela falaria com Carlota sobre
coisas de mulheres, submissa à bondade autoritária e prática de
Carlota, recebendo enfim de novo a desatenção e o vago desprezo
da amiga, a sua rudeza natural, e não mais aquele carinho
perplexo e cheio de curiosidade - e vendo enfim Armando
esquecido da própria mulher."
____________________ LISPECTOR, Clarice.
Laços de família. Rio de Janeiro:
Rocco, 1998.
MENOR
MULHER DO MUNDO
"Nas
profundezas da África Equatorial o explorador francês Marcel
Pretre, caçador e homem do mundo, topou com uma tribo de pigmeus
de uma pequenez surpreendente. Mais surpreso, pois, ficou ao ser
informado de que menor povo ainda existia além de florestas e
distâncias. Então mais fundo ele foi.
No Congo
Central descobriu realmente os menores pigmeus do mundo. E -
como uma caixa dentro de uma caixa, dentro de uma caixa - entre
os menores pigmeus do mundo estava o menor dos menores pigmeus
do mundo, obedecendo talvez à necessidade que às vezes a
Natureza tem de exceder a si própria.
Entre
mosquitos e árvores mornas de umidade, entre as folhas ricas do
verde mais preguiçoso, Marcel Pretre defrontou-se com uma mulher
de quarenta e cinco centímetros, madura, negra, calada."
____________________ LISPECTOR, Clarice.
Laços de família. Rio de Janeiro:
Rocco, 1998.
FELIZ
ANIVERSÁRIO
"A
família foi pouco a pouco chegando. Os que vieram de Olaria
estavam muito bem vestidos porque a visita significava ao mesmo
tempo um passeio a Copacabana. A nora de Olaria apareceu de
azul-marinho, com enfeite de paetês e um drapeado disfarçando a
barriga sem cinta. O marido não veio por razões óbvias: não
queria ver os irmãos. Mas mandara sua mulher para que nem todos
os laços fossem cortados - e esta vinha com o seu melhor vestido
para mostrar que não precisava de nenhum deles, acompanhada dos
três filhos: duas meninas já de peito nascendo, infantilizadas
em babados cor-de-rosa e anáguas engomadas, e o menino
acovardado pelo terno novo e pela gravata.
Tendo Zilda
- a filha com quem a aniversariante morava - disposto cadeiras
unidas ao longo das paredes, como numa festa em que se vai
dançar, a nora de Olaria, depois de cumprimentar com cara
fechada aos de casa, aboletou-se numa das cadeiras e emudeceu, a
boca em bico, mantendo sua posição de ultrajada."
____________________ LISPECTOR, Clarice.
Laços de família. Rio de Janeiro:
Rocco, 1998.
UMA IRA
"-
"Esta" - se disse o homem ajoelhado como antes de ir para a
guerra - "esta é a minha prece de possesso. Estou conhecendo o
inferno da paixão. Não sei que nome dar ao que me toma, ou ao
que estou com voracidade tomando, senão o de paixão. O que é
isso que é tão violento que me faz pedir clemência a mim mesmo?
É a vontade de destruir, como se para este momento de destruir
eu tivesse nascido. Momento que virá ou não, a minha escolha
depende de eu poder ou não me ouvir. Deus ouve, mas eu me
ouvirei? A força da destruição ainda se contém um instante em
mim. Não posso destruir ninguém ou nada, pois a piedade me é tão
forte como a ira; então eu quero destruir a mim, que sou fonte
dessa paixão. Não quero pedir a Deus que me aplaque, amo tato a
Deus que tenho medo de tocar nele com meu pedido, meu pedido
queima, minha própria prece é perigosa de tão ardente, e poderia
destruir em mim a imagem de Deus, que ainda quero salvar em mim."
____________________ LISPECTOR, Clarice.
Para não esquecer. Rio de Janeiro:
Rocco, 1999.
PRECIOSIDADE
"De
manhã cedo era sempre a mesma coisa renovada: acordar. O que era
vagaroso, desdobrado, vasto. Vastamente ela abria os olhos.
Tinha quinze anos e não era bonita. Mas por dentro da magreza, a
vastidão quase majestosa em que se movia como dentro de uma
meditação. E dentro da nebulosidade algo precioso. Que não se
espreguiçava, não se comprometia, não se contaminava. Que era
intenso como uma jóia. Ela.
Acordava antes de todos, pois para ir à escola teria que pegar
um ônibus e um bonde, o que lhe tomaria uma hora. O que lhe
daria uma hora. De devaneio agudo como um crime. O vento da
manhã violentando a janela e o rosto até que os lábios ficavam
duros, gelados. Então ela sorria. Como se sorrir fosse em si um
objetivo."
____________________ LISPECTOR, Clarice.
Laços de família. Rio de Janeiro:
Rocco, 1998.
O JANTAR
"Ele
entrou tarde no restaurante. Certamente ocupara-se até agora em
grandes negócios. Poderia ter uns sessenta anos, era alto,
corpulento, de cabelos brancos, sobrancelhas espessas e mãos
potentes. Num dedo o anel de sua força. Sentou-se amplo e
sólido.
Perdi-o de
vista e enquanto comia observei de novo a mulher magra de
chapéu. Ela ria com a boca, olhei-o. Ei-lo de olhos fechados
mastigando pão com vigor e mecanismo, os dois punhos cerrados
sobre a mesa. Continuei comendo e olhando. O garçom dispunha os
pratos sobre a toalha. Mas o velho mantinha os olhos fechados. A
um gesto mais vivo do criado ele abriu os abriu com tal
brusquidão que este mesmo movimento se comunicou às grandes mãos
e um garfo caiu."
____________________ LISPECTOR, Clarice.
Laços de família. Rio de Janeiro:
Rocco, 1998.
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