Destaque:

 

Clarice Lispector -

Biografia

 

 

Contos, Crônicas,  Citações

 

Gertrudes Pede Um Conselho

Obsessão

O Delírio

A Fuga

Um Dia A Menos

Mais Dois Bêbados

A Bela E A Fera Ou A Ferida Grande Demais

Devaneio E Embriaguez Duma Rapariga

Amor

Uma Galinha

A Imitação Da Rosa

Menor Mulher Do Mundo

Feliz Aniversário

Uma Ira

Preciosidade

O Jantar

Os Laços De Família

Mistério Em São Cristóvão

O Crime Do Professor De Matemática

Um Pintor

Os Espelhos

Por Não Estarem Distraídos

Noite De Fevereiro

Mal-Estar De Um Anjo

Brasília

A Explicação Inútil

História Interrompida

Lembrança De Um Verão Difícil

Um Amor Conquistado

O Chá

Desenhando Um Menino

Uma Italiana Na Suíça

Notas Sobre Dança Hindu

Perfil De Seres Eleitos

A Mudez Cantada, A Mudez Dançada

A Vingança E A Reconciliação Penosa

Um Homem Espanhol

Discurso De Inauguração

Escrevendo

Mineirinho

Comentários

O Desamor

 Alivia A Minha Alma

Eu Amo O Amor

Coragem

Culpa

 A Lucidez Perigosa

Comodidade Da Alma

A Descoberta Do Mundo

Proibido

Por Estarem Distraídos

Sinta-Se Bem

 Objeto Urgente

Experiência

 O Neutro Do Amor

Saudade

Verdade Inventada

Nasci Mulher

Precisão

 Prece De Possesso

 De Repente

Ira

Guardo-Me

Uma Vez Irei

 Continuarei Perdida

Imprevisto

Renda-Se

Minha Força

Segredo

Ser Livre

Simplesmente Isto

Tudo O Que A Vida Exige 

Atenção Ao Sábado

Deus Meu, Eu Vos Espero

Não Quero Que Nada Lhe Aconteça

O Orgulho Faz Perder Muito Tempo... 

Se Tudo Existe

Os Laços De Família

Feliz Aniversario

Começos De Uma Fortuna

Uma Galinha

A Vitória Nossa De Cada Dia

Olhe Ao Redor

 Frases De Clarice (01)

Frases De Clarice (02)

Frases De Clarice (03)

Frases De Clarice (04)

Frases De Clarice (05)

Palavras Secas e Úmidas

Uma Encenação Cômica Análise da Leitura da Obra

O Arquivo

A Hora da Estrela - Comentários

A Bruxa das Palavras

Clarice Morreu sem saber que morria

 

 

 


Clarice Lispector

 

Perto do Coração Selvagem

A BRUXA DAS PALAVRAS
Marcello Rollemberg

Para muitos leitores e críticos, a escritora Clarice Lispector é uma esfinge perigosa, que devora a todos que tentam desvendar seus segredos. Hermética, bruxa, louca, brilhante, genial. Muitos desses epítetos foram apostos à sua figura e, para muita gente, todos eles cabem muito bem nela. Não é para menos. Em seus 57 anos de vida, esta mulher que nasceu ucraniana em 1920 e morreu carioca, criou personas e personagens que se intercomunicaram muitas vezes de maneira soturna, outras mais solares, mas sempre fustigando, sempre deixando no leitor um certo incômodo.

Não se passa incólume pela literatura de Clarice Lispector, seja em romances como A paixão segundo G.H., Perto do coração selvagem e Água viva ou, então, em seus contos, reunidos no livro Legião estrangeira, sem falar em suas crônicas e depoimentos. Exatamente para provar esse grande e fascinante risco que é ler a obra de Clarice que a psicóloga e doutora em Teoria Literária pela USP Yudith Rosembaum escreveu Metamorfoses do mal, um interessante estudo sobre a obra da autora de A hora da estrela e que foi recentemente lançado pela Edusp.

Só que este livro de Yudith não pode ser considerado mais uma biografia de Clarice ou mais um estudo a respeito de sua obra - o que, ademais, já vem lotando as prateleiras das livrarias nos últimos tempos, desde que se completaram duas décadas de sua morte. Não é esse o caso. O que a psicóloga e estudiosa de literatura brasileira fez em seu trabalho foi lançar luzes em uma área naturalmente sombreada e que ganhou fama justamente por se manter na penumbra: as chamadas "modulações do mal" na obra clariceana, ou seja, indo na contramão de muitos críticos, ela não se preocupa com as epifanias de Clarice - que são inúmeras -, mas sim com os momentos mais dolorosos de sua obra, que de fato acabam compondo sua estilística e imagética. E ninguém melhor para enveredar por este caminho do que uma psicóloga que também navega nos mares nem sempre tranqüilos da literatura. Mas não se pense que a leitura de Yudith Rosembaum, por isso mesmo, tende para o maniqueísmo ou para o reducionismo. Nada disso. O que a autora faz é um levantamento arguto de como um certo sadismo perpassa os textos de Clarice, uma certa maldade em instigar o ser humano e, por isso mesmo, o torna tão real e, como escreveu Nietzsche, "humano, demasiado humano".


O lado escuro da força

Caminhamos na direção diversa de uma crítica que freqüentemente privilegia nos textos clariceanos a dimensão do pathos da existência, atenta às manifestações da epifania como revelação do ser na insignificância de cada acontecimento. (...) A presente pesquisa não desprezará esse terreno já tão percorrido, mas focalizará a obra dessa autora à luz da temática do mal e dos aspectos dela decorrentes, privilegiando entre eles a representação literária do sadismo.

O que se chama de "mal" na obra de Clarice é o que também se poderia nomear como, em uma licença poética, uma espécie de "lado escuro da força" no texto clariceano. Isto é, da mesma forma que ela utiliza a desconstrução da narrativa formal para criar momentos belíssimos de ficção, quase uma prosa poética, ela lança mão da mesma estilística para sombrear e, assim, adensar seu trabalho, descentrando o sujeito, pulverizando-o e criando um tipo de anti-herói, distinto de tudo o que se estava ou se está acostumado a encontrar na maioria dos romances brasileiros. Para ela, a palavra era "uma possibilidade infinita de aventura". E Clarice não abria mão dessa aventura.

Ao destacar a palavra como força demiúrgica de um mundo misterioso, Clarice convoca um olhar crítico atento aos meandros mais sutis do pensamento que vibra intensamente na linguagem.

Clarice sabia da força que as palavras tinham e do risco que elas representavam se usadas de forma equivocada. Por isso, não tinha medo de correr riscos, até porque sabia muito bem usar as palavras e extraía delas o máximo de força e sentido que pudesse. Nesse caso, era de fato uma bruxa. Uma feiticeira que remexia expressões e idéias em um enorme caldeirão, para tirar dali seu bruxedo em forma de arte.


Perverso mundo novo

O que Clarice Lispector fazia em seus textos não era apenas desconstruir a narrativa mas, principalmente, desconstruir o mundo conhecido e criar um novo e perverso - à sua maneira - mundo próprio, desfazendo o cotidiano e lançando visões sobre "o núcleo selvagem da vida", como escreve Yudith Rosembaum. Para consubstanciar suas teorias a respeito do texto clariceano, Clarice lançou mão de dois romances A paixão segundo G.H. e Perto do coração selvagem e vários contos, indo buscar na galeria de seus personagens as comprovações de como o mal pode se instalar no coração humano, sem, contudo, destruí-lo. Mas mudando-o definitivamente. Criaturas como Joana, de Perto do coração selvagem, e todo o desenrolar do romance são extensamente analisados por Yudith, que a partir daí mostra o lento caminhar de Clarice por esta longa e tortuosa calçada envolta em sombras.

São poucos e densos os momentos em que o sadismo de Joana se externaliza: por exemplo, ao atirar, impiedosa, um livro na nuca de um velho, pois "um velho só deveria sofrer".

Da mesma forma que levou a tal "maldade" para seus textos, a criadora de Macabéa também acabou envolvendo sua própria figura em uma aura de mistério e mau humor. Para muitos, ela parecia intratável e distante, sempre falando de forma ríspida com seu interlocutor, impressão que o curioso sotaque só reforçava. Mas, na verdade, não era bem assim. Clarice era, sim, extremamente tímida e se protegia de qualquer um que pudesse tentar invadir sua privacidade com a carranca que só os tímidos sabem armar, mas que se desfaz ao menor contato mais íntimo. Como quando falava e brincava com crianças, por exemplo. A sisuda e estranha Clarice se transformava quando tinha uma criança por perto. Fazia bolo, sentava no chão e escrevia cartas doces e divertidas, como as que escreveu para uma menina carioca durante anos, que a chamava carinhosamente de "tia Clarice" e a autora adorava. Essa menina tem as cartas da "tia" postiça até hoje e não as publica por respeito e para não trair a confiança da amiga que lhe dava chá e biscoitos. Essa era a verdadeira Clarice? Essa é uma questão indefinida. Ela não queria respostas, e sim plantava dúvidas. Não foi à toa que uma das últimas biografias a sair a seu respeito tem justamente o título de Eu sou uma pergunta. E a resposta, nesse caso, não importa.

Dados obtidos em livros da autora, sites da Internet.

 

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