Clarice Lispector
Perto do Coração Selvagem
A
BRUXA DAS PALAVRAS Marcello Rollemberg Para
muitos leitores e críticos, a escritora Clarice Lispector é uma
esfinge perigosa, que devora a todos que tentam desvendar seus segredos. Hermética,
bruxa, louca, brilhante, genial. Muitos desses epítetos foram apostos à
sua figura e, para muita gente, todos eles cabem muito bem nela. Não é
para menos. Em seus 57 anos de vida, esta mulher que nasceu ucraniana em 1920
e morreu carioca, criou personas e personagens que se intercomunicaram muitas
vezes de maneira soturna, outras mais solares, mas sempre fustigando, sempre deixando
no leitor um certo incômodo. Não
se passa incólume pela literatura de Clarice Lispector, seja em romances
como A paixão segundo G.H., Perto do coração selvagem
e Água viva ou, então, em seus contos, reunidos no livro
Legião estrangeira, sem falar em suas crônicas e depoimentos.
Exatamente para provar esse grande e fascinante risco que é ler a obra
de Clarice que a psicóloga e doutora em Teoria Literária pela USP
Yudith Rosembaum escreveu Metamorfoses do mal, um interessante estudo sobre
a obra da autora de A hora da estrela e que foi recentemente lançado
pela Edusp. Só
que este livro de Yudith não pode ser considerado mais uma biografia de
Clarice ou mais um estudo a respeito de sua obra - o que, ademais, já vem
lotando as prateleiras das livrarias nos últimos tempos, desde que se completaram
duas décadas de sua morte. Não é esse o caso. O que a psicóloga
e estudiosa de literatura brasileira fez em seu trabalho foi lançar luzes
em uma área naturalmente sombreada e que ganhou fama justamente por se
manter na penumbra: as chamadas "modulações do mal" na
obra clariceana, ou seja, indo na contramão de muitos críticos,
ela não se preocupa com as epifanias de Clarice - que são inúmeras
-, mas sim com os momentos mais dolorosos de sua obra, que de fato acabam compondo
sua estilística e imagética. E ninguém melhor para enveredar
por este caminho do que uma psicóloga que também navega nos mares
nem sempre tranqüilos da literatura. Mas não se pense que a leitura
de Yudith Rosembaum, por isso mesmo, tende para o maniqueísmo ou para o
reducionismo. Nada disso. O que a autora faz é um levantamento arguto de
como um certo sadismo perpassa os textos de Clarice, uma certa maldade em instigar
o ser humano e, por isso mesmo, o torna tão real e, como escreveu Nietzsche,
"humano, demasiado humano".
O lado escuro da força
Caminhamos
na direção diversa de uma crítica que freqüentemente
privilegia nos textos clariceanos a dimensão do pathos da existência,
atenta às manifestações da epifania como revelação
do ser na insignificância de cada acontecimento. (...) A presente pesquisa
não desprezará esse terreno já tão percorrido, mas
focalizará a obra dessa autora à luz da temática do mal e
dos aspectos dela decorrentes, privilegiando entre eles a representação
literária do sadismo. O
que se chama de "mal" na obra de Clarice é o que também
se poderia nomear como, em uma licença poética, uma espécie
de "lado escuro da força" no texto clariceano. Isto é,
da mesma forma que ela utiliza a desconstrução da narrativa formal
para criar momentos belíssimos de ficção, quase uma prosa
poética, ela lança mão da mesma estilística para sombrear
e, assim, adensar seu trabalho, descentrando o sujeito, pulverizando-o e criando
um tipo de anti-herói, distinto de tudo o que se estava ou se está
acostumado a encontrar na maioria dos romances brasileiros. Para ela, a palavra
era "uma possibilidade infinita de aventura". E Clarice não abria
mão dessa aventura. Ao
destacar a palavra como força demiúrgica de um mundo misterioso,
Clarice convoca um olhar crítico atento aos meandros mais sutis do pensamento
que vibra intensamente na linguagem. Clarice
sabia da força que as palavras tinham e do risco que elas representavam
se usadas de forma equivocada. Por isso, não tinha medo de correr riscos,
até porque sabia muito bem usar as palavras e extraía delas o máximo
de força e sentido que pudesse. Nesse caso, era de fato uma bruxa. Uma
feiticeira que remexia expressões e idéias em um enorme caldeirão,
para tirar dali seu bruxedo em forma de arte.
Perverso mundo novo
O
que Clarice Lispector fazia em seus textos não era apenas desconstruir
a narrativa mas, principalmente, desconstruir o mundo conhecido e criar um novo
e perverso - à sua maneira - mundo próprio, desfazendo o cotidiano
e lançando visões sobre "o núcleo selvagem da vida",
como escreve Yudith Rosembaum. Para consubstanciar suas teorias a respeito do
texto clariceano, Clarice lançou mão de dois romances A paixão
segundo G.H. e Perto do coração selvagem e vários
contos, indo buscar na galeria de seus personagens as comprovações
de como o mal pode se instalar no coração humano, sem, contudo,
destruí-lo. Mas mudando-o definitivamente. Criaturas como Joana, de Perto
do coração selvagem, e todo o desenrolar do romance são
extensamente analisados por Yudith, que a partir daí mostra o lento caminhar
de Clarice por esta longa e tortuosa calçada envolta em sombras.
São poucos e densos os
momentos em que o sadismo de Joana se externaliza: por exemplo, ao atirar, impiedosa,
um livro na nuca de um velho, pois "um velho só deveria sofrer". Da
mesma forma que levou a tal "maldade" para seus textos, a criadora de
Macabéa também acabou envolvendo sua própria figura em uma
aura de mistério e mau humor. Para muitos, ela parecia intratável
e distante, sempre falando de forma ríspida com seu interlocutor, impressão
que o curioso sotaque só reforçava. Mas, na verdade, não
era bem assim. Clarice era, sim, extremamente tímida e se protegia de qualquer
um que pudesse tentar invadir sua privacidade com a carranca que só os
tímidos sabem armar, mas que se desfaz ao menor contato mais íntimo.
Como quando falava e brincava com crianças, por exemplo. A sisuda e estranha
Clarice se transformava quando tinha uma criança por perto. Fazia bolo,
sentava no chão e escrevia cartas doces e divertidas, como as que escreveu
para uma menina carioca durante anos, que a chamava carinhosamente de "tia
Clarice" e a autora adorava. Essa menina tem as cartas da "tia"
postiça até hoje e não as publica por respeito e para não
trair a confiança da amiga que lhe dava chá e biscoitos. Essa era
a verdadeira Clarice? Essa é uma questão indefinida. Ela não
queria respostas, e sim plantava dúvidas. Não foi à toa que
uma das últimas biografias a sair a seu respeito tem justamente o título
de Eu sou uma pergunta. E a resposta, nesse caso, não importa.
Dados obtidos em livros da autora, sites da
Internet.
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