BIOGRAFIA de
Clarice
Lispector

(chargista
desconhecido)
Quem se atreve a definir esta mulher? Enigmática, para Antônio
Callado. Um mistério, para Carlos Drummond de Andrade.
Insolúvel, para o jornalista Paulo Francis. Ela não fazia
literatura, mas bruxaria, disse Otto Lara Resende.
Em maio de 1976, o jornalista José Castello, colaborador de O
Globo, recebe a missão de entrevistar Clarice Lispector.
Corre boato de que ela não quer mais saber de entrevistas, mas
Castello consegue o encontro. Dialogam:
J.C. - Por que você escreve?
C.L. - Vou lhe responder com outra pergunta: - Por que você bebe
água?
J.C. - Por que bebo água? Porque tenho sede.
C.L. - Quer dizer que você bebe água para não morrer. Pois eu
também: escrevo para me manter viva .
CITAÇÕES
"Aliás - descubro eu agora - eu também não faço a menor falta, e
até o que escrevo um outro escreveria."
A hora da estrela
"Onde aprender a odiar para não morrer de amor?"
Laços de família
"Não é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu
renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de
existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas
equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens,
entre mim e o Deus."
Um sopro de vida
"É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem,
mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no
momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o
que sinto se transforma lentamente no que eu digo."
Perto do coração selvagem
"Talvez a pergunta vazia fosse apenas para que um dia alguém não
viesse a dizer que ela nem ao menos havia perguntado. Por falta
de quem lhe respondesse ela mesma parecia se ter respondido: é
assim porque é assim."
A hora da estrela
"E de tal modo haviam se disposto as coisas que o amor doloroso
lhe pareceu felicidade."
Laços de família
"Quem não é um acaso na vida?"
A hora da estrela
"Isto não é um lamento. É um grito de ave de rapina, irisada e
intranqüila."
Um sopro de vida
"Com Deus a gente também pode abrir caminho pela violência. Ele
mesmo quando precisa mais especialmente de um de nós, Ele nos
escolhe e nos violenta."
A paixão segundo G.H.
"Só quem guarda as armas a chave é quem receia atirar sobre
todos."
Perto do coração selvagem
"Nem todos chegam a fracassar porque é tão trabalhoso, é preciso
antes subir penosamente até enfim atingir a altura de poder
cair."
A paixão segundo G.H.
"Sua sensibilidade incomodava sem ser dolorosa, como uma unha
quebradiça."
Laços de família
"Abandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por
conseguir - esqueça completamente o que aconteceu e tudo voltará
com naturalidade."
Laços de família
"O cacto é cheio de raiva com os dedos todos retorcidos e é
impossível acarinhá-lo. Ele te odeia em cada espinho espetado
porque dói-lhe no corpo esse mesmo espinho cuja primeira
espetada foi na sua própria grossa carne. Mas pode-se cortá-lo
em pedaços e chupar-lhe a áspera seiva: leite de mãe severa."
Um sopro de vida
"Quem sabe a que escuridão de amor pode chegar o carinho."
Laços de família
"Não se pode dar uma prova de existência do que é mais
verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando."
A hora da estrela
"Oh Deus, eu que faço concorrência a mim mesma. Me detesto.
Felizmente os outros gostam de mim. É uma tranqüilidade."
Um sopro de vida
"Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas continuarei
a escrever."
A hora da estrela
"A eternidade é o estado das coisas neste momento."
A hora da estrela
"Escrevo por ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar
para mim na terra dos homens."
A hora da estrela
"Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por que dentro eu
sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma."
Um sopro de vida
"Ser um ser permissível a si mesmo é a glória de existir."
Um sopro de vida
"Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que
se for achando."
A paixão segundo G.H.
"Tudo o que poderia existir, já existe. Nada mais pode ser
criado senão revelado."
Perto do coração selvagem
"Vida e morte foram minhas, e eu fui monstruosa, minha coragem
foi a de um sonâmbulo que simplesmente vai."
A paixão segundo G.H.
Investigada por pesquisadores apaixonados no mundo todo, Clarice
é uma das mais cultuadas escritoras brasileiras. Para muitos,
das mais importantes do século 20, no mundo.
Clarice nasceu na aldeia Tchetchelnik, Ucrânia, que de tão
pequena nem figura no mapa, em 10 de dezembro de 1920, quando os
pais Pedro e Marieta, junto das filhas Elisa e Tânia, estavam
emigrando para o Brasil. Pararam naquele lugar apenas para
Clarice nascer. Com dois meses de vida desembarcava com a
família em Maceió, onde viveu por três ou quatro anos. Mudam
depois para o Recife. Em 1929, aos nove anos, perdeu a mãe.
Guardo de Pernambuco até o sotaque. Quem vive ou viveu no Norte
tem uma fortuna de ser brasileiro muito especial.
A menina já escrevia suas historietas, sempre recusadas pelo
Diário de Pernambuco, que mantinha uma página infantil, porque
elas não tinham enredo e fatos - apenas sensações. Adolescente,
segue com o pai e as irmãs para o Rio de Janeiro. Termina o
secundário. Dá aulas de português para contornar a crise
financeira da família. Entra na Faculdade Nacional de Direito em
1939. No ano seguinte perde o pai. Trabalha como redatora no
jornal A noite, onde publica contos. Em 1943, casa com o
diplomata Maury Gurgel Valente.
Entre muitas leituras, lia Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz,
Machado de Assis, Dostoievski "embora não o aprendesse em toda a
sua grandeza" e descobriu por acaso Katherine Mansfield à qual
foi equiparada posteriormente.
Perto do coração selvagem, o primeiro romance, escrito aos 19
anos é publicado apenas em 1944. A jovem revelação desnorteia a
crítica. Há os que buscam influências, invocam certo
temperamento feminino. Outros não a entendem.
Não sei o que quero e, quando descobrir, não preciso mais. Acho
que quero entender. Quando escrevo, vou descobrindo, aprendendo.
É um exercício de aprendizagem da vida.
Viveu em vários países, acompanhando o marido. Nápoles, Berna,
Washington se revezam com passagens pelo Brasil. A vida de
mulher de diplomata não lhe agradava. De Paris, em janeiro de
1947, escreve às irmãs:
Com a vida assim parece que sou "outra pessoa" em Paris. É uma
embriaguez que não tem nada de agradável. Tenho visto pessoas
demais, falado demais, dito mentiras, tenho sido muito gentil.
Quem está se divertindo é uma mulher que eu detesto, uma mulher
que não é a irmã de vocês. É qualquer uma.
No exterior lhe nascem os dois filhos, Pedro e Paulo. Mãe,
Clarice divide-se entre as crianças e a literatura, escrevendo
com a máquina apoiada nas pernas enquanto cuida de seus
pequenos.
Separada do marido em 1959, volta ao Rio de Janeiro com os
filhos. Mais um período de dificuldades afetivas e financeiras
apesar de já ser escritora famosa com obras publicadas no
exterior. Nesta época publica contos encomendados por Simeão
Leal na revista Senhor. Em toda a década de 1960, colabora em
vários jornais e revistas para sobreviver, faz traduções. Em
1969, já era autora de obras importantes como O lustre
(romance, 1946); Laços de família (contos, 1960); A
maçã no escuro (romance, 1961); A paixão segundo G.H.
(romance, 1964); Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres
(romance, 1969). Incomodava-se com sua mitificação: Muito
elogio é como botar água demais na flor. Ela apodrece.
Clarice morreu de câncer em 9 de dezembro de 1977, um dia antes
de completar 57 anos. Meses antes concedeu célebre entrevista a
Júlio Lerner, da TV Cultura. Ela acabava de terminar A hora da
estrela. Escrever era vital para a misteriosa Clarice. Na última
entrevista confessava: "Quando não escrevo, estou morta".
Em 1975, convidada a participar do Congresso Mundial de Bruxaria
na Colômbia, limitou-se à leitura do conto O ovo e a galinha,
um conto que não compreendia muito bem, declarou. Na década de
1990, o escritor Otta Lara Resende advertiu José Castello, que
escrevia biografia de Clarice: "Você deve tomar cuidado com
Clarice. Não se trata de literatura, mas de bruxaria".
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Referência:
ALMANAQUE Abril de Cultura Popular. n. 32, a. 3, p. 21. São
Paulo: Elifas Andreato, nov. 2001.
Enviado por Fernanda Aranha
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