Destaque:

 

Castro Alves: Vida e Obra

 

Textos

 

Oitavas a Napoleão

Boa-Noite

Adormecida

Jesuítas

Poesia e Mendicidade

A Uma Estrangeira

A Boa Vista

Onde Estás

No Álbum do Artista

Hino ao Sono

Versos a Um Viajante

A bainha do punhal

A canção do africano

Canção do Boêmio

A criança
A  cruz da estrada

A mãe do cativo

A órfã na sepultura

Adeus, meu canto

Antítese

ESPUMAS FLUTUANTES

O Livro e a América

Hebréia

Quem dá aos pobres, empresta a Deus.

O Laço de Fita

Ahasverus e o Gênio

Mocidade e Morte

Ao Dous de Julho

Os Três Amores

O Fantasma e a Canção

O Gondoleiro do Amor

Sub Tegmine Fagi

As Três Irmãs do Poeta

O Vôo do Gênio

As Trevas

Aves da Arribação

Os Perfumes

Immensis Orbitus Anguis

A Uma Atriz

Canção do Boêmio

É Tarde

A Meu Irmão Guilherme de Castro Alves

Quando Eu Morrer

Uma Página de Escola Realista

Coup D'Étrier

O Hóspede

 

 

 


 

Castro Alves

 

 

Oitavas a Napoleão

 

(Tradução do espanhol, de LOZANO)

 

Águia das solidões!. . . Ninho atrevido

Foram-te as borrascosas tempestades,

Flamígero cometa suspendido

Sobre o céu infinito das idades.

Tu que, no lago intérmino do olvido,

Lançaste tuas régias claridades...

Deus caído do trono dos mais deuses...

Quem recebeu teus últimos adeuses?...

Não foram as Pirâmides, que ouviram

De teus passos o som e se inclinaram...

Nem as águas do Nilo, que te viram,

E co'as ondas teu nome murmuraram...

Não foram as cidades, que brandiram

As torres como facho... e te aclararam..

Quem foi? Silêncio!... trêmulo de medo

Vejo apenas-um mar... vejo-um rochedo...

A terra, o mar, os céus... espaço estreito

Eram p'ra tua planta de gigante,

Para tecto dos paços teus foi feito

O firmamento colossal, flutuante

Como diadema - O!; sóis... E como leito

O antártico pólo de diamante...

Teu féretro qual foi?... Titão do Sena

O penhasco fatal de Santa Helena...

Assassina do Encélado da guerra

Só tu foste, Albion... do mar senhora..

Por quê? Porque um pedaço aí de terra

Foi pedir-te o gigante em negra hora...

E lhe deste um penhasco... Oh! Lá s`encerra

Tua lenda mais hórrida... Traidora!

Lá seu espectro envolta na mortalha

Aos quatro céus a maldição espalha...

Ao leão, que temias, enjaulaste;

E de longe escutando seu rugido,

Tu, senhora do mar... tu desmaiaste!

 

Pelo punhal traidor ele ferido

Caiu-te aos pés... Então tu respiraste,

Cobarde vencedora do vencido...

Nem mesmo todo o oceano poderia

Lavar este padrão de covardia...

Tu não és tão culpada!... Aonde estava

A França tão potente e tão temida?...

Oh! por que o não salvou?... se o contemplava

Lá dos gelos dos Alpes-soerguida!?...

E ele que a fez tão grande?... Ela folgava!...

Enquanto ao longe do colosso a vida,

Como um vulcão antigo e moribundo

Lento expirava nesse mar profundo.

 

 

 

Boa-Noite

 

Veux-tu donc partir? Le jour est encore éloigné

C'était le rossignol et non pas l'aloustte

Dont le chant a frappé ton oreille inquiete;

Il chante la nuit sur les branches de ce grenadier,

Crois-moi, cher ami, c'était le rossignol.

SHAKESPEARE

 

Boa-noite, Maria! Eu vou-me embora.

A lua nas janelas bate em cheio.

Boa-noite, Maria! É tarde... é tarde...

Não me apertes assim contra teu seio.

Boa-noite!... E tu dizes - Boa-noite.

Mas não digas assim por entre beijos...

Mas não mo digas descobrindo o peito

- Mar de amor onde vagam meus desejos.

Julieta do céu! Ouve... a calhandra

Já rumoreja o canto da matina.

Tu dizes que eu menti?... pois foi mentira...

. . . Quem cantou foi teu hálito, divina!

Se à estrela-d'alva os derradeiros raios

Derrama nos jardins do Capuleto,

Eu direi, me esquecendo d'alvorada:

"É noite ainda em teu cabelo preto..."

E noite ainda! Brilha na cambraia

-Desmanchado o roupão, a espádua nua -

O globo de teu peito entre os arminhos

Como entre as névoas se balouça a lua...

É noite, pois! Durmamos, Julieta!

Recende a alcova ao trescalar das flores,

Fechemos sobre nós estas cortinas...

-São as asas do arcanjo dos amores.

A frouxa luz da alabastrina lâmpada

 

Lambe voluptuosa os teus contornos...

Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos

Ao doudo afago de meus lábios mornos.

Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos

Treme tua alma, como a lira ao vento,

Das teclas de teu seio que harmonias,

Que escalas de suspiros, bebo atento!

Ai! Canta a cavatina do delírio,

Ri, suspira, soluça, anseia e chora...

Marion! Marion!... É noite ainda.

Que importa os raios de uma nova aurora?!...

Como um negro e sombrio firmamento,

Sobre mim desenrola teu cabelo...

E deixa-me dormir balbuciando:

-Boa-noite! -, formosa Consuelo!...

 

 

 

Adormecida

 

Ses longs cheveux épars la couvrent tout entière

La croix de son collier repose dans sa main,

Comme pour témaigner qu'elle a fait sa prière.

Et qu'elle va la faire en s'éveiliant demain.

A DE MUSSET

 

Uma noite eu me lembro... Ela dormia

Numa rede encostada molemente...

Quase aberto o roupão... solto o cabelo

E o pé descalço do tapete rente.

'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste

Exalavam as silvas da campina...

E ao longe, num pedaço do horizonte

Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,

Indiscretos entravam pela sala,

E de leve oscilando ao tom das auras

Iam na face trêmulos - beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago

Mesmo em sonhos a moça estremecia...

Quando ela serenava... a flor beijava-a...

Quando ela ia beijar-lhe. . . a flor fugia. . .

Dir-se-ia que naquele doce instante

Brincavam duas cândidas crianças...

A brisa, que agitava as folhas verdes,

Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se...

Mas quando a via despeitada a meio,

P'ra não zangá-la... sacudia alegre

 

Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia

Naquela noite lânguida e sentida:

"ó flor! -tu és a virgem das campinas!

"Virgem!-tu és a flor da minha vida!.. ."

 

 

 

Jesuítas

 

(SÉCULO XIII)

 

Ó mes frères, je viens vous apporter mon Dieu,

Je viens vous apporter ma tête!

V. HUGO (Chatiments)

 

Quando o vento da Fé soprava Europa,

Como o tufão, que impele ao ar a tropa

Das águias, que pousavam no alcantil;

Do zimbório de Roma - a ventania

O bando dos Apost'los sacudia

Aos cerros do Brasil.

Tempos idos! Extintos luzimentos!

O pó da catequese aos quatro ventos

Revoava nos céus...

Floria após na Índia, ou na Tartária,

No Mississipi, no Peru, na Arábia

Uma palmeira - Deus! -

O navio maltês, do Lácio a vela,

A lusa nau, as quinas de Castela,

Do Holandês a galé

Levava sem saber ao mundo inteiro

Os vândalos sublimes do cordeiro,

Os átilas da fé.

Onde ia aquela nau?-Ao Oriente.

A outra? - Ao pólo. A outra? - Ao ocidente.

Outra? - Ao norte. Outra? - Ao sul.

E o que buscava? A foca além no pólo;

O âmbar, o cravo no indiano solo

Mulheres em 'Stambul.

Grandes homens! Apóstolos heróicos!...

Eles diziam mais do que os estóicos:

"Dor, - tu és um prazer!

"Grelha, -és um leito! Brasa,-és uma gema!

Cravo, - és um cetro! Chama, - um diadema

Ó morte, - és o viver!"

Outras vezes no eterno itinerário

O sol, que vira um dia no Calvário

Do Cristo a santa cruz,

Enfiava de vir achar nos Andes

A mesma cruz, abrindo os braços grandes

Aos índios rubros, nus.

 

Eram eles que o verbo do Messias

Pregavam desde o vale às serranias,

Do pólo ao Equador...

E o Niagara ia contar aos mares. . .

E o Chimborazo arremessava aos ares

O nome do Senhor!...

 

 

 

Poesia e Mendicidade

 

(No álbum da Ex.ma Sr.a D. Maria Justina Proença Pereira Peixoto)

 

I

 

Senhora! A Poesia outrora era a Estrangeira,

Pálida, aventureira, errante a viajar,

Batendo em duas portas - ao grito das procelas -

Ao céu - pedindo estrelas, à terra - um pobre lar!

Visão-de áureos lauréis-porém de manto esquálido,

Mulher-de lábio pálido-e olhar-cheio de luz.

Seus passos nos espinhos em sangue se assinalam...

E os astros lhe resvalam-à flor dos ombros nus...

 

II

 

Olhai! O sol descamba... A tarde harmoniosa

Envolve luminosa a Grécia em frouxo véu.

Na estrada ao som da vaga, ao suspirar do vento,

De um marco poeirento um velho então se ergueu.

Ergueu-se tateando... é cego... o cego anseia...

Porém o que tateia aquela augusta mão?...

Talvez busca pegar o sol, que lento expira!...

Fado cruel... mentira!... Homero pede pão!

 

III

 

Mas ai! volvei, Senhora, os vossos belos olhos

Daquele mar de abrolhos, a um novo quadro! olhai!

Do vasto salão gótico eu ergo o reposteiro...

O lar é hospitaleiro... Entrai, Senhora, entrei!

Estamos na média idade. Arnês, gládio, armadura

Servem de compostura à sala vasta e chã.

A um lado um galgo esvelto ameiga e acaricia

A mão suave, esguia - à loura castelã.

Vai o banquete em meio... O bardo se alevanta

Pega da lira... canta... uma canção de amor...

Ouvi-o! Para ouvi-lo a estrela pensativa

Alonga pela ogiva um raio de languor!

Dos ramos do carvalho a brisa se debruça...

Na sala alguém soluça... (amor, ou languidez?)

Súbito a nota extrema anseia, treme, rola...

Alguém pede uma esmola... Senhora, não olheis!...

 

Assim nos tempos idos a musa canta e pede...

Gênio e mendigo... vede... o abismo de irrisões!

Tasso implora um olhar! Vai Ossian mendicante...

Caminha roto o Dante! e pede pão Camões.

 

IV

 

Bem sei, Senhora, que ao talento agora

Surgiu a aurora de uma luz amena.

Hoje há salário p'ra qualquer trabalho

Cinzel, ou malho, ferramenta ou penal

Melhor que o Rei sabe pagar o pobre

Melhor que o nobre --protetor verdugo-

Foi surdo um trono... à maior glória vossa.

Abre-se a choça aos Miseráveis de Hugo.

Porém não sei se é por costume antigo,

Que inda é mendigo do cantor o gênio.

Mudem-se os panos do cenário a esmo

O vulto é o mesmo... num melhor proscênio...

 

V

 

Hoje o Poeta - caminheiro errante,

Que tem saudade de um país melhor

Pede uma pérola - à maré montante,

Do seio às vagas-pede-um outro amor.

Alma sedenta de ideal na terra

Busca apagar aquela sede atroz!

Pede a harmonia divinal, que encerra

Do ninho o chilro... da tormenta a voz!

E o rir da folha, o sussurrar da fala,

Trenos da estrela no amoroso estio.

Voz que dos poros o Universo exala

Do céu, da gruta, do alcantil, do rio!

Pede aos pequenos, desde o verme ao tojo,

Ao fraco, ao forte... - preces, gritos, uivos...

Pede das águias o possante arrojo,

Para encontrar os meteoros ruivos.

Pede à mulher que seja boa e linda

Vestal de um tipo que o ideal revela...

Pois ser formosa é ser melhor ainda...

Se és boa-és luz... mas se és formosa-estrela...

E pede à sombra p'ra aljofrar de orvalhos

A fronte azul da solidão noturna.

E pede às auras p'ra afagar os galhos

E pede ao lírio p'ra enfeitar a fuma.

Pede ao olhar a maciez suave

 

Que tem o arminho e o edredom macio,

O aveludado da penugem d'ave,

Que afaga as plumas no palmar sombrio.

E quando encontra sobre a terra ingrata

Um reverbero do clarão celeste,

-Alma formada de uma essência grata,

Que a lua - doura, e que um perfume veste;

Um rir, que nasce como o broto em maio;

Mostrando seivas de bondade infinda,

Fronte que guarda- a claridade e o raio,

- Virtude e graça - o ser bondosa e linda...

Então, Senhora, sob tanto encanto

Pede o Poeta (que neo tem renome)

-Versos-à brisa p'ra vos dar um canto...

Raios ao sol - p'ra vos traçar o nome! . . .

 

 

 

Hino ao Sono

 

Ó Sono !ó noivo pálido

Das noites perfumosas,

Que um chão de nebulosas

Trilhas pela amplidão!

Em vez de verdes pâmpanos,

Na branca fronte enrolas

As lânguidas papoulas,

Que agita a viração.

Nas horas solitárias,

Em que vagueia a lua,

E lava a planta nua

Na onda azul do mar,

Com um dedo sobre os lábios

No vôo silencioso,

Vejo-te cauteloso

No espaço viajar!

Deus do infeliz, do mísero!

Consolação do aflito!

Descanso do precito,

Que sonha a vida em ti!

Quando a cidade tétrica

De angústia e dor não geme...

É tua mão que espreme

A dormideira ali.

Em tua branca túnica

Envolves meio mundo.

E teu seio fecundo

De sonhos e visões,

Dos templos aos prostíbulos

Desde o tugúrio ao Paço,

Tu lanças lá do espaço

Punhados de ilusões!...

 

Da vide o sumo rúbido,

Do hatchiz a essência,

O ópio, que a indolência

Derrama em nosso ser,

Não valem, gênio mágico,

Teu seio, onde repousa

A placidez da lousa

E o gozo de viver...

Ó sono! Unge-me as pálpebras..

Entorna o esquecimento

Na luz do pensamento,

Que abrasa o crânio meu.

Como o pastor da Arcádia,

Que uma ave errante aninha...

Minh'alma é uma andorinha...

Abre-lhe o seio teu.

Tu, que fechaste as pétalas

Do lírio, que pendia,

Chorando a luz do dia

E os raios do arrebol,

Também fecha-me as pálpebras...

Sem Ela o que é a vida?

Eu sou a flor pendida

Que espera a luz do sol.

O leite das eufórbias

P'ra mim não é veneno...

Ouve-me, ó Deus sereno!

Ó Deus consolador!

Com teu divino bálsamo

Cala-me a ansiedade!

Mata-me esta saudade,

Apaga-me esta dor.

Mas quando, ao brilho rútilo

Do dia deslumbrante,

Vires a minha amante

Que volve para mim,

Então ergue-me súbito...

É minha aurora linda...

Meu anjo... mais ainda...

É minha amante enfim!

Ó sono! Ó Deus noctívago!

Doce influência amiga!

Gênio que a Grécia antiga

Chamava de Morfeu,

Ouve!... E se minhas súplicas

Em breve realizares...

Voto nos teus altares

Minha lira de Orfeu!

 

 

 

No Álbum do Artista

Luís C. Amoedo

 

Nos tempos idos... O alabastro, o mármore

Reveste as formas desnuadas, mádidas

De Vênus ou Friné.

Nem um véu p'ra ocultar o seio trêmulo,

Nem um tirso a velar a coxa pálida...

O olhar não sonha... vê!

Um dia o artista, num momento lúcido,

Entre gazas de pedra a loura Aspásia

Amoroso envolveu.

Depois, surpreso!... viu-a inda mais lânguida...

Sonhou mais doido aquelas formas lúbricas...

Mais nuas sob um véu.

E o mistério do espírito... A modéstia

E dos talentos reis a santa púrpura...

Artista, és belo assim...

Este santo pudor é só dos gênios! -

Também o espaço esconde-se entre névoas...

E no entanto é... sem fim!

 

 

 

Versos a Um Viajante

 

Ai! nenhum mago da Caldéia sábia

A dor abrandará que me devora.

F. VARELA

 

Tenho saudades das cidades vastas,

Dos ínvios cerros, do ambiente azul...

Tenho saudades dos cerúleos mares

Das belas filhas do país do sull

Tenho saudades de meus dias idos

-Pét'las perdidas em fatal paul-

Pét'las, que outrora desfolhamos juntos,

Morenas filhas do país do sul!

Lá onde as vagas nas areias rolam,

Bem como aos pés da Oriental 'Stambul. . .

E da Tijuca na nitente espuma

Banham-se as filhas do país do sul.

Onde ao sereno a magnólia esconde

Os pirilampos "de lanterna azul",

Os pirilampos, que trazeis nas coifas,

Morenas filhas do pais do sul.

Tenho saudades. .. ai! de ti, São Paulo,

-Rosa de Espanha no hibernal Friul -

Quando o estudante e a serenata acordam

As belas filhas do país do sul.

Das várzeas longas, das manhãs brumosas

 

Noites de névoas, ao rugitar do sul,

Quando eu sonhava nos morenos seios

Das belas filhas do país do sul.

 

 

 

Onde Estás

 

É meia-noite. . . e rugindo

Passa triste a ventania,

Como um verbo de desgraça,

Como um grito de agonia.

E eu digo ao vento, que passa

Por meus cabelos fugaz:

"Vento frio do deserto,

Onde ela está? Longe ou perto?

" Mas, como um hálito incerto,

Responde-me o eco ao longe:

"Oh! minh'amante, onde estás?...

Vem! É tarde! Por que tardas?

São horas de brando sono,

Vem reclinar-te em meu peito

Com teu lânguido abandono!...

'Stá vazio nosso leito...

'Stá vazio o mundo inteiro;

E tu não queres qu'eu fique

Solitário nesta vida...

Mas por que tardas, querida?...

Já tenho esperado assaz...

Vem depressa, que eu deliro

Oh! minh'amante, onde estás?..

Estrela-na tempestade,

Rosa-nos ermos da vida,

Iris-do náufrago errante,

Ilusão-d'alma descrida!

Tu foste, mulher formosa!

Tu foste, ó filha do céu!...

. . . E hoje que o meu passado

Para sempre morto jaz...

Vendo finda a minha sorte,

Pergunto aos ventos do Norte...

"Oh! minh'amante, onde estás?..."

 

 

 

A Boa Vista

 

Sonha, poeta, sonha! Aqui sentado

No tosco assento da janela antiga,

Apóias sobre a mão a face pálida,

Sorrindo -dos amores à cantiga.

ÁLVARES DE AZEVEDO

 

Era uma tarde triste, mas límpida e suave...

Eu -pálido poeta - seguia triste e grave

A estrada, que conduz ao campo solitário,

Como um filho, que volta ao paternal sacrário,

 

E ao longe abandonando o múrmur da cidade

-Som vago, que gagueja em meio à imensidade, -

No drama do crepúsculo eu escutava atento

A surdina da tarde ao sol, que morre lento.

A poeira da estrada meu passo levantava,

Porém minh'alma ardente no céu azul marchava

E os astros sacudia no vôo violento

-Poeira, que dormia no chão do firmamento.

A pávida andorinha, que o vendaval fustiga,

Procura os coruchéus da catedral antiga.

Eu - andorinha entregue aos vendavais do inverno.

Ia seguindo triste p'ra o velho lar paterno.

Como a águia, que do ninho talhado no rochedo

Ergue o pescoço calvo por cima do fraguedo,

-(P'ra ver no céu a nuvem, que espuma o firmamento,

E o mar,-corcel que espuma ao látego do vento. . . )

Longe o feudal castelo levanta a antiga torre,

Que aos raios do poente brilhante sol escorre!

Ei-lo soberbo e calmo o abutre de granito

Mergulhando o pescoço no seio do infinito,

E lá de cima olhando com seus clarões vermelhos

Os tetos, que a seus pés parecem de joelhos!...

Não! Minha velha torre! Oh! atalaia antiga,

Tu olhas esperando alguma face amiga,

E perguntas talvez ao vento, que em ti chora:

"Por que não volta mais o meu senhor d'outrora?

Por que não vem sentar-se no banco do terreiro

Ouvir das criancinhas o riso feiticeiro

E pensando no lar, na ciência, nos pobres

Abrigar nesta sombra seus pensamentos nobres?

Onde estão as crianças-grupo alegre e risonho

- Que escondiam-se atrás do cipreste tristonho...

Ou que enforcaram rindo um feio Pulchinello,

Enquanto a doce Mãe, que é toda amor, desvelo

Ralha com um rir divino o grupo folgazão,

Que vem correndo alegre beijar-lhe a branca mão?...~

É nisto que tu cismas, ó torre abandonada,

Vendo deserto o parque e solitária a estrada.

No entanto eu ~ estrangeiro, que tu já não conheces-

No limiar de joelhos só tenho pranto e preces.

Oh! deixem-me chorar!... Meu lar... meu doce ninho!

Abre a vetusta grade ao filho teu mesquinho!

Passado- mar imenso!... inunda-me em fragrância!

Eu não quero lauréis, quero as rosas da infância.

Ai! Minha triste fronte, aonde as multidões

 

Lançaram misturadas glórias e maldições...

Acalenta em teu seio, ó solidão sagrada!

Deixa est'alma chorar em teu ombro encostada!

Meu lar está deserto... Um velho cão de guarda

Veio saltando a custo roçar-me a testa parda,

Lamber-me após os dedos, porém a sós consigo

Rusgando com o direito, que tem um velho amigo..

Como tudo mudou-se!... O jardim 'stá inculto

As roseiras morreram do vento ao rijo insulto..;

A erva inunda a terra; o musgo trepa os muros

A ortiga silvestre enrola em nós impuros

Uma estátua caída, em cuja mão nevada

A aranha estende ao sol a teia delicada!...

Mergulho os pés nas plantas selvagens, espalmadas,

As borboletas fogem-me em lúcidas manadas...

E ouvindo-me as passadas tristonhas, taciturnas,

Os grilos, que cantavam, calaram-se nas furnas...

Oh! jardim solitário! Relíquia do passado!

Minh'alma, como tu. é um parque arruinado!

Morreram-me no seio as rosas em fragrância,

Veste o pesar os muros dos meus vergéis da infância,

A estátua do talento, que pura em mim s'erguia,

Jaz hoje - e nela a turba enlaça uma ironia!...

Ao menos como tu, lá d'alma num recanto

Da casta poesia ainda escuto o canto, -

Voz do céu, que consola, se o mundo nos insulta,

E na gruta do seio murmura um treno oculta.

Entremos!... Quantos ecos na vasta escadaria,

Nos longos corredores respondem-me à porfia!...

Oh! casa de meus pais!... A um crânio já vazio,

Que o hóspede largando deixou calado e frio,

Compara-te o estrangeiro -- caminhando indiscreto

Nestes salões imensos, que abriga o vasto teto.

Mas eu no teu vazio - vejo uma multidão

Fala-me o teu silêncio - ouço-te a solidão!...

Povoam-se estas salas...

E eu vejo lentamente

No solo resvalarem falando tenuemente

Dest'alma e deste seio as sombras venerandas

Fantasmas adorados - visões sutis e brandas...

Aqui. . . além. . . mais longe. . . por onde eu movo o passo,

Como aves, que espantadas arrojam-se ao espaço,

Saudades e lembranças s'erguendo -bando alado

-Roçam por mim as asas voando p'ra o passado.

 

 

 

A Uma Estrangeira

 

LEMBRANÇA DE UMA NOITE NO MAR

 

Sens-tu mon coeur, comme U palpite?

Le tien comme il battait gaiement!

Je m'en vais pourtant, ma petite,

Bien loin, bien vite, Toujours t'aimant.

(Chanson )

Inês! nas terras distantes,

Aonde vives talvez,

Inda lembram-te os instantes

Daquela noite divina?...

Estrangeira, peregrina,

Quem sabes?-Lembras-te, Inês?

Branda noite! A noite imensa

Não era um ninho?-Talvez!. ..

Do Atlântico a vaga extensa

Não era um berço? - Oh! Se o era...

Berço e ninho... ai, primavera!

O ninho, o berço de Inês.

Às vezes estremecias...

Era de febre? Talvez...

Eu pegava-te as mãos frias

P'ra aquentá-las em meus beijos...

Oh! palidez! Oh! desejos!

Oh! longos cílios de Inês.

Na proa os nautas cantavam;

Eram saudades?... Talvez!

Nossos beijos estalavam

Como estala a castanhola.:.

Lembras-te acaso, espanhola?

Acaso lembras-te, Inês?

Meus olhos nos teus morriam...

Seria vida?-Talvez!

E meus prantos te diziam:

"Tu levas minh'alma, ó filha,

Nas rendas desta mantilha...

Na tua mantilha, Inês!"

De Cadiz o aroma ainda

Tinhas no seio... -Talvez!

De Buenos Aires a linda,

Volvendo aos lares, trazia

As rosas de Andaluzia

Nas lisas faces de Inês!

E volvia a Americana

Do Plata às vagas... Talvez?

E a brisa amorosa, insana

Misturava os meus cabelos

Aos cachos escuros, belos,

Aos negros cachos de Inês!

 

As estrelas acordavam

Do fundo do mar... Talvez!

Na proa as ondas cantavam,

E a serenata divina

Tu, com a ponta da botina,

Marcavas no chão... Inês!

Não era cumplicidade

Do céu, dos mares? Talvez!

Dir-se-ia que a imensidade

-Conspiradora mimosa-

Dizia à vaga amorosa:

"Segreda amores a Inês!"

E como um véu transparente,

Um véu de noiva... talvez,

Da lua o raio tremente

Te enchia de casto brilho...

E a rastos no tombadilho

Cala a teus pés... Inês!

E essa noite delirante

Pudeste esquecer?-Talvez...

Ou talvez que neste instante,

Lembrando-te inda saudosa

Suspires, moça formosa!...

Talvez te lembres... Inês!

 

 

 

Dados obtidos em livros da autora, sites da Internet.

 

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