O "Adeus" de Teresa
A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta
a correnteza,
A valsa nos levou nos giros
seus...
E amamos juntos... E depois
na sala
"Adeus" eu disse-lhe
a tremer co'a fala...
E ela, corando, murmurou-me: "adeus."
Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!
"Adeus" lhe disse conservando-a presa...
E ela entre beijos murmurou-me: "adeus!"
Passaram tempos... sec'los de delírio
Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
. . . Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse - "Voltarei!... descansa!...
Ela, chorando mais que uma criança,
Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"
Quando voltei... era o palácio em festa!...
E a voz d'Ela e de um homem lá na orquesta
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei! . . . Ela me olhou branca . . . surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!...
E ela arquejando murmurou-me: "adeus!"
A Volta da Primavera
Aime et tu renaítras fais-toi fleur pour éclore,
Après avoir soufferi, il faul souffrir encore;
Il faut aimer sans cesse après avoir aimé.
A. DE MUSSET
AI! Não maldigas minha fronte pálida,
E o peito gasto ao referver de amores.
Vegetam louros - na caveira esquálida
E a sepultura se reveste em flores.
Bem sei que um dia o vendaval da sorte
Do mar lançou-me na gelada areia.
Serei... que importa? o D. Juan da morte
Dá-me o teu seio-e tu serás Haidéia!
Pousa esta mão-nos meus cabelos úmidos!...
Ensina à brisa ondulações suaves!
Dá-me um abrigo dos teus seios túmidos!
Fala!... que eu ouço o pipilar das aves!
Já viste às vezes, quando o sol de maio
Inunda o vale, o matagal e a veiga?
Murmura a relva: "Que suave raio!"
Responde o ramo: "Como a luz é meiga!"
E, ao doce influxo do clarão do dia,
O junco exausto, que cedera à enchente,
Levanta a fronte da lagoa fria...
Mergulha a fronte na lagoa ardente...
Se a natureza apaixonada acorda
Ao quente afago do celeste amante,
Diz!... Quando em fogo o teu olhar transborda,
Não vês minh'alma reviver ovante?
É que teu riso me penetra n'alma
-Como a harmonia de uma orquestra santa
-É que teu riso tanta dor acalma...
Tanta descrença!... Tanta angústia!... Tanta!
Que eu digo ao ver tua celeste fronte:
"O céu consola toda dor que existe.
Deus fez a neve - para o negro monte!
Deus fez a virgem - para o bardo triste!"
A Maciel Pinheiro
L'ieu soit en aide au pieux pèlerin.
BOUCHARD
Partes amigo do teu antro de águias,
Onde gerava um pensamento enorme,
Tingindo as asas no levante rubro,
Quando nos vales inda a sombra dorme...
Na fronte vasta, como um céu de idéias,
Aonde os astros surgem mais e mais...
Quiseste a luz das boreais auroras...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
Verás a terra da infeliz Moema,
Bem como a Vênus se elevar das vagas;
Das serenatas ao luar dormida,
Que o mar murmura nas douradas plagas.
Terra de glórias, de canções e brios,
Esparta, Atenas, que não tem rivais...
Que, à voz da pátria, deixa a lira e ruge. . .
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E quando o barco atravessar os mares,
Quais pandas asas, desfraldando a vela,
Há de surgir-t'esse gigante imenso,
Que sobre os morros campeando vela...
Símb'lo de pedra, que o cinzel dos raios
Talhou nos montes, que se alteiam mais...
Atlas com a forma do gigante povo...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
Vai nas planícies dos infindos
pampas
Erguer a tenda do soldado vate...
Livre... bem livre a Marselhesa
aos ecos
Soltar bramindo no feroz combate...
E após do fumo das batalhas
tinto
Canta essa terra, canta os
seus gerais,
Onde os gaíchos sobre as éguas
voam...
Deus acompanhe o peregrino
audaz.
E nesse lago de poesia virgem,
Quando bolares nas sutis espumas,
Sacode estrofes, qual do rio a garça
Pérolas solta das brilhantes plumas.
Pálido moço-como o bardo errante-
Teu barco voa na amplidão fugaz.
A nova Grécia quer um Byron novo...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
E eu, cujo peito como u'a harpa homérica
Ruge estridente do que é grande ao sopro,
Saúdo o artista, que ao talhar a glória,
Pega da espada, sem deixar o escopro.
Da caravana guarda a areia a pégada:
No chão da história o passo teu
Lerás... Deus, que o Mazeppa nos estepes guia...
Deus acompanhe o peregrino audaz.
A Uma Taça Feita de Um Crânio Humano
(Traduzido de BYRON)
Não recues! De mim não foi-se o espírito...
Em mim verás- pobre caveira fria -
Único crânio que, ao invés dos vivos,
Só derrama alegria.
Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte
Arrancaram da terra os ossos meus.
Não me insultes! empina-me!... que a larva
Tem beijos mais sombrios do que os teus.
Mais val guardar o sumo da parreira
Do que ao verme do chão ser pasto vil;
-Taça - levar dos Deuses a bebida,
Que o pasto do reptil.
Que este vaso, onde o espírito brilhava,
Vá nos outros o espírito acender.
Ai! Quando um crânio já não tem mais cérebro
. . . Podeis de vinho o encher!
Bebe, enquanto inda é tempo! Uma outra raça,
Quando tu e os teus fordes nos fossos,
Pode do abraço te livrar da terra,
E ébria folgando profanar teus ossos.
E por que não? Se no correr da vida
Tanto mal, tanta dor ai repousa?
É bom fugindo à podridão do lado
Servir na morte enfim p'ra alguma coisa!. . .'
Pedro Ivo
Sonhava nesta geração bastarda
Glórias e liberdade!...
....... ........ .... ................... .
Era um leão sangrento, que rugia
Da glória nos clarins se embriagava,
E vossa gente pálida recuava,
Quando ele aparecia.
ÁLVARES DE AZEVEDO
I
Rebramam os ventos... Da negra tormenta
Nos montes de nuvens galopa o corcel...
Relincha-troveja... galgando no espaço
Mil raios desperta co'as patas revel.
É noite de horrores... nas grunas celestes,
Nas naves etéreas o vento gemeu...
E os astros fugiram, qual bando de garças
Das águas revoltas do lago do céu.
E a terra é medonha... As árvores nuas
Espectros semelham fincados de pé,
Com os braços de múmias, que os ventos retorcem,
Tremendo a esse grito, que estranho lhes é.
Desperta o infinito. .. Cota boca entreaberta
Respira a borrasca do largo pulmão.
Ao longe o oceano sacode as espáduas
- Encélado novo calcado no chão.
É noite de horrores... Por ínvio caminho
Um vulto sombrio sozinho passou,
Co'a noite no peito, co'a noite no busto
Subiu pelo monte, - nas cimas parou.
Cabelos esparsos ao sopro dos ventos,
Olhar desvairado, sinistro, fatal,
Diríeis estátua roçando nas nuvens,
P'ra qual a montanha se fez pedestal.
Rugia a procela - nem ele escutava!...
Mil raios choviam - nem ele os fitou!
Com a destra apontando bem longe a cidade,
Após largo tempo sombrio falou!...
II
Dorme, cidade maldita,
Teu sono de escravidão!...
Dorme, vestal da pureza,
Sobre os coxins do Sultão!...
Dorme, filha da Geórgia,
Prostituta em negra órgia
Sê hoje Lucrécia Bórgia
Da desonra no balcão!...
Dormir?!... Não! Que a infame grita
Lá se alevanta fatal...
Corre o champagne e a desonra
Na orgia descomunal...
Na fronte já tens um laço...
Cadeias de ouro no braço,
De pérolas um baraço,
-Adornos da saturnal!
Lonca!... Nem sabes que as luzes,
Que acendeu p'ra as saturnais,
São do enterro de seus brios
Tristes círios funerais...
Que o seu grito de alegria
E o estertor da agonia,
A que responde a ironia
Do riso de Satanás!...
Morreste... E ao teu saimento
Dobra a procela no céu.
E os astros - olhar dos mortos -
A mão da noite escondeu.
Vê!... Do raio mostra a lampa
Mão de espectro, que destampa
Com dedos de ossos a campa,
Onde a glória adormeceu.
E erguem-se as lápides frias
Saltam bradando os heróis:
"Quem ousa da eternidade
Roubar-nos o sono a nós?"
Responde o espectro: "A desgraça!
Que a realeza, que passa,
Com o sangue de vossa raça,
Cospe lodo sobre vós! . . ''
Fugi, fantasmas augustos!
Caveiras que coram mais
Do que essas faces vermelhas
Dos infames pariás!...
Fugi do solo maldito...
Embuçai-vos no infinito!...
E eu por detrás do granito
Dos montes ocidentais...
Eu também fujo... Eu fugindo!...
Mentira desses vilões!.,.
Não foge a nuvem trevosa
Quando em asas de tufões,
Sobe dos céus à esplanada,
Para tomar emprestada
De raios uma outra espada,
À luz das constelações!...
Como o tigre na caverna
Afia as garras no chão,
Como em Elba amola a espada
Nas pedras - Napoleão,
Tal eu - vaga encapelada,
Recuo de uma passada,
P'ra levar de derribada
Rochedos, reis, multidões. . .!
III
"Pernambuco! Um dia eu vi-te
Dormido imenso ao luar,
Com os olhos quase cerrados.
Com os lábios - quase a falar...
Do braço o clarim suspenso,
-O punho no sabre extenso
De pedra - recife imenso,
Que rasga o peito do mar...
E eu disse: Silêncio. ventos!
Cala a boca, furacão!
No sonho daquele sono Perpassa a Revolução!
Este olhar que não se move
"Stá fito em - Oitenta e Nove -
Lê Homero - escuta Jove...
- Robespierre - Dantão.
Naquele crânio entra em ondas
O verbo de Mirabeau...
Pernambuco sonha a escada
Que também sonhou Jacó;
Cisma a República alçada,
E pega os copos da espada,
Enquanto em su'alma brada:
"Somos irmãos, Vergniaud."
Então repeti ao povo:
-Desperta do sono teu!
Sansão - derroca as colunas!
Quebra os ferros - Prometeu!
Vesúvio curvo - não pares,
Ignea coma solta aos ares,
Em lavas inunda os mares
Mergulha o gládio no céu.
República!... Vôo ousado
Do homem feito condor!
Raio de aurora inda oculta
Que beija a fronte ao Tabor!
Deus! Por qu'enquanto que o monte
Bebe a luz desse horizonte,
Deixas vagar tanta fronte,
No vale envolto em negror?!...
Inda me lembro... Era, há pouco,
A luta!... Horror!... Confusão!...
A morte voa rugindo
Da garganta do canhão!..
O bravo a fileira cerra!...
Em sangue ensopa-se a terra!...
E o fumo - o corvo da guerra -
Com as asas cobre a amplidão...
Cheguei! . . . Como nuvens tontas,
Ao bater no monte - além,
Topam, rasgam-se, recuam...
Tais a meus pés vi também
Hostes mil na luta inglória...
...Da pirâmide da glória
São degraus... Marcha a vitória,
Porque este braço a sustém.
Foi uma luta de bravos
Como a luta do jaguar,
De sangue eurubesce a terra,
- De fogo enrubesce o ar!...
. . . Oh! . . . mas quem faz que eu não vença?
- O acaso... - avalanche imensa,
Da mão do Eterno suspensa,
Que a idéia esmaga ao tombar!...
Não importa! A liberdade
É como a hidra, o Anteu.
Se no chão rola sem forças,
Mais forte do chão se ergueu...
São os seus ossos sangrentos
Gládios terríveis, sedentos...
E da cinza solta aos ventos
Mais um Graco apareceu!...
Dorme, cidade maldita!
Teu sono de escravidão!
Porém no vasto sacrário
Do templo do coração,
Ateia o lume das lampas
Talvez que um dia dos pampas
Eu surgindo quebre as campas
Onde te colam no chão.
Adeus! Vou por ti maldito
Vagar nos ermos pauis.
Tu ficas morta, na sombra,
Sem vida, sem fé, sem luz!...
Mas quando o povo acordado
Te erguer do tredo valado,
Virá livre, grande, ousado,
De pranto banhar-me a cruz!...
IV
Assim falara o vulto errante e negro,
Como a estátua sombria do revés,
Uiva o tufão nas dobras de seu manto,
Como um cão do senhor ulula aos pés...
Inda um momento esteve solitário
Da tempestade semelhante ao deus,
Trocando frases com os trovões no espaço
Raios com os astros nos sombrios céus...
Depois sumiu-se dentre as brumas densas
Da negra noite - de su'alma irmã...
E longe... longe... no horizonte imenso
Ressonava a cidade cortesã!...
Vai! . . . Do sertão esperam-te as Termópilas
A liberdade ainda pulula ali...
Lá não vão vermes perseguir as águias,
Não vão escravos perseguir a ti!
Vai!... Que o teu manto de mil balas roto
E uma bandeira, que não tem rival.
-Desse suor é que Deus faz os astros...
Tens uma espada, que não foi punhal.
Vai, tu que vestes do bandido as roupas,
Mas não te cobres de uma vil libré
Se te renega teu país ingrato
O mundo, a glória tua pátria é!...
V
E foi-se... E inda hoje nas horas errantes
Que os cedros farfalham, que ruge o tufão,
E os lábios da noite murmuram nas selvas
E a onça vagueia no vasto sertão.
Se passa o tropeiro nas ermas devesas,
Caminha medroso, figura-lhe ouvir
O infrene galope d'Espectro soberbo,
Com um grito de glória na boca a fugir.
Que importa se o túm'lo ninguém lhe conhece?
Nem tem epitáfio, hem leito, nem cruz?...
Seu túmulo é o peito do vasto universo
o espaço-por cúpula - as conchas azuis!...
. . . Mas contam que um dia rolara o oceano
Seu corpo da praia, que a vida lhe deu...
Enquanto que a glória rolava sua alma
Na margens da história, na areia do céu!...
Oitavas a Napoleão
(Tradução do espanhol, de LOZANO)
Águia das solidões!. . . Ninho atrevido
Foram-te as borrascosas tempestades,
Flamígero cometa suspendido
Sobre o céu infinito das idades.
Tu que, no lago intérmino do olvido,
Lançaste tuas régias claridades...
Deus caído do trono dos mais deuses...
Quem recebeu teus últimos adeuses?...
Não foram as Pirâmides, que ouviram
De teus passos o som e se inclinaram...
Nem as águas do Nilo, que te viram,
E co'as ondas teu nome murmuraram...
Não foram as cidades, que brandiram
As torres como facho... e te aclararam..
Quem foi? Silêncio!... trêmulo de medo
Vejo apenas-um mar... vejo-um rochedo...
A terra, o mar, os céus... espaço estreito
Eram p'ra tua planta de gigante,
Para tecto dos paços teus foi feito
O firmamento colossal, flutuante
Como diadema - O!; sóis... E como leito
O antártico pólo de diamante...
Teu féretro qual foi?... Titão do Sena
O penhasco fatal de Santa Helena...
Assassina do Encélado da guerra
Só tu foste, Albion... do mar senhora..
Por quê? Porque um pedaço aí de terra
Foi pedir-te o gigante em negra hora...
E lhe deste um penhasco... Oh! Lá s`encerra
Tua lenda mais hórrida... Traidora!
Lá seu espectro envolta na mortalha
Aos quatro céus a maldição espalha...
Ao leão, que temias, enjaulaste;
E de longe escutando seu rugido,
Tu, senhora do mar... tu desmaiaste!
Pelo punhal traidor ele ferido
Caiu-te aos pés... Então tu respiraste,
Cobarde vencedora do vencido...
Nem mesmo todo o oceano poderia
Lavar este padrão de covardia...
Tu não és tão culpada!... Aonde estava
A França tão potente e tão temida?...
Oh! por que o não salvou?... se o contemplava
Lá dos gelos dos Alpes-soerguida!?...
E ele que a fez tão grande?... Ela folgava!...
Enquanto ao longe do colosso a vida,
Como um vulcão antigo e moribundo
Lento expirava nesse mar profundo.
Boa-Noite
Veux-tu donc partir? Le jour est encore éloigné
C'était le rossignol et non pas l'aloustte
Dont le chant a frappé ton oreille inquiete;
Il chante la nuit sur les branches de ce grenadier,
Crois-moi, cher ami, c'était le rossignol.
SHAKESPEARE
Boa-noite, Maria! Eu vou-me embora.
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa-noite, Maria! É tarde... é tarde...
Não me apertes assim contra teu seio.
Boa-noite!... E tu dizes - Boa-noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não mo digas descobrindo o peito
- Mar de amor onde vagam meus desejos.
Julieta do céu! Ouve... a calhandra
Já rumoreja o canto da matina.
Tu dizes que eu menti?... pois foi mentira...
. . . Quem cantou foi teu hálito, divina!
Se à estrela-d'alva os derradeiros raios
Derrama nos jardins do Capuleto,
Eu direi, me esquecendo d'alvorada:
"É noite ainda em teu cabelo preto..."
E noite ainda! Brilha na cambraia
-Desmanchado o roupão, a espádua nua -
O globo de teu peito entre os arminhos
Como entre as névoas se balouça a lua...
É noite, pois! Durmamos, Julieta!
Recende a alcova ao trescalar das flores,
Fechemos sobre nós estas cortinas...
-São as asas do arcanjo dos amores.
A frouxa luz da alabastrina lâmpada
Lambe voluptuosa os teus contornos...
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doudo afago de meus lábios mornos.
Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos
Treme tua alma, como a lira ao vento,
Das teclas de teu seio que harmonias,
Que escalas de suspiros, bebo atento!
Ai! Canta a cavatina do delírio,
Ri, suspira, soluça, anseia e chora...
Marion! Marion!... É noite ainda.
Que importa os raios de uma nova aurora?!...
Como um negro e sombrio firmamento,
Sobre mim desenrola teu cabelo...
E deixa-me dormir balbuciando:
-Boa-noite! -, formosa Consuelo!...
Adormecida
Ses longs cheveux épars la couvrent tout entière
La croix de son collier repose dans sa main,
Comme pour témaigner qu'elle a fait sa prière.
Et qu'elle va la faire en s'éveiliant demain.
A DE MUSSET
Uma noite eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.
'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte
Via-se a noite plácida e divina.
De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras
Iam na face trêmulos - beijá-la.
Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe. . . a flor fugia. . .
Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!
E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
P'ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...
Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
"ó flor! -tu és a virgem das campinas!
"Virgem!-tu és a flor da minha vida!.. ."
Jesuítas
(SÉCULO XIII)
Ó mes frères, je viens vous apporter mon Dieu,
Je viens vous apporter ma tête!
V. HUGO (Chatiments)
Quando o vento da Fé soprava Europa,
Como o tufão, que impele ao ar a tropa
Das águias, que pousavam no alcantil;
Do zimbório de Roma - a ventania
O bando dos Apost'los sacudia
Aos cerros do Brasil.
Tempos idos! Extintos luzimentos!
O pó da catequese aos quatro ventos
Revoava nos céus...
Floria após na Índia, ou na Tartária,
No Mississipi, no Peru, na Arábia
Uma palmeira - Deus! -
O navio maltês, do Lácio a vela,
A lusa nau, as quinas de Castela,
Do Holandês a galé
Levava sem saber ao mundo inteiro
Os vândalos sublimes do cordeiro,
Os átilas da fé.
Onde ia aquela nau?-Ao Oriente.
A outra? - Ao pólo. A outra? - Ao ocidente.
Outra? - Ao norte. Outra? - Ao sul.
E o que buscava? A foca além no pólo;
O âmbar, o cravo no indiano solo
Mulheres em 'Stambul.
Grandes homens! Apóstolos heróicos!...
Eles diziam mais do que os estóicos:
"Dor, - tu és um prazer!
"Grelha, -és um leito! Brasa,-és uma gema!
Cravo, - és um cetro! Chama, - um diadema
Ó morte, - és o viver!"
Outras vezes no eterno itinerário
O sol, que vira um dia no Calvário
Do Cristo a santa cruz,
Enfiava de vir achar nos Andes
A mesma cruz, abrindo os braços grandes
Aos índios rubros, nus.
Eram eles que o verbo do Messias
Pregavam desde o vale às serranias,
Do pólo ao Equador...
E o Niagara ia contar aos mares. . .
E o Chimborazo arremessava aos ares
O nome do Senhor!...
Poesia e Mendicidade
(No álbum da Ex.ma Sr.a D. Maria Justina Proença Pereira
Peixoto)
I
Senhora! A Poesia outrora era a Estrangeira,
Pálida, aventureira, errante a viajar,
Batendo em duas portas - ao grito das procelas -
Ao céu - pedindo estrelas, à terra - um pobre lar!
Visão-de áureos lauréis-porém de manto esquálido,
Mulher-de lábio pálido-e olhar-cheio de luz.
Seus passos nos espinhos em sangue se assinalam...
E os astros lhe resvalam-à flor dos ombros nus...
II
Olhai! O sol descamba... A tarde harmoniosa
Envolve luminosa a Grécia em frouxo véu.
Na estrada ao som da vaga, ao suspirar do vento,
De um marco poeirento um velho então se ergueu.
Ergueu-se tateando... é cego... o cego anseia...
Porém o que tateia aquela augusta mão?...
Talvez busca pegar o sol, que lento expira!...
Fado cruel... mentira!... Homero pede pão!
III
Mas ai! volvei, Senhora, os vossos belos olhos
Daquele mar de abrolhos, a um novo quadro! olhai!
Do vasto salão gótico eu ergo o reposteiro...
O lar é hospitaleiro... Entrai, Senhora, entrei!
Estamos na média idade. Arnês, gládio, armadura
Servem de compostura à sala vasta e chã.
A um lado um galgo esvelto ameiga e acaricia
A mão suave, esguia - à loura castelã.
Vai o banquete em meio... O bardo se alevanta
Pega da lira... canta... uma canção de amor...
Ouvi-o! Para ouvi-lo a estrela pensativa
Alonga pela ogiva um raio de languor!
Dos ramos do carvalho a brisa se debruça...
Na sala alguém soluça... (amor, ou languidez?)
Súbito a nota extrema anseia, treme, rola...
Alguém pede uma esmola... Senhora, não olheis!...
Assim nos tempos idos a musa canta e pede...
Gênio e mendigo... vede... o abismo de irrisões!
Tasso implora um olhar! Vai Ossian mendicante...
Caminha roto o Dante! e pede pão Camões.
IV
Bem sei, Senhora, que ao talento agora
Surgiu a aurora de uma luz amena.
Hoje há salário p'ra qualquer trabalho
Cinzel, ou malho, ferramenta ou penal
Melhor que o Rei sabe pagar o pobre
Melhor que o nobre --protetor verdugo-
Foi surdo um trono... à maior glória vossa.
Abre-se a choça aos Miseráveis de Hugo.
Porém não sei se é por costume antigo,
Que inda é mendigo do cantor o gênio.
Mudem-se os panos do cenário a esmo
O vulto é o mesmo... num melhor proscênio...
V
Hoje o Poeta - caminheiro errante,
Que tem saudade de um país melhor
Pede uma pérola - à maré montante,
Do seio às vagas-pede-um outro amor.
Alma sedenta de ideal na terra
Busca apagar aquela sede atroz!
Pede a harmonia divinal, que encerra
Do ninho o chilro... da tormenta a voz!
E o rir da folha, o sussurrar da fala,
Trenos da estrela no amoroso estio.
Voz que dos poros o Universo exala
Do céu, da gruta, do alcantil, do rio!
Pede aos pequenos, desde o verme ao tojo,
Ao fraco, ao forte... - preces, gritos, uivos...
Pede das águias o possante arrojo,
Para encontrar os meteoros ruivos.
Pede à mulher que seja boa e linda
Vestal de um tipo que o ideal revela...
Pois ser formosa é ser melhor ainda...
Se és boa-és luz... mas se és formosa-estrela...
E pede à sombra p'ra aljofrar de orvalhos
A fronte azul da solidão noturna.
E pede às auras p'ra afagar os galhos
E pede ao lírio p'ra enfeitar a fuma.
Pede ao olhar a maciez suave
Que tem o arminho e o edredom macio,
O aveludado da penugem d'ave,
Que afaga as plumas no palmar sombrio.
E quando encontra sobre a terra ingrata
Um reverbero do clarão celeste,
-Alma formada de uma essência grata,
Que a lua - doura, e que um perfume veste;
Um rir, que nasce como o broto em maio;
Mostrando seivas de bondade infinda,
Fronte que guarda- a claridade e o raio,
- Virtude e graça - o ser bondosa e linda...
Então, Senhora, sob tanto encanto
Pede o Poeta (que neo tem renome)
-Versos-à brisa p'ra vos dar um canto...
Raios ao sol - p'ra vos traçar o nome! . . .
Hino ao Sono
Ó Sono !ó noivo pálido
Das noites perfumosas,
Que um chão de nebulosas
Trilhas pela amplidão!
Em vez de verdes pâmpanos,
Na branca fronte enrolas
As lânguidas papoulas,
Que agita a viração.
Nas horas solitárias,
Em que vagueia a lua,
E lava a planta nua
Na onda azul do mar,
Com um dedo sobre os lábios
No vôo silencioso,
Vejo-te cauteloso
No espaço viajar!
Deus do infeliz, do mísero!
Consolação do aflito!
Descanso do precito,
Que sonha a vida em ti!
Quando a cidade tétrica
De angústia e dor não geme...
É tua mão que espreme
A dormideira ali.
Em tua branca túnica
Envolves meio mundo.
E teu seio fecundo
De sonhos e visões,
Dos templos aos prostíbulos
Desde o tugúrio ao Paço,
Tu lanças lá do espaço
Punhados de ilusões!...
Da vide o sumo rúbido,
Do hatchiz a essência,
O ópio, que a indolência
Derrama em nosso ser,
Não valem, gênio mágico,
Teu seio, onde repousa
A placidez da lousa
E o gozo de viver...
Ó sono! Unge-me as pálpebras..
Entorna o esquecimento
Na luz do pensamento,
Que abrasa o crânio meu.
Como o pastor da Arcádia,
Que uma ave errante aninha...
Minh'alma é uma andorinha...
Abre-lhe o seio teu.
Tu, que fechaste as pétalas
Do lírio, que pendia,
Chorando a luz do dia
E os raios do arrebol,
Também fecha-me as pálpebras...
Sem Ela o que é a vida?
Eu sou a flor pendida
Que espera a luz do sol.
O leite das eufórbias
P'ra mim não é veneno...
Ouve-me, ó Deus sereno!
Ó Deus consolador!
Com teu divino bálsamo
Cala-me a ansiedade!
Mata-me esta saudade,
Apaga-me esta dor.
Mas quando, ao brilho rútilo
Do dia deslumbrante,
Vires a minha amante
Que volve para mim,
Então ergue-me súbito...
É minha aurora linda...
Meu anjo... mais ainda...
É minha amante enfim!
Ó sono! Ó Deus noctívago!
Doce influência amiga!
Gênio que a Grécia antiga
Chamava de Morfeu,
Ouve!... E se minhas súplicas
Em breve realizares...
Voto nos teus altares
Minha lira de Orfeu!
No Álbum do Artista
Luís
C. Amoedo
Nos tempos idos... O alabastro, o mármore
Reveste as formas desnuadas, mádidas
De Vênus ou Friné.
Nem um véu p'ra ocultar o seio trêmulo,
Nem um tirso a velar a coxa pálida...
O olhar não sonha... vê!
Um dia o artista, num momento lúcido,
Entre gazas de pedra a loura Aspásia
Amoroso envolveu.
Depois, surpreso!... viu-a inda mais lânguida...
Sonhou mais doido aquelas formas lúbricas...
Mais nuas sob um véu.
E o mistério do espírito... A modéstia
E dos talentos reis a santa púrpura...
Artista, és belo assim...
Este santo pudor é só dos gênios! -
Também o espaço esconde-se entre névoas...
E no entanto é... sem fim!
Versos a Um Viajante
Ai! nenhum mago da Caldéia sábia
A dor abrandará que me devora.
F. VARELA
Tenho saudades das cidades vastas,
Dos ínvios cerros, do ambiente azul...
Tenho saudades dos cerúleos mares
Das belas filhas do país do sull
Tenho saudades de meus dias idos
-Pét'las perdidas em fatal paul-
Pét'las, que outrora desfolhamos juntos,
Morenas filhas do país do sul!
Lá onde as vagas nas areias rolam,
Bem como aos pés da Oriental 'Stambul. . .
E da Tijuca na nitente espuma
Banham-se as filhas do país do sul.
Onde ao sereno a magnólia esconde
Os pirilampos "de lanterna azul",
Os pirilampos, que trazeis nas coifas,
Morenas filhas do pais do sul.
Tenho saudades. .. ai! de ti, São Paulo,
-Rosa de Espanha no hibernal Friul -
Quando o estudante e a serenata acordam
As belas filhas do país do sul.
Das várzeas longas, das manhãs brumosas
Noites de névoas, ao rugitar do sul,
Quando eu sonhava nos morenos seios
Das belas filhas do país do sul.
Onde Estás
É meia-noite. . . e rugindo
Passa triste a ventania,
Como um verbo de desgraça,
Como um grito de agonia.
E eu digo ao vento, que passa
Por meus cabelos fugaz:
"Vento frio do deserto,
Onde ela está? Longe ou perto?
" Mas, como um hálito incerto,
Responde-me o eco ao longe:
"Oh! minh'amante, onde estás?...
Vem! É tarde! Por que tardas?
São horas de brando sono,
Vem reclinar-te em meu peito
Com teu lânguido abandono!...
'Stá vazio nosso leito...
'Stá vazio o mundo inteiro;
E tu não queres qu'eu fique
Solitário nesta vida...
Mas por que tardas, querida?...
Já tenho esperado assaz...
Vem depressa, que eu deliro
Oh! minh'amante, onde estás?..
Estrela-na tempestade,
Rosa-nos ermos da vida,
Iris-do náufrago errante,
Ilusão-d'alma descrida!
Tu foste, mulher formosa!
Tu foste, ó filha do céu!...
. . . E hoje que o meu passado
Para sempre morto jaz...
Vendo finda a minha sorte,
Pergunto aos ventos do Norte...
"Oh! minh'amante, onde estás?..."
A Boa Vista
Sonha, poeta, sonha! Aqui sentado
No tosco assento da janela antiga,
Apóias sobre a mão a face pálida,
Sorrindo -dos amores à cantiga.
ÁLVARES DE AZEVEDO
Era uma tarde triste, mas límpida e suave...
Eu -pálido poeta - seguia triste e grave
A estrada, que conduz ao campo solitário,
Como um filho, que volta ao paternal sacrário,
E ao longe abandonando o múrmur da cidade
-Som vago, que gagueja em meio à imensidade, -
No drama do crepúsculo eu escutava atento
A surdina da tarde ao sol, que morre lento.
A poeira da estrada meu passo levantava,
Porém minh'alma ardente no céu azul marchava
E os astros sacudia no vôo violento
-Poeira, que dormia no chão do firmamento.
A pávida andorinha, que o vendaval fustiga,
Procura os coruchéus da catedral antiga.
Eu - andorinha entregue aos vendavais do inverno.
Ia seguindo triste p'ra o velho lar paterno.
Como a águia, que do ninho talhado no rochedo
Ergue o pescoço calvo por cima do fraguedo,
-(P'ra ver no céu a nuvem, que espuma o firmamento,
E o mar,-corcel que espuma ao látego do vento. . .
)
Longe o feudal castelo levanta a antiga torre,
Que aos raios do poente brilhante sol escorre!
Ei-lo soberbo e calmo o abutre de granito
Mergulhando o pescoço no seio do infinito,
E lá de cima olhando com seus clarões vermelhos
Os tetos, que a seus pés parecem de joelhos!...
Não! Minha velha torre! Oh! atalaia antiga,
Tu olhas esperando alguma face amiga,
E perguntas talvez ao vento, que em ti chora:
"Por que não volta mais o meu senhor d'outrora?
Por que não vem sentar-se no banco do terreiro
Ouvir das criancinhas o riso feiticeiro
E pensando no lar, na ciência, nos pobres
Abrigar nesta sombra seus pensamentos nobres?
Onde estão as crianças-grupo alegre e risonho
- Que escondiam-se atrás do cipreste tristonho...
Ou que enforcaram rindo um feio Pulchinello,
Enquanto a doce Mãe, que é toda amor, desvelo
Ralha com um rir divino o grupo folgazão,
Que vem correndo alegre beijar-lhe a branca mão?...~
É nisto que tu cismas, ó torre abandonada,
Vendo deserto o parque e solitária a estrada.
No entanto eu ~ estrangeiro, que tu já não conheces-
No limiar de joelhos só tenho pranto e preces.
Oh! deixem-me chorar!... Meu lar... meu doce ninho!
Abre a vetusta grade ao filho teu mesquinho!
Passado- mar imenso!... inunda-me em fragrância!
Eu não quero lauréis, quero as rosas da infância.
Ai! Minha triste fronte, aonde as multidões
Lançaram misturadas glórias e maldições...
Acalenta em teu seio, ó solidão sagrada!
Deixa est'alma chorar em teu ombro encostada!
Meu lar está deserto... Um velho cão de guarda
Veio saltando a custo roçar-me a testa parda,
Lamber-me após os dedos, porém a sós consigo
Rusgando com o direito, que tem um velho amigo..
Como tudo mudou-se!... O jardim 'stá inculto
As roseiras morreram do vento ao rijo insulto..;
A erva inunda a terra; o musgo trepa os muros
A ortiga silvestre enrola em nós impuros
Uma estátua caída, em cuja mão nevada
A aranha estende ao sol a teia delicada!...
Mergulho os pés nas plantas selvagens, espalmadas,
As borboletas fogem-me em lúcidas manadas...
E ouvindo-me as passadas tristonhas, taciturnas,
Os grilos, que cantavam, calaram-se nas furnas...
Oh! jardim solitário! Relíquia do passado!
Minh'alma, como tu. é um parque arruinado!
Morreram-me no seio as rosas em fragrância,
Veste o pesar os muros dos meus vergéis da infância,
A estátua do talento, que pura em mim s'erguia,
Jaz hoje - e nela a turba enlaça uma ironia!...
Ao menos como tu, lá d'alma num recanto
Da casta poesia ainda escuto o canto, -
Voz do céu, que consola, se o mundo nos insulta,
E na gruta do seio murmura um treno oculta.
Entremos!... Quantos ecos na vasta escadaria,
Nos longos corredores respondem-me à porfia!...
Oh! casa de meus pais!... A um crânio já vazio,
Que o hóspede largando deixou calado e frio,
Compara-te o estrangeiro -- caminhando indiscreto
Nestes salões imensos, que abriga o vasto teto.
Mas eu no teu vazio - vejo uma multidão
Fala-me o teu silêncio - ouço-te a solidão!...
Povoam-se estas salas...
E eu vejo lentamente
No solo resvalarem falando tenuemente
Dest'alma e deste seio as sombras venerandas
Fantasmas adorados - visões sutis e brandas...
Aqui. . . além. . . mais longe. . . por onde eu movo
o passo,
Como aves, que espantadas arrojam-se ao espaço,
Saudades e lembranças s'erguendo -bando alado
-Roçam por mim as asas voando p'ra o passado.
A Uma Estrangeira
LEMBRANÇA DE UMA NOITE NO MAR
Sens-tu mon coeur, comme U palpite?
Le tien comme il battait gaiement!
Je m'en vais pourtant, ma petite,
Bien loin, bien vite, Toujours t'aimant.
(Chanson )
Inês! nas terras distantes,
Aonde vives talvez,
Inda lembram-te os instantes
Daquela noite divina?...
Estrangeira, peregrina,
Quem sabes?-Lembras-te, Inês?
Branda noite! A noite imensa
Não era um ninho?-Talvez!. ..
Do Atlântico a vaga extensa
Não era um berço? - Oh! Se o era...
Berço e ninho... ai, primavera!
O ninho, o berço de Inês.
Às vezes estremecias...
Era de febre? Talvez...
Eu pegava-te as mãos frias
P'ra aquentá-las em meus beijos...
Oh! palidez! Oh! desejos!
Oh! longos cílios de Inês.
Na proa os nautas cantavam;
Eram saudades?... Talvez!
Nossos beijos estalavam
Como estala a castanhola.:.
Lembras-te acaso, espanhola?
Acaso lembras-te, Inês?
Meus olhos nos teus morriam...
Seria vida?-Talvez!
E meus prantos te diziam:
"Tu levas minh'alma, ó filha,
Nas rendas desta mantilha...
Na tua mantilha, Inês!"
De Cadiz o aroma ainda
Tinhas no seio... -Talvez!
De Buenos Aires a linda,
Volvendo aos lares, trazia
As rosas de Andaluzia
Nas lisas faces de Inês!
E volvia a Americana
Do Plata às vagas... Talvez?
E a brisa amorosa, insana
Misturava os meus cabelos
Aos cachos escuros, belos,
Aos negros cachos de Inês!
As estrelas acordavam
Do fundo do mar... Talvez!
Na proa as ondas cantavam,
E a serenata divina
Tu, com a ponta da botina,
Marcavas no chão... Inês!
Não era cumplicidade
Do céu, dos mares? Talvez!
Dir-se-ia que a imensidade
-Conspiradora mimosa-
Dizia à vaga amorosa:
"Segreda amores a Inês!"
E como um véu transparente,
Um véu de noiva... talvez,
Da lua o raio tremente
Te enchia de casto brilho...
E a rastos no tombadilho
Cala a teus pés... Inês!
E essa noite delirante
Pudeste esquecer?-Talvez...
Ou talvez que neste instante,
Lembrando-te inda saudosa
Suspires, moça formosa!...
Talvez te lembres... Inês!
Perseverando
(Tradução de v. HUGO)
A Regueira Costa
A águia é o gênio... Da tormenta o pássaro,
Que do monte arremete altivo píncaro,
Qu'ergue um grito aos fulgores do arrebol,
Cuja garra jamais se pela em lodo,
E cujo olhar de fogo troca raios
- Contra os raios do sol.
Não tem ninho de palhas... tem um antro
-Rocha talhada ao martelar do raio,
-Brecha em serra, ant'a qual o olhar tremeu. . .
No flanco da montanha-asilo trêmulo,
Que sacode o tufão entre os abismos
- O precipício e o céu.
Nem pobre verme, nem dourada abelha
Nem azul borboleta... sua prole
Faminta, boquiaberta espera ter...
Não! São aves da noite, são serpentes,
São lagartos imundos, que ela arroja
Aos filhos p'ra viver.
Ninho de rei!... palácio tenebroso,
Que a avalanche a saltar cerca tombando!...
O gênio aí enseiba a geração...
E ao céu lhe erguendo os olhos flamejantes
Sob as asas de fogo aquenta as almas
Que um dia voarão.
Por que espantas-te, amigo, se tua fronte
Já de raios pejada, choca a nuvem?...
Se o réptil em seu ninho se debate?...
É teu folgar primeiro... é tua festa!...
Águias! P'ra vós cad'hora é uma tormenta,
Cada festa um combate!...
Radia!... É tempo!... E se a lufada erguer-se
Muda a noite feral em prisma fúlgido!
De teu alto pensar completa a lei!...
Irmão!-Prende esta mão de irmão na minha!. . .
Toma a lira-Poeta! Águia!-esvoaça!
Sobe, sobe, astro rei! . .
De tua aurora a bruma vai fundir-se
Águia! faz-te mirar do sol, do raio;
Arranca um nome no febril cantar.
Vem! A glória, que é o alvo de vis setas,
É bandeira arrogante, que o combate
Embeleza ao rasgar.
O meteoro real - de coma fúlgida -
Rola e se engrossa ao devorar dos mundos...
Gigante! Cresces todo o dia assim!. :.
Tal teu gênio, arrastando em novos trilhos
No curso audaz constelações de idéias,
Marcha e recresce no marchar sem fim!...
O Coração
O Coração é o colibri dourado
Das veigas puras do jardim do céu.
Um-tem o mel da granadilha agreste,
Bebe os perfumes, que a bonina deu.
O outro-voa em mais virentes balças,
Pousa de um riso na rubente flor.
Vive do mel-a que se chama-crenças-,
Vive do aroma-que se diz-amor.-
Murmúrios da Tarde
Écoute! tout se tait; songe à ta bien-aimée
Ce soir, sous les tilleuls, à la sombre ramée,
Le rayon du couchant laisse un adieu plus doux,
Ce soir, tout va fleurir: I'irnmortelle nature
Se remplit de parfuns, d'amour et de murmure
Comme le lit joyeux de deux jeunes époux.
A. DE MUSSET
Rosa! Rosa de amor purpúrea e bela!
GARRET.
Ontem à tarde, quando o sol morria,
A natureza era um poema santo,
De cada moita a escuridão saia,
De cada gruta rebentava um canto,
Ontem à tarde, quando o sol morria.
Do céu azul na profundeza escura
Brilhava a estrela, como um fruto louro,
E qual a foice, que no chão fulgura,
Mostrava a lua o semicirc'lo d'ouro,
Do céu azul na profundeza escura.
Larga harmonia embalsamava os ares!
Cantava o ninho-suspirava o lago...
E a verde pluma dos sutis palmares
Tinha das ondas o murmúrio vago...
Larga harmonia embalsamava os ares.
Era dos seres a harmonia imensa,
Vago concerto de saudade infinda!
"Sol -não me deixes", diz a vaga extensa,
"Aura-não fujas", diz a flor mais linda;
Era dos seres a harmonia imensa!
"Leva-me! leva-me em teu seio amigo"
Dizia às nuvens o choroso orvalho,
"Rola que foges", diz o ninho antigo,
'Leva-me ainda para um novo galho. ..
Leva-me! leva-me em teu seio amigo."
"Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!
Inda um calor, antes que chegue o frio..."
E mais o musgo se conchega à penha
E mais à penha se conchega o rio...
"Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!
E tu no entanto no jardim vagavas,
Rosa de amor, celestial Maria...
Ai! como esquiva sobre o chão pisavas,
Ai! como alegre a tua boca ria...
E tu no entanto no jardim vagavas.
Eras a estrela transformada em virgem!
Eras um anjo, que se fez menina!
Tinhas das aves a celeste origem.
Tinhas da lua a palidez divina,
Eras a estrela transformada em virgem!
Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto,
Que bela rosa! que fragrância meiga!
Dir-se-ia um riso no jardim aberto,
Dir-se-ia um beijo, que nasceu na veiga...
Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto!. . .
E eu, que escutava o conversar das flores,
Ouvi que a rosa murmurava ardente:
"Colhe-me, ó virgem,-não terei mais dores,
Guarda-me, ó bela, no teu seio quente. . .
" E eu escutava o conversar das flores.
"Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!"
Também então eu murmurei cismando...
Minh'alma é rosa, que a geada esfria...
Dá-lhe em teus seios um asilo brando...
"Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!..."
Pelas Sombras
Ao Padre Francisco de Paula
C'est que já suis frappé du doute
C'est que l'étoile de Ia foi
N'éclaire plus ma noire route:
Tout est abime autour de moil
LA MORVONNAIS
Senhor! A noite é brava... a praia é toda escolhos.
Ladram na escuridão das Circes as cadelas...
As lívidas marés atiram, a meus olhos,
Cadáveres, que riem à face das estrelas!
Da garça do oceano as ensopadas penas
O mórbido suor enxugam-me da testa.
Na aresta do rochedo o pé se firma apenas...
No entanto ouço do abismo a rugidora festa!...
Nas orlas de meu manto o vendaval s'enrola...
Como invisível destra açoita as faces minhas...
Enquanto que eu tropeço... um grito ao longe rola...
"Quem foi?" perguntam rindo as solidões marinhas.
Senhor! Um facho ao menos empresta ao caminhante.
A treva me assoberba... O' Deus! dá-me um clarão!
E uma Voz respondeu nas sombras triunfante:
"Acende, ó Viajorl -o facho da Razão!"
Senhor! Ao pé do lar, na quietação, na calma
Pode a flama subir brilhante, loura, eterna;
Mas quando os vendavais, rugindo, passam n'alma,
Quem pode resguardar a trêmula lanterna?
Torcida... desgrenhada aos dedos da lufada
Bateu-me contra o rosto... e se abismou na
Eu vi-a vacilar... e minha mão queimada
A lâmpada sem luz embalde ao raio eleva.
Quem fez a gruta - escura, o pirilampo cria!
Quem fez a noite-azul, inventa a estrela clara!
Na fronte do oceano- acende uma ardentia!
Com o floco do Santelmo - a tempestade aclara!
Mas ai! Que a treva interna - a dúvida constante -
Deixaste assoberbar-me em funda escuridão!...
E uma Voz respondeu nas sombras
triunfante:
"Acende, ó Viajor! a Fé no coração!..."
Ode ao Dous de Julho
(Recitada no Teatro de S. Paulo)
Era no dous de julho. A pugna imensa
Travara-se nos cerros da Bahia...
O anjo da morte pálido cosia
Uma vasta mortalha em Pirajá.
"Neste lençol tão largo, tão extenso,
"Como um pedaço roto do infinito...
O mundo perguntava erguendo um grito:
"Qual dos gigantes morto rolará?!..."
Debruçados do céu... a noite e os astros
Seguiam da peleja o incerto fado...
Era a tocha -o fuzil avermelhado!
Era o Circo de Roma-o vasto chão!
Por palmas-o troar da artilharia!
Por feras-os canhões negros rugiam!
Por atletas-dous povos se batiam!
Enorme anfiteatro - era a amplidão!
Não! Não eram dous povos, que abalavam
Naquele instante o solo ensangüentado...
Era o porvir-em frente do passado,
A Liberdade-em frente à Escravidão,
Era a luta das águias - e do abutre,
A revolta do pulso-contra os ferros,
O pugilato da razão - com os erros,
O duelo da treva-e do clarão!...
No entanto a luta recrescia indômita...
As bandeiras - como águias eriçadas -
Se abismavam com as asas desdobradas
Na selva escura da fumaça atroz...
Tonto de espanto, cego de metralha,
O arcanjo do triunfo vacilava...
E a glória desgrenhada acalentava
O cadáver sangrento dos heróis!...
Mas quando a branca estrela matutina
Surgiu do espaço... e as brisas forasteiras
No verde leque das gentis palmeiras
Foram cantar os hinos do arrebol,
Lá do campo deserto da batalha Uma voz se elevou clara
e divina:
Eras tu- Liberdade peregrina!
Esposa do porvir-noiva do sol!...
Eras tu que, com os dedos ensopados
No sangue dos avós mortos na guerra,
Livre sagravas a Colúmbia terra,
Sagravas livre a nova geração!
Tu que erguias, subida na pirâmide,
Formada pelos mortos de Cabrito,
Um pedaço de gládio - no infinito...
Um trapo de bandeira - n'amplidão!...
A Duas Flores
São duas flores unidas,
São duas rosas nascidas
Talvez no mesmo arrebol,
Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.
Unidas, bem como as penas
Das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.
Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.
Unidas... Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!
O Tonel das Danaides
Diálogo
Na torrente caudal de seus cabelos negros
Alegre eu embarquei da vida a rubra flor.
-Poeta! Eras o Doge o anel lançando às ondas . . .
Ao fundo de um abismo... arremessaste c amor.
Depois minh'alma ao som da Lira de cem vozes
Sublimes fantasias em notas desfolhou.
-Cleópatra também p'ra erguer no Tibre a espuma
As pér'las do colar nas vagas desfiou!
Depois fiz de meu verso a púrpura escarlate
Por onde ela pisasse em marcha triunfal!
-Como Hércules, volveste aos pos da insana Onfália
O fuso feminil de uma paixão fatal.
Um dia ela me disse: "Eu sou uma exilada!"
Ergui-me... e abandonei meu lar e meu país...
-Assim o filho pródigo atira as vestes quentes
E treme no caminho aos pés da meretriz.
E quando debrucei-me à beira daquela alma
P'ra ver toda riqueza e afetos que lhe dei! . . .
-Ai! nada mais achaste! o abismo 05 devorara...
O pego se esqueceu da dádiva do Rei!
Na gruta do chacal ao menos restam ossos...
Mas tudo sepultou-me aquele amor cruel!
-Poeta! O coração da fria Messalina
É das fatais Danaides o pérfido Tonel!
A Luís
(No dia de seu Natalício)
A imaginação, com O VOO ousado
aspira a princípio à eternidade...
Depois um pequeno espaço basta
em breve
para os destroços de nossas
esperanças iludidas! . .
GOETHE
Como um perfume de longínquas plagas
Traz o vento da pátria ao peregrino,
O meu amigo! que saudade infinda
Tu me trazes dos tempos de menino!
É o ledo enxame de sutis abelhas
Que vem lembrar à flor o mel
d'aurora...
Acres perfumes de uma idade
ardente
Quando o lábio sorri... mas
nunca chora!
Que tempos idos! que esperanças louras!
Que cismas de poesia e de futuro!
Nas páginas do triste Lamartine
Quanto sonho de amor pousava puro! ..
E tu falavas de um amor celeste,
De um anjo, que depois se fez esposa. . .
-Moça, que troca os risos de criança
Pelo meigo cismar de mãe formosa.
Oh! meu amigo! neste doce instante
O vento do passado em mim suspira,
E minh'alma estremece de alegria,
Como ao beijo da noite geme a lira.
Tu paraste na tenda, ó peregrino!
Eu vou seguindo do deserto a trilha;
Pois bem... que a lira do poeta errante
Seja a bênção do lar e da família.
Dalila
Fair defect of nature.
MILTON (Paradise Lost)
Foi Desgraça meu Deus!... Não!... Foi loucura
Pedir seiba de vida-à sepultura,
Em gelo - me abrasar,
Pedir amores -a Marco sem brio,
E a rebolcar-me em leito imundo e frio
-A ventura buscar.
Errado viajor - sentei-me à alfombra
E adormeci da mancenilha à sombra
Em berço de cetim...
Embalava-me a brisa no meu leito...
Tinha o veneno a lacerar-me o peito
- A morte dentro em mim...
Foi loucura!... No ocaso -tomba o astro;
A estátua branca e pura de alabastro
- Se mancha em lodo vil...
Quem rouba a estrela-à tumba do ocidente?
Que Jordão lava na lustral corrente
O marmóreo perfil?...
Talvez!... Foi sonho!... Em noite nevoenta
Ela passou sozinha, macilenta,
Tremendo a soluçar...
Chorava - nenhum eco respondia...
Sorria-a tempestade além bramia...
E ela sempre a marchar.
E eu disse-lhe: Tens frio? - arde minha alma.
Tens os pés a sangrar?-podes em calma
Dormir no peito meu.
Pomba errante-é meu peito um ninho vago!
Estrela- tens minha alma-imenso lago-
Reflete o rosto teu! . . .
E amamos - Este amor foi um delírio...
Foi ela minha crença, foi meu lírio,
Minha estrela sem véu...
Seu nome era o meu canto de poesia,
Que com o sol - pena de ouro -eu escrevia
Nas laminas do céu.
Em seu seio escondi-me... como à noite
Incauto colibri, temendo o açoite
Das iras do tufão,
A cabecinha esconde sob as asas,
Faz seu leito gentil por entre as gazas
Da rosa do Japão.
E depois... embalei-a com meus cantos
Seu passado esqueci... lavei com prantos
Seu lodo e maldição...
...Mas um dia acordei... E mal desperto
Olhei em torno a mim... -Tudo deserto...
Deserto o coração...
Ao vento, que gemia pelas franças
Por ela perguntei... de suas tranças
À flor que ela deixou...
Debalde... Seu lugar era vazio...
E meu lábio queimado e o peito frio,
Foi ela que o queimou...
Minha alma nodoou no ósculo imundo,
Bem como Satanás -beijando o mundo -
Manchou a criação,
Simum - crestou-me da esperança as flores...
Tormenta - ela afogou nos seus negrores
A luz da inspiração...
Vai, Dalila!... É bem longa
tua estrada...
É suave a descida-terminada
Em báratro cruel.
Tua vida-é um banho de ambrósia...
Mais tarde a morte e a lâmpada
sombria
Pendente do bordel.
Hoje flores... A música soando...
As perlas do Champagne gotejando
Em taças de cristal.
A volúpia a escaldar na lonca insônia...
Mas sufoca os festins de Babilônia
A legenda fatal.
Tens o seio de fogo e a alma fria.
O cetro empunhas lúbrico da orgia
Em que reinas tu só!...
Mas que finda o ranger de uma mortalha,
A enxada do coveiro que trabalha
A revolver o pó.
Não te maldigo, não!... Em vasto campo
Julguei-te - estrela, - e eras - pirilampo
Em meio à cerração...
Prometeu -quis dar luz à fria argila...
Não pude... Pede a Deus, louca Dalila,
A luz da redenção!!...
As Duas Ilhas
Sobre uma página de poesia de V. Hugo
com o mesmo título
Quando à noite - às horas mortas -
O silêncio e a solidão
-Sob o dossel do infinito-
Dormem do mar n'amplidão,
Vê-se, por cima dos mares,
Rasgando o teto dos ares
Dois gigantescos perfis...
Olhando por sobre as vagas,
Atentos, longínquas plagas
Ao clarear dos fuzis.
Quem os vê, olha espantado
E a sós murmura: "O que é?
Ai! que atalaias gigantes,
São essas além de pé?!. . ."
Adamastor de granito
Co'a testa roça o infinito
E a barba molha no mar;
E de pedra a cabeleira
Sacudind'a onda ligeira
Faz de medo recuar...
São-dons marcos miliários,
Que Deus nas ondas plantou.
Dons rochedos, onde o mundo
Dous Prometous amarrou!...
-Acolá. . . (Não tenhas medo!. . . )
E Santa Helena-o rochedo
Desse Titã, que foi rei! . . .
-Ali. .. (Não feches os olhos!. . . )
Ali... aqueles abrolhos
São a ilha de Jersey!...
São eles-os dous gigantes
No século de pigmeus.
São eles - que a majestade
Arrancam da mão de Deus.
-Este concentra na fronte
Mais astros-que o horizonte,
Mais luz - do que o sol lançou! . . .
-Aquele-na destra alçada
Traz segura sua espada
-Cometa, que ao céu roubou!...
E olham os velhos rochedos
O Sena, que dorme além...
E a França, que entre a caligem
Dorme em sudário também...
E o mar pergunta espantado:
"Foi deveras desterrado
Buonaparte -meu irmão?..."
Diz o céu astros chorando:
"E Hugo?. . . " E o mundo pasmando
Diz: "Hugo. . . Napoleão! . . . "
Como vasta reticência
Se estende o silêncio após...
Es muito pequena, ó França,
P'ra conter estes heróis...
Sim! que estes vultos augustos
Para o leito de Procustos
Muito grandes Deus traçou...
Basta os reis tremam de medo
Se a sombra de algum rochedo
Sobre eles se projetou!...
Dizem que, quando, alta noite,
Dorme a terra-e vela Deus,
As duas ilhas conversam
Sem temor perante os céus.
-Jersey curva sobre os mares
À Santa Helena os pensares
Segreda do velho Hugo...
- E Santa Helena no entanto
No Salgueiro enxuga o pranto
E conta o que Ele falou...
E olhando o presente infame
Clamam: "Da turba vulgar
Nós - infinitos de pedra -
Nós havemo-los vingar! .."
E do mar sobre as escumas,
E do céu por sobre as brumas,
Um ao outro dando a mão...
Encaram a imensidade
Bradando: "A Posteridade!..."
Deus ri-se e diz: "Inda não!..."
Ao Ator Joaquim Augusto
Um dia Pigmalião - o estatuário
Da oficina no tosco santuário
Pôs-se a pedra a talhar...
Surgem contornos lânguidos, amenos...
E dos flocos de mármore outra Vênus
Surge dest'outro mar.
De orgulho o mestre ri... A estátua é bela!
Da Grécia as filhas por inveja dela
Vão nas grutas gemer...
Mas o artista soluça: "O Grande Jove!
"Ela é bela . . . bem sei- mas não se move!
"E sombra-e não mulher!"
Então do excelso Olimpo o deus-tonante
Manda que desça um raio fulgurante
À tenda do escultor.
Vive a estátua! Nos olhos -treme o pejo,
Vive a estátua!.. . Na boca-treme um beijo,
Nos seios - treme amor.
O poeta é - o moderno estatuário
Que na vigília cria solitário
Visões de seio nu!
O mármore da Grécia - é o novo drama!
Mas o raio vital quem lá derrama?...
É Júpiter!... És tu!...
Como Gluck nas selvas aprendia
Ao som do violoncelo a melodia
Da santa inspiração,
Assim bebes atento a voz obscura
Do vento das paixões na selva escura
Chamada - multidão.
Gargalhadas, suspiros, beijos, gritos,
Cantos de amor, blasfêmias de precitos
Choro ou reza infantil,
Tudo colhes... e voltas cotas mãos cheias,
-O crânio largo a transbordar de idéias
E de criações mil.
Então começa a luta, a luta enorme,
Desta matéria tosca, áspera, informe,
Que na praça apanhou.
Teu gênio vai forjar novo tesouro...
O cobre escuro vai mudar-se em ouro,
Como Fausto o sonhou!
Glória ao Mestre! Passando por seus dedos
Dói mais a dor... os risos são mais ledos...
O amor é mais do céu...
Rebenta o ouro desta fronte acesa!
O artista corrigiu a natureza! O alquimista venceu!
Então surges, Ator! e do proscênio
Atiras as moedas do teu gênio
As pasmas multidões.
Pródigo enorme! a tua enorme esmola
Cunhada pela efígie tua rola
Nos nossos corações.
Por isso agora, no teu almo dia,
Vieram dando as mãos a Poesia
E o povo, bem o vês;
Como nos tempos dessa Roma antiga
Aos pos desse outro Augusto a plebe amiga
Atirava lauréis...
Augusto! E o nome teu não se desmente...
O diadema real na vasta frente
Cinges... eu bem o sei!
Mandas no povo deste novo Lácio...
E os poetas repetem como Horácio:
"Salve! Augusto! Rei!"
Os Anjos da Meia-Noite
Fotografias
I
Quando a insônia, qual lívido vampiro,
Como o arcanjo da guarda do
Sepulcro,
Vela à noite por nós,
E banha-se em suor o travesseiro
E além geme nas franças do
pinheiro
Da brisa a longa voz...
Quando sangrenta a luz no alampadário
Estala, cresce, expira, após ressurge,
Como uma alma a penar;
E canta aos guizos rubros da loucura
A febre- a meretriz da sepultura -
A rir e a soluçar...
Quando tudo vacila e se evapora,
Muda e se anima, vive e se transforma,
Cambaleia e se esvai...
E da sala na mágica penumbra
Um mundo em trevas rápido se obumbra...
E outro das trevas sai...
Então... nos brancos mantos, que arregaçam
Da meia-noite os Anjos alvos passam
Em longa procissão!
E eu murmuro ao fitá-los assombrado:
São os Anjos de amor de meu passado
Que desfilando vão...
Almas, que um dia no meu peito ardente
Derramastes dos sonhos a semente,
Mulheres, que eu amei!
Anjos louras do céu! virgens serenas!
Madonas, Querubins ou Madalenas!
Surgi! aparecei!
Vinde, fantasmas! Eu vos amo ainda;
Acorde-se a harmonia à noite infinda
Ao roto bandolim...
E no éter, que em notas se perfuma,
As visões s'alteando uma por uma,
Vão desfilando assim!...
1ª Sombra
Marieta
Como o gênio da noite, que desata
O véu de rendas sobre a espádua nua,
Ela solta os cabelos... Bate a lua
Nas alvas dobras de um lençol de prata...
O seio virginal, que a mão recata,
Embalde o prende a mão... cresce, flutua...
Sonha a moça ao relento... Além na rua
Preludia um violão na serenata! . . .
. . . Furtivos passos morrem no lajedo. . .
Resvala a escada do balcão discreta
Matam lábios os beijos em segredo...
Afoga-me os suspiros, Marieta!
Ó surpresa! ó palor! ó pranto! ó medo!
Ai! noites de Romeu e Julieta!...
2.a Sombra
Bárbora
Erguendo o cálix, que o Xerez perfuma,
Loura a trança alastrando-lhe os joelhos,
Dentes níveos em lábios tão vermelhos,
Como boiando em purpurina escuma;
Um dorso de Valquíria... alvo de bruma,
Pequenos pés sob infantis artelhos,
Olhos vivos, tão vivos como espelhos
Mas como eles também sem chama alguma;
Garganta de um palor alabastrino,
Que harmonias e músicas respira...
No lábio-um beijo... -no beijar-um hino;
Harpa eólia a esperar que o vento a fira,
-Um pedaço de mármore divino...
-É o retrato de Bárbora-a Hetaíra.-
3.a Sombra
Ester
Vem! no teu peito cálido e brilhante
O nardo oriental melhor transpira!...
Enrola-te na longa cachemira,
Como as Judias moles do Levante.
Alva a clâmide aos ventos-roçagante...
Túmido o lábio. onde o saltério gira...
Ó musa de Israel! pega da lira...
Canta os martírios de teu povo errante!
Mas não... brisa da pátria além revoa,
E, ao delamber-lhe o braço de alabastro,
Falou-lhe de partir... e parte... e voa...
Qual nas algas marinhas desce um astro...
Linda Ester! teu perfil se esvai... s'escoa...
Só me resta um perfume... um canto... um rastro...
4.ª Sombra
Fabíola
Como teu riso dói... como na treva
Os lêmures respondem no infinito:
Tens o aspecto do pássaro maldito,
Que em sânie de cadáveres se ceva!
Filha da noite! A ventania leva
Um soluço de amor pungente, aflito...
Fabíola! É teu nome!... Escuta... é um grito,
Que lacerante para os céus s'eleva!...
E tu folgas, Bacante dos amores,
E a orgia, que a mantilha te arregaça,
Enche a noite de horror, de mais horrores...
É sangue, que referve-te na taça!
É sangue, que borrifa-te estas flores!
E este sangue é meu sangue... é meu... Desgraça!
5.ª E 6.ª Sombras
Cândida e Laura
Como no tanque de um palácio mago
Dois alvos cisnes na bacia lisa,
Como nas águas, que o barqueiro frisa,
Dois nenufares sobre o azul do lago,
Como nas hastes em balouço vago
Dois lírios roxas, que acalenta a brisa,
Como um casal de juritis, que pisa
O mesmo ramo no amoroso afago...
Quais dois planetas na cerúlea esfera,
Como os primeiros pâmpanos das vinhas,
Como os renovos nos ramais da hera,
Eu vos vejo passar nas noites minhas,
Crianças, que trazeis-me a primavera...
Crianças, que lembrais-me as andorinhas!...
7.ª Sombra
Dulce
Se houvesse ainda talismã bendito
Que desse ao pântano-a corrente pura,
Musgo-ao rochedo, festa-à sepultura,
Das águias negras - harmonia ao grito...
Se alguém pudesse ao infeliz precito
Dar lugar no banquete da ventura...
E trocar-lhe o velar da insônia escura
No poema dos beijos - infinito...
Certo... serias tu, donzela casta
Quem me tomasse em meio do Calvário
A cruz de angústia, que o meu ser arrasta!...
Mas se tudo recusa-me o fadário,
Na hora de expirar, ó Dulce, basta
Morrer beijando a cruz de teu rosário!...
8.ª Sombra
Último fantasma
Quem és tu, quem és tu, vulto gracioso,
Que te elevas da noite na orvalhada?
Tens a face nas sombras mergulhada...
Sobre as névoas te libras vaporoso...
Baixas do céu num vôo harmonioso!...
Quem és tu, bela e branca desposada?
Da laranjeira em flor a flor nevada
Cerca-te a fronte, 6 ser misterioso!...
Onde nos vimos nós?... Es doutra esfera?
És o ser que eu busquei do sul ao norte...
Por quem meu peito em sonhos desespera?...
Quem és tu? Quem és tu?-Es minha sorte!
És talvez o ideal que est'alma espera!
És a glória talvez! Talvez a morte!...