Castro Alves

 

 

América


Acorda a pátria e vê que é pesadelo
O sonho da ignomínia que ela sonha!
Tomás Ribeiro
À Tépida sombra das matas gigantes,
Da América ardente nos pampas do Sul,
Ao canto dos ventos nas palmas brilhantes,
À luz transparente de um céu todo azul,
A filha das matas — cabocla morena —
Se inclina indolente sonhando talvez!
A fronte nos Andes reclina serena.
E o Atlântico humilde se estende a seus pés.
As brisas dos cerros ainda lhe ondulam
Nas plumas vermelhas do arco de avós,
Lembrando o passado seus seios pululam,
Se a onça ligeira boliu nos cipós.
São vagas lembranças de um tempo que teve!...
Palpita-lhe o seio por sob uma cruz.
E em cisma doirada — qual garça de neve —
Sua alma revolve-se em ondas de luz.
Embalam-lhe os sonhos, na tarde saudosa,
Os cheiros agrestes do vasto sertão,
E a triste araponga que geme chorosa
E a voz dos tropeiros em terna canção.
Se o gênio da noite no espaço flutua
Que negros mistérios a selva contém!
Se a ilha de prata, se a pálida lua
Clareia o levante, que amores não tem!
Parece que os astros são anjos pendidos
Das frouxas neblinas da abóbada azul,
Que miram, que adoram ardentes, perdidos,
A filha morena dos pampas do Sul.
Se aponta a alvorada por entre as cascatas,
Que estrelas no orvalho que a noite verteu!
As flores são aves que pousam nas matas,
As aves são flores que voam no céu!

......................................................................


Ó pátria, desperta... Não curves a fronte
Que enxuga-te os prantos o Sol do Equador.
Não miras na fímbria do vasto horizonte
A luz da alvorada de um dia melhor?
Já falta bem pouco. Sacode a cadeia
Que chamam riquezas... que nódoas te são!
Não manches a folha de tua epopéia
No sangue do escravo, no imundo balcão.
Sê pobre, que importa? Sê livre... és gigante,
Bem como os condores dos píncaros teus!
Arranca este peso das costas do Atlante,
Levanta o madeiro dos ombros de Deus.

O "Adeus" de Teresa

 

A vez primeira que eu fitei Teresa,

Como as plantas que arrasta a correnteza,

A valsa nos levou nos giros seus...

E amamos juntos... E depois na sala

"Adeus" eu disse-lhe a tremer co'a fala...

E ela, corando, murmurou-me: "adeus."

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...

E da alcova saía um cavaleiro

Inda beijando uma mulher sem véus...

Era eu... Era a pálida Teresa!

"Adeus" lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me: "adeus!"

Passaram tempos... sec'los de delírio

Prazeres divinais... gozos do Empíreo...

. . . Mas um dia volvi aos lares meus.

Partindo eu disse - "Voltarei!... descansa!...

Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"

Quando voltei... era o palácio em festa!...

E a voz d'Ela e de um homem lá na orquesta

Preenchiam de amor o azul dos céus.

Entrei! . . . Ela me olhou branca . . . surpresa!

Foi a última vez que eu vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou-me: "adeus!"

 

 

 

A Volta da Primavera

 

Aime et tu renaítras fais-toi fleur pour éclore,

Après avoir soufferi, il faul souffrir encore;

Il faut aimer sans cesse après avoir aimé.

A. DE MUSSET

 

AI! Não maldigas minha fronte pálida,

E o peito gasto ao referver de amores.

Vegetam louros - na caveira esquálida

E a sepultura se reveste em flores.

Bem sei que um dia o vendaval da sorte

Do mar lançou-me na gelada areia.

Serei... que importa? o D. Juan da morte

Dá-me o teu seio-e tu serás Haidéia!

 

Pousa esta mão-nos meus cabelos úmidos!...

Ensina à brisa ondulações suaves!

Dá-me um abrigo dos teus seios túmidos!

Fala!... que eu ouço o pipilar das aves!

Já viste às vezes, quando o sol de maio

Inunda o vale, o matagal e a veiga?

Murmura a relva: "Que suave raio!"

Responde o ramo: "Como a luz é meiga!"

E, ao doce influxo do clarão do dia,

O junco exausto, que cedera à enchente,

Levanta a fronte da lagoa fria...

Mergulha a fronte na lagoa ardente...

Se a natureza apaixonada acorda

Ao quente afago do celeste amante,

Diz!... Quando em fogo o teu olhar transborda,

Não vês minh'alma reviver ovante?

É que teu riso me penetra n'alma

-Como a harmonia de uma orquestra santa

-É que teu riso tanta dor acalma...

Tanta descrença!... Tanta angústia!... Tanta!

Que eu digo ao ver tua celeste fronte:

"O céu consola toda dor que existe.

Deus fez a neve - para o negro monte!

Deus fez a virgem - para o bardo triste!"

 

 

 

A Maciel Pinheiro

 

L'ieu soit en aide au pieux pèlerin.

BOUCHARD

 

Partes amigo do teu antro de águias,

Onde gerava um pensamento enorme,

Tingindo as asas no levante rubro,

Quando nos vales inda a sombra dorme...

Na fronte vasta, como um céu de idéias,

Aonde os astros surgem mais e mais...

Quiseste a luz das boreais auroras...

Deus acompanhe o peregrino audaz.

Verás a terra da infeliz Moema,

Bem como a Vênus se elevar das vagas;

Das serenatas ao luar dormida,

Que o mar murmura nas douradas plagas.

Terra de glórias, de canções e brios,

Esparta, Atenas, que não tem rivais...

Que, à voz da pátria, deixa a lira e ruge. . .

Deus acompanhe o peregrino audaz.

E quando o barco atravessar os mares,

 

Quais pandas asas, desfraldando a vela,

Há de surgir-t'esse gigante imenso,

Que sobre os morros campeando vela...

Símb'lo de pedra, que o cinzel dos raios

Talhou nos montes, que se alteiam mais...

Atlas com a forma do gigante povo...

Deus acompanhe o peregrino audaz.

Vai nas planícies dos infindos pampas

Erguer a tenda do soldado vate...

Livre... bem livre a Marselhesa aos ecos

Soltar bramindo no feroz combate...

E após do fumo das batalhas tinto

Canta essa terra, canta os seus gerais,

Onde os gaíchos sobre as éguas voam...

Deus acompanhe o peregrino audaz.

E nesse lago de poesia virgem,

Quando bolares nas sutis espumas,

Sacode estrofes, qual do rio a garça

Pérolas solta das brilhantes plumas.

Pálido moço-como o bardo errante-

Teu barco voa na amplidão fugaz.

A nova Grécia quer um Byron novo...

Deus acompanhe o peregrino audaz.

E eu, cujo peito como u'a harpa homérica

Ruge estridente do que é grande ao sopro,

Saúdo o artista, que ao talhar a glória,

Pega da espada, sem deixar o escopro.

Da caravana guarda a areia a pégada:

No chão da história o passo teu

Lerás... Deus, que o Mazeppa nos estepes guia...

Deus acompanhe o peregrino audaz.

 

 

 

A Uma Taça Feita de Um Crânio Humano

 

(Traduzido de BYRON)

 

Não recues! De mim não foi-se o espírito...

Em mim verás- pobre caveira fria -

Único crânio que, ao invés dos vivos,

Só derrama alegria.

Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte

Arrancaram da terra os ossos meus.

Não me insultes! empina-me!... que a larva

Tem beijos mais sombrios do que os teus.

Mais val guardar o sumo da parreira

Do que ao verme do chão ser pasto vil;

-Taça - levar dos Deuses a bebida,

Que o pasto do reptil.

Que este vaso, onde o espírito brilhava,

 

Vá nos outros o espírito acender.

Ai! Quando um crânio já não tem mais cérebro

. . . Podeis de vinho o encher!

Bebe, enquanto inda é tempo! Uma outra raça,

Quando tu e os teus fordes nos fossos,

Pode do abraço te livrar da terra,

E ébria folgando profanar teus ossos.

E por que não? Se no correr da vida

Tanto mal, tanta dor ai repousa?

É bom fugindo à podridão do lado

Servir na morte enfim p'ra alguma coisa!. . .'

 

 

 

Pedro Ivo

 

Sonhava nesta geração bastarda

Glórias e liberdade!...

....... ........ .... ................... .

Era um leão sangrento, que rugia

Da glória nos clarins se embriagava,

E vossa gente pálida recuava,

Quando ele aparecia.

ÁLVARES DE AZEVEDO

 

I

 

Rebramam os ventos... Da negra tormenta

Nos montes de nuvens galopa o corcel...

Relincha-troveja... galgando no espaço

Mil raios desperta co'as patas revel.

É noite de horrores... nas grunas celestes,

Nas naves etéreas o vento gemeu...

E os astros fugiram, qual bando de garças

Das águas revoltas do lago do céu.

E a terra é medonha... As árvores nuas

Espectros semelham fincados de pé,

Com os braços de múmias, que os ventos retorcem,

Tremendo a esse grito, que estranho lhes é.

Desperta o infinito. .. Cota boca entreaberta

Respira a borrasca do largo pulmão.

Ao longe o oceano sacode as espáduas

- Encélado novo calcado no chão.

É noite de horrores... Por ínvio caminho

Um vulto sombrio sozinho passou,

Co'a noite no peito, co'a noite no busto

Subiu pelo monte, - nas cimas parou.

Cabelos esparsos ao sopro dos ventos,

Olhar desvairado, sinistro, fatal,

 

Diríeis estátua roçando nas nuvens,

P'ra qual a montanha se fez pedestal.

Rugia a procela - nem ele escutava!...

Mil raios choviam - nem ele os fitou!

Com a destra apontando bem longe a cidade,

Após largo tempo sombrio falou!...

 

II

 

Dorme, cidade maldita,

Teu sono de escravidão!...

Dorme, vestal da pureza,

Sobre os coxins do Sultão!...

Dorme, filha da Geórgia,

Prostituta em negra órgia

Sê hoje Lucrécia Bórgia

Da desonra no balcão!...

Dormir?!... Não! Que a infame grita

Lá se alevanta fatal...

Corre o champagne e a desonra

Na orgia descomunal...

Na fronte já tens um laço...

Cadeias de ouro no braço,

De pérolas um baraço,

-Adornos da saturnal!

Lonca!... Nem sabes que as luzes,

Que acendeu p'ra as saturnais,

São do enterro de seus brios

Tristes círios funerais...

Que o seu grito de alegria

E o estertor da agonia,

A que responde a ironia

Do riso de Satanás!...

Morreste... E ao teu saimento

Dobra a procela no céu.

E os astros - olhar dos mortos -

A mão da noite escondeu.

Vê!... Do raio mostra a lampa

Mão de espectro, que destampa

Com dedos de ossos a campa,

Onde a glória adormeceu.

E erguem-se as lápides frias

Saltam bradando os heróis:

"Quem ousa da eternidade

Roubar-nos o sono a nós?"

Responde o espectro: "A desgraça!

Que a realeza, que passa,

Com o sangue de vossa raça,

Cospe lodo sobre vós! . . ''

Fugi, fantasmas augustos!

 

Caveiras que coram mais

Do que essas faces vermelhas

Dos infames pariás!...

Fugi do solo maldito...

Embuçai-vos no infinito!...

E eu por detrás do granito

Dos montes ocidentais...

Eu também fujo... Eu fugindo!...

Mentira desses vilões!.,.

Não foge a nuvem trevosa

Quando em asas de tufões,

Sobe dos céus à esplanada,

Para tomar emprestada

De raios uma outra espada,

À luz das constelações!...

Como o tigre na caverna

Afia as garras no chão,

Como em Elba amola a espada

Nas pedras - Napoleão,

Tal eu - vaga encapelada,

Recuo de uma passada,

P'ra levar de derribada

Rochedos, reis, multidões. . .!

 

III

 

"Pernambuco! Um dia eu vi-te

Dormido imenso ao luar,

Com os olhos quase cerrados.

Com os lábios - quase a falar...

Do braço o clarim suspenso,

-O punho no sabre extenso

De pedra - recife imenso,

Que rasga o peito do mar...

E eu disse: Silêncio. ventos!

Cala a boca, furacão!

No sonho daquele sono Perpassa a Revolução!

Este olhar que não se move

"Stá fito em - Oitenta e Nove -

Lê Homero - escuta Jove...

- Robespierre - Dantão.

Naquele crânio entra em ondas

O verbo de Mirabeau...

Pernambuco sonha a escada

Que também sonhou Jacó;

Cisma a República alçada,

E pega os copos da espada,

Enquanto em su'alma brada:

"Somos irmãos, Vergniaud."

Então repeti ao povo:

-Desperta do sono teu!

 

Sansão - derroca as colunas!

Quebra os ferros - Prometeu!

Vesúvio curvo - não pares,

Ignea coma solta aos ares,

Em lavas inunda os mares

Mergulha o gládio no céu.

República!... Vôo ousado

Do homem feito condor!

Raio de aurora inda oculta

Que beija a fronte ao Tabor!

Deus! Por qu'enquanto que o monte

Bebe a luz desse horizonte,

Deixas vagar tanta fronte,

No vale envolto em negror?!...

Inda me lembro... Era, há pouco,

A luta!... Horror!... Confusão!...

A morte voa rugindo

Da garganta do canhão!..

O bravo a fileira cerra!...

Em sangue ensopa-se a terra!...

E o fumo - o corvo da guerra -

Com as asas cobre a amplidão...

Cheguei! . . . Como nuvens tontas,

Ao bater no monte - além,

Topam, rasgam-se, recuam...

Tais a meus pés vi também

Hostes mil na luta inglória...

...Da pirâmide da glória

São degraus... Marcha a vitória,

Porque este braço a sustém.

Foi uma luta de bravos

Como a luta do jaguar,

De sangue eurubesce a terra,

- De fogo enrubesce o ar!...

. . . Oh! . . . mas quem faz que eu não vença?

- O acaso... - avalanche imensa,

Da mão do Eterno suspensa,

Que a idéia esmaga ao tombar!...

Não importa! A liberdade

É como a hidra, o Anteu.

Se no chão rola sem forças,

Mais forte do chão se ergueu...

São os seus ossos sangrentos

Gládios terríveis, sedentos...

E da cinza solta aos ventos

Mais um Graco apareceu!...

Dorme, cidade maldita!

Teu sono de escravidão!

Porém no vasto sacrário

Do templo do coração,

 

Ateia o lume das lampas

Talvez que um dia dos pampas

Eu surgindo quebre as campas

Onde te colam no chão.

Adeus! Vou por ti maldito

Vagar nos ermos pauis.

Tu ficas morta, na sombra,

Sem vida, sem fé, sem luz!...

Mas quando o povo acordado

Te erguer do tredo valado,

Virá livre, grande, ousado,

De pranto banhar-me a cruz!...

 

IV

 

Assim falara o vulto errante e negro,

Como a estátua sombria do revés,

Uiva o tufão nas dobras de seu manto,

Como um cão do senhor ulula aos pés...

Inda um momento esteve solitário

Da tempestade semelhante ao deus,

Trocando frases com os trovões no espaço

Raios com os astros nos sombrios céus...

Depois sumiu-se dentre as brumas densas

Da negra noite - de su'alma irmã...

E longe... longe... no horizonte imenso

Ressonava a cidade cortesã!...

Vai! . . . Do sertão esperam-te as Termópilas

A liberdade ainda pulula ali...

Lá não vão vermes perseguir as águias,

Não vão escravos perseguir a ti!

Vai!... Que o teu manto de mil balas roto

E uma bandeira, que não tem rival.

-Desse suor é que Deus faz os astros...

Tens uma espada, que não foi punhal.

Vai, tu que vestes do bandido as roupas,

Mas não te cobres de uma vil libré

Se te renega teu país ingrato

O mundo, a glória tua pátria é!...

 

V

 

E foi-se... E inda hoje nas horas errantes

Que os cedros farfalham, que ruge o tufão,

E os lábios da noite murmuram nas selvas

E a onça vagueia no vasto sertão.

Se passa o tropeiro nas ermas devesas,

Caminha medroso, figura-lhe ouvir

O infrene galope d'Espectro soberbo,

 

Com um grito de glória na boca a fugir.

Que importa se o túm'lo ninguém lhe conhece?

Nem tem epitáfio, hem leito, nem cruz?...

Seu túmulo é o peito do vasto universo

o espaço-por cúpula - as conchas azuis!...

. . . Mas contam que um dia rolara o oceano

Seu corpo da praia, que a vida lhe deu...

Enquanto que a glória rolava sua alma

Na  margens da história, na areia do céu!...

 

 

 

Oitavas a Napoleão

 

(Tradução do espanhol, de LOZANO)

 

Águia das solidões!. . . Ninho atrevido

Foram-te as borrascosas tempestades,

Flamígero cometa suspendido

Sobre o céu infinito das idades.

Tu que, no lago intérmino do olvido,

Lançaste tuas régias claridades...

Deus caído do trono dos mais deuses...

Quem recebeu teus últimos adeuses?...

Não foram as Pirâmides, que ouviram

De teus passos o som e se inclinaram...

Nem as águas do Nilo, que te viram,

E co'as ondas teu nome murmuraram...

Não foram as cidades, que brandiram

As torres como facho... e te aclararam..

Quem foi? Silêncio!... trêmulo de medo

Vejo apenas-um mar... vejo-um rochedo...

A terra, o mar, os céus... espaço estreito

Eram p'ra tua planta de gigante,

Para tecto dos paços teus foi feito

O firmamento colossal, flutuante

Como diadema - O!; sóis... E como leito

O antártico pólo de diamante...

Teu féretro qual foi?... Titão do Sena

O penhasco fatal de Santa Helena...

Assassina do Encélado da guerra

Só tu foste, Albion... do mar senhora..

Por quê? Porque um pedaço aí de terra

Foi pedir-te o gigante em negra hora...

E lhe deste um penhasco... Oh! Lá s`encerra

Tua lenda mais hórrida... Traidora!

Lá seu espectro envolta na mortalha

Aos quatro céus a maldição espalha...

Ao leão, que temias, enjaulaste;

E de longe escutando seu rugido,

Tu, senhora do mar... tu desmaiaste!

 

Pelo punhal traidor ele ferido

Caiu-te aos pés... Então tu respiraste,

Cobarde vencedora do vencido...

Nem mesmo todo o oceano poderia

Lavar este padrão de covardia...

Tu não és tão culpada!... Aonde estava

A França tão potente e tão temida?...

Oh! por que o não salvou?... se o contemplava

Lá dos gelos dos Alpes-soerguida!?...

E ele que a fez tão grande?... Ela folgava!...

Enquanto ao longe do colosso a vida,

Como um vulcão antigo e moribundo

Lento expirava nesse mar profundo.

 

 

 

Boa-Noite

 

Veux-tu donc partir? Le jour est encore éloigné

C'était le rossignol et non pas l'aloustte

Dont le chant a frappé ton oreille inquiete;

Il chante la nuit sur les branches de ce grenadier,

Crois-moi, cher ami, c'était le rossignol.

SHAKESPEARE

 

Boa-noite, Maria! Eu vou-me embora.

A lua nas janelas bate em cheio.

Boa-noite, Maria! É tarde... é tarde...

Não me apertes assim contra teu seio.

Boa-noite!... E tu dizes - Boa-noite.

Mas não digas assim por entre beijos...

Mas não mo digas descobrindo o peito

- Mar de amor onde vagam meus desejos.

Julieta do céu! Ouve... a calhandra

Já rumoreja o canto da matina.

Tu dizes que eu menti?... pois foi mentira...

. . . Quem cantou foi teu hálito, divina!

Se à estrela-d'alva os derradeiros raios

Derrama nos jardins do Capuleto,

Eu direi, me esquecendo d'alvorada:

"É noite ainda em teu cabelo preto..."

E noite ainda! Brilha na cambraia

-Desmanchado o roupão, a espádua nua -

O globo de teu peito entre os arminhos

Como entre as névoas se balouça a lua...

É noite, pois! Durmamos, Julieta!

Recende a alcova ao trescalar das flores,

Fechemos sobre nós estas cortinas...

-São as asas do arcanjo dos amores.

A frouxa luz da alabastrina lâmpada

 

Lambe voluptuosa os teus contornos...

Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos

Ao doudo afago de meus lábios mornos.

Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos

Treme tua alma, como a lira ao vento,

Das teclas de teu seio que harmonias,

Que escalas de suspiros, bebo atento!

Ai! Canta a cavatina do delírio,

Ri, suspira, soluça, anseia e chora...

Marion! Marion!... É noite ainda.

Que importa os raios de uma nova aurora?!...

Como um negro e sombrio firmamento,

Sobre mim desenrola teu cabelo...

E deixa-me dormir balbuciando:

-Boa-noite! -, formosa Consuelo!...

 

 

 

Adormecida

 

Ses longs cheveux épars la couvrent tout entière

La croix de son collier repose dans sa main,

Comme pour témaigner qu'elle a fait sa prière.

Et qu'elle va la faire en s'éveiliant demain.

A DE MUSSET

 

Uma noite eu me lembro... Ela dormia

Numa rede encostada molemente...

Quase aberto o roupão... solto o cabelo

E o pé descalço do tapete rente.

'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste

Exalavam as silvas da campina...

E ao longe, num pedaço do horizonte

Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,

Indiscretos entravam pela sala,

E de leve oscilando ao tom das auras

Iam na face trêmulos - beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago

Mesmo em sonhos a moça estremecia...

Quando ela serenava... a flor beijava-a...

Quando ela ia beijar-lhe. . . a flor fugia. . .

Dir-se-ia que naquele doce instante

Brincavam duas cândidas crianças...

A brisa, que agitava as folhas verdes,

Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se...

Mas quando a via despeitada a meio,

P'ra não zangá-la... sacudia alegre

 

Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia

Naquela noite lânguida e sentida:

"ó flor! -tu és a virgem das campinas!

"Virgem!-tu és a flor da minha vida!.. ."

 

 

 

Jesuítas

 

(SÉCULO XIII)

 

Ó mes frères, je viens vous apporter mon Dieu,

Je viens vous apporter ma tête!

V. HUGO (Chatiments)

 

Quando o vento da Fé soprava Europa,

Como o tufão, que impele ao ar a tropa

Das águias, que pousavam no alcantil;

Do zimbório de Roma - a ventania

O bando dos Apost'los sacudia

Aos cerros do Brasil.

Tempos idos! Extintos luzimentos!

O pó da catequese aos quatro ventos

Revoava nos céus...

Floria após na Índia, ou na Tartária,

No Mississipi, no Peru, na Arábia

Uma palmeira - Deus! -

O navio maltês, do Lácio a vela,

A lusa nau, as quinas de Castela,

Do Holandês a galé

Levava sem saber ao mundo inteiro

Os vândalos sublimes do cordeiro,

Os átilas da fé.

Onde ia aquela nau?-Ao Oriente.

A outra? - Ao pólo. A outra? - Ao ocidente.

Outra? - Ao norte. Outra? - Ao sul.

E o que buscava? A foca além no pólo;

O âmbar, o cravo no indiano solo

Mulheres em 'Stambul.

Grandes homens! Apóstolos heróicos!...

Eles diziam mais do que os estóicos:

"Dor, - tu és um prazer!

"Grelha, -és um leito! Brasa,-és uma gema!

Cravo, - és um cetro! Chama, - um diadema

Ó morte, - és o viver!"

Outras vezes no eterno itinerário

O sol, que vira um dia no Calvário

Do Cristo a santa cruz,

Enfiava de vir achar nos Andes

A mesma cruz, abrindo os braços grandes

Aos índios rubros, nus.

 

Eram eles que o verbo do Messias

Pregavam desde o vale às serranias,

Do pólo ao Equador...

E o Niagara ia contar aos mares. . .

E o Chimborazo arremessava aos ares

O nome do Senhor!...

 

 

 

Poesia e Mendicidade

 

(No álbum da Ex.ma Sr.a D. Maria Justina Proença Pereira Peixoto)

 

I

 

Senhora! A Poesia outrora era a Estrangeira,

Pálida, aventureira, errante a viajar,

Batendo em duas portas - ao grito das procelas -

Ao céu - pedindo estrelas, à terra - um pobre lar!

Visão-de áureos lauréis-porém de manto esquálido,

Mulher-de lábio pálido-e olhar-cheio de luz.

Seus passos nos espinhos em sangue se assinalam...

E os astros lhe resvalam-à flor dos ombros nus...

 

II

 

Olhai! O sol descamba... A tarde harmoniosa

Envolve luminosa a Grécia em frouxo véu.

Na estrada ao som da vaga, ao suspirar do vento,

De um marco poeirento um velho então se ergueu.

Ergueu-se tateando... é cego... o cego anseia...

Porém o que tateia aquela augusta mão?...

Talvez busca pegar o sol, que lento expira!...

Fado cruel... mentira!... Homero pede pão!

 

III

 

Mas ai! volvei, Senhora, os vossos belos olhos

Daquele mar de abrolhos, a um novo quadro! olhai!

Do vasto salão gótico eu ergo o reposteiro...

O lar é hospitaleiro... Entrai, Senhora, entrei!

Estamos na média idade. Arnês, gládio, armadura

Servem de compostura à sala vasta e chã.

A um lado um galgo esvelto ameiga e acaricia

A mão suave, esguia - à loura castelã.

Vai o banquete em meio... O bardo se alevanta

Pega da lira... canta... uma canção de amor...

Ouvi-o! Para ouvi-lo a estrela pensativa

Alonga pela ogiva um raio de languor!

Dos ramos do carvalho a brisa se debruça...

Na sala alguém soluça... (amor, ou languidez?)

Súbito a nota extrema anseia, treme, rola...

Alguém pede uma esmola... Senhora, não olheis!...

 

Assim nos tempos idos a musa canta e pede...

Gênio e mendigo... vede... o abismo de irrisões!

Tasso implora um olhar! Vai Ossian mendicante...

Caminha roto o Dante! e pede pão Camões.

 

IV

 

Bem sei, Senhora, que ao talento agora

Surgiu a aurora de uma luz amena.

Hoje há salário p'ra qualquer trabalho

Cinzel, ou malho, ferramenta ou penal

Melhor que o Rei sabe pagar o pobre

Melhor que o nobre --protetor verdugo-

Foi surdo um trono... à maior glória vossa.

Abre-se a choça aos Miseráveis de Hugo.

Porém não sei se é por costume antigo,

Que inda é mendigo do cantor o gênio.

Mudem-se os panos do cenário a esmo

O vulto é o mesmo... num melhor proscênio...

 

V

 

Hoje o Poeta - caminheiro errante,

Que tem saudade de um país melhor

Pede uma pérola - à maré montante,

Do seio às vagas-pede-um outro amor.

Alma sedenta de ideal na terra

Busca apagar aquela sede atroz!

Pede a harmonia divinal, que encerra

Do ninho o chilro... da tormenta a voz!

E o rir da folha, o sussurrar da fala,

Trenos da estrela no amoroso estio.

Voz que dos poros o Universo exala

Do céu, da gruta, do alcantil, do rio!

Pede aos pequenos, desde o verme ao tojo,

Ao fraco, ao forte... - preces, gritos, uivos...

Pede das águias o possante arrojo,

Para encontrar os meteoros ruivos.

Pede à mulher que seja boa e linda

Vestal de um tipo que o ideal revela...

Pois ser formosa é ser melhor ainda...

Se és boa-és luz... mas se és formosa-estrela...

E pede à sombra p'ra aljofrar de orvalhos

A fronte azul da solidão noturna.

E pede às auras p'ra afagar os galhos

E pede ao lírio p'ra enfeitar a fuma.

Pede ao olhar a maciez suave

 

Que tem o arminho e o edredom macio,

O aveludado da penugem d'ave,

Que afaga as plumas no palmar sombrio.

E quando encontra sobre a terra ingrata

Um reverbero do clarão celeste,

-Alma formada de uma essência grata,

Que a lua - doura, e que um perfume veste;

Um rir, que nasce como o broto em maio;

Mostrando seivas de bondade infinda,

Fronte que guarda- a claridade e o raio,

- Virtude e graça - o ser bondosa e linda...

Então, Senhora, sob tanto encanto

Pede o Poeta (que neo tem renome)

-Versos-à brisa p'ra vos dar um canto...

Raios ao sol - p'ra vos traçar o nome! . . .

 

 

 

Hino ao Sono

 

Ó Sono !ó noivo pálido

Das noites perfumosas,

Que um chão de nebulosas

Trilhas pela amplidão!

Em vez de verdes pâmpanos,

Na branca fronte enrolas

As lânguidas papoulas,

Que agita a viração.

Nas horas solitárias,

Em que vagueia a lua,

E lava a planta nua

Na onda azul do mar,

Com um dedo sobre os lábios

No vôo silencioso,

Vejo-te cauteloso

No espaço viajar!

Deus do infeliz, do mísero!

Consolação do aflito!

Descanso do precito,

Que sonha a vida em ti!

Quando a cidade tétrica

De angústia e dor não geme...

É tua mão que espreme

A dormideira ali.

Em tua branca túnica

Envolves meio mundo.

E teu seio fecundo

De sonhos e visões,

Dos templos aos prostíbulos

Desde o tugúrio ao Paço,

Tu lanças lá do espaço

Punhados de ilusões!...

 

Da vide o sumo rúbido,

Do hatchiz a essência,

O ópio, que a indolência

Derrama em nosso ser,

Não valem, gênio mágico,

Teu seio, onde repousa

A placidez da lousa

E o gozo de viver...

Ó sono! Unge-me as pálpebras..

Entorna o esquecimento

Na luz do pensamento,

Que abrasa o crânio meu.

Como o pastor da Arcádia,

Que uma ave errante aninha...

Minh'alma é uma andorinha...

Abre-lhe o seio teu.

Tu, que fechaste as pétalas

Do lírio, que pendia,

Chorando a luz do dia

E os raios do arrebol,

Também fecha-me as pálpebras...

Sem Ela o que é a vida?

Eu sou a flor pendida

Que espera a luz do sol.

O leite das eufórbias

P'ra mim não é veneno...

Ouve-me, ó Deus sereno!

Ó Deus consolador!

Com teu divino bálsamo

Cala-me a ansiedade!

Mata-me esta saudade,

Apaga-me esta dor.

Mas quando, ao brilho rútilo

Do dia deslumbrante,

Vires a minha amante

Que volve para mim,

Então ergue-me súbito...

É minha aurora linda...

Meu anjo... mais ainda...

É minha amante enfim!

Ó sono! Ó Deus noctívago!

Doce influência amiga!

Gênio que a Grécia antiga

Chamava de Morfeu,

Ouve!... E se minhas súplicas

Em breve realizares...

Voto nos teus altares

Minha lira de Orfeu!

 

 

 

No Álbum do Artista

Luís C. Amoedo

 

Nos tempos idos... O alabastro, o mármore

Reveste as formas desnuadas, mádidas

De Vênus ou Friné.

Nem um véu p'ra ocultar o seio trêmulo,

Nem um tirso a velar a coxa pálida...

O olhar não sonha... vê!

Um dia o artista, num momento lúcido,

Entre gazas de pedra a loura Aspásia

Amoroso envolveu.

Depois, surpreso!... viu-a inda mais lânguida...

Sonhou mais doido aquelas formas lúbricas...

Mais nuas sob um véu.

E o mistério do espírito... A modéstia

E dos talentos reis a santa púrpura...

Artista, és belo assim...

Este santo pudor é só dos gênios! -

Também o espaço esconde-se entre névoas...

E no entanto é... sem fim!

 

 

 

Versos a Um Viajante

 

Ai! nenhum mago da Caldéia sábia

A dor abrandará que me devora.

F. VARELA

 

Tenho saudades das cidades vastas,

Dos ínvios cerros, do ambiente azul...

Tenho saudades dos cerúleos mares

Das belas filhas do país do sull

Tenho saudades de meus dias idos

-Pét'las perdidas em fatal paul-

Pét'las, que outrora desfolhamos juntos,

Morenas filhas do país do sul!

Lá onde as vagas nas areias rolam,

Bem como aos pés da Oriental 'Stambul. . .

E da Tijuca na nitente espuma

Banham-se as filhas do país do sul.

Onde ao sereno a magnólia esconde

Os pirilampos "de lanterna azul",

Os pirilampos, que trazeis nas coifas,

Morenas filhas do pais do sul.

Tenho saudades. .. ai! de ti, São Paulo,

-Rosa de Espanha no hibernal Friul -

Quando o estudante e a serenata acordam

As belas filhas do país do sul.

Das várzeas longas, das manhãs brumosas

 

Noites de névoas, ao rugitar do sul,

Quando eu sonhava nos morenos seios

Das belas filhas do país do sul.

 

 

 

Onde Estás

 

É meia-noite. . . e rugindo

Passa triste a ventania,

Como um verbo de desgraça,

Como um grito de agonia.

E eu digo ao vento, que passa

Por meus cabelos fugaz:

"Vento frio do deserto,

Onde ela está? Longe ou perto?

" Mas, como um hálito incerto,

Responde-me o eco ao longe:

"Oh! minh'amante, onde estás?...

Vem! É tarde! Por que tardas?

São horas de brando sono,

Vem reclinar-te em meu peito

Com teu lânguido abandono!...

'Stá vazio nosso leito...

'Stá vazio o mundo inteiro;

E tu não queres qu'eu fique

Solitário nesta vida...

Mas por que tardas, querida?...

Já tenho esperado assaz...

Vem depressa, que eu deliro

Oh! minh'amante, onde estás?..

Estrela-na tempestade,

Rosa-nos ermos da vida,

Iris-do náufrago errante,

Ilusão-d'alma descrida!

Tu foste, mulher formosa!

Tu foste, ó filha do céu!...

. . . E hoje que o meu passado

Para sempre morto jaz...

Vendo finda a minha sorte,

Pergunto aos ventos do Norte...

"Oh! minh'amante, onde estás?..."

 

 

 

A Boa Vista

 

Sonha, poeta, sonha! Aqui sentado

No tosco assento da janela antiga,

Apóias sobre a mão a face pálida,

Sorrindo -dos amores à cantiga.

ÁLVARES DE AZEVEDO

 

Era uma tarde triste, mas límpida e suave...

Eu -pálido poeta - seguia triste e grave

A estrada, que conduz ao campo solitário,

Como um filho, que volta ao paternal sacrário,

 

E ao longe abandonando o múrmur da cidade

-Som vago, que gagueja em meio à imensidade, -

No drama do crepúsculo eu escutava atento

A surdina da tarde ao sol, que morre lento.

A poeira da estrada meu passo levantava,

Porém minh'alma ardente no céu azul marchava

E os astros sacudia no vôo violento

-Poeira, que dormia no chão do firmamento.

A pávida andorinha, que o vendaval fustiga,

Procura os coruchéus da catedral antiga.

Eu - andorinha entregue aos vendavais do inverno.

Ia seguindo triste p'ra o velho lar paterno.

Como a águia, que do ninho talhado no rochedo

Ergue o pescoço calvo por cima do fraguedo,

-(P'ra ver no céu a nuvem, que espuma o firmamento,

E o mar,-corcel que espuma ao látego do vento. . . )

Longe o feudal castelo levanta a antiga torre,

Que aos raios do poente brilhante sol escorre!

Ei-lo soberbo e calmo o abutre de granito

Mergulhando o pescoço no seio do infinito,

E lá de cima olhando com seus clarões vermelhos

Os tetos, que a seus pés parecem de joelhos!...

Não! Minha velha torre! Oh! atalaia antiga,

Tu olhas esperando alguma face amiga,

E perguntas talvez ao vento, que em ti chora:

"Por que não volta mais o meu senhor d'outrora?

Por que não vem sentar-se no banco do terreiro

Ouvir das criancinhas o riso feiticeiro

E pensando no lar, na ciência, nos pobres

Abrigar nesta sombra seus pensamentos nobres?

Onde estão as crianças-grupo alegre e risonho

- Que escondiam-se atrás do cipreste tristonho...

Ou que enforcaram rindo um feio Pulchinello,

Enquanto a doce Mãe, que é toda amor, desvelo

Ralha com um rir divino o grupo folgazão,

Que vem correndo alegre beijar-lhe a branca mão?...~

É nisto que tu cismas, ó torre abandonada,

Vendo deserto o parque e solitária a estrada.

No entanto eu ~ estrangeiro, que tu já não conheces-

No limiar de joelhos só tenho pranto e preces.

Oh! deixem-me chorar!... Meu lar... meu doce ninho!

Abre a vetusta grade ao filho teu mesquinho!

Passado- mar imenso!... inunda-me em fragrância!

Eu não quero lauréis, quero as rosas da infância.

Ai! Minha triste fronte, aonde as multidões

 

Lançaram misturadas glórias e maldições...

Acalenta em teu seio, ó solidão sagrada!

Deixa est'alma chorar em teu ombro encostada!

Meu lar está deserto... Um velho cão de guarda

Veio saltando a custo roçar-me a testa parda,

Lamber-me após os dedos, porém a sós consigo

Rusgando com o direito, que tem um velho amigo..

Como tudo mudou-se!... O jardim 'stá inculto

As roseiras morreram do vento ao rijo insulto..;

A erva inunda a terra; o musgo trepa os muros

A ortiga silvestre enrola em nós impuros

Uma estátua caída, em cuja mão nevada

A aranha estende ao sol a teia delicada!...

Mergulho os pés nas plantas selvagens, espalmadas,

As borboletas fogem-me em lúcidas manadas...

E ouvindo-me as passadas tristonhas, taciturnas,

Os grilos, que cantavam, calaram-se nas furnas...

Oh! jardim solitário! Relíquia do passado!

Minh'alma, como tu. é um parque arruinado!

Morreram-me no seio as rosas em fragrância,

Veste o pesar os muros dos meus vergéis da infância,

A estátua do talento, que pura em mim s'erguia,

Jaz hoje - e nela a turba enlaça uma ironia!...

Ao menos como tu, lá d'alma num recanto

Da casta poesia ainda escuto o canto, -

Voz do céu, que consola, se o mundo nos insulta,

E na gruta do seio murmura um treno oculta.

Entremos!... Quantos ecos na vasta escadaria,

Nos longos corredores respondem-me à porfia!...

Oh! casa de meus pais!... A um crânio já vazio,

Que o hóspede largando deixou calado e frio,

Compara-te o estrangeiro -- caminhando indiscreto

Nestes salões imensos, que abriga o vasto teto.

Mas eu no teu vazio - vejo uma multidão

Fala-me o teu silêncio - ouço-te a solidão!...

Povoam-se estas salas...

E eu vejo lentamente

No solo resvalarem falando tenuemente

Dest'alma e deste seio as sombras venerandas

Fantasmas adorados - visões sutis e brandas...

Aqui. . . além. . . mais longe. . . por onde eu movo o passo,

Como aves, que espantadas arrojam-se ao espaço,

Saudades e lembranças s'erguendo -bando alado

-Roçam por mim as asas voando p'ra o passado.

 

 

 

A Uma Estrangeira

 

LEMBRANÇA DE UMA NOITE NO MAR

 

Sens-tu mon coeur, comme U palpite?

Le tien comme il battait gaiement!

Je m'en vais pourtant, ma petite,

Bien loin, bien vite, Toujours t'aimant.

(Chanson )

Inês! nas terras distantes,

Aonde vives talvez,

Inda lembram-te os instantes

Daquela noite divina?...

Estrangeira, peregrina,

Quem sabes?-Lembras-te, Inês?

Branda noite! A noite imensa

Não era um ninho?-Talvez!. ..

Do Atlântico a vaga extensa

Não era um berço? - Oh! Se o era...

Berço e ninho... ai, primavera!

O ninho, o berço de Inês.

Às vezes estremecias...

Era de febre? Talvez...

Eu pegava-te as mãos frias

P'ra aquentá-las em meus beijos...

Oh! palidez! Oh! desejos!

Oh! longos cílios de Inês.

Na proa os nautas cantavam;

Eram saudades?... Talvez!

Nossos beijos estalavam

Como estala a castanhola.:.

Lembras-te acaso, espanhola?

Acaso lembras-te, Inês?

Meus olhos nos teus morriam...

Seria vida?-Talvez!

E meus prantos te diziam:

"Tu levas minh'alma, ó filha,

Nas rendas desta mantilha...

Na tua mantilha, Inês!"

De Cadiz o aroma ainda

Tinhas no seio... -Talvez!

De Buenos Aires a linda,

Volvendo aos lares, trazia

As rosas de Andaluzia

Nas lisas faces de Inês!

E volvia a Americana

Do Plata às vagas... Talvez?

E a brisa amorosa, insana

Misturava os meus cabelos

Aos cachos escuros, belos,

Aos negros cachos de Inês!

 

As estrelas acordavam

Do fundo do mar... Talvez!

Na proa as ondas cantavam,

E a serenata divina

Tu, com a ponta da botina,

Marcavas no chão... Inês!

Não era cumplicidade

Do céu, dos mares? Talvez!

Dir-se-ia que a imensidade

-Conspiradora mimosa-

Dizia à vaga amorosa:

"Segreda amores a Inês!"

E como um véu transparente,

Um véu de noiva... talvez,

Da lua o raio tremente

Te enchia de casto brilho...

E a rastos no tombadilho

Cala a teus pés... Inês!

E essa noite delirante

Pudeste esquecer?-Talvez...

Ou talvez que neste instante,

Lembrando-te inda saudosa

Suspires, moça formosa!...

Talvez te lembres... Inês!

 

 

 

Perseverando

 

(Tradução de v. HUGO)

 

A Regueira Costa

A águia é o gênio... Da tormenta o pássaro,

Que do monte arremete altivo píncaro,

Qu'ergue um grito aos fulgores do arrebol,

Cuja garra jamais se pela em lodo,

E cujo olhar de fogo troca raios

- Contra os raios do sol.

Não tem ninho de palhas... tem um antro

-Rocha talhada ao martelar do raio,

-Brecha em serra, ant'a qual o olhar tremeu. . .

No flanco da montanha-asilo trêmulo,

Que sacode o tufão entre os abismos

- O precipício e o céu.

Nem pobre verme, nem dourada abelha

Nem azul borboleta... sua prole

Faminta, boquiaberta espera ter...

Não! São aves da noite, são serpentes,

São lagartos imundos, que ela arroja

Aos filhos p'ra viver.

Ninho de rei!... palácio tenebroso,

 

Que a avalanche a saltar cerca tombando!...

O gênio aí enseiba a geração...

E ao céu lhe erguendo os olhos flamejantes

Sob as asas de fogo aquenta as almas

Que um dia voarão.

Por que espantas-te, amigo, se tua fronte

Já de raios pejada, choca a nuvem?...

Se o réptil em seu ninho se debate?...

É teu folgar primeiro... é tua festa!...

Águias! P'ra vós cad'hora é uma tormenta,

Cada festa um combate!...

Radia!... É tempo!... E se a lufada erguer-se

Muda a noite feral em prisma fúlgido!

De teu alto pensar completa a lei!...

Irmão!-Prende esta mão de irmão na minha!. . .

Toma a lira-Poeta! Águia!-esvoaça!

Sobe, sobe, astro rei! . .

De tua aurora a bruma vai fundir-se

Águia! faz-te mirar do sol, do raio;

Arranca um nome no febril cantar.

Vem! A glória, que é o alvo de vis setas,

É bandeira arrogante, que o combate

Embeleza ao rasgar.

O meteoro real - de coma fúlgida -

Rola e se engrossa ao devorar dos mundos...

Gigante! Cresces todo o dia assim!. :.

Tal teu gênio, arrastando em novos trilhos

No curso audaz constelações de idéias,

Marcha e recresce no marchar sem fim!...

 

 

 

O Coração

 

O Coração é o colibri dourado

Das veigas puras do jardim do céu.

Um-tem o mel da granadilha agreste,

Bebe os perfumes, que a bonina deu.

O outro-voa em mais virentes balças,

Pousa de um riso na rubente flor.

Vive do mel-a que se chama-crenças-,

Vive do aroma-que se diz-amor.-

 

 

 

Murmúrios da Tarde

 

Écoute! tout se tait; songe à ta bien-aimée

Ce soir, sous les tilleuls, à la sombre ramée,

Le rayon du couchant laisse un adieu plus doux,

Ce soir, tout va fleurir: I'irnmortelle nature

Se remplit de parfuns, d'amour et de murmure

Comme le lit joyeux de deux jeunes époux.

A. DE MUSSET

Rosa! Rosa de amor purpúrea e bela!

GARRET.

 

Ontem à tarde, quando o sol morria,

A natureza era um poema santo,

De cada moita a escuridão saia,

De cada gruta rebentava um canto,

Ontem à tarde, quando o sol morria.

Do céu azul na profundeza escura

Brilhava a estrela, como um fruto louro,

E qual a foice, que no chão fulgura,

Mostrava a lua o semicirc'lo d'ouro,

Do céu azul na profundeza escura.

Larga harmonia embalsamava os ares!

Cantava o ninho-suspirava o lago...

E a verde pluma dos sutis palmares

Tinha das ondas o murmúrio vago...

Larga harmonia embalsamava os ares.

Era dos seres a harmonia imensa,

Vago concerto de saudade infinda!

"Sol -não me deixes", diz a vaga extensa,

"Aura-não fujas", diz a flor mais linda;

Era dos seres a harmonia imensa!

"Leva-me! leva-me em teu seio amigo"

Dizia às nuvens o choroso orvalho,

"Rola que foges", diz o ninho antigo,

'Leva-me ainda para um novo galho. ..

Leva-me! leva-me em teu seio amigo."

"Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!

Inda um calor, antes que chegue o frio..."

E mais o musgo se conchega à penha

E mais à penha se conchega o rio...

"Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!

E tu no entanto no jardim vagavas,

Rosa de amor, celestial Maria...

Ai! como esquiva sobre o chão pisavas,

Ai! como alegre a tua boca ria...

E tu no entanto no jardim vagavas.

Eras a estrela transformada em virgem!

Eras um anjo, que se fez menina!

Tinhas das aves a celeste origem.

Tinhas da lua a palidez divina,

Eras a estrela transformada em virgem!

Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto,

 

Que bela rosa! que fragrância meiga!

Dir-se-ia um riso no jardim aberto,

Dir-se-ia um beijo, que nasceu na veiga...

Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto!. . .

E eu, que escutava o conversar das flores,

Ouvi que a rosa murmurava ardente:

"Colhe-me, ó virgem,-não terei mais dores,

Guarda-me, ó bela, no teu seio quente. . .

" E eu escutava o conversar das flores.

"Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!"

Também então eu murmurei cismando...

Minh'alma é rosa, que a geada esfria...

Dá-lhe em teus seios um asilo brando...

"Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!..."

 

 

 

Pelas Sombras

 

Ao Padre Francisco de Paula

 

C'est que já suis frappé du doute

C'est que l'étoile de Ia foi

N'éclaire plus ma noire route:

Tout est abime autour de moil

LA MORVONNAIS

 

Senhor! A noite é brava... a praia é toda escolhos.

Ladram na escuridão das Circes as cadelas...

As lívidas marés atiram, a meus olhos,

Cadáveres, que riem à face das estrelas!

Da garça do oceano as ensopadas penas

O mórbido suor enxugam-me da testa.

Na aresta do rochedo o pé se firma apenas...

No entanto ouço do abismo a rugidora festa!...

Nas orlas de meu manto o vendaval s'enrola...

Como invisível destra açoita as faces minhas...

Enquanto que eu tropeço... um grito ao longe rola...

"Quem foi?" perguntam rindo as solidões marinhas.

Senhor! Um facho ao menos empresta ao caminhante.

A treva me assoberba... O' Deus! dá-me um clarão!

E uma Voz respondeu nas sombras triunfante:

"Acende, ó Viajorl -o facho da Razão!"

Senhor! Ao pé do lar, na quietação, na calma

Pode a flama subir brilhante, loura, eterna;

Mas quando os vendavais, rugindo, passam n'alma,

Quem pode resguardar a trêmula lanterna?

Torcida... desgrenhada aos dedos da lufada

Bateu-me contra o rosto... e se abismou na

Eu vi-a vacilar... e minha mão queimada

 

A lâmpada sem luz embalde ao raio eleva.

Quem fez a gruta - escura, o pirilampo cria!

Quem fez a noite-azul, inventa a estrela clara!

Na fronte do oceano- acende uma ardentia!

Com o floco do Santelmo - a tempestade aclara!

Mas ai! Que a treva interna - a dúvida constante -

Deixaste assoberbar-me em funda escuridão!...

E uma Voz respondeu nas sombras triunfante:

"Acende, ó Viajor! a Fé no coração!..."

 

 

 

Ode ao Dous de Julho

 

(Recitada no Teatro de S. Paulo)

 

Era no dous de julho. A pugna imensa

Travara-se nos cerros da Bahia...

O anjo da morte pálido cosia

Uma vasta mortalha em Pirajá.

"Neste lençol tão largo, tão extenso,

"Como um pedaço roto do infinito...

O mundo perguntava erguendo um grito:

"Qual dos gigantes morto rolará?!..."

Debruçados do céu... a noite e os astros

Seguiam da peleja o incerto fado...

Era a tocha -o fuzil avermelhado!

Era o Circo de Roma-o vasto chão!

Por palmas-o troar da artilharia!

Por feras-os canhões negros rugiam!

Por atletas-dous povos se batiam!

Enorme anfiteatro - era a amplidão!

Não! Não eram dous povos, que abalavam

Naquele instante o solo ensangüentado...

Era o porvir-em frente do passado,

A Liberdade-em frente à Escravidão,

Era a luta das águias - e do abutre,

A revolta do pulso-contra os ferros,

O pugilato da razão - com os erros,

O duelo da treva-e do clarão!...

No entanto a luta recrescia indômita...

As bandeiras - como águias eriçadas -

Se abismavam com as asas desdobradas

Na selva escura da fumaça atroz...

Tonto de espanto, cego de metralha,

O arcanjo do triunfo vacilava...

E a glória desgrenhada acalentava

O cadáver sangrento dos heróis!...

Mas quando a branca estrela matutina

Surgiu do espaço... e as brisas forasteiras

No verde leque das gentis palmeiras

 

Foram cantar os hinos do arrebol,

Lá do campo deserto da batalha Uma voz se elevou clara e divina:

Eras tu- Liberdade peregrina!

Esposa do porvir-noiva do sol!...

Eras tu que, com os dedos ensopados

No sangue dos avós mortos na guerra,

Livre sagravas a Colúmbia terra,

Sagravas livre a nova geração!

Tu que erguias, subida na pirâmide,

Formada pelos mortos de Cabrito,

Um pedaço de gládio - no infinito...

Um trapo de bandeira - n'amplidão!...

 

 

 

A Duas Flores

 

São duas flores unidas,

São duas rosas nascidas

Talvez no mesmo arrebol,

Vivendo no mesmo galho,

Da mesma gota de orvalho,

Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas

Das duas asas pequenas

De um passarinho do céu...

Como um casal de rolinhas,

Como a tribo de andorinhas

Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bem como os prantos,

Que em parelha descem tantos

Das profundezas do olhar...

Como o suspiro e o desgosto,

Como as covinhas do rosto,

Como as estrelas do mar.

Unidas... Ai quem pudera

Numa eterna primavera

Viver, qual vive esta flor.

Juntar as rosas da vida

Na rama verde e florida,

Na verde rama do amor!

 

 

 

O Tonel das Danaides

 

Diálogo

 

Na torrente caudal de seus cabelos negros

Alegre eu embarquei da vida a rubra flor.

-Poeta! Eras o Doge o anel lançando às ondas . . .

Ao fundo de um abismo... arremessaste c amor.

Depois minh'alma ao som da Lira de cem vozes

Sublimes fantasias em notas desfolhou.

 

-Cleópatra também p'ra erguer no Tibre a espuma

As pér'las do colar nas vagas desfiou!

Depois fiz de meu verso a púrpura escarlate

Por onde ela pisasse em marcha triunfal!

-Como Hércules, volveste aos pos da insana Onfália

O fuso feminil de uma paixão fatal.

Um dia ela me disse: "Eu sou uma exilada!"

Ergui-me... e abandonei meu lar e meu país...

-Assim o filho pródigo atira as vestes quentes

E treme no caminho aos pés da meretriz.

E quando debrucei-me à beira daquela alma

P'ra ver toda riqueza e afetos que lhe dei! . . .

-Ai! nada mais achaste! o abismo 05 devorara...

O pego se esqueceu da dádiva do Rei!

Na gruta do chacal ao menos restam ossos...

Mas tudo sepultou-me aquele amor cruel!

-Poeta! O coração da fria Messalina

É das fatais Danaides o pérfido Tonel!

 

 

 

A Luís

 

(No dia de seu Natalício)

 

A imaginação, com O VOO ousado

aspira a princípio à eternidade...

Depois um pequeno espaço basta em breve

para os destroços de nossas esperanças iludidas! . .

GOETHE

 

Como um perfume de longínquas plagas

Traz o vento da pátria ao peregrino,

O meu amigo! que saudade infinda

Tu me trazes dos tempos de menino!

É o ledo enxame de sutis abelhas

Que vem lembrar à flor o mel d'aurora...

Acres perfumes de uma idade ardente

Quando o lábio sorri... mas nunca chora!

Que tempos idos! que esperanças louras!

Que cismas de poesia e de futuro!

Nas páginas do triste Lamartine

Quanto sonho de amor pousava puro! ..

E tu falavas de um amor celeste,

De um anjo, que depois se fez esposa. . .

-Moça, que troca os risos de criança

 

Pelo meigo cismar de mãe formosa.

Oh! meu amigo! neste doce instante

O vento do passado em mim suspira,

E minh'alma estremece de alegria,

Como ao beijo da noite geme a lira.

Tu paraste na tenda, ó peregrino!

Eu vou seguindo do deserto a trilha;

Pois bem... que a lira do poeta errante

Seja a bênção do lar e da família.

 

 

 

Dalila

 

Fair defect of nature.

MILTON (Paradise Lost)

 

Foi Desgraça meu Deus!... Não!... Foi loucura

Pedir seiba de vida-à sepultura,

Em gelo - me abrasar,

Pedir amores -a Marco sem brio,

E a rebolcar-me em leito imundo e frio

-A ventura buscar.

Errado viajor - sentei-me à alfombra

E adormeci da mancenilha à sombra

Em berço de cetim...

Embalava-me a brisa no meu leito...

Tinha o veneno a lacerar-me o peito

- A morte dentro em mim...

Foi loucura!... No ocaso -tomba o astro;

A estátua branca e pura de alabastro

- Se mancha em lodo vil...

Quem rouba a estrela-à tumba do ocidente?

Que Jordão lava na lustral corrente

O marmóreo perfil?...

Talvez!... Foi sonho!... Em noite nevoenta

Ela passou sozinha, macilenta,

Tremendo a soluçar...

Chorava - nenhum eco respondia...

Sorria-a tempestade além bramia...

E ela sempre a marchar.

E eu disse-lhe: Tens frio? - arde minha alma.

Tens os pés a sangrar?-podes em calma

Dormir no peito meu.

Pomba errante-é meu peito um ninho vago!

Estrela- tens minha alma-imenso lago-

Reflete o rosto teu! . . .

E amamos - Este amor foi um delírio...

Foi ela minha crença, foi meu lírio,

Minha estrela sem véu...

Seu nome era o meu canto de poesia,

 

Que com o sol - pena de ouro -eu escrevia

Nas laminas do céu.

Em seu seio escondi-me... como à noite

Incauto colibri, temendo o açoite

Das iras do tufão,

A cabecinha esconde sob as asas,

Faz seu leito gentil por entre as gazas

Da rosa do Japão.

E depois... embalei-a com meus cantos

Seu passado esqueci... lavei com prantos

Seu lodo e maldição...

...Mas um dia acordei... E mal desperto

Olhei em torno a mim... -Tudo deserto...

Deserto o coração...

Ao vento, que gemia pelas franças

Por ela perguntei... de suas tranças

À flor que ela deixou...

Debalde... Seu lugar era vazio...

E meu lábio queimado e o peito frio,

Foi ela que o queimou...

Minha alma nodoou no ósculo imundo,

Bem como Satanás -beijando o mundo -

Manchou a criação,

Simum - crestou-me da esperança as flores...

Tormenta - ela afogou nos seus negrores

A luz da inspiração...

Vai, Dalila!... É bem longa tua estrada...

É suave a descida-terminada

Em báratro cruel.

Tua vida-é um banho de ambrósia...

Mais tarde a morte e a lâmpada sombria

Pendente do bordel.

Hoje flores... A música soando...

As perlas do Champagne gotejando

Em taças de cristal.

A volúpia a escaldar na lonca insônia...

Mas sufoca os festins de Babilônia

A legenda fatal.

Tens o seio de fogo e a alma fria.

O cetro empunhas lúbrico da orgia

Em que reinas tu só!...

Mas que finda o ranger de uma mortalha,

A enxada do coveiro que trabalha

A revolver o pó.

Não te maldigo, não!... Em vasto campo

Julguei-te - estrela, - e eras - pirilampo

Em meio à cerração...

Prometeu -quis dar luz à fria argila...

 

Não pude... Pede a Deus, louca Dalila,

A luz da redenção!!...

 

 

 

As Duas Ilhas

 

Sobre uma página de poesia de V. Hugo

com o mesmo título

 

Quando à noite - às horas mortas -

O silêncio e a solidão

-Sob o dossel do infinito-

Dormem do mar n'amplidão,

Vê-se, por cima dos mares,

Rasgando o teto dos ares

Dois gigantescos perfis...

Olhando por sobre as vagas,

Atentos, longínquas plagas

Ao clarear dos fuzis.

Quem os vê, olha espantado

E a sós murmura: "O que é?

Ai! que atalaias gigantes,

São essas além de pé?!. . ."

Adamastor de granito

Co'a testa roça o infinito

E a barba molha no mar;

E de pedra a cabeleira

Sacudind'a onda ligeira

Faz de medo recuar...

São-dons marcos miliários,

Que Deus nas ondas plantou.

Dons rochedos, onde o mundo

Dous Prometous amarrou!...

-Acolá. . . (Não tenhas medo!. . . )

E Santa Helena-o rochedo

Desse Titã, que foi rei! . . .

-Ali. .. (Não feches os olhos!. . . )

Ali... aqueles abrolhos

São a ilha de Jersey!...

São eles-os dous gigantes

No século de pigmeus.

São eles - que a majestade

Arrancam da mão de Deus.

-Este concentra na fronte

Mais astros-que o horizonte,

Mais luz - do que o sol lançou! . . .

-Aquele-na destra alçada

Traz segura sua espada

-Cometa, que ao céu roubou!...

E olham os velhos rochedos

O Sena, que dorme além...

E a França, que entre a caligem

Dorme em sudário também...

 

E o mar pergunta espantado:

"Foi deveras desterrado

Buonaparte -meu irmão?..."

Diz o céu astros chorando:

"E Hugo?. . . " E o mundo pasmando

Diz: "Hugo. . . Napoleão! . . . "

Como vasta reticência

Se estende o silêncio após...

Es muito pequena, ó França,

P'ra conter estes heróis...

Sim! que estes vultos augustos

Para o leito de Procustos

Muito grandes Deus traçou...

Basta os reis tremam de medo

Se a sombra de algum rochedo

Sobre eles se projetou!...

Dizem que, quando, alta noite,

Dorme a terra-e vela Deus,

As duas ilhas conversam

Sem temor perante os céus.

-Jersey curva sobre os mares

À Santa Helena os pensares

Segreda do velho Hugo...

- E Santa Helena no entanto

No Salgueiro enxuga o pranto

E conta o que Ele falou...

E olhando o presente infame

Clamam: "Da turba vulgar

Nós - infinitos de pedra -

Nós havemo-los vingar! .."

E do mar sobre as escumas,

E do céu por sobre as brumas,

Um ao outro dando a mão...

Encaram a imensidade

Bradando: "A Posteridade!..."

Deus ri-se e diz: "Inda não!..."

 

 

 

Ao Ator Joaquim Augusto

 

Um dia Pigmalião - o estatuário

Da oficina no tosco santuário

Pôs-se a pedra a talhar...

Surgem contornos lânguidos, amenos...

E dos flocos de mármore outra Vênus

Surge dest'outro mar.

De orgulho o mestre ri... A estátua é bela!

Da Grécia as filhas por inveja dela

Vão nas grutas gemer...

Mas o artista soluça: "O Grande Jove!

"Ela é bela . . . bem sei- mas não se move!

"E sombra-e não mulher!"

 

Então do excelso Olimpo o deus-tonante

Manda que desça um raio fulgurante

À tenda do escultor.

Vive a estátua! Nos olhos -treme o pejo,

Vive a estátua!.. . Na boca-treme um beijo,

Nos seios - treme amor.

O poeta é - o moderno estatuário

Que na vigília cria solitário

Visões de seio nu!

O mármore da Grécia - é o novo drama!

Mas o raio vital quem lá derrama?...

É Júpiter!... És tu!...

Como Gluck nas selvas aprendia

Ao som do violoncelo a melodia

Da santa inspiração,

Assim bebes atento a voz obscura

Do vento das paixões na selva escura

Chamada - multidão.

Gargalhadas, suspiros, beijos, gritos,

Cantos de amor, blasfêmias de precitos

Choro ou reza infantil,

Tudo colhes... e voltas cotas mãos cheias,

-O crânio largo a transbordar de idéias

E de criações mil.

Então começa a luta, a luta enorme,

Desta matéria tosca, áspera, informe,

Que na praça apanhou.

Teu gênio vai forjar novo tesouro...

O cobre escuro vai mudar-se em ouro,

Como Fausto o sonhou!

Glória ao Mestre! Passando por seus dedos

Dói mais a dor... os risos são mais ledos...

O amor é mais do céu...

Rebenta o ouro desta fronte acesa!

O artista corrigiu a natureza! O alquimista venceu!

Então surges, Ator! e do proscênio

Atiras as moedas do teu gênio

As pasmas multidões.

Pródigo enorme! a tua enorme esmola

Cunhada pela efígie tua rola

Nos nossos corações.

Por isso agora, no teu almo dia,

Vieram dando as mãos a Poesia

E o povo, bem o vês;

Como nos tempos dessa Roma antiga

Aos pos desse outro Augusto a plebe amiga

Atirava lauréis...

 

Augusto! E o nome teu não se desmente...

O diadema real na vasta frente

Cinges... eu bem o sei!

Mandas no povo deste novo Lácio...

E os poetas repetem como Horácio:

"Salve! Augusto! Rei!"

 

 

 

Os Anjos da Meia-Noite

 

Fotografias

 

I

 

Quando a insônia, qual lívido vampiro,

Como o arcanjo da guarda do Sepulcro,

Vela à noite por nós,

E banha-se em suor o travesseiro

E além geme nas franças do pinheiro

Da brisa a longa voz...

Quando sangrenta a luz no alampadário

Estala, cresce, expira, após ressurge,

Como uma alma a penar;

E canta aos guizos rubros da loucura

A febre- a meretriz da sepultura -

A rir e a soluçar...

Quando tudo vacila e se evapora,

Muda e se anima, vive e se transforma,

Cambaleia e se esvai...

E da sala na mágica penumbra

Um mundo em trevas rápido se obumbra...

E outro das trevas sai...

Então... nos brancos mantos, que arregaçam

Da meia-noite os Anjos alvos passam

Em longa procissão!

E eu murmuro ao fitá-los assombrado:

São os Anjos de amor de meu passado

Que desfilando vão...

Almas, que um dia no meu peito ardente

Derramastes dos sonhos a semente,

Mulheres, que eu amei!

Anjos louras do céu! virgens serenas!

Madonas, Querubins ou Madalenas!

Surgi! aparecei!

Vinde, fantasmas! Eu vos amo ainda;

Acorde-se a harmonia à noite infinda

Ao roto bandolim...

E no éter, que em notas se perfuma,

As visões s'alteando uma por uma,

Vão desfilando assim!...

 

 

 

1ª Sombra

 

Marieta

 

Como o gênio da noite, que desata

O véu de rendas sobre a espádua nua,

Ela solta os cabelos... Bate a lua

Nas alvas dobras de um lençol de prata...

O seio virginal, que a mão recata,

Embalde o prende a mão... cresce, flutua...

Sonha a moça ao relento... Além na rua

Preludia um violão na serenata! . . .

. . . Furtivos passos morrem no lajedo. . .

Resvala a escada do balcão discreta

Matam lábios os beijos em segredo...

Afoga-me os suspiros, Marieta!

Ó surpresa! ó palor! ó pranto! ó medo!

Ai! noites de Romeu e Julieta!...

 

 

 

2.a Sombra

 

Bárbora

 

Erguendo o cálix, que o Xerez perfuma,

Loura a trança alastrando-lhe os joelhos,

Dentes níveos em lábios tão vermelhos,

Como boiando em purpurina escuma;

Um dorso de Valquíria... alvo de bruma,

Pequenos pés sob infantis artelhos,

Olhos vivos, tão vivos como espelhos

Mas como eles também sem chama alguma;

Garganta de um palor alabastrino,

Que harmonias e músicas respira...

No lábio-um beijo... -no beijar-um hino;

Harpa eólia a esperar que o vento a fira,

-Um pedaço de mármore divino...

-É o retrato de Bárbora-a Hetaíra.-

 

 

 

3.a Sombra

 

Ester

 

Vem! no teu peito cálido e brilhante

O nardo oriental melhor transpira!...

Enrola-te na longa cachemira,

Como as Judias moles do Levante.

Alva a clâmide aos ventos-roçagante...

Túmido o lábio. onde o saltério gira...

Ó musa de Israel! pega da lira...

Canta os martírios de teu povo errante!

 

Mas não... brisa da pátria além revoa,

E, ao delamber-lhe o braço de alabastro,

Falou-lhe de partir... e parte... e voa...

Qual nas algas marinhas desce um astro...

Linda Ester! teu perfil se esvai... s'escoa...

Só me resta um perfume... um canto... um rastro...

 

 

 

4.ª Sombra

 

Fabíola

 

Como teu riso dói... como na treva

Os lêmures respondem no infinito:

Tens o aspecto do pássaro maldito,

Que em sânie de cadáveres se ceva!

Filha da noite! A ventania leva

Um soluço de amor pungente, aflito...

Fabíola! É teu nome!... Escuta... é um grito,

Que lacerante para os céus s'eleva!...

E tu folgas, Bacante dos amores,

E a orgia, que a mantilha te arregaça,

Enche a noite de horror, de mais horrores...

É sangue, que referve-te na taça!

É sangue, que borrifa-te estas flores!

E este sangue é meu sangue... é meu... Desgraça!

 

 

 

5.ª E 6.ª Sombras

 

Cândida e Laura

 

Como no tanque de um palácio mago

Dois alvos cisnes na bacia lisa,

Como nas águas, que o barqueiro frisa,

Dois nenufares sobre o azul do lago,

Como nas hastes em balouço vago

Dois lírios roxas, que acalenta a brisa,

Como um casal de juritis, que pisa

O mesmo ramo no amoroso afago...

Quais dois planetas na cerúlea esfera,

Como os primeiros pâmpanos das vinhas,

Como os renovos nos ramais da hera,

Eu vos vejo passar nas noites minhas,

Crianças, que trazeis-me a primavera...

Crianças, que lembrais-me as andorinhas!...

 

 

 

7.ª Sombra

 

Dulce

 

Se houvesse ainda talismã bendito

Que desse ao pântano-a corrente pura,

Musgo-ao rochedo, festa-à sepultura,

Das águias negras - harmonia ao grito...

Se alguém pudesse ao infeliz precito

Dar lugar no banquete da ventura...

E trocar-lhe o velar da insônia escura

No poema dos beijos - infinito...

Certo... serias tu, donzela casta

Quem me tomasse em meio do Calvário

A cruz de angústia, que o meu ser arrasta!...

Mas se tudo recusa-me o fadário,

Na hora de expirar, ó Dulce, basta

Morrer beijando a cruz de teu rosário!...

 

 

 

8.ª Sombra

 

Último fantasma

 

Quem és tu, quem és tu, vulto gracioso,

Que te elevas da noite na orvalhada?

Tens a face nas sombras mergulhada...

Sobre as névoas te libras vaporoso...

Baixas do céu num vôo harmonioso!...

Quem és tu, bela e branca desposada?

Da laranjeira em flor a flor nevada

Cerca-te a fronte, 6 ser misterioso!...

Onde nos vimos nós?... Es doutra esfera?

És o ser que eu busquei do sul ao norte...

Por quem meu peito em sonhos desespera?...

Quem és tu? Quem és tu?-Es minha sorte!

És talvez o ideal que est'alma espera!

És a glória talvez! Talvez a morte!...

 

 

 

 

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