A decadência da classe trabalhadora XII


Apesar de ser um instrumento de inserção da classe trabalhadora no mercado, a economia solidária pode, se bem conduzida e interpretada, desempenhar um papel fundamental na superação do sistema de produção atual.

 
Como já vimos, a economia solidária tem nas cooperativas seu instrumento de realização objetivo. A principal limitação das cooperativas é a facilidade com que sua gestão pode ser desviada de suas finalidades reais para servir a todo tipo de objetivos secundários e mesmo contraditórios com sua existência.

Outro perigo que ronda as iniciativas de economia solidária é a criação de cooperativas com o único objetivo de se tornarem fonte de mão-de-obra barata para empresas globalizadas. Nesse caso, o trabalhador será um eterno empreendedor de segunda classe.

Aqui não falamos dos já clássicos esquemas de empresas que criam “cooperativas” apenas para burlar as leis trabalhistas (as “coopergatos”). Estamos falando de iniciativas até bem intencionadas, mas que no fundo, não levam a sério a competência dos trabalhadores.

Como não admitem a possibilidade de que cooperativas sejam capazes de lidar com alta tecnologia, por exemplo, procuram dar ênfase apenas a atividades de prestação de serviços de projetos, manutenção e consultoria. Isso é um grave erro.

Para o convencimento e a propaganda da economia solidária, o exemplo deve vir “de cima”, ou seja, pela recusa dos trabalhadores mais capacitados e tecnicamente mais brilhantes, em aceitar a situação de assalariados. Mesmo as tentadoras opções de compras de ações das próprias empresas, devem ser vistas com muita reserva. Já foram fábricas de milionários “falidos precocemente” em passado recente.

A formação de uma cooperativa, rentável e com perspectivas de futuro, deve funcionar como principal método de recrutamento de quadros de alto nível. A luta pelo domínio do conhecimento tecnológico, pela posse de patentes e direitos autorais, deve ser um objetivo permanente.

Fomentar a “destruição criadora” de modo a democratizar a verdadeira riqueza do capitalismo informacional não se confunde com a mera prestação de serviços a corporações globalizadas. E preciso disputar com as melhores nos mesmos mercados. Pertencer a uma cooperativa de sucesso deve se tornar símbolo de status maior do que o de executivo “empregado”.

É preciso que fique claro para os melhores profissionais que o investimento numa carreira como assalariado, começa a se tornar tão arriscado quanto à de cantor de rock, jogador de futebol, ator, etc. A cooperativa não deve ser vista como solução restrita à “perdedores” ou a desempregados sem esperanças.

Finalmente é preciso entender que a economia solidária não deve ser vista como um fim em si. Embora cada atividade cooperativa deva estar orientada para a promoção dos interesses de seus participantes, por meio do mercado, o conjunto deve ser visto como parte das grandes redes globais de produção e circulação.

A nova economia em rede não é propícia para estruturas de porte muito grande e sim para estruturas flexíveis. As grandes corporações capitalistas já entenderam isso. É por isso que procuram se desligar ao máximo de suas bases regionais e até mesmo nacionais.

As cooperativas do futuro não devem ser organizadas por bairros, cidades, países e nem comunidades geográficas e sim por “comunidades virtuais”, onde o vínculo principal é o interesse em comum, seja qual for. A tendência das cooperativas em se fixar a uma base regional deve ser desestimulada.

Mas será que de fato a economia solidária não pode ser uma alternativa ao modo de produção capitalista? Afinal o capitalismo não criou o mercado e a idéia de que é o único modo de produzir bens e serviços de modo a satisfaze-lo se deve mais a abordagens erradas dos problemas que ele cria.

A imensa maioria dos críticos do capitalismo, acabou por ceder a tentação de confundi-lo com o próprio mercado. Levados por esse erro, passaram a tentar suprimi-lo. Mas já vimos que o mercado é o espaço racional por excelência, e portanto, tentar substitui-lo por sistemas de planejamento termina sempre em um misto de fracasso e tragédia.

Mas a economia solidária não é de forma alguma incompatível com o mercado e nem mesmo com o capitalismo. O próprio capitalismo surgiu como alternativa aos velhos modos de produção herdados do feudalismo.

Como nota Paul Singer, grande autoridade em economia solidária, o desenvolvimento do capitalismo, antes das vitórias da burguesia, se apoiava nas falhas na imposição dos monopólios então dominados por oligarquias de mestres e mercadores, cuja riqueza vinha de seus privilégios, obtidos de modo arbitrário, sem nenhuma relação com o mercado.

Paul Singer também nota que a burguesia capitalista aproveitava essas falhas inclusive de modo ilegal e secreto. Mas seu sucesso se deve a clara cumplicidade dos compradores e intermediários que costumavam ser prejudicados pelas leis e regulamentos monopolistas. Em suma, o capitalista, por mais rico que fosse, se sujeitava ao mercado.

A vitória incontestável do modo de produção capitalista não se deveu ao controle que passou a exercer sobre o Estado e suas instituições. A burguesia, apoiada num sólido realismo, primeiro promoveu uma “revolução econômica” por meios pacíficos. Depois foi aos poucos consolidando suas posições e se tornando insubstituível.

 

Foi a absoluta incompetência das classes dominantes da época, em reconhecer os seus direitos, que levou a burguesia à decisão radical de tomar o poder a força. Em muitos países, prevaleceu o bom senso e as classes dominantes passaram a ceder poder e até a se integrar ao novo espírito do capitalismo.

É por ter criado uma base econômica e um modo de produção inteiramente novo que a burguesia obteve sucesso em se impor e assumir o controle do Estado e das igrejas. O erro fundamental de Karl Marx foi inverter esse raciocínio. Para ele, a burguesia tinha construído sua hegemonia a partir da tomada de poder, via revolução.

Por esse mesmo raciocínio, bastava que a classe trabalhadora conquistasse o poder político, por meio de uma ação violenta, para que a sociedade se tornasse “proletária”. O resultado de tais experiências foi o surgimento de sistemas que eram incompatíveis com o mercado. E, tudo que se choca com a realidade, cedo ou tarde acabará por perecer. A história é implacável nesse ponto.

Podemos concluir que as propostas envolvendo economia solidária, devem seguir sempre na direção de sua viabilidade dentro do próprio sistema capitalista. Poderá até supera-lo, caso se adapte melhor aos novos paradigmas tecnológicos, políticos e sociais.

Nesse caso, as experiências de economia solidária repetiriam o êxito do próprio sistema capitalista, criando uma nova forma de produção e um vasto sistema de alianças com o consumidor, capaz de se contrapor aos novos cartéis, oligopólios e monopólios criados pelas grandes corporações capitalistas globais.

Em todo caso, temos de levar em conta que a economia solidária não deve ser vista como um “estágio” intermediário para a “construção do socialismo”. Isso porque já sabemos que é a própria classe trabalhadora que está em decadência e portanto o objetivo é livra-la da condição de assalariados.

A verdadeira contradição do sistema capitalista contemporâneo não é a exploração dos trabalhadores pela classe dos empreendedores e sim sua exclusão do sistema produtivo. Como a classe trabalhadora não pode ser excluída como consumidora, cria-se um paradoxo.

Cada vez mais a produtividade aumenta, os custos diminuem, mas a pobreza relativa não sede. Não basta que alguns indicadores sociais mostrem que as condições de vida têm até melhorado no mundo inteiro. O capitalismo global só é viável com um constante aumento de consumo.

Mas como promover consumo se a lógica da empresa capitalista é a redução de empregos por meio do uso intensivo das novas tecnologias? Esse problema não tem tido resposta satisfatória. A concentração de renda tem sido cada vez maior.

A transferência de empregos para países periféricos, onde os salários são mais baixos, tem ajudado a tirar milhões de pessoas da pobreza absoluta. Mas os novos empregos não são capazes de eleva-las a condição de consumidores nos patamares dos trabalhadores dispensados nos países desenvolvidos.

Estatísticas mundiais mostram que quase a metade da população assalariada, vive abaixo da linha de pobreza. Em outras palavras, mesmo tendo empregos, a maioria não consegue consumir os produtos produzidos pela nova economia.

Isso significa que um novo modo de organizar a produção e distribuir a renda, é imprescindível a própria sobrevivência do sistema capitalista. A economia solidária não seria portanto uma forma de “enfrentar” o capitalismo e sim de solucionar os problemas que ele próprio talvez não consiga superar.

Tornando o maior número possível de pessoas livres da dependência do salário como única fonte de renda, as possibilidades de expansão do mercado se tornam praticamente ilimitadas.

Um sistema que passe a “explorar” as máquinas e incluir pessoas na classe burguesa, se tornaria virtualmente impermeável a crises cíclicas de superprodução ou limitação dos mercados. Os limites (a considerar seriamente) seriam apenas os recursos naturais do planeta.
 

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