FEELING - AMIGO OU INIMIGO ?

 
Por Ricardo de Lima Delarue

Uma vez, há muitos anos atrás, em um congresso de gerência de projeto, ouvi uma piada sem graça que me fez no mínimo pensar a respeito, foi a seguinte:O único, até hoje, que ganhou dinheiro com "feeling" (sentimento) foi um cantor brasileiro que americanizou o nome: Maurice Albert.A canção Feeling, foi primeira colocada nas paradas de sucesso no Brasil, Estados Unidos e sei lá onde mais.


Evidentemente que o assunto era direcionado à gerência de projeto. Não vamos polemizar em relação aos atores, pintores, músicos e demais que afloram "sentimento" no seu trabalho.


Eu, recém formado Engenheiro Civil, naquela ânsia de informação inerente à jovialidade, fiquei no mínimo intrigado, ou com a "pulga atrás da orelha".


Como o sentimento poderia não contribuir ao sucesso de um projeto ? Como não considerar que o "sentimento", fruto da fusão entre um conhecimento técnico e da experiência profissional, poderia não trazer bons resultados a um projeto?. Não seria o sentimento portanto uma característica de um empreendedor (palavra esta, nova naquele tempo) ? .


Desde àquela época, considerava-me  um Cartesiano Neo Liberal, portanto entendia que nem tudo são contas matemáticas simples ou complexas, que poderiam gerar resultados, que nem tudo era um sistema binário do tipo sim e não, pode e não pode, certo ou errado.

Como não poderia deixar de ser diferente, o tempo foi passando e surgiu a informática, um sonho. Lotus 123, Dbase, Wordstar e o Superproject,  Quando fui apresentado a esse último programa disse:

- Essa é a minha vida, serei um planejador.

Eu estava no céu com o meu PC 4,75 Mhz, com dois drives de 256 K e um winchester (naquela época não era hd) de 2 mb. Para que mais ?

Com tudo isso, aquela piada sem graça, que já estava achando que teria sido criada por algum radical shiita, me perseguia como uma sombra.

Com o tempo, a experiência foi sendo adquirida obra a obra, susto a susto, hora extra a hora extra. Quanto mais ficava experiente, mais achava que meu sentimento poderia responder a todas as questões; mais estava poderoso, sabia tudo de planejamento e controle, tinha a ferramenta perfeita e o mundo estava em minhas mãos.

Não me lembro mais quando, e ainda bem que isso ocorreu, "a ficha caiu", ou entendi a piada, ainda que sem rir, e fiquei sem graça. Na qualidade de ser humano, descobri que poderia estar muito enganado se utilizasse apenas o sentimento como instrumento solucionador de problemas. Acordei a tempo acredito, voltei aos livros, estudei.

Cada vez que estudo, descubro que mais tenho que estudar, ou aprender. Chegou a chamada globalização. Um comendo o outro, sem cerimônia. O mercado muito competitivo. O preço de um orçamento é apenas um fator, e talvez o de menor importância. Mas o que importa então ? Planejamento estratégico ?, diriam uns, Logística ?, diriam outros, Não, basta o sentimento. Pobre desses últimos.


Agora, com os primeiros, ainda raros, fios de cabelos brancos aparecendo, tenho duas certezas: a primeira é que o sentimento ou feeling, pode ser seu principal inimigo na execução do seu projeto, caso ele seja seu principal instrumento de planejamento e controle. Acredito que não seja somente minha a certeza, que ainda existam projetos sendo tocados pelo feeling, ou "sentimento". Empreendimentos onde seu cronograma apenas enfeita a parede do barracão da obra. Nessa hora, o sentimento é o maior inimigo do Gerente do Empreendimento. Me preocupo, talvez em uma visão egoísta, com a empresa que trabalho, e consigo dar minha contribuição para que isso não ocorra.

A segunda certeza é que como gerente, tenho por obrigação procurar informar aos meus clientes internos e externos que o sentimento é apenas mais uma importante ferramenta, que quando sendo considerada assim, torna-se um amigo que agrega valor às informações adquiridas pelas diversas outras. 

Não vislumbrei até hoje, nenhuma situação em que somente o sentimento tornou-se o mais importante instrumento que o profissional possui para solucionar seus problemas, quanto mais controlar a produção de um empreendimento.

Nobre leitor, seu futuro ainda pode estar em suas mãos, pense no Maurice Albert e seu Feeling, pode ajudar, e muito.

Ricardo de Lima Delarue é Engenheiro Chefe do setor de Planejamento e Controle da Área de Negócios de Obras e Geotecnia das Empresas Concrejato e Contemat, pertencentes às Empresas Concremat.

 

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