Artigo Publicado na Revista G&O

Softwares de Planejamento de Projetos

Primavera ou MS Project?

 

Na nossa lista E-plan.br (http://br.groups.yahoo.com/group/planejamento) existem alguns assuntos que são tabu. Um deles é a comparação de softwares na base do “qual é o melhor”. Sempre chegamos nas mesmas conclusões:

1 – Software é ferramenta;

2 – O melhor software é aquele que você sabe usar.

             Partindo destas conclusões podemos dizer que:

 ·         Por melhor que seja um software de planejamento o máximo que ele pode fazer pelo projeto é, se corretamente “pilotado”, apontar tendências, indicar deficiências, calcular índices e prever prazos. Ele nunca irá sugerir algo, nunca irá analisar números e nunca tomará decisões. Este é o trabalho do planejador, portanto um software por si só não “ganha o jogo”. Software é ferramenta, nas mãos de um profissional competente faz mágica, nas mãos de um não-profissional pode causar “acidentes”.

·         Aqueles que usam um software por determinado tempo acabam se adaptando à ele. Usam sua nomenclatura, seus métodos, descobrem como usar quase todos os comandos até que eventualmente os “dominam”, ou como se diz por aí “chamam de você e não de vossa excelência”. Estes profissionais se apegam ao software e agem como uma torcida apaixonada (aqueles que me conhecem devem estar abrindo um sorriso agora). Para estes não há discussão, o melhor software é o que eles dominam, ponto final. Neste caso é até melhor trocar de software do que de profissional. O custo do software não justifica a perda de produtividade e segurança do expert. É melhor manter o mágico do que trocar a cartola.

 Pela nossa pesquisa na lista o percentual de usuários do MSP se situa em 60%, enquanto que o P3/Suretrak fica com 30%. Mas este “público seleto” não reflete a realidade do mercado onde o MSP deve ter uns 90% do número de usuários operando em diversos níveis.

 Aí fui convidado pela G&O para desenvolver este assunto espinhoso e quebrar o tabu. Como comecei minha vida de planejamento com o CA Superproject , passando para o MS Project 4, depois para o Primavera Project Planner 1.1, 2.0 e 3.0 e a sua versão “light” o SureTrak e nos últimos tempos andei “namorando” o MSP 2000 e 2002, sinto-me a vontade para tecer estes comentários com a ressalva de que se trata da minha visão particular e não de ser o dono da verdade. Pretendo nas linhas que se seguem não qualificar os softwares através de números ou de capacidades que se encontram nos folhetos ou com os vendedores (para isto basta acessar os sites www.microsoft.com.br ou www.stei.com.br, mas sim resumir o que disse quando fui convidado a apresentar este mesmo tópico no curso de MBA de Gerenciamento de Projetos da FGV. Estarei falando do que gosto e do que não gosto de cada um deles sob o ponto de vista do planejador que “batuca o teclado” no dia-a-dia.

O que os dois fazem muito bem

 Todos nós sabemos que não usamos todo o potencial de um software. No Excel por exemplo, talvez cheguemos a usar de 40% até 60%, se tanto. Uns mais, outros menos, mas fiquemos então com a média de 50%. No MS Project (MSP) ou no Primavera Project Planner (P3) ou no SureTrak não é diferente. Eu me considero um “heavy user” do P3 e devo ter usado uns 70% a 80% dos recursos do software, no MSP talvez uns 50%.

Ambos fazem bem o feijão-com-arroz do planejamento, ou seja, criar e manter uma rede CPM; gerenciar atividades, calendários, recursos e custos; fazer simulações; selecionar, agrupar, sumariar e ordenar atividades; gerar informação e relatórios. Em um nível básico de operação posso dizer que ambos atendem bem os seus propósitos e todas as incorreções que já encontrei por aí deveram-se mais à imperícia dos planejadores (na verdade daqueles que desenhavam cronogramas) do que às falhas de software.

Ambos possuem aqueles recursos avançadíssimos que poucos tem oportunidade de usar na prática como nivelamento de recursos e alguns outros obrigatórios por questões de mercado, como ferramentas de publicação na Internet e Intranet. Ambos mostram-se antenados com o PMIBoK.

O que eu gosto no MS Project

O MSP tem aquela cara do Office. É como o irmão daquele cara que você conhece bem (no caso o Excel e o Word) e portanto se sente a vontade com ele mesmo sem conhece-lo direito. Instintivamente você vai achando os comandos, clicando aqui e ali e vai se tornando um iniciado mesmo sem um curso ou a leitura de manuais. É por esta razão que o MSP possui mais usuários que o P3 (além é claro do esmagador poder da Microsoft). A facilidade de operação também diminui o tempo de aprendizado e disponibiliza uma grande quantidade de profissionais no mercado. Paradoxalmente esta capacidade de ser um software de planejamento “para as massas” leva ao errôneo pensamento de que desenho de cronograma é planejamento e que “qualquer um” pode ser planejador, o que gera até um certo preconceito dos “primaveristas” em relação aos “projeteiros”. Mas o MSP não pode ser culpado por ser de fácil operação. Ponto para o MSP!

Existem algumas facilidades no dia-a-dia que eu faço questão de destacar como o lag percentual numa relação de precedência que é simplesmente sensacional (A precede B início-início mais um lag de 50% da duração de A). A quantidade de campos personalizáveis supera em muito o Primavera em número e no tratamento. Numa planilha de recursos ou custos, a capacidade de editar valores num determinado período (a quantidade de HH de servente no mês de fevereiro) vale ouro ainda mais se já existir um compromisso contratual assumido.

O MSP tem um custo menor se comparado ao P3, uma ampla rede de vendas mais cursos a disposição e mais bibliografia.

Finalmente posso citar a melhor integração com os aplicativos Office, o que torna a exportação,  importação e vinculação de dados um procedimento muito freqüente e possível de ser operacionalizado e até mesmo passível de desenvolvimento de macros.

O que eu não gosto no MS Project

A facilidade de operar o MSP pode levar os iniciantes a falhas que na minha opinião o MSP deveria impedir (ou no mínimo avisar), por exemplo, digitar uma data no MSP significa inserir uma restrição na atividade. Isto é feito tão discretamente que é muito freqüente encontrar uma rede CPM totalmente travada. Na mesma linha o MSP facilita a existência de atividades sem predecessores e sucessores, o que leva a um cálculo de folgas incorreto e muitas vezes à inexistência de uma rede CPM digna do nome.

O módulo de impressão é meio “duro de cintura” e o tratamento da escala de tempo para impressão e visualização na tela por percentual não é uma boa solução.

Não existe uma maneira de se fazer uma “Curva S” satisfatoriamente usando apenas o MSP. A grande maioria das soluções passa pela exportação para o Excel. Isto é realmente uma grande desvantagem.

Quando se trabalha no MSP é preciso ter em mente que todos os cálculos são feitos em horas não importando a unidade definida para o projeto. Assim você freqüentemente encontra atividades com duração em dias fracionados (reclamação que muitas vezes ouço) devido a problemas de calendários e da conversão das durações para horas.

Mas sem dúvida o que menos me agrada é o modo de atualização. O conceito de “Data Date” do Primavera é muito superior à uma eventual simulação deste raciocínio pela “Data da Status” no MSP. Medir o projeto sem a “Data de Status” é possível mas ainda mais sacrificante pois possibilita uma confusão entre passado e futuro, onde numa medição de agosto por exemplo, pode-se ter atividades não concluídas que tenham término “previsto” para julho e atividades já iniciadas em setembro.

O que eu gosto no Primavera

 O conceito de códigos de atividades que é muito superior ao conceito de grupos ou mesmo a estrutura rígida de identação do MSP. Estes códigos flexibilizam muito mais a estrutura do projeto, embora sejam mais trabalhosos de criar e manter. Usados com inteligência eles podem ser o diferencial no dia-a-dia do planejador.

Outra característica quase-milagrosa do P3 é a ferramenta de “Global Change” que permite uma manipulação lógica do banco de dados na forma de “se..então..senão”, com esta ferramenta você pode alterar quase todas as variáveis do projeto com muita liberdade.

Quanto ao gerenciamento de recursos uma vantagem do P3 são os centros de custo, inexistentes no MSP e que se explorados criativamente podem se tornar um similar do código de atividades aplicado aos recursos.

Mas o que eu gosto mais é na verdade um detalhe, o asterisco colocado na relação de precedência dominante, ou seja, dos diversos predecessores de uma atividade o P3 marca com um asterisco aquela que está “mandando”. O mesmo vale para os sucessores. Isto e mais o botão “Jump” na janela dos predecessores e sucessores dá ao planejador uma enorme “navegabilidade” pela linha crítica!

Finalmente posso citar a dedicação da Primavera e o fato de que o P3 não é um software isolado, mas apenas um dos muitos softwares de gerenciamento de projetos da Primavera. Se esta suíte for adotada o gerenciamento do projeto será com certeza mais fácil.

O que eu não gosto no Primavera

Existem algumas falhas inexplicáveis no P3, como por exemplo a inexistência de um campo “duração total” (que seria a soma da duração atual mais a duração remanescente) obrigando o planejador a gastar uma preciosa variável customizada para compensar este erro. Existem algumas outras variáveis que estão disponíveis para alguns relatórios, mas que não estão disponíveis para uma coluna da planilha ou para outro relatório sem nenhum motivo aparente.

Uma das maiores reclamações dos usuários do P3 é a falta de armazenamento de dados históricos. A Primavera ofereceu uma opção com o “Store Period Performance”, mas esta não é a solução esperada e a edição destes dados deixa muito a desejar.

Outra dificuldade é a limitação no uso de fontes e cores para as colunas da parte tabela, o que dificulta o destaque de uma certa atividade ou de um grupo de atividades.

O hardlock (a trava de hardware) que bloqueava o uso do software foi finalmente abandonado na versão 3 que o substituiu por um não menos incômodo sistema de senha on-line.

Uma grande desvantagem é a falta de um Primavera em português, o software somente apresenta os menus e comandos em inglês. A ferramenta “Set Language” minora a falha, mas não a resolve. Em paralelo a inexistência de bibliografia em português (uma boa oportunidade para quem quiser investir) e a falta de treinamento não alavanca o software que permanece desconhecido para o grande público, este defeito ajuda o MSP a se firmar como padrão.

O que eu não gosto em nenhum dos dois

Ah, sim! Existem aspectos falhos em ambos os softwares. Um deles é a dificuldade na compatibilização de uma EAP de planejamento com uma EAP de orçamento, assunto amplamente discutido na lista e-plan.br. Está certo que é um problema de metodologia, mas este seria um diferencial e tanto para quem conseguisse.

Um detalhe particularmente irritante é a não atualização das ferramentas de conversão dos arquivos de MPP para MPX e daí para P3 (e vice-versa). Fica a impressão de quem ambas softwarehouses desejam desestimular esta possibilidade agarrando-se aos seus respectivos “market-shares”. A Primavera não atualiza o seu MPX Converter que gera erros para as novas versões do MSP e a Microsoft nas novas versões simplesmente escondeu a capacidade de gerar arquivos em formato MPX e interrompe a conversão ao menor sinal de erro. De forma que você, pobre planejador, pode ser obrigado como eu a utilizar o Primavera, depois o MPX Converter, depois o MS Project 4, depois o MS Project 98 e finalmente o MS Project 2000 para fazer uma conversão com um mínimo de perdas.

Entre mortos e feridos

É sempre complicado dizer qual é o melhor software. O primeiro passo seria levantar as necessidades do projeto e somente então procurar o software que melhor se adeqüe.

Embora o fator custo seja importante para as empresas de pequeno porte, ele não deve ser superestimado pois sempre há a economia de escala, sempre há o retorno do investimento (o software “se paga”) e francamente, num empreendimento importante economizar no software de gerenciamento de projeto é começar dando um tiro no pé. Além do mais o mercado não é maluco e a diferença de custo normalmente corresponderá à uma diferença de performance.

Entre mortos e ferido eu sintetizaria da seguinte forma: Se você tem um projeto com um grande número de participantes (entre empresas e planejadores) e um nível de complexidade baixo ou médio, opte pelo MSP. Já se você tem um projeto que exigirá uma boa complexidade e um número reduzido de envolvidos, opte pelo P3 (ou SureTrak). Esta, é claro, é uma simplificação de uma opinião pessoal e como toda simplificação está sujeita à cometer injustiças. Existirão sempre exceções mas elas existem para confirmar a regra .

Escolha você mesmo

Dito tudo isto você deve estar tendo uma destas três reações: Se você conhecia bem um dos softwares deve estar curioso para conhecer o outro e confirmar (ou não) estas minhas opiniões. Se você conhecia muito bem um dos softwares deve estar reclamando que eu não citei esta ou aquela propriedade ou que simplesmente ignorei aquele recurso que já te salvou um par de vezes. Bem... é verdade, mas você assim como eu, é um apaixonado e os apaixonados costumam falar demais sobre as qualidades das suas paixões e aí a revista G&O iria ficar pequena. Se você não conhecia bem nenhum dos dois softwares deve estar se perguntando “E agora? Qual escolher?”. Não há resposta certa (ou “depende” como diria um consultor), pois cada caso é diferente e cabe a você (e não a este humilde planejador) julgar. Na dúvida peça duas demonstrações!

Um grande abraço e vejo vocês na lista e-plan.br!

 Luiz Augusto P. Silva (http://www.rionet.com.br/~deniluiz) é Engenheiro Civil com Pós-Graduação em Engenharia Econômica, atuando desde de 1984 na área de planejamento, orçamento e controle de obras civis. É o criador e o moderador da Lista E-plan.br.

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