Na
nossa lista E-plan.br (http://br.groups.yahoo.com/group/planejamento)
existem alguns assuntos que são tabu. Um deles é a comparação de softwares
na base do “qual é o melhor”. Sempre chegamos nas mesmas conclusões:
1
– Software é ferramenta;
2
– O melhor software é aquele que você sabe
usar.
·
Aqueles que usam um software por determinado tempo
acabam se adaptando à ele. Usam sua nomenclatura, seus métodos, descobrem como
usar quase todos os comandos até que eventualmente os “dominam”, ou como se
diz por aí “chamam de você e não de vossa excelência”. Estes
profissionais se apegam ao software e agem como uma torcida apaixonada (aqueles
que me conhecem devem estar abrindo um sorriso agora). Para estes não há
discussão, o melhor software é o que eles dominam, ponto final. Neste caso é
até melhor trocar de software do que de profissional. O custo do software não
justifica a perda de produtividade e segurança do expert.
É melhor manter o mágico do que trocar a cartola.
Ambos
fazem bem o feijão-com-arroz do planejamento, ou seja, criar e manter uma rede
CPM; gerenciar atividades, calendários, recursos e custos; fazer simulações;
selecionar, agrupar, sumariar e ordenar atividades; gerar informação e
relatórios. Em um nível básico de operação posso dizer que ambos atendem
bem os seus propósitos e todas as incorreções que já encontrei por aí
deveram-se mais à imperícia dos planejadores (na verdade daqueles que
desenhavam cronogramas) do que às falhas de software.
Ambos
possuem aqueles recursos avançadíssimos que poucos tem oportunidade de usar na
prática como nivelamento de recursos e alguns outros obrigatórios por
questões de mercado, como ferramentas de publicação na Internet e Intranet.
Ambos mostram-se antenados com o PMIBoK.
O
MSP tem aquela cara do Office. É como o irmão daquele cara que você conhece
bem (no caso o Excel e o Word) e portanto se sente a vontade com ele mesmo sem
conhece-lo direito. Instintivamente você vai achando os comandos, clicando aqui
e ali e vai se tornando um iniciado mesmo sem um curso ou a leitura de manuais.
É por esta razão que o MSP possui mais usuários que o P3 (além é claro do
esmagador poder da Microsoft). A facilidade de operação também diminui o
tempo de aprendizado e disponibiliza uma grande quantidade de profissionais no
mercado. Paradoxalmente esta capacidade de ser um software de planejamento “para
as massas” leva ao errôneo pensamento de que desenho de cronograma é
planejamento e que “qualquer um” pode ser planejador, o que gera até um
certo preconceito dos “primaveristas” em relação aos “projeteiros”.
Mas o MSP não pode ser culpado por ser de fácil operação. Ponto para o MSP!
Existem
algumas facilidades no dia-a-dia que eu faço questão de destacar como o lag
percentual numa relação de precedência que é simplesmente sensacional (A
precede B início-início mais um lag de 50% da duração de A). A quantidade de
campos personalizáveis supera em muito o Primavera em número e no tratamento.
Numa planilha de recursos ou custos, a capacidade de editar valores num
determinado período (a quantidade de HH de servente no mês de fevereiro) vale
ouro ainda mais se já existir um compromisso contratual assumido.
O
MSP tem um custo menor se comparado ao P3, uma ampla rede de vendas mais cursos
a disposição e mais bibliografia.
Finalmente
posso citar a melhor integração com os aplicativos Office, o que torna a
exportação, importação e
vinculação de dados um procedimento muito freqüente e possível de ser
operacionalizado e até mesmo passível de desenvolvimento de macros.
A
facilidade de operar o MSP pode levar os iniciantes a falhas que na minha
opinião o MSP deveria impedir (ou no mínimo avisar), por exemplo, digitar uma
data no MSP significa inserir uma restrição na atividade. Isto é feito tão
discretamente que é muito freqüente encontrar uma rede CPM totalmente travada.
Na mesma linha o MSP facilita a existência de atividades sem predecessores e
sucessores, o que leva a um cálculo de folgas incorreto e muitas vezes à
inexistência de uma rede CPM digna do nome.
O
módulo de impressão é meio “duro de cintura” e o tratamento da escala de
tempo para impressão e visualização na tela por percentual não é uma boa
solução.
Não
existe uma maneira de se fazer uma “Curva S” satisfatoriamente usando apenas
o MSP. A grande maioria das soluções passa pela exportação para o Excel.
Isto é realmente uma grande desvantagem.
Quando
se trabalha no MSP é preciso ter em mente que todos os cálculos são feitos em
horas não importando a unidade definida para o projeto. Assim você
freqüentemente encontra atividades com duração em dias fracionados
(reclamação que muitas vezes ouço) devido a problemas de calendários e da
conversão das durações para horas.
Mas
sem dúvida o que menos me agrada é o modo de atualização. O conceito de “Data
Date” do Primavera é muito superior à uma eventual simulação deste
raciocínio pela “Data da Status” no MSP. Medir o projeto sem a “Data de
Status” é possível mas ainda mais sacrificante pois possibilita uma
confusão entre passado e futuro, onde numa medição de agosto por exemplo,
pode-se ter atividades não concluídas que tenham término “previsto” para
julho e atividades já iniciadas em setembro.
Outra
característica quase-milagrosa do P3 é a ferramenta de “Global Change” que
permite uma manipulação lógica do banco de dados na forma de “se..então..senão”,
com esta ferramenta você pode alterar quase todas as variáveis do projeto com
muita liberdade.
Quanto
ao gerenciamento de recursos uma vantagem do P3 são os centros de custo,
inexistentes no MSP e que se explorados criativamente podem se tornar um similar
do código de atividades aplicado aos recursos.
Mas
o que eu gosto mais é na verdade um detalhe, o asterisco colocado na relação
de precedência dominante, ou seja, dos diversos predecessores de uma atividade
o P3 marca com um asterisco aquela que está “mandando”. O mesmo vale para
os sucessores. Isto e mais o botão “Jump” na janela dos predecessores e
sucessores dá ao planejador uma enorme “navegabilidade” pela linha
crítica!
Finalmente
posso citar a dedicação da Primavera e o fato de que o P3 não é um software
isolado, mas apenas um dos muitos softwares de gerenciamento de projetos da
Primavera. Se esta suíte for adotada o gerenciamento do projeto será com
certeza mais fácil.
Existem
algumas falhas inexplicáveis no P3, como por exemplo a inexistência de um
campo “duração total” (que seria a soma da duração atual mais a
duração remanescente) obrigando o planejador a gastar uma preciosa variável
customizada para compensar este erro. Existem algumas outras variáveis que
estão disponíveis para alguns relatórios, mas que não estão disponíveis
para uma coluna da planilha ou para outro relatório sem nenhum motivo aparente.
Uma
das maiores reclamações dos usuários do P3 é a falta de armazenamento de
dados históricos. A Primavera ofereceu uma opção com o “Store Period
Performance”, mas esta não é a solução esperada e a edição destes dados
deixa muito a desejar.
Outra
dificuldade é a limitação no uso de fontes e cores para as colunas da parte
tabela, o que dificulta o destaque de uma certa atividade ou de um grupo de
atividades.
O
hardlock (a trava de hardware) que bloqueava o uso do software foi finalmente
abandonado na versão 3 que o substituiu por um não menos incômodo sistema de
senha on-line.
Uma
grande desvantagem é a falta de um Primavera em português, o software somente
apresenta os menus e comandos em inglês. A ferramenta “Set Language” minora
a falha, mas não a resolve. Em paralelo a inexistência de bibliografia em
português (uma boa oportunidade para quem quiser investir) e a falta de
treinamento não alavanca o software que permanece desconhecido para o grande
público, este defeito ajuda o MSP a se firmar como padrão.
Ah,
sim! Existem aspectos falhos em ambos os softwares. Um deles é a dificuldade na
compatibilização de uma EAP de planejamento com uma EAP de orçamento, assunto
amplamente discutido na lista e-plan.br. Está certo que é um problema de
metodologia, mas este seria um diferencial e tanto para quem conseguisse.
Um
detalhe particularmente irritante é a não atualização das ferramentas de
conversão dos arquivos de MPP para MPX e daí para P3 (e vice-versa). Fica a
impressão de quem ambas softwarehouses desejam desestimular esta possibilidade
agarrando-se aos seus respectivos “market-shares”. A Primavera não atualiza
o seu MPX Converter que gera erros
para as novas versões do MSP e a Microsoft nas novas versões simplesmente
escondeu a capacidade de gerar arquivos em formato MPX e interrompe a conversão
ao menor sinal de erro. De forma que você, pobre planejador, pode ser obrigado
como eu a utilizar o Primavera, depois o MPX Converter, depois o MS Project 4,
depois o MS Project 98 e finalmente o MS Project 2000 para fazer uma conversão
com um mínimo de perdas.
É
sempre complicado dizer qual é o melhor software. O primeiro passo seria
levantar as necessidades do projeto e somente então procurar o software que
melhor se adeqüe.
Embora
o fator custo seja importante para as empresas de pequeno porte, ele não deve
ser superestimado pois sempre há a economia de escala, sempre há o retorno do
investimento (o software “se paga”) e francamente, num empreendimento
importante economizar no software de gerenciamento de projeto é começar dando
um tiro no pé. Além do mais o mercado não é maluco e a diferença de custo
normalmente corresponderá à uma diferença de performance.
Entre
mortos e ferido eu sintetizaria da seguinte forma: Se você tem um projeto com
um grande número de participantes (entre empresas e planejadores) e um nível
de complexidade baixo ou médio, opte pelo MSP. Já se você tem um projeto que
exigirá uma boa complexidade e um número reduzido de envolvidos, opte pelo P3
(ou SureTrak). Esta, é claro, é uma
simplificação de uma opinião pessoal e como toda simplificação está
sujeita à cometer injustiças. Existirão sempre exceções mas elas existem
para confirmar a regra .
Dito
tudo isto você deve estar tendo uma destas três reações: Se você conhecia
bem um dos softwares deve estar curioso para conhecer o outro e confirmar (ou
não) estas minhas opiniões. Se você conhecia muito
bem um dos softwares deve estar reclamando que eu não citei esta ou aquela
propriedade ou que simplesmente ignorei aquele recurso que já te salvou um par
de vezes. Bem... é verdade, mas você assim como eu, é um apaixonado e os
apaixonados costumam falar demais sobre as qualidades das suas paixões e aí a
revista G&O iria ficar pequena. Se você não conhecia bem nenhum dos dois
softwares deve estar se perguntando “E agora? Qual escolher?”. Não há
resposta certa (ou “depende” como diria um consultor), pois cada caso é
diferente e cabe a você (e não a este humilde planejador) julgar. Na dúvida
peça duas demonstrações!
Um
grande abraço e vejo vocês na lista e-plan.br!