Artigo publicado na G&O Número
3
Detalhamento de Projetos
A arte de planejar um projeto inclui várias técnicas e
procedimentos que vem se consolidando conforme o avanço da ciência de
gerenciamento de projetos. Dentre estes procedimentos, um particularmente
suscita discussões e sempre é objeto de discussões na lista e-plan.br:
Trata-se do nível de detalhamento de um projeto.
Teoricamente o processo de detalhamento de um projeto se dá pelas “quebras”
sucessivas do projeto em atividades com um tempo de execução cada vez menor. A
forma de quebrar o projeto é definida e define a EAP – Estrutura de Análise
de Projeto (não confundir com EDT – Estrutura de Decomposição de Trabalho
– a famosa WBS). É pela definição da EAP que se vai decompondo o projeto,
logicamente, por um processo de dedução, onde à partir do todo se chega às
partes. Existem várias técnicas para se construir uma EAP visando os mais
diversos objetivos. Mas este não é o objeto desta análise.
Por que é necessário detalhar um projeto?
Se considerarmos que um projeto é o encadeamento de suas atividades, que
a sua duração é definida pelo seu caminho mais longo (CPM) e que o seu risco
está ligado à quantificação das incertezas das atividades e de seu
encadeamento (PERT), vê-se que quanto mais bem definidas suas atividades
melhores serão as condições de análise e melhor será a informação
propiciada para a tomada de decisão. Quanto mais detalhado um projeto também
melhor será a sua condição de previsão, otimização e de simulação de
alternativas.
Uma pergunta que sempre é feita nas aulas e palestras que tive
oportunidade de ministrar é: ”Quando parar?”. Um projeto pouco detalhado
oferece um espaço limitado para análise e mascara os índices de produtividade
e os atrasos. Um projeto detalhado demais torna-se incontrolável e “pesado”
demais, “afogando” o planejador com dados desnecessários e muitas vezes
mentirosos. Em quantos níveis então esta decomposição é adequada ou
necessária? A resposta é a resposta clássica do consultor: depende.
Existem vários fatores condicionantes, dos quais cito dois de ordem
técnica:
1 – Informação: Não há
como detalhar uma atividade se você não possui informação suficiente para
tal. O método executivo, o plano de ataque, os recursos disponíveis devem
estar bem caracterizados para garantir um bom detalhamento. Para isso é
necessário um escopo “fechado”, um projeto básico bem definido (se
possível um projeto executivo) e a participação dos profissionais ou empresas
executoras. É por esta razão que o planejamento experimenta ao longo de sua
“vida” um detalhamento crescente.
2 – Estrutura de planejamento e
controle: O detalhamento do projeto exige cada vez mais o aumento dos
recursos de planejamento (engenheiros, técnicos, medidores, computadores,
tempo). Portanto se a gerência do projeto não pretende investir em
planejamento, não haverá como detalhar um projeto, fazer sua manutenção e
garantir seu controle. Existe um axioma que diz “se voce não pode controlar,
não deve detalhar”, nem sempre é verdadeiro mas já é um indicativo.
E cito mais dois de ordem gerencial:
1 – Necessidade do Cliente:
Muitos planejamentos (talvez a maioria dos que existiam antigamente) tem o
detalhamento definido pelo nível de informação solicitado pelo cliente. Fazem
parte desta categoria os cronogramas de concorrência e os cronogramas “para
inglês ver”. Como normalmente o nível de informação solicitada pelo
contratante é menos detalhada que a necessidade do contratado, uma boa parte
dos planejamentos ficam menos detalhados do que deveriam ser, ou ainda, se criam
dois planejamentos, um para o cliente, outro para “o campo”. Este projeto
pouco detalhado oferece a comodidade se comprometer o menos possível com prazos
intermediários e de mascarar eventuais atrasos no projeto.
2 – Atuação na Execução:
uma boa parte dos projetos “falham” porque são planejados pelos
planejadores e executados pelos executores. Simples e fundamental. Como nos
projetos de engenharia a tomada de decisão na execução se situa cada vez mais
no nível de encarregado de turma (pois o engenheiro de obra está cada vez mais
voltado para a parte administrativa), um planejamento que se proponha atuar
decisivamente na execução deve estar detalhado até o nível deste
encarregado. Isto é válido especialmente para projetos “curtos” onde o
tempo para tomada de decisão é exíguo.
Poderia continuar citando outras ordens e outros fatores, mas bastam
estes por hora para a nossa reflexão.
Percebe-se que a resposta “depende" dada acima requer a
conjugação destes e de outros fatores, ficando a cargo da equipe de
planejamento e do “sentimento” dos profissionais o nível adequado de
detalhamento que normalmente variará ao longo da existência do projeto.
Pensando neste sentimento, nós da lista e-plan.br fizemos um
levantamento do nível de detalhamento que os planejadores da lista costumam
atuar. O resultado pode ser visto no quadro abaixo:
|
Nível
|
Votos
|
Votos %
|
|
Estratégico (projeto em meses,
semanas ou dias, recursos financeiros)
|
3
|
4.69%
|
|
Gerencial (projeto em semanas ou
dias, recursos físicos e financeiros)
|
28
|
43.75%
|
|
Tático (projeto em dias ou horas,
recursos físicos, de material , de mão de obra e de equipamentos)
|
14
|
21.88%
|
|
Operacional (programação, projeto
em dias ou horas, recursos de material, mão de obra e equipamentos)
|
18
|
28.12%
|
|
N.R.A.
|
1
|
1.56%
|
Em discussão recente na lista, eu tive a oportunidade de propor dois
índices de detalhamento de projetos baseado nas conclusões e na experiência
reunidas por nós.
Índice de Detalhamento - ID
Este índice mede o tamanho da sua atividade média em função da
duração do projeto e pode ser calculado da seguinte forma:
ID% = (Tamanho Médio da Atividades / Duração do Projeto) x 100
Onde:
Tamanho Médio das Atividades = Soma das Durações das Atividades /
Número de Atividades
As durações devem ser consideradas na menor unidade de tempo do projeto
e nas atividades consideradas devem ser excluídos os marcos de projeto ou
qualquer outra cuja duração for igual a zero.
No levantamento feito na lista e-plan.br foram encontrados os seguintes
resultados:
|
ID%
|
Votos
|
Votos %
|
|
Menor que 2% (muito detalhados)
|
6
|
14.63%
|
|
Entre 2% e 5% (detalhados)
|
21
|
51.22%
|
|
Entre 6% e 10% (pouco detalhados)
|
12
|
29.27%
|
|
Maior que 10% (não detalhados)
|
2
|
4.88%
|
Índice de Detalhamento por Ligações – ID(L)
Este índice pressupõe que quanto mais detalhado está um projeto maior
será o número de ligações término-início, que é o que se verifica
empiricamente.
Desta forma:
ID(L)% = (Número de Ligações Término-Início / Número Total de
Ligações) x 100
No levantamento feito na lista e-plan.br foram encontrados os seguintes
resultados:
|
ID(L)
|
Votos
|
Votos %
|
|
Menores que 33% (detalhados)
|
4
|
36.36%
|
|
Entre 34% e 66% (pouco detalhados)
|
6
|
54.55%
|
|
Maiores que 67% (não detalhados)
|
1
|
9.09%
|
É necessário dizer que estes índices são apenas proposições para
uma quantificação que permita criar um parâmetro para aumentar a
sensibilidade do planejador quanto o nível de detalhamento adequado ao projeto
e não pode se afirmar ainda que
estes constituam indicadores “firmes” para, por exemplo, serem exigidos em
contratos e concorrências que envolvam o desenvolvimento e a apresentação de
planejamento.
Calcule os índices para os seus projetos e envie seus resultados para
que nós possamos “engrossar” as estatísticas e assim atingir um dos
principais objetivos da nossa lista: gerar e distribuir conhecimento!
Luiz Augusto P. Silva -
Técnico em Edificações e Engenheiro Civil com Pós-Graduação em
Engenharia Econômica, com 19 anos na área de engenharia de planejamento,
orçamento e controle. Atualmente é consultor na Petrobras pela STEI.
Nota Importante: Os conceitos dos índices
de detalhamento tiveram a contribuição dos membros da lista, detacadamente do
Fabio Teixeira de Melo e do Angelo Valle.
