Artigo publicado na G&O Número 3

Editorial

Gerenciamento de projetos: Moda ou cultura?

              Estamos presenciando nos últimos anos e mais precisamente nos últimos meses um “boom” do tema Gerenciamento de Projetos. A existência da G&O é uma prova contundente disto, assim como o surgimento de diversos cursos e palestras. Este fato se constitui num avanço inegável para a consolidação de uma cultura de gerenciamento de projetos através de todas as suas áreas de abrangência.

 O que gerou este “boom”?

 Existem vários fatores que contribuíram sensivelmente para a existência desta exaltação do gerenciamento de projetos. Um deles é o fim da cultura da inflação (cultura esta que infelizmente sempre ameaça uma reentrada) que retirou dos processos de faturamento e financiamento o foco principal de um empreendimento, passando a condução técnica e a gestão dos recursos gozar de sua merecida relevância.

 Pessoalmente atesto este movimento, pois trabalhava no Setor Técnico de uma construtora de porte nacional e minha atribuição era principalmente a de desenvolver rotinas informatizadas (estamos falando de 1988-93) para agilizar o faturamento e reduzir os erros de cálculo das mirabolantes formas de reajustes financeiros, além do controle da emissão e acompanhamento do processo de pagamento das faturas. Este era o foco do departamento Técnico. Todas as empresas de porte semelhante possuíam a mesma preocupação, já que um atraso no faturamento de dez dias poderia significar um “desconto” de dez por cento.

 Acredito que hoje o eixo de atuação destes “Setores Técnicos” Brasil afora tenha sido deslocado na direção do que os seus nomes realmente significam: A pesquisa técnica e a adoção de novas metodologias que permitam a economia de tempo e de meios sem prejuízo da qualidade e do meio-ambiente. Resumidamente: apoio ao gerenciamento.

 Um outro fator foi a adesão dos setores de informática e telecomunicações (principalmente o da telefonia móvel) às práticas de gerenciamento de projetos, restritas anteriormente à engenharia e mais especificamente ao setor de construção civil e industrial. Há alguns anos falar sobre planejamento de projetos implicava necessariamente num assunto de engenharia. Hoje já possuímos uma participação importante de outros setores, constituindo uma importante diversificação das práticas de gerenciamento de projetos e retirando-a do nicho da construção.

 Foi esta diversificação que gerou a procura por uma bibliografia especializada e pelo conhecimento do gerenciamento de projetos que se encontravam não-consolidados,  particularizados, quase num estado artesanal. É aí que entra o papel fundamental do PMI – Project Management Institute, a reunião, organização, integração e divulgação destes conhecimentos. Cabe ainda, mais precisamente aos chapters brasileiros, a formação de uma cultura antenada com os padrões internacionais e também a criação de uma cultura nitidamente nacional e sua divulgação com intenções de uma padronização mínima que seja.

 Na lista E-plan.br está refletida este avanço no gerenciamento de projetos em novas áreas. Antes uma lista exclusivamente composta de engenheiros, hoje possui um perfil, com presença ainda dominante dos engenheiros, mas com uma presença importante de novos setores.

 

Engenharia civil

  24.29%   

Engenharia elétrica

  16.43%   

Engenharia mecânica

  15.00%   

Engenharia de produção

  3.57%   

Administração

  5.00%   

Economia

  2.14%   

Técnico de nível médio

  7.14%   

Informática

  13.57%   

Outras

  12.86%   

 Quais os caminhos do gerenciamento de projetos no futuro próximo?

 É sempre complicado fazer previsões, mas como engenheiro de planejamento esta situação já é minha velha conhecida. Assim, suponho que este “boom” persistirá aproveitando ainda o restinho da onda das telecomunicações e informática (que já apresenta sinais de “maré vazante”), mas que corre o risco de “sair de moda” se as práticas não virarem cultura nas empresas e também de acordo com a nossa sempre instável situação econômica.

 Sou daqueles que acreditam que o gerenciamento de projetos veio para ficar, mesmo porque não há outra escolha. Mas as questões são: Qual a fatia de mercado que abraçará esta profissão? Até que ponto as empresas incorporarão estas práticas nas suas culturas?

 Assim, estamos em condições semelhantes aos conceitos de downsizing, reengenharia, qualidade total, desenvolvimento sustentável e tantos outros. Ou implantamos uma cultura de fato ou não passaremos de uma “moda de verão”.

 Se eu pudesse propor um desafio para a Lista E-plan.br, seria este.

 Um grande abraço e vejo vocês na lista e-plan.br!

 Luiz Augusto P. Silva é Engenheiro Civil com Pós-Graduação em Engenharia Econômica, atuando desde de 1984 na área de planejamento, orçamento e controle de obras civis. É o criador e o moderador da Lista E-plan.br.

 

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