A maior arma de Lampião

 

  Atualmente poucas pessoas nunca ouviram a música “Mulher Rendeira”, atribuída ao cangaceiro Volta Seca. Nos tempos do cangaço essa música soava como anúncio de morte. Que a ouvia não temia os tiros e punhaladas de Lampião e seus cobras, mas temia o terrível, sanguinário, o bandido desalmado. Não interpretou mal essas palavras como um xingamento, pois elas foram totalmente assumidas pelo próprio Lampião.

   Em Queimadas ele se apresentou como o “Bandido Lampião”. No dia em que a cidade foi saqueada ele conversava amistosamente como o Luiz Dr. Manoel Hilário. Essa conversa foi comentada por anos, o que fez o Sr. Noza lembrar-se dela nos mínimos detalhes.

   Lampião tentava a todo custo se desculpar por estar saqueando uma cidade pobre. Dizia que não roubava por roubar e  sim para se manter, já que não podia se estabelecer em nenhum local, pois estava sempre fugindo dos policias que queriam pegá-lo de qualquer jeito.

   Das armas e munições que usava dizia se orgulhar bastante, pois seus fuzis eram de primeira e suas bolas ainda não eram conhecidas nem sequer pelo exército. Mas era de outra arma que ele se vangloriava. De uma arma que não feria, mas matava de medo: o terror que causava.

   E a que custo espalhava todo esse terror? Todas essas palavras são claro, adaptadas são atribuídas ao próprio Lampião. Foram transmitidas de pai pra filho, por pessoas humildes e sem qualquer intenção de fazer história, e ficaram gravadas na memória do velho Noza, que àquela época tinha apenas cinco anos, mas de tanto ouvi-las lembrava-se delas com detalhes. Essas palavras podem ter inestimável valor histórico. Disse Lampião:

“Doutor, minha maior arma é o terror que espalho. Saiba o senhor que se um dia eu parar em frente àquele mercado nu, com as mãos na cintura e desarmado, logo serei reconhecido, então sairão um por um e em pouco tempo estarei sozinho, pois todos temem até o meu nome. Um dia estava viajando e pedi repouso em uma casa, onde havia uma mulher gestante. Para não fazer-lhe medo fui dormir à beira de uma lagoa em frente à casa e fui vítima de uma cilada. No outro soube que o dona da casa me denunciara. Pra não deixar aquilo barato fui até a casa, amarrei em uma cadeira a mulher gestante, amarrei o homem pelas pernas, dependurado e comecei a parti-lo em dois, por entre as pernas. A mulher vendo aquilo me chamava de Satanás, bandido, monstro. Não me incomodei, pois sou tudo isso, mas ao sair da casa ela me afrontou com palavras, chamando-me de covarde, o que me revoltou. Voltei e com um punhal parti-lhe a barriga, arranquei a criança a criança e a atravessei com um punhal. Acredite que até hoje posso ouvir o grito da criança, mas se tivesse que fazer tudo isso o faria, pois é esse terror minha maior arma.”              

 

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