A arca perdida estaria guardada em uma capela etíope? O escritor Graham Hancock empreendeu oito anos na busca de uma resposta

Coberta de ouro e arrematada por 2 querubins alados dispostos um diante do outro, a Arca da Aliança deve ter sido um objeto venerado. Porém, o que a tornava sagrada e muito poderosa era seu conteúdo de objetos religiosos.

A arca foi feita para guardar as tábuas de pedra nas quais Deus escreveu os Dez Mandamentos e acreditava-se que possuía poderes sobrenaturais. A Bíblia a descreve como: irradiando fogo e luz produzia tumores e graves queimaduras nos inimigos de Israel; transformava montanhas em planícies; detinha rios e devastava cidades. Era o equivalente bíblico da bomba atômica.

Contudo, entre 900 e 500 a.C., a arca desapareceu do 1º templo de Jerusalém construído com a finalidade de guardá-la. A Bíblia não menciona o seu paradeiro e sua "perda" é considerada como um dos maiores mistérios bíblicos, mas não para os etíopes.

O Guardião

A igreja ortodoxa etíope venera uma relíquia que acredita ser a verdadeira arca perdida. Esta arca está na igreja de Santa Maria de Zion, na cidade de Axum, há mais de 1.600 anos. É protegida por um guardião: um sacerdote copta que nunca se separa dela e nunca permite que ninguém a veja, nem sequer os imperadores da Etiópia. As outras 20 mil igrejas da Etiópia guardam um réplica da arca em uma sala conhecida como sanctasanctorum. A igreja que não possui uma réplica não é considerada sagrada.

O escritor Graham Hancock ouviu falar desta lenda pela 1ª vez em 1963, enquanto escrevia um livro sobre a Etiópia. Encontrou a 1ª referência de que a arca tinha ido parar na Etiópia no livro sagrado Kebra Nagast, também chamado de Glória dos Reis. O livro narra como a rainha de Sabá concebeu o filho do rei Salomão durante uma visita a Jerusalém. Ao retornar para Axum, deu a luz a um menino que recebeu o nome de Menelik. Vinte anos depois, Menelik visitou Jerusalém e permaneceu por 1 ano na corte de seu pai. Ao partir, roubou a arca levando-a para Axum.

Em 1983, durante sua 1ª visista à Etiópia, Hancock visitou a capela de Axum e perguntou ao guardião sobre a lenda da arca. "Foi trazida para a Etiópia, para esta cidade sagrada... e aqui permanece desde então", lhe disse o guardião. Seria verdade isso?

Realidade e Ficção

Hancock decidiu averiguar se a história teria algum fundamento. No início, sua pesquisa não parecia muito promissora. O professor Richard Pankhurst, um célebre historiador da região, disse a Hancock que, apesar da grande repercussão da lenda do rei Salomão e da rainha de Sabá na Etiópia, é quase certo que sua origem fose a Arabia e não a Etiópia.

O mais extraordinário foi que Axum não existia na época em que viveu Menelik. De fato, Axum só foi fundada no séc. III a.C., portanto, 700 anos depois da morte de Menelik. Hancock deixou de lado sua pesquisa, porém ficou intrigado como o fato de que a lenda pudesse ter algum fundamento. Sete anos depois, recomeçou a busca da arca, partindo da fonte de informação original: a Bíblia.

Pesquisando uma versão computadorizada de alta tecnologia do Antigo Testamaneto, Hancock encontrou mais de 200 referências da arca até o reinado de Salomão (970-931 a.C.). A arca não é mencionada novamente até o ano de 620 a.C., onde duas passagens parecem dar a entender que a arca já não estava mais no 1º templo. Ou seja, durante 300 anos aproximadamente, a relíquia poderia ter estado escondida.

Utilizando uma potente função de busca e localização do computador, Hancock procurou palavras e sequências de palavras no texto anterior ao reinado de Salomão, que tivessem sido mencionadas junto à palavra arca. Sua lógica era que qualquer uma destas frases poderia ter sido utilizada para designar a arca durante os 3 séculos em que não é mensionada na Bíblia. Dessa forma, poderia se obter uma poderosa pista indireta sobre o paradeiro da arca.

Através desta técnica, Hancock pôde estabelecer que, provavelmente, a arca perdida permanecera no 1º templo pelo menos até 701 a.C.. Isto significa que a arca somente poderia ter sido ocultada durante um período relativamente curto de 80 anos, transcorridos entre 701 e 620 a.C..

A arca alça vôo

A cúpula do Penhasco, em Jerusalém, levantada sobre as ruínas do templo construído pelo rei Salomão para guardar a Arca da Aliança, é um lugar sagrado do Islã ao qual os arqueólogos não podem ter acesso.

Por que razão a arca esteve perdida? Uma pesquisa posterior sugere que a arca poderia ter sido roubada durante o reinado do rei Manasés (687-642 a.C.), um famoso herege que havia traído o judaísmo. Em 1990, o Dr. Menahem Haran da Universidade Hebraica de Jerusalém, disse à Hancock que alguns sacerdotes leais à fé judaica haviam tirado a arca de Jerusalém por volta de 650 a.C.. Isto aconteceu quando Manasés colocou um ídolo pagão no templo. Horrorizados com a idéia de que a arca pudesse ser contaminada pela presença deste ídolo, os sacerdotes a levaram para um lugar seguro.

O Dr. Haran não quer especular sobre qual teria sido esse lugar, mas algumas semanas antes de entrevistá-lo, Hancock encontrou uma possível resposta dada por arqueólogos alemães que estavam realizando escavações na localidade de Elefantina, uma ilha do Nilo. Eles Disseram à Hancock que durante a escavação haviam encontrado alguns registros que indicavam que o templo judeo foi construído próximo do ano de 650 a.C. por alguns sacerdotes que haviam fugido de Manasés.

Naquela época, este era o único templo judeo fora de Jerusalém. A Bíblia afirma que o templo de Jerusalém foi construído para servir exclusivamente como a casa dos restos da Arca da Aliança. É possível que o templo de Elefantina tivesse sido planejado com o mesmo propósito?

A pista seguinte também foi dada pelos arqueólos alemães. Disseram que, depois de aproximadamente 200 anos de existência, o templo foi destruído no século V a.C. como consequência de um conflito com a comunidade egípcia local. Naquela época, os judeos que viviam em Elefantina haviam desaparecidos. Não há evidência de massacre, sendo mais provável que eles tenham fugido. Os arqueólogos não tinham indícios do local para onde poderiam ter ido, porém Hancock tinha suas próprias teorias.

Escondida em uma ilha

Em novembro de 1989, Hancock havia feito um meticuloso reconhecimento do lago Tana da Etiópia, a fonte do Nilo Azul. Esta gigantesca extensão de água, a 1.830 metros acima do nível do mar, está repleta de centenas de ilhas de difícil acesso. Será que poderiam ter sido estes os lugares onde os judeus, fugidos de Elefantina, se esconderam?

Nestas ilhas, Hancock visitou mosteiros que estavam ali desde a época da conversão da Etiópia ao cristianismo no ano de 300 d.C.. Em uma das ilhas mais longínquas, Tana Kirkos, Hancock ouviu uma variação da lenda explicando como a arca teria chegado à Etiópia.

Os monges de Tana Kirkos insistiam que a sagrada relíquia quando chegou à Etiópia, não teria sido levada direto a Axum como dizem a maioria dos sacerdotes etíopes, tendo sido, na verdade, levada para a sua ilha. Seria possível que os judeus, depois da destruíção do Templo de Elefantina, tivessem emigrado para o sul levando consigo a preciosa relíquia? Caso tivessem seguido o curso do rio Nilo através dos desertos do Sudão e em seguida se dirigido até as terras altas da Etiópia, poderiam ter chegado ao lago Tana.

"A arca sagrada esteve então em Tana Kirkos durante 800 anos", um monge disse a Hancock. Mais tarde, o rei Ezana, que ajudou a Etiópia a converter-se ao cristianismo no século IV d.C., transferiu a arca para Axum guardando-a em uma igreja desta cidade.

A peça final deste complexo quebra-cabeças finalmente se encaixava. Se o rei Ezana levou a arca de Tana Kirkos para Axum no ano de 300 d.C.,e se a arca esteve em Tana Kirkos durante 800 anos antes desta data, deve ter chegado ao lago Tana durante o séc. V a.C., na mesma época em que foi destruído o templo de Elefantina.

Retorno a Axum

Em janeiro de 1991, Hancock voltou a Axum munido de seus conhecimentos recém-adquiridos. Naquela época do ano, supunha-se que a arca era retirada se seu sanctasanctorum para ser levada em uma procissão religiosa durante a cerimônia anual do Timkat.

O guardião que Hancock entrevistara em sua 1ª visita, há muito tempo já havia morrido. O novo responsável se chamava Gebra Mikail, um homem alto de forte constituição, cabelos grisalhos e de aproximadamente 60 anos de idade, com olhos profundos e cobertos de cataratas. Hancock disse a Gebra Mikail que havia percorrido um longo caminho na esperança de ver a arca com os seus próprios olhos.

"Então, sinto muito que tenhas feito uma viagem em vão- respondeu o guardião- porque não poderás vê-la".

Apesar de sua insistência, Hancock não obteve mais informações. As últimas palavras que o guardião lhe dirigiu foram: "Faz milagres, sendo ela mesma um milagre tornado realidade. E isto é tudo o que posso dizer".

Durante a tarde seguinte, Hancock assistiu à cerimônia do Timkat. Os sacerdotes transportavam uma caixa retangular envolvida por um pesado pano azul bordado com o emblema de uma pomba. Porém a caixa não era recoberta de ouro e nem adornada por querubins, não parecendo em nada com a arca descrita pela Bíblia.

No decorrer da procissão, Hancock procurou Gebra Mikail, o guardião da arca. Nos 2 dias de duração da cerimônia, o guardão não deixou a capela em nenhum momento. Não lhe interessava o que acontecia do lado de fora. Permaneceu no sanctasanctorum da capela cumprindo a sua sagrada missão.

O Fim da Busca

A busca de Hancock durou 8 anos e havia fechado o circulo que comecara e terminara na antiga cidade de Axum. Seria esta a Arca da Aliança, a que estava sob a constante vigilância do guardião no sanctasanctorum? Ou ela ainda estaria escondida em algum lugar esperando ser descoberta?

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