Alquimia
A Grande Obra, compreensão e obtenção da Pedra Filosofal, é uma ciência estritamente iniciática, onde não é apenas necessário o estudo e entendimento das obras dos velhos mestres, mas também receber orientação diretamente de um adepto, e mostrando-se digno, o conhecimento final virá por Revelação Divina, e por esta razão, ela é reconhecida como um Dom de Deus. Para melhor discernir dentre os inúmeros seres humanos que estão envolvidos direta ou indiretamente com a alquimia, deixaremos pequenas ponderações sobre algumas destas pessoas, para um melhor discernimento dos leitores. Adeptos, homens que já alcançaram o apogeu do conhecimento, felizes possuidores da Pedra Filosofal, para quem a alquimia é simplesmente um aumento de vibrações; Alquimistas, são os estudantes da ciência que ainda não alcançaram os seus objetivos, mas na prática em seus laboratórios, procuram a pedra filosofal, elixir de longa vida ou medicina universal; Amorosos da Ciência, representam os estudantes teóricos das ciências alquímicas; e finalmente os Sopradores, pessoas com pouco ou nenhum entendimento da filosofia do processo alquímico, cujo objetivo é simplesmente a procura da transmutação dos metais imperfeitos em metais perfeitos, ou seja, a obtenção da prata ou do ouro vulgar. Dentre estes últimos, encontram-se alguns homens enganadores e sem nenhum escrúpulo, que por suas palavras fáceis tornam-se os mais conhecidos pelo grande público, que não alcançando os seus torpes objetivos apenas materiais, difamam uma ciência que não foram capazes de decifrar, demonstrando assim a pequenez de sua personalidade, e justificando a sua não agraciação com o conhecimento da Grande Obra Alquímica. Aos que desejam entender a ciência apenas com a simples leitura dos tratados, escrupulosamente escritos pelos nossos adeptos, informamos que esses livros são feitos para os iniciados, para os que possuem olhos treinados para ver, como também aos iniciáveis, aqueles evolutivamente preparados para perceber o conhecimento explícito nos escritos dos velhos mestres.
Poderemos ainda ouvir dizer que a alquimia é uma simples balela, um amontoado de dizeres sem sentido, com o simples objetivo de enganar o estudante inexperiente. Não podemos culpar os que assim pensam, pois numa época cartesiana como a nossa, onde apenas é considerado verdade o que pode ser compreendido e repetido como fato experimental, torna-se somente aceito o que pode ser comprovado pela ciência profana. Infelizmente em alquimia, ciência iniciática por excelência, não é apenas ponderável a prática realizada em laboratório, mas é levada em consideração a influência que o manipulador possui na realização do trabalho; ocorre que nesse momento o produto e o produtor passam a ser apenas um só elemento, confunde-se o manipulado e o manipulador, enfim, se o entendimento é verdadeiro, e o manipulador merecedor da realização, e ainda, se as condições são propícias, a Grande Obra torna-se uma realidade inquestionável. No parágrafo acima transcrevemos as palavras centenárias dos alquimistas, agora vejamos a palavra da ciência atual, descrita com bastante transparência e linguagem acessível, por Fritjof Capra, doutor em física, professor e pesquisador de grandes universidades européias e norte americanas, quando explica o conceito atual da física quântica e a interdependência entre as diversas partes que compõem a natureza, em sua obra O Tal da Física, quando diz: A teoria quântica acabara de pôr abaixo os conceitos clássicos de objetos sólidos e de leis da natureza estritamente deterministas. No nível subatômico, os objetos materiais sólidos da física clássica dissolvem-se em padrões de probabilidade semelhantes a ondas; esses padrões, em última instância, não representam probabilidades de coisas mas, sim, probabilidades de interconexões. Uma análise cuidadosa do processo de observação na Física atômica tem demonstrado que as partículas subatômicas não possuem significado enquanto entidades isoladas, somente podendo ser compreendidas como interconexões entre a preparação de um experimento e sua posterior medição.
A teoria quântica revela, assim, uma unidade básica no universo. Mostra-nos que não podemos decompor o mundo em unidades menores dotadas de existência independente. A medida que penetramos na matéria, a natureza não nos mostra quaisquer "blocos básicos de construção" isolados. Ao contrário, surge perante nós como uma complicada teia de relações entre diversas partes do todo. Essas relações sempre incluem o observador, de maneira essencial. O observador humano constitui o elo final na cadeia de processos de observação, e as propriedades de qualquer objeto atômico só podem ser compreendidas em termos de interação do objeto com o observador. Em outras palavras, o ideal clássico de uma descrição objetiva da natureza perde sua validade. A partição cartesiana entre o eu e o mundo, entre o observador e o observado, não pode ser efetuada quando lidamos com a natureza atômica.
Na Física atômica, jamais podemos falar sobre a natureza sem falar, ao mesmo tempo, sobre nós mesmos." Com a devida compreensão das palavras do físico, conceitos místicos e alquímicos de intrincado entendimento, passam a ter uma limpidez assustadora, pois se possuem séculos de existência comprovados nos velhos alfarrábios alquímicos, agora também a física atômica passa a repeti-los, com outras palavras, em seus trabalhos científicos. Como exemplo, comparemos a frase: A teoria quântica revela, assim, uma unidade básica no universo, pinçada do texto acima, com alguns conceitos místicos e alquímicos que possuem séculos de existência, tais como: de Hermes Trimegisto, quando diz:
O microcosmo é igual ao macrocosmo ou ainda O que está em baixo é como o que está em cima; do adepto Raimundo Lullo, em seu tratado Testamento, quando diz: Tudo em um; do adepto Jean D'Espagnet, na sua obra A Obra Secreta da Filosofia de Hermes Trimegisto, quando diz: que as coisas mais elevadas misturam-se, sem confundirem-se, com as mais profundas e as mais profundas se mesclam com as mais altas, sem se baralharem: ou até nas palavras do Evangelho Cristão quando encontramos a frase de Jesus que diz: Eu e o Pai somos um. Realmente é necessário uma profunda meditação, pois a física subatômica está muito perto de verdades revolucionárias, e não sabemos se a humanidade está espiritualmente preparada para recebe-la e usá-la para a sua própria evolução. Todavia, não é nosso propósito filosofar sobre esta questão, mas sim demonstrar a realidade da arte alquímica.
Durante séculos, os alquimistas divulgaram a verdade da transmutação metálica, fato que só agora a ciência experimental transformou em realidade em seus laboratórios, porém continuam não aceitando a possibilidade da transmutação realizada no cândido gabinete do filósofo. É fato muito comum, os autores dos livros que procuram explicar as doutrinas iniciáticas, tecerem críticas ao silêncio ou a pouca capacidade de se fazerem compreender pelos não iniciados. Neste caso, gostaríamos de esclarecer que mais que o respeito ao silêncio do juramento, a experiência mística é uma situação individual, suplantando os reinos do pensamento e da linguagem, constituindo uma experiência individual, não podendo ser transmitida translucidamente por palavras. Portanto, quando a dois mil anos, Lao Tsé em sua obra Tao Te Ching, diz: Aquele que sabe, não fala, aquele que fala, não sabe; não o faz por um simples egoísmo intelectual, mas sim pela impossibilidade de trazer ao pensamento e a linguagem escrita a experiência mística individual. Esperamos que no parágrafo anterior, o leitor tenha entendido os nossos filósofos, quando dizem que se é fundamental a leitura dos textos dos melhores autores, assim como receber a iniciação de um velho mestre, a iluminação final só ocorrerá por Revelação Divina. Em alquimia, assim como em todas as ciências esotéricas, a vivenciação da iluminação é uma situação individual, não podendo ser partilhada. Portanto, amigo leitor, não perca seu tempo buscando contradições entre os textos dos diversos autores alquímicos, chamando alguns de caridosos e outros de invejosos, pois todos eles dizem a sua verdade; agora em consonância com a física atual, principalmente com a Teoria da Relatividade, esta explica que o adepto traz para a escrita a sua visão como observador, ou ainda, para confirmar estas palavras, vamos recorrer mais uma vez a ciência profana, consultando a da obra O Tal da Física, de Fritjof Capra, onde encontramos a seguinte explicação:
Uma vez que o espaço e o tempo acham-se agora reduzidos ao papel subjetivo de elementos de linguagem, que um dado observador utiliza em sua descrição de fenômenos naturais, cada observador descreverá esses fenômenos de maneira diferente. Esta obra não pretende desenvolver uma defesa da alquimia, como ciência e arte, pois a própria realidade de testemunhos divulgados na literatura mundial já a confirmam.
Também aos que desejam, hoje, uma descrição sucinta e evidente da ciência, sinto não poder ajudá-los, pois se aos verdadeiros adeptos é impossível a sua divulgação evidente, seria também uma tarefa materialmente impossível neste pequeno tratado, a descrição, mesmo que resumida, de uma ciência antediluviana, com mais de 12.000 anos de existência, fruto que é de pequenas parcelas do conhecimento de civilizações desaparecidas, uma realidade histórica que só agora a ciência atual começa a decodificar. Estamos no limiar do tempo de decifrar a esfinge e as pirâmides do Egito, as esculturas da ilha de Páscoa, os desenhos de Nazca, assim como inúmeras outras construções espalhadas pelo mundo.
Hoje, muito mais do que ontem, questiona-se a possibilidade de que antes do dilúvio universal, não teriam existido na terra, civilizações com alto grau de desenvolvimento, donos de conhecimentos científicos iguais, maiores ou quem sabe, diferentes dos nossos, dos quais pequenos estratos chegaram até os nossos dias através da iniciação. A filosofia e as religiões descrevem, em seus tratados e ensinamentos míticos, a existência dessas civilizações desaparecidas. A filosofia, na palavra do sábio Platão, descreveu a existência da evoluída Atlântida, o que posteriormente, foi reafirmada por numerosos autores tais como Homero, Hesíodo, Eurípedes, Teopompo, Élio, Estrabão, Diodoro da Sicília, Proculelo, Plínio, Tertuliano, Jâmblico, entre outros. Lembremos que toda a base filosófica da nossa atual civilização é grega. Então, porque um dos homens que orientou com os seus escritos filosóficos, a nossa atual civilização ocidental, divulgaria a existência da Atlântida, se realmente ela não houvesse existido? Seria Platão capaz de mentir? Não, sabemos que não; pois não era costume dos filósofos gregos mentir e enganar. Já as religiões antigas, em sua totalidade, apresentam o mito do homem caído, sua decadência e involução.
Como entender que nas diversas partes do mundo antigo, surgisse tal informação, sem que não houvesse uma fonte comum. Recordemos Voltaire, quando ele diz que: "A queda do homem degenerado é o fundamento da teologia de todas as antigas nações". Esta tradição só é possível a todas religiões, se o seu surgimento ocorreu no berço da nossa atual civilização, portanto antes da sua diáspora para todas as partes do mundo. Do paraíso (De uma civilização evoluída ), Adão e Eva ( nossos antepassados ) são expulsos por terem pecado contra Deus (foram destruídos pelo mau uso dos conhecimentos gerados pela sua civilização), e tiveram então de comer o fruto do suor dos seus rostos ( voltando a barbárie, iniciando uma nova evolução ). Como sabemos, a senda pode ser percorrida por diversas maneiras, mas que o processo iniciatório é sempre necessário como uma etapa indispensável para alcançar o saber. Reproduziremos a seguir uma fábula, fórmula freqüentemente usada pelos sábios antigos, para demonstrar uma verdade para os que já possuam ouvidos de ouvir e olhos de ver. Na fábula de Sigurd, abaixo descrita, está condensada a iniciação de vários ritos antigos, o que aguardamos seja bem oportuna para o estudante na senda da arte, pois nela estão inclusas inúmeras das verdades do saber hermético. Vejamos a lenda, esperando o seu perfeito entendimento: Sigurd, filho de Sigmund, descendente do deus Ódin, é um jovem belo, valente e de alma nobre.
Um dia, o ferreiro Regin, mágico temível que procura a iniciação, oferece ao jovem valente uma espada maravilhosa chamada Gram, com o fio tão cortante que se mergulhada nas águas do Reno, cortaria um simples fio de lã arrastado pela corrente. Mais tarde, o ferreiro dá a Sigurd o cavalo Grani, sem igual no correr e galopar através das chamas. A um cavaleiro tão bem armado, só faltava um grande feito a realizar e Regin sugere a Sigurd que mate o dragão Fafnir, guardião de um tesouro. O dragão não é cruel, nunca toma a ofensiva, mas, quando atacado, ou morre ou mata o agressor. Sigurd, para vencer o terrível adversário, cava um fosso simbólico que viria a ser um túmulo. Na batalha, o dragão tropeça e precipita-se no fosso e, rápido como o relâmpago, o herói mergulha Gram no coração do monstro que expira. Regin, que assistiu ao combate, bebe o sangue do dragão, arranca-lhe o coração e pede a Sigurd que o cozinhe. Enquanto o herói ocupa-se com este trabalho, queima os dedos ao tocar no coração quente e a sangrar do dragão; e por reflexo, leva a mão à boca, e ao fazê-lo engole algum sangue de Fafnir. Dá-se então o milagre: Sigurd se torna capaz de compreender a língua das aves, e assim a conversa entre duas águias empoleiradas numa árvore próxima, revela-lhe os desígnios secretos do ferreiro.
-- Quando acabar de comer o coração do dragão, diz uma águia, Regin matará Sigurd!
-- Não, responde a outra, é Sigurd que vai matar Regin!"
E foi realmente o que aconteceu, o herói, instruído por uma misteriosa pré-ciência, come o coração do monstro, bebe-lhe o sangue e enterra-o, prestando-lhe uma justa e sincera homenagem. Depois, toma posse do tesouro e, aconselhado pelas aves, dirige-se para o país dos Francos. No caminho, vê um castelo em chamas. Impetuosamente, lança o cavalo Grani para o braseiro, atravessa-o e chega a um aposento onde repousa um belo guerreiro que o deus Ódin tinha adormecido por artes mágicas.
Uma segunda intuição guia Sigurd; ele tira o elmo do guerreiro e com a ponta de Gram, a espada mágica, rasga-lhe a cota de malha, descobrindo-se então o corpo de mulher duma beleza indizível, a valquíria Brunehilde. Assim termina o encantamento e Brunehilde, apaixonada pelo herói, atrai-o ao leito. No dia seguinte, Sigurd percebe ter recebido de sua amada o dom de ler e escrever as runas após a noite de amor. Em troca desta ciência e desta noite iniciática, Sigurd oferece-lhe um anel de ouro retirado do tesouro do dragão, jura-lhe fidelidade eterna, e em seguida, prosseguindo o caminho, vai ao encontro dos chefes francos Ginki, Gunnar e Hoegni, dos quais se torna irmão de armas, e depois de sangue. Krimhild, mãe destes chefes e de Gudrun, a dos cabelos louros, dá de beber a Sigurd uma beberagem que apaga da sua memória a imagem da bela valquíria. Segue-se uma série de aventuras cujos aspectos evidentes são o casamento de Sigurd com Gudrun e o de Gunnar com Brunehilde, que, no entanto, não esquece aquele que a libertou do encantamento. Mas Sigurd volta a tomar posse, uma noite, do anel mágico, chamado Andavaranaut, que tinha presenteado à valquíria, e esta, por despeito e ciúme, consegue convencer Gunnar a matar o homem que ainda ama. É o irmão de Gunnar que abate o herói durante o sono. Sigurd, moribundo, lança Gram, a sua espada, sobre o assassino e trespassa-o. Inconsolável, Brunehilde lança o tesouro a um rio e mata-se; o seu corpo é queimado ao lado do de Sigurd numa grande fogueira. É esta a lenda do Sigurd, onde está velado nitidamente o mito iniciado dos Antigos. Poderíamos, certamente, dizer mais claro o processo de iniciação acima descrito, mas não é aconselhável nem prudente, levantar o véu dos mistérios para todos indistintamente, fato que não ocorreu com nenhum dos autores anteriores que trataram do tema. Existe um ditado iniciático sempre observado que diz: Quem fala claramente não sabe, quem sabe não fala. Mas, para ser um pouco complacente com o leitor, informamos que todos devem passar pelo processo individual de iniciação, condição imprescindível para avançar no conhecimento, comunicando ainda, que se é fundamental a passagem iniciática, ela não é condição final, pois como o seu próprio nome indica, é apenas uma iniciação, uma porta aberta para o conhecimento dos mistérios, mais ainda a exigir muito estudo e determinação na via pretendida.