|
De acordo
com o estudioso alexandrino Apolodoro, Perseu, o lendário
fundador de Micenas, nunca teria nascido se seu avô
tivesse conseguido seu intento. Acrísio, rei de Argos,
era pai de uma linda filha, Dânae, mas estava
desapontado por não ter um filho. Quando consultou o oráculo
sobre a ausência de um herdeiro homem, recebeu a informação
que não geraria um filho, mas com o passar do tempo
teria um neto, cujo destino era matar o avô. Acrísio
tomou medidas extremas para fugir deste destino. Trancou
Dânae no topo de uma torre de bronze, e lá permaneceu
numa total reclusão até o dia em que foi visitada por
Zeus na forma de uma chuva de ouro; assim deu à luz a
Perseu. Acrísio ficou furioso, mas ainda achava que seu
destino poderia ser evitado. Fez seu carpinteiro
construir uma grande arca, dentro da qual Dânae foi forçada
a entrar com seu bebê, sendo levados para o mar.
Entretanto, conseguiram sobreviver às ondas, e após uma
cansativa jornada a arca foi jogada nas praias de Sérifo,
uma das ilhas das Ciclades. Dânae e Perseu foram
encontrados e cuidados por um honesto pescador, Dictis,
irmão do menos escrupuloso rei de Sérifo, Polidectes.
Com o passar do tempo, Polidectes apaixonou-se por Dânae,
mas enquanto crescia Perseu protegeu ciumentamente sua mãe
dos indesejados avanços do rei. Um dia, durante um
banquete, Polidectes perguntou a seus convidados que
presente cada um estava preparado a oferecer-lhe. Todos
os outros prometeram cavalos, mas Perseu ofereceu-se a
trazer a cabeça da górgone. Quando Polidectes o fez
cumprir sua palavra, Perseu foi forçado a honrar sua
oferta. As górgones eram em número de três,
monstruosas criaturas aladas com cabelos de serpentes;
duas eram imortais mas a terceira, Medusa, era mortal e
assim potencialmente vulnerável; a dificuldade era que
qualquer um que a olhasse se transformaria em pedra.
Felizmente, Hermes veio em sua ajuda, e mostrou a Perseu
o caminho das Gréias, três velhas irmãs que
compartilhavam um olho e um dente entre si. Instruído
por Hermes, Perseu conseguiu se apoderar do olho e do
dente, recusando-se a devolvê-los até que as Gréias
mostrassem o caminho até as Ninfas, que lhe forneceriam
os equipamentos que necessitava para lidar com Medusa. As
Ninfas prestimosamente forneceram uma capa de escuridão
que permitiria a Perseu pegar a Medusa de surpresa, botas
aladas para facilitar sua fuga e uma bolsa especial para
colocar a cabeça imediatamente após a ter decepado.
Hermes sacou uma faca em forma de foice, e assim Perseu
seguiu completamente equipado para encontrar Medusa. Com
a ajuda de Atena, que segurou um espelho de bronze no
qual podia ver a imagem da górgone, ao invés de olhar
diretamente para sua terrível face, conseguiu finalmente
despachá-la. Acomodando a cabeça de modo seguro na sua
bolsa, retornou rapidamente a Sérifo, auxiliado por suas
botas aladas.
Ao sobrevoar a costa da Etiópia, Perseu viu abaixo uma
linda princesa atada numa rocha. Esta era Andrômeda,
cuja fútil mãe Cassiopéia tinha incorrido na ira de
Posídon ao espalhar que era mais bonita do que as filhas
do deus do mar Nereu. Para puni-la, Posídon enviou um
monstro marinho para devastar o reino; apenas poderia ser
parado se recebesse a oferenda da filha da rainha, Andrômeda,
que foi assim colocada na orla marítima para esperar o
terrível destino. Perseu apaixonou-se imediatamente,
matou o monstro marinho e libertou a princesa. Os pais
dela, em júbilo, ofereceram Andrômeda como esposa a
Perseu, e os dois seguiram na jornada para Sérifo.
Polidectes não acreditava que Perseu pudesse retornar, e
deve ter sido bastante gratificante para Perseu observar
o tirano ficar lentamente petrificado sob o olhar da cabeça
da górgone. Perseu deu então a cabeça a Atena, que a
fixou como um emblema no centro de seu protetor peitoral.
Perseu, Dânae e Andrômeda seguiram então juntos para
Argos, onde esperavam se reconciliar com o velho rei Acrísio.
Mas quando Acrísio soube desta vinda, fugiu da presença
ameaçadora de seu neto, indo para a Tessália, onde, não
conhecendo um ao outro, Acrísio e Perseu acabaram se
encontrando nos jogos fúnebres do rei de Larissa. Aqui a
previsão do oráculo que Acrísio temia se realizou,
pois Perseu atirou um disco, o qual se desviou do curso e
atingiu Acrísio enquanto estava entre os espectadores,
matando-o instantaneamente.
Perseu com sensibilidade decidiu que não seria muito
popular voltar a Argos e reivindicar o trono de Acrísio
logo após tê-lo morto; assim, ao invés, fez uma troca
de reinos com seu primo Megapentes. Megapentes se dirigiu
a Argos enquanto Perseu governou Tirinto, onde é
considerado como responsável pelas fortificações de
Midéia e Micenas.
|