A AUDIÇÃO E OS IMPLANTES
COCLEARES
pelo Dr. Pedro Bloch
A audição é o sentido que
mais nos coloca dentro do mundo. Através da voz se consolida de forma cada vez
maior e melhor,
o relacionamento mãe-filho. A linguagem é aprendida,
basicamente, pelo que o meio fornece para ser ouvido. E nem é preciso acentuar
as conseqüências importantes da ausência ou prejuízo do feedback auditivo. O
esquema corporal não se limita às definições que circulam comumente, mas tem
dimensões psicológicas amplas, em que a audição ocupa lugar destacado.
Cada ser humano tem a sua voz, a voz que o identifica, a voz que o torna
pessoa. A ausência de identidade vocal já é uma perda, altamente significativa,
na quase homogeinização da voz e da fala do surdo. O menino se identifica com o
pai através, também, da identificação vocal. A menina ouve a voz da mãe e com
ela sintoniza. Basta sentir o que ocorre, quando algumas pessoas reunidas ficam
silenciosas, permanecem caladas. Cada minuto se amplia de forma quase absurda.
Basta lembrar a insuportabilidade do silêncio do altiplano boliviano, em que se
explode uma bomba, para rompê-lo e estabelecer um parâmetro sonoro. Basta sentir
o que ocorre quando um rádio ou uma TV estão mal sintonizados e a voz nos chega
distorcida, ainda que ligeiramente. Basta analisar o que se passa quando pessoas
falam baixo ou quando as condições acústicas são más. O feedback, entretanto,
não se limita ao que nós mesmos podemos avaliar quando falamos, nem depende
apenas da resposta, mas da reação, por mais insignificante que seja, de quem nos
ouve.
Uma pessoa com hipoacusia grave capta um mundo limitado. A
convivência dos sentidos traz compensações, mas modifica, ao mesmo tempo, o
mundo. Diga-se, desde já, que o implante coclear, por mais limitados que
eventualmente possam ser seus resultados, é uma implantação de parte do mundo
que nos envolve. Quando se fala em implantes cocleares é da maior importância o
estudo da codificação da mensagem auditiva, o estudo do que possa resultar de
benéfico para o paciente, do tipo de informação que pode contribuir, para
colocá-lo, ainda que muito limitadamente, dentro de um mundo sonoro. A privação
provisória do que o implante proporciona ao paciente, sua reação de perda,
diante do que se lhe havia acrescentado, mostra bem o que significa o alcançado.
Sentimos bem isso no primeiro caso do Professor Mangabeira. O segundo, quando
houve necessidade de verificar a pilha e teve interrompidas, momentaneamente,
suas recentes informações, exclamou : "Que falta está me fazendo !!!" Ao se
falar do surdo, se tem, geralmente em conta, os sons pertinentes da linguagem,
da música, dos ruídos, das atividades diárias. Há uma tendência a esquecer os
sons que são captados sub-lirninarrnente. Teatini estudou e condensou bem as
dimensões da codificação da mensagem auditiva. Basta abolir os sons ambientais e
ver o que ocorre. A diminuição gradual do mundo sonoro leva a alterações de
ordem psíquica. O feedback auditivo, por menor que seja, é uma base de futuras
aquisições. Se não alcançarmos a audição linguística (sons que significam), há
um outro nível de significação que é a audição acústica (ruídos, vozes). A
pessoa que ensurdece vai deteriorar a palavra, mesmo a já adquirida. A criança
surda, ou a que ensurdeceu muito cedo, vai traduzir em inúmeros aspectos, sua
deficiência. Pode-se ensinar ao surdo a emitir, mas de urna forma em que a
identidade vocal não tem lugar e a nuança afetiva está ausente.
Através da melodia verbal
também se drena a emoção. A pessoa que ouve, vê, prevê, completa, integra. A
identidade vocal (que o surdo não adquire ou perde em boa parte), é tão peculiar
quanto as impressões digitais ou o rosto. Essa identidade vocal, personalizada,
ainda mais, pelos valores para-linguísticos, pela melodia verbal, etc...
carrega, não só emoção, como altera sentido, significação. A palavra não se
completa apenas pelo contexto. O implante coclear vai nos obrigar a urna visão
mais profunda de urna série de problemas. Vai aprofundar nossa visão. Ou deveria
dizer nossa audição?. Ouvir. Sons, ruidos. Escutar - estar atento ao ouvir, para
perceber. A criança, além do outro, precisa do banho de linguagem. Nos grandes
centros, são tantas as solicitações sonoras, tal a poluição, que a audição se
faz, quase sem distinguir seu objeto. A resistência ao ruído de quem ouve é um
esforço nervoso enorme. É um contínuo desvencilhar-se de parasitas e seleção do
que vai entrar em nosso campo cerebral. É uma tarefa extenuante, quando
intencional. No surdo o esforço é inverso. Quer captar todo o possível, quer
romper sua barreira de silêncio. No que diz respeito à linguagem propriamente
dita, conforme o meio de onde provém, a criança pode ter um código restrito
(calcado sobre o concreto) ou um código elaborado (abertura para o abstrato).
Isto significa que uma mesma mensagem pode ser decodificada em níveis
diferentes. Uma pessoa se estrutura e se desestrutura com o feedback m recebe
dos outros. As atitudes alheias moldam muito o surdo. Há uma dimensão que ele
pretende alcançar. É o acesso legítimo ao abstrato.
Um dicionário não
faz uma linguagem. Tudo isto nos ocorre (e muito mais! ) diante do
extraordinário trabalho do Professor Pedro Luiz Mangabeira-Albernaz e sua
equipe, que com o entusiasmo e a criatividade científica de William House e seus
colaboradores - corroboram e colaboram, entre nós, num avanço altamente
significativo, pelo que já se alcança e, sobretudo, pelas perspectivas futuras
que se vão abrindo. A luta contra a surdez faz de William House uma figura
única. A equipe de São Paulo, do Professor Pedro Luiz Mangabeira-Albemaz é bem
digna dele, através da profunda seriedade de seu trabalho, da discrição com que
apresenta seus admiráveis estudos, implantes e resultados e segurança com que se
debruça sobre este quase milagre sonoro que é o implante coclear.
Esta
monografia dispensa qualquer comentário acerca de seu conteúdo. A cada página
cresce o nosso interesse, aumenta nossa informação, se acresce nosso
conhecimento, até desembocar nos dois casos que apresenta e que falam por si
mesmos, com veemência. Mostram, claramente, científica e humanamente, o que o
implante coclear já logrou, nos casos selecionadíssimos em que foi realizado.
Mostra mais: que, enquanto existirem pessoas e pesquisadores como William House
e Pedro Luiz Mangabeira-Albernaz, as palavras progresso e humano conservarão e
ampliarão seu sentido. Quando, entre tantas outras vezes, eu falava com
Guimarães Rosa acerca de problemas de audição, ele concluiu sintetizando: "É,
meu caro. É isso mesmo. Cada surdo tem a sua música." O implante coclear me faz
pensar e sentir que um mero ruído ambiental, tão banal para nós, tão ignorado
pelos que ouvem, pode significar para o surdo uma sinfonia de Beethoven.
Este texto foi escrito pelo Dr. Pedro Bloch como prefácio para o Suplemento da ACTA AWHO sobre o implante coclear (ACTA AWHO 1981, Supl. 1, 1-2).