CARLOS REIS

 Artur Gonçalves, Gustavo de Bivar Pinto Lopes

     Só pode bem aquilatar-se do valor duma terra pela excelência dos elementos que a enaltecem ou valorizam. Assim, se há localidades que se impõem à nossa admiração pela majestade de seus venerandos monumentos arquitectónicos, testemunhas irrefragáveis dum passado de grandeza ou de patriotismos heróicos, outras vemos, mais modestas sob este ponto de vista histórico ou artístico, ufanarem-se de ser berço de homens cujos nomes perdurarão no história como de figuras máximas, quer nas letras, quer nas ciências, nas armas ou nas artes e tantas outras manifestações sublimes da actividade humana.

Justamente se ensoberbece a nobre vila de Torres Novas de ser pátria dum dos mais notáveis mestres da arte de pintura portuguesa contemporâneo — Carlos Reis.

Nasceu Carlos António Rodrigues dos Reis a 21 de Fevereiro de 1863 na Vila de Torres Novas, na casa que seus pais possuíam na calçada do Amparo, que do sul faz esquina para a travessa do Prior, pertencente à freguesia de Santiago, em cujo matriz foi baptizado a 9 de Março do mesmo ano, conforme consta do respectivo assento, lavrado sob o n.º 23 a fls. 12 do L.º n.º 24.

Filho do conceituado cirurgião do partido municipal Dr. João Rodrigues dos Reis e de sua mulher D. Maria de Jesus Nazaré Reis, ele natural do lugar da Mata e ela do Pedrógão, deste concelho, foram seus avós paternos João Rodrigues Cabeleira, proprietário e Joana do Carmo dos Reis Cabeleira, maternos Dr. Carlos António dos Reis, natural do Chancelaria, deste concelho e médico em Leiria, e D. Maria de Jesus Nazaré.

Aluno desde as primeiras letras da escola primária desta vila, e feito o seu exame de instrução primária, passou a frequentar o Colégio do Padre Joaquim Correia do Silva, que funcionava na casa da Enfermaria a Valverde, onde se ensinavam as seguintes disciplinas: português, francês, latim, matemática e desenho.

Como ao seu espírito insubmisso não quadrasse o rigor dos termos algébricos, nem a monotonia das fastidiosas declinações latinas, pois já a arte começava de o enamorar, resolveu seu pai destiná-lo à carreira comercial, pelo que em 1876 seguiu para Lisboa, a despeito das lágrimas saudosas de sua santa mãe, a empregar-se no tabacaria do seu parente Fortunato Augusto dos Neves, a assaz conhecida Tabacaria Neves, do Rossio.

Aí começou logo o seu génio artístico a manifestar-se, pois todos os momentos que o trabalho do balcão lhe deixava livres os ocupava desenhando figuras e esboços de tal forma reveladores dum eleito da arte, que alguns fregueses e amigos da casa se empenharam junto do patrão para que ao caixeiro artista fosse permitida a frequência do Escola de Belas Artes.

O pai, ainda amuado com o filho, opôs-se a tal intento, pelo que Fortunato das Neves veio a Torres Novas e de tal maneira advogou a causa do futuro mestre, que conseguiu demover a oposição paterna, em consequência do que Carlos Reis se matriculou no ano de 1881 no Escola de Belas Artes de Lisboa, onde teve como professores Alberto Nunes e Simões de Almeida em desenho preparatório, Miguei Ângelo Lupi na aula de modelo vivo, e na de pintura Silva Porto, do qual foi um dos mais directos discípulos.

Aluno do 2.º ano da Academia, achava-se um dia o moço artista na Tapada da Ajuda pintando um quadro, quando sucedeu passar junto dele o príncipe real D. Carlos que, como artista que também era, parou a admirar o trabalho do rapaz, que achou deveras apreciável.

Travando com ele conversa, o Duque de Bragança inquiriu das suas condições de vida, ao que ele respondeu que era de Torres Novas e que tinha o mesmo nome e idade de Sua Alteza.

Gostou o príncipe do resposta, pelo que lhe prometeu que à custa dele ficava a sua educação artística.

No dia seguinte o General Sequeira, de cavalaria, compareceu na Tabacaria Neves pedindo licença para que Carlos Reis fosse à presença do príncipe real. Procurou ele escusar-se alegando não ter fato próprio para ir ao Paço, ao que o general obtemperou que Sua Alteza pretendia falar com o jovem estudante de Belas Artes e não com a sua indumentária. Ainda assim pretendeu furtar-se ao convite, pelo que se tornou preciso que o patrão impusesse a sua autoridade, ordenando-lhe que fosse ao Paço da Ajuda.

Compareceu Carlos Reis ante D. Carlos que o tratou com a sua costumada afabilidade para com os artistas e, levando-o à cavalariça, lhe mostrou determinado cavalo de sua estimação, para que o reproduzisse fielmente. Como o futuro mestre modestamente dissesse que não tinha os meios necessários para esse fim, o príncipe prontamente lhe mandou fornecer quatro libras para esse efeito. Satisfeito com a obra do novel artista, lhe estabeleceu desde logo essas quatro libras por mesada que sempre manteve não só durante o seu estágio em Paris, mas depois do seu regresso a Portugal até a nomeação de professor da Escola de Belas Artes de Lisboa.

Terminando o curso da dita Escola em 1889, concorreu a uma bolsa de estudo de 200$00, que brilhantemente obteve, pelo que, como pensionista do Estado, seguiu imediatamente para Paris, onde permaneceu até princípios de 1896.

Na capital francesa frequentou temporariamente a Escola de Belas Artes, onde entrou por concurso, sendo classificado em terceiro lugar entre quatrocentos e tantos concorrentes a oitenta lugares de alunos.

Aí frequentou com grande assiduidade e notável aplicação os “ateliers” dos mais considerados mestres, que em muito apreço tinham as suas excepcionais qualidades de artista, tais como o famigerado retratista Bonnat e o grande mestre de pintura histórica Joseph Blanc, da Academia Colarrossi.

Em 1896 regressava a Portugal e logo concorria ao lugar de professor do Escola de Belas Artes de Lisboa, vago pelo falecimento, em 1 de Junho de 1893, do professor António Carvalho do Silva Porto, sendo seus competidores António Monteiro Ramalho e Artur Melo. Como Ramalho desistisse, o júri entre os dois concorrentes que se defrontavam deu a preferência a Carlos Reis, pelo que tomou posse da cadeira de paisagem no ano de 1897.

“Ao regressar de Paris a Lisboa trazia Carlos Reis o plano grandioso de fixar em vinte ou trinta grandes quadros a vida do camponês, transportando para a tela as suas alegrias, as suas mágoas, as suas paixões e os seus vícios, mas as dificuldades do meio não lhe permitiram a realização desse vasto plano pictural, epopeia rústica, onde o artista, formalmente submisso à sua educação naturalista, não deixaria de ceder ao temperamento que Deus lhe deu, e da observação (na aparência impessoal, desinteressada e exacta) da natureza, lhe faz tirar, em cada um dos seus grandes quadros, outros tantos hinos à saúde, à força, à alegria da vida, ao trabalho feliz, ao amor são e ingénuo, ao sol criador e à luz bem-dita.[O Pintor Carlos Reis e as modas em pintura por Agostinho de Campos, p. 17].

Muito deve a arte portuguesa ao grande mestre Carlos Reis, que com dedicação extraordinária e competência incontestada, regeu a cadeira que em boa hora lhe foi confiada, formando uma plêiade de artistas cujos nomes são já sobejamente conhecidos, como D. Adelaide de Lima Cruz, alma de artista multiforme; Falcão Trigoso, o inspirado pintor-poeta da paisagem algarvia; António Saúde, originalíssimo intérprete das manhãs brumosas; Alves Cardoso, retratista e pintor decorativo já consagrado; José Campos, delicioso paisagista; Frederico Aires, o excelente pintor de marinhas; Armando Lucena e Calderom, artistas tão inteligentes e apreciados, conforme os classificou o Dr. Agostinho de Campos...

Ponhamos ainda em merecido relevo seus filhos João Reis e D. Maria Luísa Reis, verdadeiros prodígios de precocidade na arte que hoje cultivam como artistas consumados mercê das lições paternas.

“Cada um dos discípulos de Carlos Reis, diz ainda o Dr. Agostinho de Campos, tem o seu cunho pessoal, inconfundível e livremente expandido de dentro dos seus temperamentos diferenciados. O mestre formou-os, guiou-os, mas não lhes cortou as asas, impondo-lhes a sua maneira de ver a natureza, de organizar a paleta e dirigir o pincel”.

Foi Carlos Reis o fundador do grupo “Ar Livre”, ao qual sucedeu a célebre “Sociedade Silva Porto”, cujas exposições anuais testemunham o valor artístico dos seus componentes, que assim honram o mestre.

Como Lisboa não possuía um palácio onde pudessem realizar-se exposições de arte, um grupo de artistas, a cuja frente se achava Carlos Reis, levou a efeito a construção do belo edifício onde se acha instalado a “Sociedade Nacional de Belas Artes” na rua Barata Salgueiro, onde se realizam exposições e festas de arte, sociedade de que ele foi fundador em 1902, e que veio continuar o Grémio Artístico que nela se fundiu, sendo Carlos Reis um dos vogais do sua primeira direcção.

Quando o jornal parisiense “Le Figaro” pretendeu homenagear os diversos Chefes de Estado do Europa com um número especial, ao grande pintor português Carlos Reis foi confiado a missão de pintar o “retrato de El-Rei D. Carlos,” trabalho que foi alvo dos mais rasgados elogios.

Durante vários anos exerceu o cargo de Director do Museu Nacional de Belas Artes, às Janelas Verdes, até que desdobrado este pela reforma das Belas Artes de 1911 em Museu Nacional de Arte Antiga e Museu Nacional de Arte Contemporânea, foi em Junho desse ano Carlos Reis nomeado Director deste último, cuja esplêndida organização lhe foi incumbida, e que deixou ao fim de três anos.

O seu último acto no Direcção do Museu das Janelas Verdes foi a organização da sala dos faianças e vidros, inaugurada aquando do Congresso de Turismo em Maio de 1911.

À sua elevada categoria de artista e de professor deveu Carlos Reis a nomeação de secretário do júri de admissão às exposições do Grémio Artístico de 1896 e 1897; vogal nos de 1898 e 1899, bem como nas do Sociedade Nacional de Belas Artes de 1905, 1906, 1909 e 1913.

Nomeado ainda para a de 1914, pediu escusa do cargo e foi substituído por Alves Cardoso.

Da direcção do Grémio Artístico fez parte nos anos de 1897, 1898 e 1899, bem como da Sociedade Nacional de Belas Artes em 1903, 1909, 1910 e 1911.

Artista consagrado desde muito, tem concorrido com os seus trabalhos notáveis a diversas exposições tanto nacionais como estrangeiras, pelo que lhe foram concedidas as seguintes recompensas, que nós saibamos:

Medalha de honra do Sociedade Nacional de Belas Artes, nos exposições de 1906 (óleo) e de 1920 (óleo), de 1.ª, classe na Exposição de 1902 (óleo); medalha de oiro no Exposição Internacional de Dresde de 1897 e no Exposição Internacional de Barcelona; medalha de 1.ª classe no Exposição do Rio de Janeiro de 1924 e Grand Prix no Salon do Rio de Janeiro, etc.

É sócio honorário do Sociedade Nacional de Belas Artes, e orgulha-se de não possuir venera alguma, apesar de haver sido proposto para o grau de Comendador do Ordem de Santiago, distinção que não aceitou.

Membro do Academia de Belas Artes de Lisboa, quando esta foi dissolvida e substituída por outra, recusou o lugar para que foi eleito por unanimidade um ano após a sua fundação.

Atingido pela lei inexorável do limite de idade, houve de jubilar-se em 1933, sendo nessa ocasião nomeado professor honorário da Escola de Belas Artes de Lisboa.

No dia 22 de Maio de 1925 os seus directos discípulos e inúmeros admiradores prestaram uma merecida homenagem ao Mestre, inaugurando no Sociedade Nacional de Belas Artes uma exposição dos seus principais trabalhos, com uma sessão solene em que o conceituado professor Dr. Agostinho de Campos fez uma notável palestra, publicado em folheto sob o título CARLOS REIS e as modas em pintura (Livrarias Aillaud & Bertrand, Lisboa, 1925)

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 A SUA OBRA

     Durante mais de 50 anos de actividade artística, Carlos Reis tem produzido uma obra verdadeiramente notável, não só pela qualidade como pela quantidade. Não seria fácil, nem talvez possível, estabelecer o inventário rigoroso dos seus trabalhos, entre quadros de género e paisagem, retratos, decorações e desenhos. Tentou-o Artur Gonçalves sem o conseguir inteiramente, deixando ainda assim nota de mais de 200 quadros, e Albino Forjaz de Sampaio, no número que lhe dedicou da sua “Colecção Patrícia”, menciona 40 exposições a que o mestre concorreu de 1896 até 1931 com perto de 200 trabalhos.

Para me guiar na organização duma lista tão completa quanto possível desses trabalhos, pedi a João Reis (e é impossível escrever de Carlos Reis sem acudir ao bico da pena o continuador do seu nome e da sua fama) que me fornecesse tudo quanto porventura tivesse coligido sobre os críticas ou simples referências vindas no Imprensa. Mas eu, que já antevia quão pesada seria a tarefa de que levianamente me incumbira, fiquei positivamente atordoado quando me chegaram às mãos, pacientemente compilados pela sua filial devoção, nada menos de 18 grossos volumes cheios de recortes de ilustrações e jornais portugueses, brasileiros, argentinos, espanhóis, franceses, alemães, suíços e ingleses...

Desses recortes, os primeiros que encontro referem-se a uma exposição em 1887 no qual Carlos Reis apresentou o “retracto da Snr.ª D. Guilhermina Roxo”. Eu estava em África havia poucos meses quando recebi carta do jovem estudante de Belas Artes, dizendo-me que ia expor esse retracto que ele esperava começasse a dar-lhe nome, por ser a retractada muito conhecida em Lisboa. Efectivamente a crítica foi-lhe francamente favorável, dedicando-lhe artigos elogiosos os conhecidos publicistas Lino do Assunção nas “Novidades” e Zacarias de Aça no “Correio da Manhã”. O mais curioso é que o primeiro diz que Carlos Reis “quando pinta bem é quando foge da Academia, quando se liberta da vista inquisitorial dos lentes, da sua influência pedante e, sem peias nem observações, se entrega todo à impetuosidade do seu talento”. Isto é: por mais incrível que isto hoje pareça, o que é certo é que Carlos Reis já passou por revolucionário ...

Essa exposição não foi todavia a primeira a que concorreu. Sei isso porque a algumas assisti eu antes de ir para África, e também porque o diz Zacarias de Aça no mesmo artigo: “Quando aqui me ocupei duns quadrinhos de Carlos Reis que vi na Exposição do “Grupo do Leão”, disse que eram a aurora dum esplêndido dia. Pois bem, fui profeta no minha terra — porque o dia não tardou a raiar, e esplêndido, como eu prognosticara”.

Em Dezembro do mesmo ano expôs no “Grupo do Leão” o Caminho da fonte, a que “O Dia” chamava uma brilhante promessa.

De volta de Paris trouxe, entre outros menos importantes, os célebres quadros Manhã de Clamart e Pôr do Sol, que mais tarde foram perdidos, como já se disse, num naufrágio. Desse ano de 1895 data verdadeiramente a sua consagração definitiva como pintor de génio. No ano seguinte na exposição do “Grémio Artístico”, dizia o “Diário Popular” que Carlos Reis ocupava o lugar proeminente, com os seus quadros Ao cair do tarde, Domingo de primeira comunhão, Vacas no pastagem e Retracto de minha mãe. E todavia nessa mesma exposição figuravam trabalhos de Malhôa, Salgado e outros.

Alguns críticos lamentaram que não se dedicasse antes à paisagem de Portugal, o que creio lhe seria bastante difícil pintando em França; mas esse defeito depressa desapareceu, e poucos paisagistas conseguiram ver, sentir e reproduzir com mais verdade e maior emoção o campo, o sol e o ar de Portugal, como ele o tem feito e continua fazendo. No “Correio Nacional” de 8 de Maio de 1896, escreveu Franco Frazão (depois Conde de Penha Garcia) um brilhante e entusiástico artigo sobre Carlos Reis, que lamento não poder transcrever na íntegra pois isso me levaria muito longe; mas não resisto a copiar da já citado Conferência de Agostinho Campos (O pintor Carlos Reis e as modos em pintura) o seguinte excerto desse artigo: — “Os seus quadros duma factura largo e vigorosa, não acusam esforço; vê-se neles claramente que o poder de execução e a faculdade de concepção existem no artista perfeitamente equilibrados; adivinha-se a espontaneidade, a abundância de dotes naturais. A cultura do espírito, a perfeição da educação profissional, transparecem sem dúvida nos telas de Carlos Reis; mas predominam sempre as qualidades naturais, de preferência às manifestações do talento académico, ou do estudo clássico das escolas. Devido à convivência e às lições de Silva Porto, bem cedo a poesia da vida campestre atraiu o espírito de Carlos Reis. Se, porém, a paisagem ou, melhor, os aspectos da vida do campo constituem o seu assunto preferido, nem por isso o retracto, as cenas de interior e vários outros géneros de pintura deixam de ser por ele cultivados com manifesta superioridade. Apologista do pintura de ar livre, pertence à falange ilustrado por Lepage, Millet, d'Aubigny, Jules Breton, Silva Porto e muitos outros”.

Por essa época Carlos Reis mandou a Berlim um desses grandes quadros, Pôr do Sol, e a “Ilustração Alemã” referia-se ao seu autor bem como a Columbano, como a dois artistas completamente originais.

É evidente que não posso transcrever, nem sequer resumir os 18 volumes de recortes que João Reis me forneceu, nem praticamente seria possível reproduzir, descrever, e apreciar tudo quanto o Mestre produziu até hoje. Haveria para isso graves impedimentos de vária ordem, como os de natureza orçamental e, não menos importantes, os que implicariam a capacidade de tolerância do leitor mais benévolo.

Digamos entretanto que nas exposições efectuadas nos anos seguintes, Carlos Reis foi merecendo da crítica apreciações sempre mais elogiosas e entusiásticas, distinguindo-se “O Popular” pela pena do crítico que assinava Um ignorado, “Novidades” pela de H. de V., “Tarde” pela de Cassio, “A Arte” em artigos sem assinatura, “Mala da Europa” pela pena de Abel Botelho, etc.

Em 1898 pintou a bela paisagem Nas margens do Almonda.

Em Janeiro de 1900 a Escola de Belas Artes expôs os quadros que iam ser enviados à Exposição de Paris. Havia-os de D. Carlos, de Columbano, Malhôa, Salgado, Condeixa, Sousa Pinto, etc. Acerca dessa exposição dizia o “Correio Nacional”: — “Quem se apresenta por modo verdadeiramente notável é o ilustre paisagista Carlos Reis, cujas obras serão sem dúvida o great event da nossa exposição artística em Paris”.

Por ocasião dessa exposição publicou-se em Paris a revista “Le Portugal à l'Exposition onde se lê: —“M.  C. Reis est, dit-on, un indépendant, ennemi des écoles et des procédés. 11 ne reconnait d'autres maïtres que sa propre organisation et la vérité.  Nous ne sovons si ce sont ces bons príncipes qui lui ont créé des obstacles et des difficultés, ce sont eux cependant qui 1'ont conduit à nous montrer, dans l'Exposition actuelle, des toiles excellentes. Outre les tableaux exposés pour lui dans les salles du Grand Palais, il faut aller voir les huit magnifiques toiles qui décorent la section portugaise aux armées de terre et de mer et qui sont dues, à son habile pinceau. L’oeuvre de M. Carlos Reis comprend des portraits et des paysages. Deux portraits de la mère de cet artiste et un outre, en pied, de Mlle. M. M. Les deux premiers sont traités avec cet amour du fils qui emploie toute la magie de son pinceau pour perpétuer des traits chéris. Dans le portrait de Mlle. M. M., M. Carlos Reis s'applique à être 1'interprète de la jeunesse, et il nous semble vraiment que 1'on ne peut facilement jeter sur une toile plus d'élégance dans 1'attitude, plus de parcimonie et d'harmonie dans la couleur. Mais M. C. Reis, quelque distingue déjà comme artiste, est encore assez jeune pour que son talent de portraitiste puisse encore s'accroitre, car comme paysagiste son talent est indiscutable. Le tableau “Matin à Clamart”' serait à lui seul suffisant pour établir la réputation de son auteur; il est bon toutefois de le mettre en regard de ses autres oeuvres: Coucher de soleil, L'Automne et Dans la prairie. Les effluves de la Nature se détachent sur ces belles toiles et touchent 1'âme de qui les contemple. M. Reis a une prédilection marquée pour les heures extrèmes de la journée, et sa palette colorée et changeante possède le pouvoir magique soit de jeter dans notre âme les tristesses du soir, comme dans le Coucher de Soleii, soit, comme dans le Matin à Clamart, d'éveiller en nous des idées poétiquement charmantes que nous suggère une matinée que 1'on ne saurait rêver ni plus suave ni plus transparente ni plus lumineuse”.

Nesse mesmo ano, foi Carlos Reis convidado a mandar a Dresde em 1897 o justamente famoso quadro Retrato de Minha Mãe, que se achava então exposto em Paris e ao qual no dito convite se prometia um lugar privilegiado. A propósito desse retracto, de cujo técnica impecável, de cujo delicadeza de toque, da ternura com que foi pintado, tantos críticos falaram, alguma coisa posso eu contar que certifica a sua inteira semelhança com o modelo que muito bem conheci. A história é simples: O quadro estava colocado numa sala da residência de Carlos Reis em Torres Novas quando chegou uma mulherzinha que se dirigiu ao retracto perguntando-lhe com muito interesse se estava melhorzinha ...

Não resisto a contar outro caso parecido, acontecido há pouco tempo comigo mesmo. O conhecido quadro de Mestre Carlos Reis A talha vidrada, por este oferecida ao Museu Municipal de Torres Novas, tinha sido retirado da moldura à espera de ser envernizado. Achava-se encostado à parede num gabinete interior, quando entrou no sala de leitura da biblioteca anexa um frequentador da mesma; quando passava viu o quadro, afirmou-se um pouco, e disse-me: “Tem graça, julguei que era um quadro que ali estava”. O que ele julgou foi que era uma mulher de carne e osso.

Neste ano de 1900, o artigo que se me depara no “Diário da Tarde”, e que eu mais lamento não o poder transcrever, é um de Justino de Montalvão em que o distinto escritor diz, entre muitos outras coisas justas e poéticas, que «o sol do nosso país de encanto noivou com esta alma de pintor. E desse maravilhoso noivado uma resplandecente eflorescência desabrochou nas suas telas”.

Numa exposição do S.N.B.A. em 1902, como para responder à observação antigo acerca da paisagem de França, o conhecido crítico de Arte, Dr. José de Figueiredo, dizia no “Dia”: — “Carlos Reis, que já tinha dado provas bastas de ser artista de grande valor, individual e íntegro, afirma-se nestas suas paisagens como profundamente português. Tendo-se compenetrado e embebido, nas suas demorados excursões pelo campo, dos nossos céus quentes e dos nossos fundos, menos vagos e incertos do que os franceses, mas mais puros e luminosos, a sua factura tornou-se mais sólida, sem nada perder da sua antiga e encantadora fluidez. Sincera e verdadeiramente poeta, sentindo a natureza e identificando-se maravilhosamente com ela, a justeza dos suas paisagens bretãs e as reminiscências que delas, ainda não há muito, deixava entrever, não eram portanto — prova-o bem agora com estes trabalhos últimos — impotência, mas poder”.

Também em 1902 pintou em Torres Novas O Moinho dos Gafos, que se encontra no Museu do Rio de Janeiro.

Na Exposição da mesma S.N.B.A. em 1903 aparece também Carlos Reis e no “Dia” lê-se: “ ...Os dois gloriosos aqui, os Mestres da sala dos Mestres, são Carlos Reis e José Malhôa”. Nesse mesmo ano Carlos Reis pinta o grande quadro representando a glorificação dos descobrimentos portugueses, com que foi decorado uma das salas do Museu de Artilharia.

O ano seguinte foi assinalado pelo célebre retracto do Rei D. Carlos, que foi exposto em Paris em 1905 e se encontra hoje no Palácio de Vila Viçosa.

A propósito desse quadro dizia “O Diário Ilustrado de 29 de Fevereiro de 1904:— “A crítica nem sempre tem sido benévola com esse artista que é indubitavelmente um pintor de raça. A razão é simples: Carlos Reis põe acima de tudo a sua consciência profissional e por nenhum modo transige com as “côteries” e com as sociedades de elogio mútuo. Sensível às más vontades, aos azedumes e às frechadas dos que fazem vida do maledicência temperada com os condimentos duma literatura muito apreciado nos cafés, concentrou-se e esperou a sua hora de completa justiça que tinha fatalmente de vir, visto como não há críticos tendenciosos que tenham jeitos de anular o talento naquele que o possui. O retracto de El-Rei, a última tela que o artista expôs no seu atelier, tem causado verdadeira admiração nos entendidos, sendo unânime a homenagem prestado a Carlos Reis pela Imprensa e por todos os que têm contemplado essa verdadeira obra de mestre”.

No “Diário de Notícias A. Lobo de Ávila publicou um artigo donde extractamos os seguintes períodos:— “A figura de El-Rei está desenhada com firmeza e primorosamente pintado. O toque seguro e franco modela o busto com frescura. É a medida do bom acabamento, que não deixa reticências de forma e de cor, para os olhos do observador preencherem com dificuldade, mas que nada tem da pintura tourmentée ou miúdinha. É o caso de dizer: in media virtus. Num escôrço hábil, inteligente, o pintor colheu bem as linhas mais propícias do seu régio modelo, as mais correctas, mais senhoris e mais elegantes, para dar o movimento da figura do cavaleiro, combinado com a do garboso corcel por ele montado. Da figura de El-Rei, e da expressão do seu rosto, pode dizer-se que se desprende, para valorizar esta obra de pintura, essa suprema qualidade de estilização que, como diz Charles Blanc, é o mais alto ponto a que a obra de Arte pode atingir. Quem vê este quadro surpreende na sua figura principal a figura dum Rei”.

Por essa ocasião publicou “O Correio da Noite um longo artigo de que destacamos estes trechos:— “Não nos lembramos de nenhuma obra de arte, que tenha alcançado mais completo êxito nos últimos anos” ...

“Sobre o belíssimo quadro de Carlos Reis tem-se falado e escrito muito e, no entanto, através da rapidez e fugaz descrição jornalística das impressões dos visitantes, sente-se, quase sempre, vibrar uma emoção verdadeira e sentida”.

“A figura de El-Rei está soberbamente traçada, a naturalidade do semblante, de aspecto nobre e bondoso, a viveza inteligente do olhar, realçam a exactidão e verdade do movimento e posição do corpo, que cai bem no sela, dominando o admirável corcel que El-Rei monta. El-Rei a cavalo destaca-se naturalmente na tela, tão harmonicamente ligado às mais insignificantes minúcias do quadro, que não há plano, mancha ou contorno que se não adivinhem subordinados a essa figura primacial. O corcel que El-Rei monta está soberbamente pintado, tem vida, movimento, sangue e nervos, os oficiais superiores que acompanham El-Rei, e cujo agrupamento é deveras feliz, estão sóbria e admiravelmente retractados; a paisagem é emocionante de luz e realidade; as figuras dos soldados, que ocupam os últimos planos, estão indicados com perfeita naturalidade; todo o quadro tem tanto ar e tanta luz, que nos dá clara e poderosamente a impressão do campo, do ar livre, da nossa terra portuguesa. No entanto o espírito, sentindo cada uma destas qualidades estéticas, todos concentra na figura de El-Rei, que domina o quadro com um vigor de tons e uma nobreza de linhas, que fazem a maior honra ao pincel de Carlos Reis. Este retracto ficará no pintura portuguesa com um assinalado valor estético”.

E termina assim: — “O retracto de El-Rei é uma obra profundamente sentida. Quis o artista testemunhar por ela o seu reconhecimento e gratidão a quem deve tantas e tão cativantes provas da régia estima. Fazendo este retracto e oferecendo-o a El-Rei, realizou um bem antigo desejo do seu espírito e do seu coração. Quem escreve estas linhas conhece Carlos Reis há muitos anos e seguiu com o maior interesse artístico a realização da obra prima de que vem falando; do qual se pode dizer que a nobreza dos sentimentos que a originaram se casa bem com a pureza dos ideais estéticos que ela realizou”.

Abel Botelho, nos “Écos da Avenida” disse pela mesmo ocasião: — “ ... Esse soberbo retracto de El-Rei, admirável exemplar de pintura em plein air com a sua luz quente e exacta, com a sua amplidão de planos e o seu violento destaque das figuras, vibrando todo dum forte cunho pessoal e fazendo-nos evocar pela magia da impressão, pelo modelado, pela cor, pelo processo, vagas reminiscências de Lebrun, Meissonier, Gerôme e outros grandes fixadores clássicos da figura humana”.

Falou-se também muito do retracto do Dr. Avelino Monteiro, exposto pela mesma ocasião. Mas antes de passarmos a outras obras, vejamos o que estrangeiros disseram do Retracto de El-Rei D. Carlos quando exposto no Salon de 1905. Como os críticos do Salon tinham que examinar milhares de trabalhos, não é de estranhar que a poucos possam consagrar atenção, e que a esses mesmo não dediquem grandes apreciações. Já o facto de citar algumas obras expostas representa por essas privilegiadas consideração desusado.

Assim fizeram simples referências ou curtas apreciações ao Retracto de D. Carlos: “Éclair” (un três beau portrait de Sa Majesté le roi du Portugal passant une revue, accompagné de sa maison militaire); “Evening Standard” (O retracto em tamanho natural do Rei Carlos 1.º de Portugal, cercado pelo seu brilhante Estado Maior, pintado pelo célebre artista português Carlos Reis num quadro imponente; a semelhança do Rei e dos seus oficiais é fidelíssima ao que me dizem): “Figaro” (on classera parmi les meilleurs portraits de l'anée : ... du Roi de Portugal avec sa suite); “Lyon Républicain” (M. Carlos Reis a exposé un beau portrait du Roi de Portugal, d'une notation três juste et d'une coloration fort bien étudiée): “Le Voltaire”; “Le petit Var”; “L'Art et les artistes” (Le portrait de roi de M. C. Reis est fringant et décoratif à souhait); “Petit Journal” (Le roi Carlos de Portugal, à cheval, suivi de son brillant état-major, est une toile troitée avec éclat par M. Carlos Reis, bon peintre portugais, élève de nos maïtres); “La Liberté”; “La Dépéche de Rouen”; “Le Petit Journal” (Le souverain (Eduardo VII), dirigé par son cuide compétent (Detaille), s'est arrêté devant les principales oeuvres exposées, notamment devant le portrait du roi de Portugal et de sa maison militaire par Cartas Reis); “L'Art et la Femme” (11 y a foule sympathique devant le portrait du Roi de Portugal don Carlos I et de sa maison militare, por un artiste de Lisbonne, M. Reis); “Allgemeine Zeitung (Un portrait équestre exquis du Portugais Carlos Reis réprésente le roi du Portugal à la tête de son état major); “Journal de 1'automobile” (le grand tableau de M. Carlos Reis, réprésentant le Roi du Portugal avec sa suite; les montures sont peintes avec beaucoup de largeur et de verve et une excelente couleur); “Patrie”, em artigo assinado por Jean Tarbel (Cette salle, três grande, contient des ceuvres interessantes. L'une des meilleures est le portrait de S. M. le roi, de Portugal Don Carlos 1 et de son maison militaire, par M . Reis; le roi est vu à cheval de trois quarts; un groupe d'officiers en grande tenue le suit; à gauche, ou fond d'une pelouse, on aperçoit la haie des fantassins; la peinture est claire, brillante, quoique inégale d'exécution; les chevaux sont bien construits; les uniformes, les ors et les cuivres éclatent en tons riches.); “L'Art et La Mode”; “Écho de France” (De M. Carlos Reis le portrait du roi de Portugal, plein de qualités de lumière qui papillote un peu sur les chevaux, les casques, les uniformes, toutes ces choses bien étudiées, que M. Detaille doit estimer mieux que personne.); “Le Sémaphore; “La Revue Française”; “Die Post”; “Neuest Nachrichten”; “Tagblatt der Stadt St. Gallen”; “Kölnische Zeitung”; “National Zeitung” (não só retractou de maneira notável D. Carlos 1, mas também lhe deu um magnífico quadro militar); “Sonn-u-Montags Zeitung”; “Neue Zürcher Zeitung”.

Já então Carlos Reis trabalhava no decoração da solo de baile do hotel do Bussaco. “O Correio da Noite” descreve assim as peças que se destinavam a revestir uma parede de 14 metros: — “A composição é muitíssimo feliz, oferecendo um belo aspecto decorativo. Representa uma festa medieval numa floresta dum colorido pálido e sentimental. Os grupos de músicos tomam elegantíssimas posições. Os trovadores tangem as liras e figurinhas suaves e melancólicas dedilham cravos, cítaras e harpas. Dum dos cantos surge o castelo medieval donde vem descendo o senhor, a castelã e seus convidados”.

Em princípio de 1906, “Os Burros”, pela pena (iria jurá-lo embora não assine o artigo) de Joaquim Madureira, dizia de Carlos Reis, que expusera poucos dias antes no Salão Bobone com os seus discípulos dilectos: — “Certo que nem todos os quadros se igualam, nem todos têm, como Arte, o mesmo significado e o mesmo valor, e, se no catálogo do Mestre, O Grilo do Penêdo em painel de Museu, é um breve resumo de todo a técnica inconfundível dum grande pintor, que joga às dificuldades e ganha nos impossíveis, ainda assim ele não vale este Moinho da Azenha, paisagem sem céu, com os primeiros planos a esbarrarem-se na encosta íngreme dum monte e que é, entre os palmos de paisagem portuguesa que os nossos maiores paisagistas têm passado à tela, o pedaço mais sólido, mais forte, mais característico e mais português que eu conheço na pintura contemporânea. Como paisagem Carlos Reis nunca fez melhor, e como Arte não conheço que muitos hajam feito igual ou tão bom. Na Levada do Moinho — com águas, com céu, com verdes de arvoredo e muros brancos de casas — a vista repousa, talvez, com maior encanto, com maior prazer do que sobre os tons barrentos e fortes da Azenha, e estou em dizer que no Museu de Arte Contemporânea, onde se deviam albergar apenas as raras obras primas dos mestres do nosso tempo, seria a Levada o pendant da Azenha, se não fora a minha antipatia pela figurelha de saioto vermelha e mantilha branca que, a meio do riacho, decora, em cartão postal,

este regressivo do natureza”.

Já então — e perdoe-se-me o parêntesis — então João Reis expunha quadros, e dele dizia o mesmo Joaquim Madureira no mesmo artigo de “Os Burros”: — “João Reis, que na certidão de baptismo tem dezassete anos de idade, — nestes sete quadros do Bobone parece, com todo o frescor do juvência, ter trinta anos de ar livre e quarenta de atelier. Não é um debutante a tactear incertezas; é um virtuoso a orquestrar dificuldades. A largueza da factura, com dedadas soltas, com pinceladas cegas, não e uma bizarria do acaso, e, como não pode ser um segredo do ofício, tem de se admitir que seja — um dom da natureza. Quer com cores vivas, verdes macias e tenras, amarelos suaves e brandas, ele deixe correr a paleta na alacre sinfonia dos dias radiosos de sol, como na Margem do Rio, no Moinho da Levada e no Outono no Arieiro, quer, em tons magoados e sombrios, castanhos terrosos e barrentos, negros esfumados e duros, ele carregue a espátula na melancólica meia-tinta das tardes nubladas de chuva, como no Canto triste, nas Casas velhas ou na Latada do Moinho, João Reis sente e faz sentir a alma da paisagem, e os seus quadros, em que há a frescura das sombras e o brasido dos soalheiros, deixam-nos nos olhos a impressão viva das cores, mas deixam-nos no espírito o misterioso sentimento da Natureza. O Moinho do Levada é o quadro dum belo pintor, mas a Latada do Moinho é o poema dum grande artista. Aos dezassete anos quem assim pinta embora seja filho dum Artista-pintor, como o Mestre Carlos Reis, tem obrigação de vir a ser, de aqui a uma temporada de trabalho fecundo, de fecundas e trabalhosas iniciações, não só o maior pintor da sua família — mas um dos maiores pintores dos nossos tempos e o maior artista da sua terra — porque João Reis, quase uma criança, um rapazelho imberbe e esgrouviado, já hoje solta em talento, em intuição, em sentimento e em factura, com malabarices de paleta e japonerias de cor, para cima dos camaradas e dos mestres — parecendo, o garoto, que veio ali para o   salão, com dois ou três painéis, jogar o eixo com o Pai — passando-lhe por cima de trinta anos de atelier — e trinta anos fecundos e prodigiosos de prodigiosa e fecunda Arte”.

Fechei o parêntesis e não o tornarei a abrir, não vá o Pai ter ciúmes do filho... Além disso não quero invadir os domínios do Sr. Carlos Sombrio a quem a glória de João Reis pertence de direito, embora me pertença também um pouco a mim visto ele ser uma das melhores, mais fortes e mais belas obras de seu Pai.

Na “Província”, de Viseu, Ribeiro Artur dizia em 24.5.907: — “ Em Portugal ainda há um pintor retratista que ultimamente muito tem subido. Dum verdadeiro talento e grande capacidade, Carlos Reis que de volta de Paris vinha, embora audacioso, ainda periclitante, saindo para fora das normas do espírito natural fazendo arrojadas tentativas e caindo em exageros, hoje equilibrado e retemperado pela doce atmosfera da pátria, em plena pujança da sua individualidade, tornou-se um mestre nessa difícil arte de retractar. Na última exposição do Sociedade Nacional de Belas Artes o retracto do Conde de Sabugosa e outros que apresentou, entre os quais o duma senhora, são verdadeiros primores”.

No “Dia” 8 de Maio de 1909, o Dr. José de Figueiredo faz observações severas a vários retratos expostos por Carlos Reis, e termina assim: — “Na obsessão do retracto, género onde o Sr. Carlos Reis, com todo o seu talento de pintor, correrá o risco de não deixar de ocupar nunca um segundo plano, o Sr. Carlos Reis quase abandonou a pintura de paisagem. Lastimamo-lo deveras. O Sr.  Carlos Reis provou largamente, nesse campo, o seu grande valor. E ainda este ano, em pequenas telas sem pretensões, e feitas decerto para repousar dos seus trabalhos de retracto, se afirma o mesmo tradutor brilhante dessa nossa velha mãe e amante de todos os dias, a Natureza”.

E todavia, é desse ano e figurou numa exposição o belo retracto do Conde de Mafra e outros que foram todos elogiados pela crítica.

Num “Diário de Notícias de Junho de 1911 depara-se-nos a transcrição de parte dum artigo de Vega y March do “Diário de Barcelona”, que passo a trasladar: — “Do conjunto da secção de Portugal sobressaem os quadros firmados por Carlos Reis, e que são, três deles pelo menos, os três retratos, verdadeiras obras de Mestre. Com absoluta fidelidade dá-nos o pintor nos seus quadros a ideia exacta das personagens retractadas; neles resplandece a vida em modalidades diferentes, mas sempre com a mesma intensidade real, com a mesma energia de evocação e de representação; a sua clarividência de que o artista se não limita a reproduzir-nos os rasgos físicos do semblante, pois busca também no temperamento, no espírito das personagens que retracto, dando-nos delas uma exteriorização estética que faz recordar o trabalho dos grandes mestres da pintura; respeitador da verdade, procura formas de expressão justas e belas, para todos os elementos do conjunto, tratando-os com sobriedade, com simplicidade, com certa grandeza de execução, o que constitui um dos seus maiores méritos. Não cai no trivial da factura detalhista, nem no vago e no imprevisto dos que fazem gala em não atender aos detalhes. O seu pincel, inteligente e probo, se nesta forma sabe expressar a ideia, detém-se no que exige, pelo seu carácter e atenção; passa sem deter-se, não como se fugisse, com a nobre majestade do grande senhor, por aquilo que não requer prodigalidades extremas. O carácter pictural das suas obras oferece evidentes analogias com o dalguns grandes pintores espanhóis”.

Em 1911 também pintou o retracto do Dr. Pinto Lopes, advogado em Torres Novas, excelente trabalho que estava destinado a ser destruído por um incêndio em África, por ocasião duma revolta de indígenas em 1917; e o admirável retracto do ilustre pintora D. Adelaide Lima Cruz, do qual se fala adiante.

Em 1912 encontramos Carlos Reis em Madrid na Exposición de Bellas Artes. E lemos em “El Liberal”:-— “... dos retratos: el del Dr. Avelino Monteiro y el de la Exma. señora doña Adelaide de Lima, debidos al pincel de Carlos Reis. El del doctor recuerda la paleta de Domingo Márquez; con esto creemos haber dicho todo. El segundo, además de la solidez de su factura, de la caliente y jugoso dei calor, de la vida que brilla en aquellas ojos negros, es de una elegância suprema. La mano, que con tanto naturalísimo movimento sujeta el pañuelo y lo acerca al rostro, no puede pintarse con más delicadeza. Si algun lunar, bien pequeño por cierto, se advierte en este retrato, es el escorzo del brazo derecho”.

No “El Imparcial”, com a assinatura de Francisco Alcântara, lê-se: — “Empezando por las obras de Carlos Reis, según el orden de colocación en la salo, encuentrase un retrato: el del doctor Avelino Monteiro. Tal como aparece este doctor, es un hombre de caráter algo ácido, moreno negrusco, de recio crâneo y faz áspera, de barbas y de pelo hirsutos; uno de aquellos por quienes se dice: El hombre y el oso, mientras más feo más hermoso. Tentado estaba de decir que el tal doctor tiene cara de vinagre si no fuese porque, al través de tan farrucas apariências, se adivina una persona bondadosa, como ocurre con muchos de esos cetrinos verdinegos que parecen dispuertos à comerse los niños crudos y luego son la bondad misma. Cuando un retrato pictórico ó escultórico suscita la ideologia que he insinuado en los renglones antecedentes, ese retrato es una obra de arte, y otra señal inequívoca de que efectivamente la es este retrato, la da el hecho de que á poco de contemplar la cabezota del doctor Avelino Monteiro, ve uno que ha hecho dos amigos: uno el doctor retratado, y el otro es el pintor retratista. Por una fisionomia llena de espiritu, la de Monteiro, nuestro amigo del momento, vamos à la amistad del pintor que tan gallardamente retrata las almas.  Sigue a este, tanbien de Reis, el retrato de la Exma. Sra. Doña Adelaide de Lima, retrato de una elegância que ha de encomiar diciendo que es elegancia de alcurnia francesa. Ocupo todo el testero de enfrente en esta sala el lienza de grandes dimensiones que se titula A Feira, y en el que Carlos Reis ha puesto un áspero y atractivo sentir de la vida agreste, compesina, bucó1ica, gitanesca, de los mercados rurales, delas ferias, que en los pueblos de mediodia evocan los más bellas pasajes de la literatura antigua, griega, latina, medieval, por repetirse al través de los siglos, siempre iguales bajo la acción del sol providente, esos hermosos derroches de alegria, de agitación y de estruendos que se llaman ferias. Bajo un pino colosal tienen sus ranchos muchos feriantes. Mézclanse com los grupos de mansas bestezuelas, muletos y borriquillos, toda especie de tipos populares: á la derecha se destacan, muy bien pintados, muy veraz y gallardamente pintados, la maza en la que un mazallon, entre tierno y maleante, pone los ojos, y al través de la greña del pino, y por debajo de su copa amplíssima, se distingue todo el extenso ferial. Parece que se oye un caramillo, talvez sueno la gaita. Al primer grito, à la primera ronda de vinillo alegrador de las multitudes, toda esta gente se desgranará en parejas e en corros de danzantes y de cantores. Tiene este quadro de Carlos Reis algo de la sintética y decorativa asperura de un soberbio, bien tecido y deslumbrante tapiz, y aunque no carece de delicadezas pictóricas, algo basto, como el tufo de la majada donde se elabora el queso; tufillo que se extiende en torno y perfuma los montes y las cañadas cuando el viento de la tarde la lleva de acá para allá; algo como olor a corambres repletos de tinta, de baho de calderos en que se codimenta la pitanza de olor à multitude trajinante; algo de todas estas cosas tiene este cuadro de Carlos Reis; de pintura asperísima, que la mayoria de nuestro público extranhará, por eso, por su aspereza; pero en la que canta una voz poderosa la canción eterna del agro fértil, produtor del pan, dei vino, de las frutas, de las ganados y dei hombre, que sabe gustar de todo, y darle valor, y amar y multiplicarse”.

No fim desse ano, Carlos Reis mostra o quadro em acabamento Raios de sol ardente, do qual Sousa Costa diz o seguinte no “Primeiro de Janeiro”: — “... a vasta tela a que actualmente entrega o melhor, o mais ansioso e o mais apaixonado dos impulsos criadores do seu talento. É uma tela que ocupa o atelier na quase totalidade da sua largura. No primeiro plano vê-se um saloio moço e ingénuo, duma singeleza amorosa de pastoral, que se encontra no seu caminho com uma rapariga sadia e alegre, parando, disparando-lhe um madrigal que a faz sorrir de malícia, voltando o rosto gaiato, em que a luz do poente se projecta em cheio. No segundo plano, por detrás do saloio, uma junta de bois rumina na sua calma passividade resignado, e espera que o camponês se ponha em marcha em direcção ao estábulo. E ao fundo, através da ramagem das árvores, descobrem-se telhados duma povoação minúscula, meio diluídos no fluido sanguíneo da linha extrema da perspectiva. Todas aquelas figuras são tratadas com o escrúpulo minucioso, com a observação rigorosa dum artista psicólogo, dum pintor naturalista. Mas o que acima de tudo impressiona e domina, nem são as figuras, a palpitar de vida, nem as árvores a murmurar as preces vagas do sol-pôsto, nem a restolhada em que o arvoredo recorta os caprichos esquisitos das suas sombras. O que ali essencialmente e profundamente empolga, ferindo a retina como um esplendor de apoteose, é a luz crepuscular do poente, envolvendo todo o cenário bucólico num rubor de fornalha a arder. Parece que o artista embebeu em fogo o seu pincel inquieto, espalhando pela tela, numa exuberância magnífica, o crepitar e o reverberar da chama rúbida que o fascina. Luz fulgurante e sinistra, ímpeto feérico de vida a extinguir-se, incerteza espectral do mistério que se aproxima, morrendo em cambiantes de rosa murcha e de violeta desmaiada no recato das ramagens tranquilas — ela, por si só, pacífica e triunfal, bastaria para nos dar a medida exacta do inconfundível paisagista que é Carlos Reis.

Em 1913 expôs Gerânios e malva-rosas de que na “Lucta” se dizia: — “... de avultadas proporções, duma execução largo e vigorosa. Uma encantadora figura de mulher, num recanto iluminado, colhe o seu ramo, parecendo que as flores enrubesceram ao contacto das suas mãos delicadas.  Há sensibilidade em todo o quadro, a despeito dos contrastes de luz e de cor, e pretensioso seria que pretendêssemos dar a impressão que ele causa no observador”.

Nesse ano expôs Carlos Reis o quadro Raios de sol ardente de que Sousa Costa já nos falou, mas de que Sobral de Campos escreveu em “Terra Livre” o seguinte: — “Bela tela em qualquer porte! A vida que em si encerra e dela se depreende! A alegria, a saúde, a bondade forte do natureza fecunda! Nada esquece. Não são simplesmente os dois — o rapaz e a rapariga que vão à frente dos bois — que Carlos Reis trata com carinho. Eles vão — digo vão porque essas duas figuras têm relevo, movimento, vida — seguindo no seu idílio simples, idílio sem artificialidades, sem constrangimento, transpirando a voluptuosidade natural e saudável — a mesma que vem da terra, das árvores festivas e dos horizontes iluminados. Sorriem ambos... Ela vai enleada e contente, o seio farto, cesto no braço, os pés descalços sobre a terra... Ele, de aguilhada ao ombro, esquecido dos bois que caminham a seu lado pachorrentamente, vai todo embevecido na sua contemplação e domina-o com o olhar quente que a envolve toda numa mordente carícia... Mas tudo é cuidadosa belo nesta grande tela. Os bois, os diferentes planos do terreno, as nuvens do horizonte, umas nuvenzitas de calmaria, dos grandes dias de sol... É tudo! A frescura do cesto! A graça das parras que dele saem! E até sobre os olhos dum dos bois — daquele cuja cabeça se vê quase inteiramente — pendem as tiras de coiro de que me não lembra agora o nome apropriado. Não fosse a nostalgia, o misticismo desse olhar, pôr uma nota de tristeza naquele quadro onde só a alegria grito num soberbo triunfal Raios de sol ardente é como uma página grande de Zola”!

Falaram ainda de Raios de sol ardente “O Dia”, “Correio do Brasil” “Correio da Europa”.

É também de 1913 o retracto da Exmª. D. Carolina Joque, um dos mais célebres trabalhos do Mestre.

Em 1914 só há notícia de ter exposto um quadro, o retracto da menina E. da S. G., do qual disse um jornal: — “Carlos Reis é um grande artista, de especialíssimo temperamento, cheio de nervos e sensibilidade, que deslumbra pelo seu talento. A sua técnica é larga e fecunda, cheia de efeitos e maravilhosa de cor. Concorre à exposição também com um único trabalho. Esse trabalho, um retracto de senhora, é porém um encanto. Aquela figura gentil é tratada com uma delicadeza inexcedível. Parece ter sido surpreendida num movimento gracioso, pelo olhar prescrutador do artista, e procurar num enleio quase imperceptível, disfarçar a sua natural timidez. A técnica de Carlos Reis, cheia de riquezas de cor, distinta e elegante, encontrou neste quadro óptimos motivos para se desenvolver. A figurinha — deliciosa de desenho — as peles, as rendas dos punhos e do pescoço, e a série de detalhes que compõem o fundo, são todos tocados com essa magia de sentimento, de cor e de efeitos, a que nos habituou já o excepcional talento do mestre”.

Na exposição do S.N.B.A. de 1915, Carlos Reis expôs As engomadeiras, que se encontram no Museu de Arte Contemporânea, A merenda, um retracto e quatro pequenas paisagens. Das Engomodeiras disse o “Diário de Notícias”: — “As engomadeiras, no qual se destacam num dos primeiros planos duas figuras admiravelmente bem lançadas, é um trabalho de dificílima execução por nele predominarem os brancos das roupas e tendas, às quais não faltam a transparência e a finura. Carlos Reis tem um talento infalível para ver as linhas dos seus modelos, para lhes arrancar o encanto que eles têm, ou que eles lhe sugerem, e o sentimento da espontaneidade e do entusiasmo dominam sempre. Por mais ingrato que seja o assunto, o seu golpe de vista sabe encontrar as qualidades de cor e a elegância do forma. A sua alma de artista põe-se de parte para a dominação do modelo, o que facilita a expressão do sua visão pessoal, e, cingido sempre à ideia de reproduzir a harmonia dos linhas e das cores, vê-se claramente que não tem as menores hesitações para obter efeitos”.

Da Merenda disse o mesmo jornal:— “... é um trecho delicioso de frescura, de harmonia e de cor, como o são as suas deliciosas paisagens de Colares. O talento de Carlos Reis em materializar o tempo é magistral. Assim, o primeiro clarão da aurora é bem a primeira luz da aurora e não o meio dia; o meio dia não é o pôr do sol. Isto sente-se, isto respira-se em todas as obras do grande pintor”.

É também de 1915 o admirável retracto a carvão do grande artista Teixeira Lopes.

No ano seguinte ainda expôs o Mestre um retracto de senhora jovem e a Primeira comunhão. Dum e doutro diz Sousa Costa no “Primeiro de Janeiro”: — “São ambos em rendas alvas de neve. A retratada da primeira tela é uma figura de rapariga, fresca como um pâmpano, numa expressão doce e enigmática de sonho e de sorriso. Não pousa — vive. Escuta, espera. E as rendas que a envolvem, que lhe afagam a moça carnação do seio, que lhe diluem a tenra nudez dos braços, que lhe cingem o busto fino e alto, palpitam, flutuam — dando no conjunto e sob as diversos tonalidades do luz ambiente, uma verdadeira e admirável sinfonia em branco. Sem trucs, sem exageros, honestamente, o Mestre tirou do branco todos os seus efeitos luminosos — conseguindo aquecer, animar a sua tela encantadora de maneira a prender-nos o olhar sem nos provocar cansaço. Na Primeira comunhão tudo é perfeito e sugestivo, desde os acessórios às figuras — as velas a arderem, os véus a arfarem, a fisionomia dos duas pequenitas que vão receber o Senhor, com os olhos cheios de sinceridade, com as boquitas entreabertos de comoção”.

Ainda nesse ano o Mestre expôs no Salão Bobone, Fim do outono, de que “A Lucta” disse: — “... mais uma brilhante documentação do seu alto valor. Árvores esguias, meio despidas de folhas, no primeiro plano, e depois uns grandes longes de finas e tristes tonalidades”.

Do mesmo quadro dizia “A Capital” em artigo firmado por A. de A.: — “É a hora nostálgica, a hora mística do poente. Um recolhimento sagrado domina a paisagem. As últimos chamas solares

incendeiam o horizonte longínquo. O ar circula através da romaria das árvores. Os altos céus tomam a cor do pérola, enquanto as primeiras sombras vestem a terra que vai adormecer. Que delicadas, que exactas, que flagrantes gradações de luz! Toda a poesia das coisas eternas, com a sua graça, o seu perfume e a sua pureza, vive e recende neste maravilhoso pedaço de tela...”

Dos Cristais, exposto em Maio de 1918, dizia Norberto de Araújo em “A Manhã”: — “Leitor, é uma das poucas boas coisas da exposição. Os Cristais é uma maravilha. A cabeça da pequena que conduz a bandeja, olhos vívidos, enormes de cintilação, cabeleira a perder-se no fundo da tela, mas desenhada larga e bela, assenta equilibradamente sobre um tronco a adivinhar-se esbelto, e fixa-se na nossa retina, que chegou já até ali embebedada de muita feitiçaria insignificante, mas fixa-se de tal maneira que estamos ainda — milagre! — a vê-la, a senti-la. Mas não é só este detalhe; o quadro em tudo é bom, e contribui a salvar o conjunto da galeria duma maior pobreza.”

Em Junho de 1919 Carlos Reis e seu filho foram ao Rio de Janeiro e ali se demoraram até Outubro do mesmo ano. Do triunfo ali obtido, tanto sob o aspecto artístico como financeiro, disseram todos os jornais cariocas e copiaram-no muitos jornais portugueses. Carlos Reis foi ali expor 44 telas, e João Reis 11; o primeiro vendeu 14 e o segundo 6. Logo de princípio começaram a receber encomendas, tendo Carlos Reis pintado uns vinte retratos, entre óleos e carvões.

Nos últimos dias do sua estado no Rio, organizou-se uma exposição dos trabalhos ali realizados. Segundo “O Paiz” a exposição não estava completa, pois nela faltavam pelo menos os retratos do Dr. Epitácio Pessoa, Filinto de Almeida, José Rainho do Silva Carneiro e Alexandre Albuquerque. Segundo o mesmo jornal eram “todos esplêndidos, dignos do grande mestre que é Carlos Reis. Há nesses quadros vida, movimento, alma, além da técnica, aquela técnica duplamente excepcional, por ser só sua e muito nobre e muito larga.”

Seria impraticável dar sequer um resumo do que a imprensa carioca disse dos dois artistas e dos dois homens. limitemo-nos a transcrever da “Revista da Semana” o artigo que publicou acerca do retracto que a colónia portuguesa do Rio encomendou a Carlos Reis para ser oferecido ao Presidente da República: — “Tecnicamente o retracto é, no opinião unânime, uma obra-prima; verdadeiro quadro de escola, pelo arranjo sábio do conjunto, e do cenário, pela opulência dos acessórios que envolvem a figura do estadista no ambiente adequado à sua eminência política. O Presidente do República está de pé, com a mão direita apoiado à sua secretária, onde se reúnem, como símbolo da personalidade intelectual e do labor do Chefe do Nação, os livros e os papéis do Estado. Pela composição e pela intenção é um retracto do estilo clássico, da escola tradicional dos grandes retratistas históricos: um verdadeiro retracto biográfico. Há, porém, opiniões discordantes sobre a verosimilhança fisionómica da obra de arte. A fotografia popularizou um Presidente sorridente e juvenil, e o retracto apresenta-nos um estadista concentrado, com o vinco voluntarioso do intercílio; uma figura que revela preocupação e energia; um vulto imperativo, exalçado nas suas medianas proporções físicas por uma alta consciência do seu posto representativo; um estadista, na plena acepção histórica da palavra, com a dignidade despretensiosa, mas altiva, do poder de que a Pátria o investiu. Acreditamos e sabemos que, na intimidade familiar, o Snr. Dr. Epitácio Pessoa não é aquele homem severo e concentrado, aquela representação moral duma energia permanentemente tendida para a acção. O pintor não fora, porém, incumbido de reproduzir na tela as feições do cidadão, pintando-o no recato feliz do seu lar, junto do esposa virtuosa e das filhas idolatradas. Foi no Palácio do Catete, no gabinete de trabalho da Presidência que o artista o encontrou. Através das sessões de pose, o professor do Escola de Belas Artes de Lisboa viu desfilar em frente do Chefe do Estado os seus secretários, os ministros, os políticos que mais de perto privam com o Presidente. Devemos elogiar o senso psicológico do artista que, colocado diante do seu modelo, soube penetrar fundo na sua compleição moral, dando-nos a figura flagrante do Chefe do Nação Brasileira no instante histórico em que ela vai perfazer o primeiro centenário da sua independência, em plena e activa consciência da sua soberania e dos destinos grandiosos para que caminha, colocada no quinto lugar entre as maiores nações do Mundo. Emancipando-se do convencionalismo que o auxiliaria na tarefa de nos transmitir uma interpretação superficial, o artista português preferiu dar-nos o representante simbólico da soberania do Brasil, do Chefe eleito do nação poderosa e forte, definitivamente na posse zelosa da sua autonomia, colocado num lugar de honra no plêiade das grandes nacionalidades do Universo. Aquele que ali está é, realmente, o impávido adversário do grande Marechal de Ferro, a quem o destino reservara a tarefa política de completar na paz e no campo do direito a obra gloriosa do formidável estabilizador da República, do estadista providencial de 1893. Aquele homem grave, pensativo, com uma tão absoluta expressão de querer, uma tão intelectual fisionomia, uma tão imperiosa dignidade, que o artista português nos apresenta na sua tela admirável é, de facto, o Presidente nacionalista, campeão do patriotismo militante, o verdadeiro sucessor de Floriano Peixoto, em cuja energia a Nação confia, e em cuja inteligência ela se revê, calma e orgulhosa”.

Em 1921 há notícia duma exposição no Salão Bobone de Carlos Reis e seus discípulos, e outra na Lousã de Carlos Reis e seus filhos João e Maria Luisa. Uma correspondência do Lousã para o “Século” menciona do primeiro O Baptisado, A esmola do sábado, A passagem do círio e O último soneto.

Em 1922 encontramos Carlos Reis e seu filho em Buenos Aires. Dias depois de inaugurada a sua exposição, o jornal “La Nacion” dizia: — “El arte português, a juzgar por esta interessante muestra que nos han traído los pintores Reis (una muestra como de cien quadros) caracterizase y diferenciase del español, con ser los dos pueblos tan vecinos, por su mayor subjetivismo, mayor suavidad, menos realismo y menos violencia. Dentro del arte europeo, la tecnica de los dos pintores que actualmente exponen en el Pabellon Argentino, la del maestro Carlos Reis principalmente, acércase a la escuela francesa más que a cualquier otra y, dentro de ésta, a las orientaciones que predominaban en ella en el último tercio del siglo pasado, cuando nuestro Sívori nos volvia de Paris con el cuadro Le lever de la servante y otros semejantes, que pudimos apreciar en la exposición póstuma de las obras de nuestro compatriota. El pintor Carlos Reis, como Sivori, es un artista eclectico en cuanto a los temas. Lo mismo y con igual maestria aborda la naturaleza muerta que el retrata, la pintura de género que los interiores. No es de esos pintores monocordes que explotan hasta la saciedad el mismo tema y el mismo modelo, reeditando un cuadro que tuvo êxito, diez e veinte veces, con ligeras variantes. Un cuadro de Carlos Reis se diferencia de otro del mismo pintor como un aspecto de la vida urbana puede diferenciar-se de un paisage y éste de una figura de salón. No es dificil decir “he aqui un Reis”, como se dice “ he aqui un Soralla, un Romero de Torres, un Zubiaurre o un Anselmo Miguel Nieto”.

Ocupam-se dos dois pintores portugueses com os maiores elogios, além de “La Nacion”, os jornais “La Republica”, “El Diario”, “La Razón”, “Mundo Argentino”, “Critica”, “La Prensa”, “Caras e Caretas”, “La Epoca”, “El Diario Español”, “Para Ti”, etc.

O Museu Nacional Argentino adquiriu de Carlos Reis Limpando cristais e o Jockey Club de Buenos Aires adquiriu Os gaiteiros, duas obras primas no opinião da imprensa,

Depois duma demora de pouco mais de dois meses, os nossos pintores seguiram para o Rio afim de dar execução a várias encomendas. foram ali recebidos com a mesma cordialidade que da primeira visita, e ali realizaram também exposições de seus trabalhos, que mereceram os elogios a que já estavam habituados. Em notícia publicada pelo “Diário de Lisboa” de 22 de Julho de 1923 soube-se que o Governo Brasileiro tinha adquirido para o Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro o admirável quadro de Carlos Reis, O Baptisado.

Em Janeiro de 1924 João Reis fez uma exposição de trabalhos seus no átrio da Misericórdia do Porto, que foi muito concorrida e apreciada. Nesse mesmo ano expôs Carlos Reis vinte e três telas, sendo duas extra-catálogo. Dessa exposição dizia “O Século”: — “Vejamos alguns dos quadros cuja impressão de beleza mais profundamente se fixou no nossa memória. Outubro é um maravilhoso trecho de paisagem outonal, de luz admirável e expressão religiosa. Ocupa o lugar de honra e merece-o é uma tela de museu. O copo partido é um quadro notável. A transparência, os reflexos, os efeitos de luz nos cristais são inigualáveis. Não é uma paisagem, mas é tão belo como se fosse. Reparação difícil, na maneira predilecta do pintor — que sabe fazer como ninguém as sinfonias brancas — é prodigioso como efeito de luz, admirável como perspectiva. A figura de rapariga, que nesse quadro se vê de perfil, sente-se que foi amorosamente tratado. Bruma tem o fundo e o colorido dos primeiros planos duma justeza e sobriedade tais que encantam. Tempestade é um quadrinho de difícil execução, agradável. As cenas rústicas Descamisada e O Burro do meu vizinho são pretextos para o artista dar largas às suas notabilíssimas qualidades paisagistas. Belas-donas e Flores de Maio são duas telas preciosas pelo desenho e pelo colorido. Dia de mercado e Outono, cada um no seu género, são ambos quadros notáveis, especialmente o último, em que os tons acobreados dos vinhedos são manchados com rigor e justeza. Nascer da lua, ainda que o motivo pictórico não sobressaia por demasiada originalidade, é realizado com mestria e um alto poder de expressão”.

A propósito desta mesmo exposição diz A. P.: — “O salão Bobone é pequeno para conter tanta maravilha, tanto sol, tanto claridade, em paisagens tão verdadeiras de expressão, que diríamos, caso a assinatura de mestre Carlos Reis não estivesse visível, que elas foram criadas por Deus, e não pelo artista. Carlos Reis tem uma técnica poderosa, onde não há uma hesitação de cor; uma retina que combina as tintas instintivamente, sem necessidade de as nuançar na paleta; uma vibração de luz, incomparável de frescura, de pureza, de graça e de harmonia. Temperamento dominando já os elementos do sua arte, Carlos Reis, embora nunca se arredando dos seus assuntos predilectos, consegue atingir, na perfeição, a transfiguração, transportando-o para admiráveis distâncias de beleza e de forma. O seu pincel é a própria alma do paisagem, o aroma das coisas, a hora, a estação, o crepúsculo, a madrugada. Suponho que Carlos Reis conseguiria num pedaço de céu, notular, marcar, revelar as mutações de tempo, minuto a minuto, instante a instante. Carlos Reis nesta exposição, triunfo sobre a sua própria obra. Ultrapassa-a. Se nela havia horizonte e perspectiva, agora adquiriu aleluia e infinito”.

É também de 1924 o retracto do grande poeta Eugénio de Castro.

No primavera de 1925 Carlos Reis expôs no Sociedade Nacional de Belas Artes três quadros: Retrato de Maria Leonor, Lírios e A senhora Georgina. Dizia “O Século”: — “Maria Leonor é a jovem e delicada poetisa, filha do pintor, espiritual perfil, duma nobre, serena e reflexiva gravidade, em que se adivinham os altos e puros pensamentos que a inspiram. Esse lindo e airoso busto, na simplicidade do seu vestido verde, ressalta sobre o verde adamascado da cortina do fundo, sem que se confundam, antes harmonizando-se, os dois tons. O quadro denominado Lírios que é, com A senhora Georgina, um dos dois mais poderosos trabalhos que honram a exposição e nos resgatam das culpas em que incorremos quando a qualquer pinta-monos damos a categoria de artista, o quadro Lírios é um belo, delicioso e perfeito estudo do nu, poema de carne virginal que recende à candura das flores simbólicas que lhe servem de alfombra. Os lírios são como o espelho em que se reflecte a pureza da rapariga desnuda, entregue talvez a uma enigmática meditação. Obra prima de modelação, de cor e de técnica, das inúmeras dificuldades acumuladas saiu-se o artista donairosamente vitorioso, como sempre. As tonalidades de carnação graduam-se, subtilmente, desde os joelhos e as coxas, que uma luz discreta beija com suavidade, até os ombros e a cabeça, quase envoltos no penumbra. A leveza, a fragilidade, a macieza, a alvura leitosa dos lírios que pousam, dispersas, no tecido branco em que ajoelha e se apoia a figura são dados com a arte magistral que caracteriza toda a obra de Carlos Reis, e que em particular se afirma quando ele se compraz na execução de tais exercícios de assombrosa destreza, erguendo-se às culminâncias máximas. A senhora Georgina é outra esplêndida tela em que, ao sol meridional uma velha encorreada, junto da qual se alinham abóboras sobre um muro caiado, ou postas ao acaso no chão, se senta a descansar. A figura humana da campónia e os frutos da terra vivem a mesmo vida vegetativa numa confraternização que enternece. A senhora Georgina, cruzadas as mãos sobre o ventre, num à-vontade de quem não tem receio de passar à história, parece dizer-nos: “aqui estou, ao pé do minha riqueza”. A luz embriaga; a velha como que franze as pálpebras para se defender; as cucurbitáceas têm um volume tal, uma cor tão justa, um espalhado tão verdadeiro e flagrante, que apetece palpa-las, tomar-lhes o peso, abri-las para as ver por dentro. Estão bem maduras por certo. As roupas da camponesa tratou-as o mestre com a mesma inexcedível verdade que imprime existência real às abóboras. Nos seus processos, Carlos Reis é de tal maneira simples, na aparência, que eles escapam à análise dos entendidos, que se limitam a curvar-se perante a magia de tal pincel”.

“O Correio da Manha” em artigo firmado por Luigi dizia: — “Carlos Reis é já hoje uma glória nacional. O seu talento é cada vez mais moço e robusto, a sua técnica cada vez mais poderosa e segura. Os seus quadros Os lírios, A senhora Georgina e o retrato de Maria Leonor, não envaidecem o pintor mais do que aos seus admiradores, que podem dizer orgulhosamente ser bem nosso, bem português, o eleito da Arte que assina tais maravilhas”.

Foi por esta ocasião que os discípulos dilectos de Carlos Reis organizaram a esplêndida festa de homenagem, em que falou brilhantemente o insigne escritor Agostinho de Campos, e em que foram executados vários números de música, e recitadas várias poesias, entre elas a seguinte do autoria de D. Branca de Gonta Colaço:

 

QUADROS DE CARLOS REIS

A Arte? — A Natureza?

— Mundo risonho! —

— É a terra portuguesa,

posta em beleza e sonho! —

...............................................

DIA DE FEIRA! Um festival clarão

inunda a estrada alegremente:

RAIOS DE SOL ARDENTE

doiram ao longe a PROCISSÃO...

Vinde comigo! Caminhantes,

passemos num fervor alvoroçado

Vêde a piedade destas COMUNGANTES!

O colorido deste BAPTISADO!

 

É linda a romaria,

E folgam os romeiros!

Chegam ecos festivos de alegria

ao toque dos GAITEIROS...

 

Cortando os longes da PAÍSAGEM,

numa casita humilde, uma LATADA.

Os beijos trémulos da aragem

afagam de passagem

uma VINHA de outono, avermelhada...

 

De porta aberta à beira do caminho,

ouvem-se as gargalhadas prazenteiras

destas ENGOMADEIRAS

que trabalham curvadas sobre o linho...

 

Uma velhinha doce,

na JANELA DA JÚLIA, mais além...

O milagre de amor que ali a trouxe!

RETRATO DE MINHA MÃE...

 

(As mães de artistas! — Suave brilho

Deus concedeu à sua sorte!

Dar vida a um filho, para que o filho

lhes torne a vida depois da morte)!

.........................................................

Ao pé dum muro branco

em que a luz bate ardente e cristalina,

— entre abóboras de ouro,

A SENHORA GEORGINA,

sentada no seu banco,

contempla o seu magnífico tesouro...

 

No enlevo deslumbrado

desta romagem luminosa,

encontramos, a cada passo andado,

a luz, o vulto, a sombra misteriosa

que o nosso olhar já tinha olhado;

mas de que apenas tinha conservado

uma vago lembrança nebulosa...

....................................................

É a terra portuguesa

vista num sonho lindo.

E, coroando esta outra realeza.

veio no imensidade,

com os olhos da saudade,

EL REI DOM CARLOS a passar, sorrindo....

Branca de Gonto Colaço

 

Em Dezembro do mesmo ano Carlos Reis expôs novamente no Salão Bobone. Os quadros que melhor impressão fizeram no público e nos críticos foram Tarde de outono, Fonte de Santo António, Primavera, Única companheira, Cego de Goes, Canteiro preferido e Reparando o telhado. “A Capital”, referindo-se a essa exposição diz ser impossível dizer qual era a melhor das vinte e uma telas expostas.

No princípio de 1926, Carlos Reis expôs no Porto, entre vários quadros já conhecidos, a grande tela Os bezerros que ainda não tinha sido exposto em Lisboa.

Nesse ano João Reis voltou ao Brasil, levando quadros seus, de seu Pai e de sua irmã Maria Luísa. Desta vez o principal fito era visitar S. Paulo e Santos, e nestas cidades o êxito obtido foi igual ou superior ao obtido no Rio de Janeiro. O catálogo da exposição em S. Paulo compreendia vinte e dois quadros de Carlos Reis, quarenta e seis de João Reis e oito de Maria Luísa. Foram adquiridos de Carlos Reis os duas grandes telas Os bezerros, e A senhora Georgina, e Nascer da lua; de João Reis Os Jerónimos, Perfil de aldeã, A casa de José Pinheiro, A Vila do Lousã, Rua de Royat, Alpendrada, Ouro de outono, Tranquilidade, Comício e Uma rua da Lousã; e de Maria Luísa Rua de aldeia. De S. Paulo seguiram para Santos onde a recepção não foi menos entusiástica, e onde foram adquiridos também ,vários quadros dos três artistas.

O grupo de pintores constituído por Carlos Reis, António Saúde, Falcão Trigoso, Alves Cardoso, Frederico Aires e João Reis, que até então tinham adoptado o título de “Ar livre” passou a denominar-se “Grupo Silva Porto”, e com esta designação fez a sua primeira exposição em Fevereiro de 1927.

Nessa exposição Carlos Reis apresentou dez telas. Dalgumas delas falou assim Artur Portela: — “Carlos Reis continua sendo um opulento colorista, prodigioso de facilidade, embriagante de luz, exacto na evocação dos figuras do nossa terra. Grandes quadros. O mais belo, quanto a nós, é o das Moleiras. Três tipos de mulher, batidas de sol. Cada uma tem a sua expressão de bondade, de carinho, de beleza. A figura do primeiro plano não acompanha com o olhar a acção de carregar os sacos de trigo já moído sobre o dorso do mula. Mas é tão lindo, tem tanto donaire a sua cabeça enamorada de profunda graça, que esse pequenino defeito justifica-se e explica-se. O artista tinha que a colocar assim para aproveitar a radiação completa da fisionomia do modelo. Galanteio aldeão é uma tela faiscante de sol, azul intenso sobre uma rua de aldeia, onde o calor adormece, enquanto dois corações trinam, devagarinho, os esponsais futuros... Descanso do modelo é uma harmonia de tinta grave, em que a carne adolescente duma rapariguinha, contornada por um desenho correcto, surge sem pecado, sem mácula. A talha vidrada interessa também, assim como as Vésperas de boda, temas cheios de pitoresco e observação”.

No ano seguinte Carlos Reis começou por expor no Porto alguns quadros já conhecidos e outros ainda inéditos, sendo dos primeiros As moleiras, Descanso do modelo, Galanteio aldeão etc. e dos segundos Chaby vai dizer versos, Sobreiro gigante, Igreja de Vilarinho, Hora da missa, A casa do Freixo, Milharal, etc. Não vou reproduzir as críticas da imprensa, porque isso me levaria muito longe e não quero continuar a abusar da paciência do leitor; mas não resisto a fixar esta pequena frase da distintíssima escritora D. Aurora Jardim Aranha a propósito do admirável retracto de Chaby: — “Dizem que o Chaby está no Brasil. Mas é mentira: Chaby vai dizer versos, está ali, é éle”.

Nesse mesmo ano, em Lisboa, O Mestre expôs dez telas, entre as quais sobressaiam pelo “tamanho (dizia um crítico) — tamanho do tela e tamanho do concepção e realização esmerada, O mercado e Castanheiro gigante — duas obras primas do seu pincel”. Mas, continua o mesmo crítico: — Mas não lhe ficam atrás os trabalhos restantes, entre eles por exemplo o retalho Vai formosa e não segura duma transparência e luminosidade inigualáveis”.

Por essa ocasião deu-se o lamentável episódio a que se refere a carta de Carlos Reis transcrita.... Não nos compete, nem era ocasião asada para o fazer, relatá-lo ou discuti-lo, tanto mais que algumas das figuras que ao processo teriam de ser chamadas, não são já deste mundo. Parce sepultis...

Essa exposição fechou com uma sessão solene em que falou brilhantemente o Dr. Alexandre de Albuquerque que tomou para tema da sua conferência A beleza que não morre. Colhemos do seu discurso este curto e sintético elogio do nosso biografado; — “...outro soberano pintor, Carlos Reis, bruxo do cor, feiticeiro do desenho, mago da expressão, verdadeiro hierofanto da beleza que não morre”.

Dias depois os mesmos artistas expuseram no Porto pouco mais ou menos os mesmos quadros, recebendo da crítica os mesmos louvores. D. Aurora Jardim Aranha, para não citar mais críticas, diz: — “Mercado é um quadro de museu que não deve sair do Porto. Resultado de muito trabalho, muita minúcia e horas exaustivas na ânsia e na realização da perfeição, constitui uma obra de arte que é quase uma obra de bem-fazer. Expressão e movimento, naturalidade. Modelares o desenho, a carnação e a sinfonia ardente do sol que, ora beija uma risonha cabeça de rapariga, ora brinca nos cabelos nevados da velhinha que, com o cesto cheio, volta ao mercado. Intensidade de vida, justos valores de contacto, existência anatómica sob as roupagens maravilhosamente tratadas. Vai fermosa e não segura, título impregnado de poesia antiga tão bem se harmoniza com a poalha de leveza que nimba a tela inteira. Luminosidade, figura feminina plena de graça e de enleio, destacando-se nitidamente, perfeito o movimento do árvore que sai do muro a fim de dar a projecção da sombra, e ao longe a nota branca da capelinha surgindo como uma promessa. Sol e ar — verdade. A casa do meu vizinho — Pequena sinfonia de suavidade. Perfeita a diferença de tonalidades: No primeiro plano luz quente, forte; no último luz esbatida, desmaiando em nuvem que se aproxima. Perspectiva justa, visão fielmente traduzida na transposição. Poente — Hora plena de mistério. Aqui caiem sombras e nascem as mágoas da noite; além trava-se ainda o angustioso combate do sol que vai agonizar em cintilações de topázios incendiados. Sinfonia de cor, erguendo-se numa prece mística. O Castanheiro gigante — É um quadro que comove, perante o qual se ficaria horas, pois de cada vez que se contempla, descobrem-se-lhe novos aspectos e novas belezas. Só a paleta dum artista inspirado e tão grande como é Carlos Reis, poderia aprisionar num tão pequeno espaço uma tal intensidade de emoção. Paisagem para ser sentida e não para ser comentada. Aconselho pois a que se note o ar, a transparência e, principalmente o espaço que existe entre o castanheiro e o último plano, e a maneira como ele se despega do fundo, dando-nos a impressão de estarmos mesmo na Lousã em frente do modelo”.

Em princípios de 1930, Carlos Reis e seu filho voltam a expor no Porto, o Pai onze quadros, o filho trinta e seis. Do primeiro mencionemos os títulos: Cantigas de amor, A pastorinha, Arrulho, Velho caminho, A fogueira, O soito, Ascensão difícil, Os primeiros cachos, A sesta, Fim de almoço, e A malícia. Do primeiro desses, exposto dias depois em Lisboa, disse o “Diário de Notícias”, pela pena de Paulo: — “Uma de grandes dimensões, sobre que Branca de Gonta Colaço compôs uma adorável poesia. Só um adjectivo: perfeito. Um cego canta na rua, à guitarra, um garotito o acompanha; escutam-no uma rapariga, uma velhota e um grupo de criancitas. Cada fisionomia tem uma expressão própria, em cada figura há uma alma diferente. A esperança ou a saudade, o entusiasmo ou a indiferença... É um quadro de gente viva, composto com impecável harmonia, estudado e concebido com alta inspiração. As suas linhas têm uma expressão que vai além da tela, que fica a vibrar dentro de nós. Permita-se a expressão: tem ressonância”.

Este ano foi assinalado para Mestre Carlos Reis pela aquisição do seu notável quadro As moleiras para o Museu de Barcelona.

Em Janeiro de 1931 nova exposição no Porto do “Grupo Silva Porto”, no qual Carlos Reis apresentou, entre outros, a grande tela Lembras-te? e o seu auto-retrato a carvão, que tão reproduzido tem sido, e que é realmente um trabalho maravilhoso. Os restantes quadros expostos pelo Mestre eram Hortênsios, Canto soalheiro, O cego de Vilarinho, Caminho de cabras, Gaiteiro de Troia e quatro retratos. Todos foram, como de costume, elogiados pela crítica.

No mês seguinte nova exposição do mesmo Grupo, no qual apareceu o célebre quadro Saúde aos noivos do qual dizia o “Comércio do Porto”: — “...trabalho perfeito em que cada figura tem o seu estado de alma nitidamente evidenciado na atitude e na expressão. É aquele velho que saúda os noivos, trémulo pela velhice mas orgulhoso pelo seu momento de orador; é o noivo, desvanecido pelo discurso e satisfeito por ter como noivo a mais linda rapariga do lugar; é esta, comprometida com os saudações e ruborizada pelo pudor de noiva; é aquela rapariga mirando atentamente o noivo, num misto de tristeza e despeito por ter sido preterida; é aquele rapazito procurando colher do boda um único proveito — comer à farta e do bom; é aquele convidado, cara de beberrão impenitente, alheio a tudo, só se preocupando com o vinho; é ainda aqueloutro convidado, mirando de soslaio o orador, desconfiado da sua eloquência... Estas figuras e outras ainda vêem-se ali num conjunto de flagrante realidade. A natureza morta em todos os suas modalidades-frutos, madeiro, panos, vidros, cobre, louça, etc. — está reproduzido nesta grandiosa tela com absoluta fragrância”. E continuava: — Margarida, A mulher dos queijos, A moleirinha dos Pisões e outros são trabalhos em que a paisagem e o figuro formam conjuntos que são milagres de pintura. O Cupidinho de gesso, é um nu de Museu. O gerânio vermelho é um preciosíssimo interior, rico de pormenores. Meio-dia, tela admirável em que se sente o sol na hora máxima do seu triunfo. A Joana dos cabras, Casal da Lagartixa, O poço, o burro e o rapaz, — título assim à guisa de fábula — e, em suma, todos os quadros de Mestre Carlos Reis expostos no Salão Silvo Porto são trabalhos bem dignos do nome notabilíssimo do expositor, um nome consagrado desde há muito, que dispensa largas referências — pois a sua simples citação é síntese de valor, talento e grandeza artística, e garantia absoluta dum trabalho maravilhoso”.

Em Outubro desse ano a Câmara Municipal do lousa deliberou dar ao até então denominado Parque do Requeiro o nome de Alameda Carlos Reis, como merecida homenagem ao grande pintor que há muitos anos elegeu aquela linda vila para sua residência de verão. Também pela mesma ocasião o Sociedade Nacional de Belas Artes aprovou por unanimidade uma proposta da sua direcção do teor seguinte: — “Atendendo aos altos méritos do artista consagrado que é o grande pintor Mestre Carlos Reis, que tanto tem exaltado a Arte Portuguesa contemporânea, em obras que perpetuarão o seu nome e o valor cultural artístico da nossa época; e atendendo ainda a que a Mestre Carlos Reis se deve em grande parte o termos conseguido realizar esta nosso sede social,...que um medalhão com a efígie de Mestre Carlos Reis seja solenemente colocado na sede do Sociedade, no local onde estão colocados os outros medalhões com as efígies doutros grandes consagrados”.

Foi a propósito desta projectado homenagem que o Mestre escreveu a famosa carta que vai transcrita...

Em Dezembro de 32, expôs Carlos Reis no Porto, entre outros, o seu grande quadro Garrafão vazio que tanta admiração causou ali, como depois em Lisboa. Desse quadro disse o “Comércio do Porto”: — “É um grandioso quadro-grandioso nas dimensões, grandioso sob todos os aspectos, grandioso a todos os títulos. Feito recentemente, ele acusa um forte e vigoroso temperamento de pintor, um potente cérebro criador, um apurado espírito de observação e uma admirável frescura e novidade de talento. Essa magnífica obra-prima, bem digna dum grande Museu, é simplesmente formidável. Duma complexa realização, com figuras e vários motivos de natureza morta, com a nota — aliás de tão difícil interpretação! — acentuada e larga dos vidros, com panos, frutos, etc. — esse quadro entusiasma, empolga. É uma maravilha — um prodígio de pintura. Belo todo o conjunto, mas dum realismo absoluto a expressão e a atitude daquele velho olhando o garrafão vazio; naturais os reflexos e a transparência deste, como os dos copos e das garrafas. Verdadeira aquela melancia, deixando ver um naco através do vidro do garrafão. E, por entre aquela larga e preciosíssima soma de detalhes, temos a fragrância da toalha e das dobras do mesma. Outros adoráveis quadros de Mestre Carlos Reis, O cego das quintas-feiras, apoteose de luz e cor, dum lirismo enternecedor; O sobreiro, Descendo a serra, A capelinha do Castelo, Seara de ouro — este precisamente detalhado — e Baptisado na Favariça, todos eles tendo manifestamente patentes, como um ex-libris de génio, aquele soberbo e inconfundível relevo de arte que é, nos trabalhos de Carlos Reis, a máxima expressão do pintura”.

Em princípios de 1933, ano fatídico do jubilação do Mestre, o Conselho da Escola de Belas-Artes resolveu propor ao Ministro do Instrução que, não obstante o Mestre atingir o limite de idade, fique regendo as suas aulas para evidente proveito dos seus discípulos. Um professor propôs ainda que no caso de discordância do Ministro, Carlos Reis fosse consagrado Professor honorário do Escola. Nessa mesma ocasião os seus alunos pediram-lhe que posasse para um medalhão a executar por Simões de Almeida (Sobrinho), destinado a ser colocado na aula que tão brilhantemente tem dirigido.

Deu-se então o jubileu do Mestre, tendo-se já descrito as festas que, em Lisboa e em Torres Novas lhe foram dedicadas.

No próprio dia em que o Mestre atingia o limite legal de idade, o Ministro do Instrução assinou a seguinte portaria: — “Atendendo a que o professor da Escola de Belas-Artes de Lisboa, Carlos António Rodrigues dos Reis, completou nesta data 70 anos de idade tendo, consequentemente, de abandonar a regência da sua cadeira; e atendendo ao pedido do Conselho Escolar da mesmo Escola, manda o Governo da República Portuguesa pelo Ministério da Instrução Pública que, em homenagem ao Mérito do professor Carlos Reis, considerado um dos grandes mestres da pintura portuguesa contemporânea, seja nomeado professor honorário da referida Escola”.

Em 1934 aparece o célebre quadro Asas, do qual Joaquim Madureira disse, entre outras muitas coisas, o seguinte: — “...fixa-se na retina, estuda-se com o cérebro, admira-se com entusiasmo, de alma e coração, mas não se descreve: — no recanto escaiolado duma capela de aldeia, cinco meninas da Comunhão e um anjinho vêm descendo sobre um encarquilhado e velho tapete, esbeiçado e puído – uma, já de costas, a transpor a ombreira de mármore do sacristia, duas, no primeiro plano, arrebicando e compondo com ternura as asas do anjito, outras duas, atrás, fazendo fundo. Mais nada e nada mais simples, na branca simplicidade dos tules brancos e simples das comungantes que, esvoaçando em pregas e tufos, enchem o quadro todo, onde o branco creme das sedas do anjinho, com uma cruz de prata e uma vela acesa nas mãos, põe o tom quente e cromático de toda aquela prodigiosa sinfonia de brancos, duma tal suavidade e harmonia, duma tal delicadeza e candura, que, por mais atascado em materialidades e materialismos que nos ande o realejo da existência, por mais empedernida que se traga a sensibilidade nos contactos sujos da porca do vida, não creio possa haver, entre bípedes ruminantes com cara de gente, alma de cântaro com pés de bois e botas de elástico, que não vibre e se não sinta enlevado e preso, enternecido e emocionado, se não no misticismo ritual da cena — na suavíssima beleza que dela emana e irradia — serena e formidável, calma e empolgante, doce e dominadora... Mestre Carlos Reis há muito tinha o condão estranho de dar cor, calor, expressão e vida aos brancos da sua prodigiosa paleta de colorista — e vincam, desde o início da sua carreira, as notas triunfais dos seus brancos, no velho retracto da Manuela Gomes, e nas suas Comungantes — sem falar nos discutidos brancos das Engomadeiras, nas paredes caiadas de branco das suas Abóboras, e em todo o infinito rol de roupas lavadas com as toalhas e guardanapos que dão, em branco, os fundos, os contrastes e os reflexos aos seus exímios malabarismos de vidros e cristais — mas nunca como nas Asas Mestre Carlos Reis lhes venceu as dificuldades e lhes dominou os asperezas, dando em fluidez e diafanidade, em leveza e alvura, tais cambiantes de valores, tons e planos que, tecnicamente, chega a ser obra de feitiço e bruxedo, o arrancar ao pobre alvaiade dos alquimistas tais polimorfias de beleza, de expressão, de sentimento e de luz... Há muito que Mestre Carlos Reis entre Mestres vivos e mortos, era, na Arte Contemporânea portuguesa — o Mestre dos Mestres... Agora que todos os Mestres morreram, poucos contramestres nos restam e que Mestre Carlos Reis, rijo e fero, cheio de vida e saúde, na reboleira aposentadoria das suas setenta juvenis primaveras — em Rei mago do Pintura, desce ao povoado e bate todos os mestrados e todos as mestrias, batendo-lhes com as suas Asas de Mestre — não será caso para perguntar a quem de direito possa responder, se ainda teremos todos de bater, por muito tempo, às portas do Museu de Arte Contemporânea — que, em tempos áureos, foi organizado e dirigido por Mestre Carlos Reis — para que as portas do Museu de S. Francisco se lhe obram, de par em par e sem favor, e por elas entrem, por direito próprio, por direito de realeza e por direito de conquista, como obra-prima da nossa Arte Contemporânea — estas Asas de sonho, Asas de prodígio, Asas de milagre, Asas de assombro, Asas de beleza,— que, em padrão do opróbrio dos Mandarinatos Artísticos da Nossa Terra, não faltava mais nada senão vê-los bater para longe, para casa dum Senhor seu dono, no Chile ou no Argentina, quando o diabo os não arme para que, num vão peninsular, vão bater ao Museu de Barcelona — onde em lugar de Honra já estão as Moleiras?...”

Foi realmente adquirido para Museu de Arte Contemporânea o famoso quadro, dizem que por interferência directa do Snr. Presidente do Ministério. Havia 18 anos que o estado nada comprara ao Mestre...; talvez porque nesse longo lapso de tempo, nada tinha feito digno de Museu...

Nesse ano Mestre Carlos Reis ofereceu para a Grande Lotaria de Arte cujo produto se destinava ao monumento que se projectava aos artistas Silva Porto, Henrique Pousão e Artur Loureiro, o seu quadro O casal do Felizarda. Também nesse ano pintou o retracto do Snr. Dr. Manuel Rodrigues, por incumbência do Ordem dos Advogados, a cuja sede se destinava, e onde se encontra.

Em 1935 pintou um quadro para a sala das sessões da Câmara Corporativa, no qual é representada a Pátria recebendo as homenagens das Artes, Ciências, Comércio e Indústria. Disse o “Diário de Notícias”: — “É um trabalho de amplas dimensões, tratado com os esmeros que esse pintor exímio costuma empregar em todas as produções dos seus pincéis, e onde mais uma vez, e brilhantemente, afirma o seu alto valor artístico”.

Nesse ano Carlos Reis e João Reis expuseram de novo em Paris, tendo obtido assinalado êxito, o primeiro com o Mercado, e o segundo com o Cantador de Buarcos No “Diário de Notícias” dizia P. 0. (Paulo Osório):—“As duas grandes telas de Carlos e João Reis, (Mercado em Portugal e Canção portuguesa) colocados, a primeira sobretudo, em primeiro lugar de grande destaque, representando em técnica de arte duas épocas, mas dando-nos sob esse aspecto o que de melhor, de mais equilibrado, de mais sincero, é possível admirar em qualquer delas —são duas belas evocações da nossa terra, do nosso ar, da nossa paisagem, da nossa gente, duas evocações consoladoras, cheias de vida e de saúde, naquele vasto meio cosmopolita e tantos vezes détraqué”.

No mês de Dezembro desse mesmo ano de 1935, os três Reis voltam a expor no Porto. Entre as nove telas apresentados pelo Mestre, figura a vasta composição Fragilidades, em que verdadeiros prodígios de técnica foram realizados.

As mesmas telas foram expostas depois em Lisboa, em Fevereiro de 1936. Dizia o “Século” —“A grande criação deste ano de Mestre Carlos Reis é a grande tela Fragilidades. A anedota é dada por duas raparigas camponesas que, sentadas no chão, trocam confidências enquanto empalham garrafões. A presença destes permite ao artista realizar os vidros com aquela transparência, aquela exacta colocação dos valores, em que é único. A indumentária e a expressão das duas figuras vêm enriquecer a opulenta galeria de tipos populares criados por este artista. Duas outras grandes telas: Outono e A moleirinha, são notáveis documentos daquela encantada paisagem da Lousã, que o pintor descobriu para sua glória. Na primeira avulta uma moita de castanheiros, tocados de luz outonal, duma grande beleza; A moleirinha, porém, cuja figura é um minúsculo pormenor na paisagem grandiosa, assombra pela realização que o pintor deu à cortina de oliveiras. Outros quadros, como Cabreirinha, encantadora cena rústica tocada por sol maravilhoso; O Miguel Tonto, máscara rugosa, trabalhada com um rigor escultórico; e o retrato destinado a uma galeria municipal, são outros tantos documentos da lúcida visão e da firmeza de pulso do grande pintor Carlos Reis”.

O director do Museu de Arte Contemporânea propôs a aquisição de Fragilidades para aquele Museu. Como porém o Conselho Superior de Belas Artes não aprovou a proposta, foi aquele precioso quadro vendido a um particular...

Em Maio do mesmo ano, Carlos e João Reis voltam a expor em Paris, o primeiro Lembras-te? (Souvenir d'antan), o segundo Vieux pêcheur. Ocuparam-se do primeiro quadro os críticos franceses e ingleses Raimundo Lecuyr no “Figaro”; Valmy-Baisse no “Miroir du Monde”; Gustavo Kohn no “Matin”; H. F. E. no “Daily Mail”; René Jean no “Temps”, Eduardo Sarradin no “Journal des Débats”, etc.

Em 1937 Carlos Reis apresenta na Exposição do Grupo Silva Porto sete quadros. “O Século” dizia: —“Centrando e dominando a fila dos quadros, O primeiro filho é uma tela que se impõe. O par aldeão contempla o pequerrucho, aninhado no folhelho de maçarocas, entre abóboras bojudas. A expressão enlevada dela, a atenção curiosa dele, espiritualizam a cena. Um focinho de morra espreita dentre as frinchas da corte o caso familiar. O quadro é um prodígio de técnica. Mas nos outros trabalhos expostos, o volume das árvores, a frescura do ar, a luminosidade da atmosfera marcam a maestria. Há uma sede de rosas admirável, ramos que murmuram, folhagens que rumorejam, e, ao longe, os fundos azuis do Lousa”.

M. S., na “Voz” diz: — “É difícil dar preferência em ordem de méritos aos restantes quadros. Cancela verde é recanto reverberante de sol, onde a folhagem projecta sombras. Uma figurinha adorável. O artista conduz com a sua mão de Mestre todos os valores dignos de realce. No mirante, sempre o hino à luz, e após a floresta e as lombadas azuis do Lousã, tela de muito ar, de profundidade bucólica impressionante. Velho sobreiro é bem culto druídico da árvore, com largos horizontes serrenhos. Queda das folhas, amarelo de agonia outonal, despem-se as árvores, vai a paisagem ter o cunho hibernal na nudez solene dos ramos, poesia das coisas simples. Ainda uma tela de rosas brancas duma grande singeleza que lhe não diminui nem a graça nem o valor”.

Em Maio de 1938 o Grupo Silva Porto, então já reduzido a três artistas pela saída de Frederico Aires e António Saúde, fez a sua 11ª. exposição. Nela apresentou Carlos Reis cinco quadros: Natureza morta, Sol de estio, Desparrar, Trecho da Lousã e Castanheiro gigante. “A Voz” dizia: — “Os vidros e as cebolas que constituem a natureza morta do quadro nº. 1 são um prodígio de técnica. Os três trechos compesinos (telas 2, 3 e 4) têm a frescura admirável das obras do Mestre e aquela luz acariciadora que ele sabe tão bem interpretar”.

No “Diário da Manhã”, Maria de Carvalho diz: — “0 castanheiro gigante...  é uma árvore imponente, que se ergue num trecho ameno da serra da Lousã; o seu tronco forte sai da verdura que lhe forma um tapete suave; uma faixa de terreno avermelhada torna mais escura e aveludada a cor das folhas nos ramos médios que destacam nesse fundo; a ramagem alta, inundado de luz, recorta-se no azul do céu e tem um verde mais claro, mais tenro, que parece revelar a seiva, a mocidade persistente do velho castanheiro... E essa claridade que vem de cima, que banha as folhas, difusa e transparente, maravilhosa de cor, é o sol, o calor, a luz, a vida, a que o gigante abre os braços, fortes e lânguidos, braços que se alongam, porque não podem desprender-se da terra, e que se agitam numa eterna aspiração... E o velho castanheiro serrano parece simbolizar a ânsia apaixonada da arte, da inspiração, da vida profunda, que é o segredo do Talento... O castanheiro gigante... Talvez o tenha visto na Lousã, mas nunca o vi tão bem como agora, no quadro de Mestre Carlos Reis. Ali está — testemunha eloquente das energias inquebrantáveis duma arte que não esmorece na sua ânsia de beleza”.

Nesse ano foi rifado a favor do Misericórdia de Torres Novas um quadro que o Mestre tinha oferecido para esse fim, e que se encontra hoje no Museu Municipal da mesma terra.

Também nesse ano pintou Carlos Reis o belo retrato do Presidente do Câmara de Torres-Novas Dr. Carlos Mendes.

Em 1939 apareceu O Véu da Comungante, maravilha de técnica, impossível de descrever. A reprodução que se dá adiante não pode dar ideia da verdade com que foram representadas as várias gradações de transparência do véu. Esse soberbo quadro foi vendido a um particular e é provável que como tantas obras de arte que deviam enriquecer os nossos Museus, vá para fora do país. Falando da 12ª. Exposição do Grupo Silva Porto dizia “A Voz”: — “Mestre Carlos Reis, como artista insigne que é, domina a Exposição. Além de O véu da comungante, tela que os fados querem levar-nos para longes terras, com prejuízo do nosso património artístico, ainda nos apresenta um outro grande quadro em que cintila o seu forte espírito criador. Moinho do Ramal se chama esse encantador trecho de paisagem viva, palpitante. As águas de Foz do Arouce, a que uma velha oliveira solitária faz guarda de honra, encantam pela nota franca, corrente, a contrastar frondes que para trás ficam. Ao fundo a lombada silenciosa da serra, sobre cuja cabeleira uma fímbria de luz ilumina vagamente o ambiente. Respira-se amplamente. Passem os olhos a poesia desta cena, dum bucolismo adorável. Sol de Agosto, Velho palheiro, Outono e Entardecer são outras tantos telas, embora pequenas a atestar o grande poder de realização desse artista inconfundível”.

No “Diário de Lisboa” D. Alberto Bramão disse:—“... dizer que O Véu  da Comungante é uma dessas obras primas que só por si definem a técnica dum mestre, que possui a magia de transformar o pastosidade das tintas de óleo na diafaneidade subtil do mais fino tule, assim como para a exposição anterior a tinha transformado na transparência brilhante de autêntico vidro; dizer que O Moinho do Ramal é um pedaço de natureza tão belo e tão vivo que, se pudéssemos permanecer três meses a olhar para ele, nos podíamos dispensar de ir passar o verão no campo; dizer que os quatro quadros mais da sua autoria nesta exposição trazem todos o sinete da realeza artística que os gerou; dizer qualquer destas coisas seria repetir o que cada um dos meus leitores tem dito muitos vezes a si próprio. Por isso, prefiro não dizer nada a respeito de Carlos Reis, que em pintura deveria ser considerado Carlos Rei se não houvesse perigo de que a História o confundisse com o infeliz Monarca, que também foi pintor...”

Nesse ano Carlos Reis pintou ainda Meio-dia, exposto em 1940, e a grande tela, ainda não conhecida do público, que ele ofereceu à Câmara Municipal da Lousã e que se acha já colocada, bem como um tríptico de João Reis, na sala das sessões daquela Câmara. No “Povo da Lousã” o jornalista Mário Machado escreveu um longo artigo, do qual destacamos estes períodos: — “A princesa Peralta, um magnífico manto sobre os ombros, sonhadora e triste, no seu cavalo admiravelmente ajaezado, segue, embalada e meiga, ao lado de seu Pai, o Rei Arunce, igualmente a cavalo, coroa real na cabeça, manto vermelho sobre as espáduas. Vêm fugidos do seu antigo reino de Conímbriga, pois ali surgira, sem se saber de que parte do mundo, nos tempos de Sertório, um poderoso conde à frente de numerosa armada de naus e outras velas. E foi tal a devastação que os invasores produziram naquela insigne e populosa cidade, não perdoando a coisa viva, que os seus habitantes fugiram e nunca mais nela quiseram entrar nem morar. O Rei Arunce e sua formosa filha meteram-se pela terra dentro, que nesse tempo era pouco povoada, e vieram esconder-se num castelo que edificaram nas entranhas e coração dumas serras, entre vastíssimos e cerrados arvoredos, com todas as suas opulentas riquezas e cobiçosos tesouros, e ali ficaram com os seus guerreiros. Eis, em traços rápidos, a lenda da fundação do Castelo da Lousã, onde em baixo serpenteia, claro e manso, o tranquilo e sossegado rio Arouce, nas águas da qual caíram muitas vezes as lágrimas da desditosa princesa quando, olhando o viso da serra, contemplava, silenciosa e sonhadora, o triúnviro Estela, belo e amoroso tipo de soldado romano. O notável quadro de Mestre Carlos Reis foi beber a esta lenda encantadora, com certo fundo bélico e romântico, o seu motivo fundamental. As duas figuras centrais da princesa e do Rei são modelarmente pintados, arrancadas à lenda pelo génio artístico do Mestre com um poder evocativo simplesmente maravilhoso. A serra da Lousã, ao fundo, exuberante de vegetação, destaca-se numa tonalidade de sonho, na cadência duma luz tecida das mais belas nuances e das mais cristalinas claridades. Todo o quadro respira uma beleza que emociona e encanta, com a sua enternecedora poesia lendária. É, simplesmente, uma maravilha da pintura contemporânea”.

Passou-se em revista com a possível individuação, compatível com o preceito clássico esta brevis. et placebis, a parte mais importante do obra de Carlos Reis até à data. Que maravilhas nos reservará ainda 1940 e os anos seguintes?

 

A SUA MORTE

O que o ano de 1940 nos reservava em vez das esperadas maravilhas da sua Arte, era o consternador sucesso da sua morte.

Quando, em Dezembro de 39, tendo ido à Lousã em cumprimento de triste dever de amizade, vimos e admirámos a soberba tela que hoje opulenta a sala nobre dos Paços do Concelho daquela linda Vila, estávamos bem longe de supor que ela fosse o conto do cisne do Mestre ilustre.

Carlos Reis já então estava bastante doente. Em 1937, estando o grande artista a desenhar um projecto para o monumento aos heróis torrejanos do segundo cerco de Diu, a erigir na terra da sua naturalidade, sentiu grandes dores no olho direito, que teve de ser extraído. Desde então o seu estado geral de saúde começou a ressentir-se. No ano seguinte faleceu seu irmão João, o que muito o abalou. Em 39, na véspera do minha ida à Lousã, faleceu sua irmã D. Sofia, que estava havia 7 meses em sua casa, no Casal da Lagartixa. Todos estes desgostos e ainda um trabalho exaustivo, como foi o necessário para pintar num prazo de tempo quase inverosímil a grande tela a que já me referi, e vários quadros de cavalete, um dos quais de grandes dimensões (Meio Dia), acabaram de enfraquecer o seu já combalido organismo.

Ainda assim, apesar de tudo, verificando que acabara em pouco mais de um mês um quadro de tais dimensões e valor artístico, e que conservava o seu espírito de sempre, embora turvado pelo desgosto tão recente, pensamos que a sua forte organização triunfaria muito tempo ainda contra os males que o minavam.

Mas quando, meses depois, o visitamos em Lisboa, já não parecia o mesmo. O corpo não tinha força, o espírito não tinha viveza. Já nunca saía, e, mesmo por casa, só andava apoiado a uma bengala. Como então morava num quarto andar, os filhos conseguiram que mudasse para um rés-do-chão na rua Castilho, na esperança de que assim se resolvesse de vez em quando a sair para espairecer. Mas, mal se instalaram na nova residência, piorou sensivelmente. Por conselho dos médicos, foi levado precipitadamente para a Lousã em 17 de Julho. Havia a esperança de que os ares da serra e o encanto da paisagem, acalmassem os seus nervos sobreexcitados. Mas ao cabo de 5 dias houve necessidade de o transportar urgentemente para Coimbra, onde ainda viveu um mês entregue aos cuidados e ciência do Dr. Elísio de Moura.

Durante esse mês angustioso, recebemos de João Reis várias notícias contraditórias; ora as esperanças renasciam, ora as pioras se acentuavam. Em 20 recebemos um bilhete que dizia o seguinte: “Desculpe escrever-lhe num cartão, mas o estado de espírito não me deixa ser longo. Agradeço-lhe muito o seu telegrama. O Pai está muito mal, os médicos perderam as esperanças. Só um milagre”. Por isso nada nos surpreendeu o telegrama que recebemos no dia seguinte participando-nos o falecimento do Grande Mestre, meu grande e querido amigo de sempre. Uma bronco-pneumonia pôs termo ao seu sofrimento, que a artério-esclerose, a nefrite e por último a encefalite, lhe vinham causando.

Poucos dias antes tinha-lhe sido concedida, por proposta do Sr. Ministro do Educação Nacional (Dr. Carneiro Pacheco) a Grã-cruz de Santiago. Eram tão diferentes as circunstâncias actuais daquelas em que se deu a sua renúncia da Comenda da mesmo ordem que não só o Mestre a aceitou, como, estou certo, esta distinção foi a sua última alegria.

A Morte de Carlos Reis causou, como era natural, enorme sensação no país, principalmente nos meios artístico e social que ele frequentava e onde era familiar a sua insinuante figura e o seu espírito brilhante. Pode-se dizer que não houve jornal ou revista que a seu respeito não publicasse longos artigos, onde o pesar pela sua morte e a admiração pela sua obra deram assunto para páginas brilhantes. Seria fastidioso transcrever aqui tudo quanto então se disse na imprensa sobre Carlos Reis. Para apenas citar artigos assinados, mencionarei Tomás Ribeiro Colaço (no jornal “A Noite” do Rio de Janeiro), Rebelo de Bettencourt (no “Diário dos Açores”), Berto Leite (em “Stella”), Dr. Eugénio de Lemos (no “Povo da Lousã”), Julião Quintinha (no “Diário do Alentejo”), Aurora Jardim (no “Jornal de Notícias”), Marinho do Silva (no “Setubalense”), Alfredo Pinto (Sacavém) (no “Diário do Alentejo”), e na (“Gazeta das Caldas”), Domingos Rebelo (no “Diário dos Açores”), P.e Maya (no “Almonda”), Fernando de Pamplona (no “Diário da Manhã”), Maria de Carvalho e Carlos Sombrio (no “Diário de Lisboa”), Adelaide Felix (no “Renascença”), Manuel dos Santos (em “Ecos de Sintra”), Osvaldo Orico, da Academia Brasileira (no “Povo da Lousã”), Diogo de Macedo e Carlos Parreira (em “Ocidente”).

No dia seguinte ao do sua morte, o professor Dr. Agostinho de Campos, seu grande amigo e admirador, fez, ao microfone da Emissora Nacional, uma notável palestra sobre o Mestre. Nessa palestra, como todas, rica de conceitos e primorosa de forma, o insigne escritor acentuou o facto de Carlos Reis ter morrido em plena glória. Efectivamente Carlos Reis não conheceu a decadência artística a sua última tela revela a segurança, a mestria de sempre.

Um crítico de Arte, que nem sempre fora amável para com o Mestre, termina assim o seu artigo em “Ocidente”:- — “Como o chefe (Silva Porto) alcançava determinadas delicadezas de efeitos que em toda a parte e em todos os tempos quedam como exemplos de gosto. É que Carlos Reis, como artista mereceu o título de Mestre; e como tal, a sua morte deixou Portugal e a Arte portuguesa de luto profundo”. Respigando nos numerosos artigos dedicados a Carlos Reis por ocasião da sua morte, ser-nos-ia fácil encher páginas só com frases e conceitos escolhidos entre esses artigos. Não o faremos. Mas não resistimos a transcrever, como fecho a este modesto monumento de saudade e homenagem, o seguinte admirável soneto de Silva Tavares: —

 

CARLOS REIS

 Os olhos que, por culto singular

da luz, da Cor, da imagem pura e bela,

tão bem souberam projectar na tela,

como em límpido espelho, a terra e o mar,

 

deixaram para sempre de brilhar,

apagados na treva que regela,

como se apaga a chama de uma vela

depois de ter iluminado o Altar!

 

As mãos — benditas mãos! — que conseguiram

dar corpo e vida a quanto os olhos viram,

imóveis são, também, por lei fatal.

 

Mas podem mais que a lei do própria Morte

o nome e a Obra! A Obra, porque é forte;

o nome porque ilustra Portugal.

 

[Carlos Reis/ Artur Gonçalves, Gustavo de Bivar Pinto Lopes. Torres Novas, 1942]

 

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