AS RIVAIS SIAMESAS

 Era madrugada em Verona e Petra dormia a sono solto. O Campeonato Italiano estava chegando ao fim. Enquanto Petra estava feliz com a ótima campanha do Verona, na terceira posição, o Milan amargava um 7º lugar. Até onde se sabe, a sempre impulsiva Amanda deixara de usar drogas, para a sua felicidade e a felicidade de Petra, que sempre foi a sua maior fã.

Ao amanhecer, Petra tomou café com torradas. De repente, Manfredini apareceu para ela.

-  Caríssima Petra! Você tem que ouvir uma história curiosa que provavelmente explica a sua rivalidade com Amanda.

-  Você quer dizer que eu e Amanda somos rivais desde o início dos tempos?

-  Bem, como monge, não acredito em reencarnação, mas no Império Romano, no século III, houve duas jovens jogadoras de harpastum. Petra, impulsivamente, interrompe Manfredini.

-  Jogadoras de quê?

-  Caramba! Foi o que disse: harpastum! Trata-se da versão do futebol no Império Romano. Alana e Galena eram duas jogadoras de harpastum. Embora elas fossem grandes rivais, Alana tinha muita pena de Galena e queria sempre ajudá-la, assim como você vive querendo ajudar Amanda e fazer com que ela não tenha recaídas em relação às drogas.

-  Manfredini, agora estou curiosíssima para ouvir essa história! Conte-me! Estou com a mente e os ouvidos bem abertos!

AS RIVAIS SIAMESAS

 ROMA, 288 A .D

 A partir do século III da Era Cristã, o Império Romano começou a passar por uma forte crise econômica e a invasão dos povos bárbaros era iminente. Houve um momento em que Roma chegou a utilizar soldados bárbaros em seu exército para repelir outros povos bárbaros e, a partir do ano 284 da Era Cristã, Diocleciano passou a ser o novo Imperador de Roma, perseguindo implacavelmente os cristãos.

Boa parte deles foi escravizada e viviam em condições sub-humanas. Dentre os escravos que haviam se convertido ao Cristianismo, duas mulheres se destacavam: a jovem bávara Alana, devido à sua altura e seu físico avantajado (ela tinha 1,88m e pesava 81kg, sendo pura musculatura) e a jovem celta Galena, baixinha e franzina. Grande parte dos cristãos acreditava que Alana, por ser uma superatleta com superpoderes natos, era, na verdade, descendente de Hércules. Maximiniano, com quem Diocleciano passou a dividir o poder, mandou executar os pais de Alana, então com sete anos e ela foi poupada, sendo levada como escrava para a cidade de Verona, vivendo lá até à idade de vinte e sete anos. A jovem celta Galena, ainda uma criança de quatro anos, viu seus pais serem brutalmente assassinados também por ordem de Maximiniano. Contudo, isto foi apagado propositalmente de sua memória através de uma droga mágica e ela acabou sendo levada para Milão, vivendo lá como escrava até os vinte e quatro anos. O Imperador Diocleciano descobriu que Galena nasceu com um dom especial: apenas com o seu pensamento, ela tinha o poder de fabricar prata. Este a chamou para Roma a fim de servi-lo em seu palácio, lhe dizendo que ela não seria mais uma escrava como todos os outros. Galena, então gozando de regalias, entregou-se aos prazeres da bebida, enquanto a avantajada Alana organizava secretamente uma revolta de escravos. Os cristãos consideraram Galena uma traidora, porém Alana era a única que tinha piedade dela e desconfiava das intenções de Diocleciano, querendo libertá-la do vício da bebida, antes que esta a corroesse aos poucos. Alana, sendo uma superatleta com superpoderes, não só ganhou rapidamente o respeito dos outros escravos cristãos como se tornou uma temida caça-romanos.

Alana, tendo uma vez invadido o palácio do Imperador Diocleciano sozinha, lutou contra diversos guardas, sem dificuldades para vencê-los e fugindo em seguida. Porém , um deles, escondido, tendo visto a jovem bávara, chamou Diocleciano e Maximiniano assustado, gritando:

- Majestades, é a caça-romanos ! Ela conseguiu escapar da prisão e esteve aqui!

- Alana de Verona? - perguntou Maximiniano.

Diocleciano diz:

- Vejam o que essa grandalhona fez com os meus guardas! Ela estava com outros escravos? Pelos deuses, parece que nada a consegue deter!

- Não sei, Majestade! Parece que Alana invadiu a corte sozinha!

- Ela deve provavelmente estar liderando uma revolta de escravos em segredo! Eu sei que essa mulher é invulnerável. Mesmo completamente desarmada, é muito perigosa! - disse um dos guardas.

- Alana talvez tivesse invadido a corte sozinha para matar Maximiniano, o assassino de seus pais. Um dia, descobrirei o ponto fraco dessa hercúlea caça-romanos !

NA MANHÃ SEGUINTE ...

Em meio à conversa dos escravos cristãos que Alana, graças à sua superforça nata, conseguiu libertar da prisão, eles dizem uns aos outros em voz baixa:

- Essa grandalhona caça-romanos deve ser provavelmente uma descendente de Hércules!

- Ora, o que nós somos afinal? Cristãos convictos ou pagãos que crêem nos deuses e semideuses dos romanos? Talvez Alana seja apenas uma fuoriclasse !

A jovem bávara interrompe a conversa de seus companheiros dizendo:

- Vocês estão livres agora para partir!

- Negativo, Alana! Nós a escolhemos como nossa líder e nos sacrificaremos até o fim para alcançarmos o Reino dos Céus! - disse um dos cristãos.

- Você invadiu o palácio do Imperador sozinha para matar Maximiniano? - perguntou curiosa uma de suas companheiras.

- Dessa vez não! Pretendia apenas ver Galena e tentar tirá-la das garras de Diocleciano!

- Essa traidora vive muito bem no palácio dos Césares, gozando de todos os prazeres, enquanto que nós temos que nos esconder o tempo todo para não sermos capturados e atirados na arena! - exclamou um dos companheiros indignado.

Criou-se um grande tumulto entre os amigos de Alana, quando esta, de repente, os interrompe, lhes dizendo firmemente:

- Parem de falar todos vocês e me ouçam com atenção! Galena pensa que é livre, mas, na verdade, é tão escrava quanto nós! E está cada vez mais viciada em bebida! Assim como eu sou uma superatleta com superpoderes, uma vez, há muito tempo, vi com os meus próprios olhos que Galena, só com o pensamento, é capaz de fabricar prata! Ela está cada vez mais enriquecendo o tesouro dos Césares, iludida por eles, que a convenceram de que se tornaria uma liberta!

- Espere, Alana! Galena jamais simpatizou com você desde o começo e ainda pretende salvá-la? - perguntou uma cristã idosa.

- Um dia, eu ouvi uma conversa entre os guardas dos Césares e soube de que os pais de Galena também foram brutalmente assassinados por Maximiniano, o mesmo assassino de meus pais e isso foi apagado propositalmente de sua memória para que ela não se lembrasse de nada e servisse aos interesses de Diocleciano! Ele descobriu o poderoso dom de Galena e o está usando! Se, por acaso, vocês não quiserem vir comigo invadir o palácio dos Césares para resgatá-la, eu irei lá mais uma vez sozinha convencê-la de que ela nunca foi livre de verdade! E preciso também tentar tirá-la do vício da bebida o quanto antes!

- Tudo bem, Alana! Dessa vez, nossa líder não estará sozinha! - exclamou corajosamente um de seus amigos mais próximos.

Todos gritaram juntos:

- Pela liberdade e abaixo a tirania dos Césares!

Ao anoitecer, Alana, acompanhada de quatro amigos, invadiu o palácio de Diocleciano. Dois guardas, tendo-os visto, tentou capturá-los e a jovem bávara travou uma dura luta com eles, abatendo-os. Finalmente ela fica frente a frente com Galena e lhe diz:

- É impressionante como o vício da bebida a está cada vez mais deixando dependente, atrapalhando o seu raciocínio! Você pensa que é livre, não é mesmo, Galena? Mas, na verdade, não passa de uma escrava como nós!

- Escrava, eu? Enquanto você e seus amigos vivem se escondendo para não serem capturados e jogados na arena, eu gozo de mil regalias aqui no palácio dos Césares!

- Galena, eles sabem que você tem o poder de fabricar prata e a estão usando para enriquecer o seu tesouro cada vez mais! Você foi drogada para que não se lembrasse do assassinato de seus pais! Maximiniano, assim como matou os meus pais, também matou os seus!

- Isso só pode ser uma piada, não é, sua grandalhona?

- Se você realmente acha que estou mentindo, então por que não ouve um dia atrás das portas as conversas dos generais com os Césares? Eis uma bela dica de rival siamesa !

- Rival o quê? - perguntou Galena sem entender o significado dessa expressão.

- Esqueça. Quer você queira ou não, ainda hoje mesmo à noite, vou carregá-la comigo e libertá-la de uma vez do vício da bebida! Agora, preciso ajudar os meus companheiros, que estão em apuros!

Tendo deixado Galena confusa por um momento, Alana partiu em defesa de seus colegas. Escondendo-se dos soldados, ela consegue escapar para poupar energias, porque, ainda naquela mesma noite, prometera resgatar a rival Galena das mãos dos Césares. Sem ser vista pelos soldados de Diocleciano, a jovem celta ouve uma conversa destes com o Imperador atrás da porta principal do palácio.

- Galena serviu muito bem a meus propósitos fabricando prata o suficiente para enriquecer cada vez mais o meu tesouro! Quando eu não precisar mais dela, essa viciada será assassinada exatamente como os seus pais!

Galena, enfurecida, disse para si mesma em pensamento:

- Então aquela grandalhona tinha razão o tempo todo! Ela sabe que eu, no fundo, sempre a detestei e, ainda assim, veio arriscar a sua vida para me alertar!

Quase de madrugada, Alana, acompanhada de seus fiéis amigos, lhes diz em voz baixa:

- Cuidado com os soldados dos Césares! Eu vou em busca de Galena sozinha!

Quando Alana, com sua superforça, luta com os guardas e os vence, ela encontra Galena, que, surpreendentemente, não lhe oferece resistência. Tendo se virado, ela vê cinco soldados e, com o pensamento, joga uma rede prateada em cima deles, os prendendo. Em seguida, Galena diz a Alana:

- Somos unidas mesmo na rivalidade! Você estava certa, grandalhona! Eu pensei que tivesse ganho a liberdade vivendo no palácio dos Césares, mas, agora, descobri que Maximiniano também matou os meus pais quando eu era criança! Não é necessário que me carregue à força! Vou com você de livre e espontânea vontade! Lembra-se dos tempos em que Diocleciano nos juntou uma vez e começamos a jogar harpastum às escondidas quando éramos ainda crianças? Você sempre jogou duro e, com sua superforça, fazia marcação cerrada em cima de mim! Às vezes, eu era anulada completamente e ficava enfurecida com isso! Porém, geralmente, eu conseguia sair da sua marcação e vencia a maioria dos jogos!

- Sim, eu me recordo muito bem disso. Mas por que você está se lembrando do harpastum ? - perguntou Alana curiosa.

- Esses soldados ficarão doidinhos com o nosso jogo! Eles sabem que sou a melhor jogadora de harpastum do Império Romano e, já que somos aliadas temporárias, você me lança para o ataque e deixe o resto comigo!

- Mas onde está a bola para passarmos pelos soldados de Diocleciano?

- Peguei uma escondida enquanto eles estavam distraídos! Passe curto! Bola para frente!

 Os soldados de Diocleciano ficaram atônitos quando viram Alana e Galena, a melhor jogadora de harpastum do Império Romano. Elas, através de jogadas ensaiadas, começaram a driblá-los, um por um, até que, finalmente, conseguiram escapar da corte do Imperador. Contudo, Alana, de repente, mal tendo escapado, começou a sentir fortíssimas dores de estômago. Galena, assustada, pergunta à eterna rival siamesa :

- O que está acontecendo com você?

- Galena, fuja o quanto antes daqui! Eu nasci com uma rara doença no estômago que tira temporariamente a minha superforça e invulnerabilidade! Continue você jogando harpastum , tentando habilmente passar pelos soldados dos Césares!

Diocleciano, tendo ouvido do alto da muralha a conversa entre Alana e Galena, finalmente descobre o ponto fraco da jovem bávara. Muito fraca para lutar, ele ordena que os soldados a cerquem e a capturem, enquanto Galena, jogando harpastum , consegue passar por seis soldados até que também é capturada por um general que, na juventude, foi um perito nesse esporte. O Imperador diz com voz de comando:

- Tragam as duas melhores jogadoras de harpastum do Império Romano à minha presença agora!

Tendo-as levado ao Templo do deus Marte, Diocleciano lhe pede insistentemente que ele lhes dê a sentença de morte. Alana e Galena, assustadas, embora não o demonstrassem, se dão as mãos orando a Cristo e algo incrível acontece: elas não conseguem se soltar, ficando presas uma à outra temporariamente. O deus Marte manifesta-se dizendo:

- As duas jovens não serão condenadas à morte como você quer, Diocleciano! À Alana e Galena eu ofereço a imortalidade, mas, como punição, serão condenadas à rivalidade eterna! A cada ano consecutivo, em Roma, durante o intervalo de seis meses e sempre às terças-feiras, dia a mim consagrado, será organizado um torneio de harpastum e cada uma liderará uma equipe de quinze jogadores, dentre os mais hábeis de todo o Império! Você, Alana, representará a cidade de Verona, enquanto você, Galena, representará a cidade de Milão! Para sempre, será o harpastum-força de Alana contra o harpastum-arte de Galena! Alana, como defensora, marcará implacavelmente a atacante Galena, pois ambas foram destinadas a ser rivais siamesas! Agora, Diocleciano, ordeno que você e os seus guardas as libertem e as deixem retornar a Verona e Milão, cidades que passaram a ser a sua pátria desde a infância, quando foram escravizadas!

Após a sentença do deus Marte ter sido promulgada, Alana e Galena finalmente conseguiram se separar uma da outra. Ambas ficaram para sempre marcadas com a cruz de Cristo na palma da mão. Alana ficou com uma cruz de cor amarelo-e-azul, enquanto que Galena ficou com uma cruz de cor vermelho-e-preto. Ainda no templo do deus Marte, antes de retornarem às suas cidades, ambas se encararam firmemente, já dando indícios de rivalidade, erguendo o braço e mostrando a palma da mão marcada com a cruz de Cristo uma à outra.

Na verdade, as cores das cruzes na palma da mão das rivais siamesas significam que a equipe de harpastum de Verona, liderada pela defensora Alana, será amarelo-e-azul, enquanto que a equipe de harpastum de Milão, liderada pela hábil atacante Galena, será vermelho-e-preto. A muito alta e hercúlea Alana contra a baixinha e franzina Galena: a arte da força ou a força da arte?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

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