AS GUERREIRAS SARTORI (1ª PARTE)

Durante o treino do Verona para a próxima partida contra o Internazionale de Milão, o técnico gritava sem parar, encorajando as jogadoras. Dessa vez, Petra não estava muito bem no treino, o tendo deixado furioso.

- O que está acontecendo com você, mulher blindada? – gritou o treinador.

- Você fala como se o Verona dependesse apenas de mim e não das outras jogadoras! – disse Petra com raiva.

 MINUTOS DEPOIS

 Enquanto todas as outras jogadoras já tinham saído do vestiário, Petra foi a única que permaneceu pensando nas palavras do técnico e bastante abatida. De repente, aparece um estranho monge enquanto Petra acabava de se vestir. Petra virou-se e viu-o.

- Ah, já sei! Você quer um autógrafo, não é? Deixe-me pegar papel e caneta na minha mochila. Aqui está, tome!

- Você é fria como os alemães!

Petra, com bastante raiva, grita atirando uma camisa no rosto do estranho monge:

- Não me chame de alemã!

Em seguida, retocando a sua maquiagem no espelho, Petra teve uma grande surpresa: ela vê que a imagem do monge não estava refletida no mesmo.

- Não, não pode ser! Você não é um homem comum! – Aproximando-se dele e puxando o seu hábito, ela pergunta furiosa:

- O que é você afinal?

- Meu nome é Enzo Manfredini e sou o historiador das guerreiras Sartori de Verona. Vivi no século IX.

- Enzo Manfredini! Você é o mesmo homem que me apareceu em sonho antes de eu estrear no Verona! Você também é versado em bruxaria?

- Sim! Mas sou muito mais historiador do que feiticeiro. Como fui um homem bom e honrado em vida, Deus me concedeu a missão de acompanhar a história das guerreiras Sartori fuoriclasse através dos séculos.

- Incrível! – exclamou Petra admirada. – Deixe-me tocá-lo! Minhas mãos atravessam o seu corpo!

- Havia as guerreiras Sartori normais e as Sartori fuoriclasse e você pertence ao segundo grupo, Petra. A cada final de século, nascia uma fuoriclasse . As mulheres destacavam-se mais do que os homens nas batalhas e possuíam força sobre-humana e invulnerabilidade. Suas alturas variavam entre 1,84m e 1,91m. De repente, Petra o interrompe:

- Puxa, essas Sartori eram bem baixinhas, não?

- Sem brincadeiras, Petra! Sei que isso não é o seu forte! – disse Manfredini furioso. Ele continuou.

- A primeira Sartori fuoriclasse foi Carla, que viveu entre 880 e 904. Tinha 1,86m de altura. Namorou o jovem Ugo, amigo de infância com quem mais tarde se casou. O conde Franco Anelli sempre foi apaixonado por Carla, mas ela recusou o seu amor, desprezando todo o conforto que ele poderia lhe proporcionar. Anelli, enfurecido, alguns momentos antes de morrer (tinha uma rara doença congênita no estômago que lhe causava dores terríveis), fez um pacto com Mireille Fournier, que, na verdade, era um demônio conhecido como Serpente Escarlate, para que esta amaldiçoasse não apenas Carla mas também todas as suas descendentes fuoriclasse . Por isso, elas já nasciam com essa doença que, aos poucos, lhes corroía o estômago, conhecida posteriormente como Mal de Anelli.

- Eu descobri o ponto fraco das Sartori fuoriclasse e orientei cada uma delas para que guardassem segredo sobre a sua doença. Isso contrastava com a sua força sobre-humana e invulnerabilidade. Quando o Mal de Anelli se manifestava, as dores de estômago eram tão fortes que acabavam por deixá-las temporariamente sem seus superpoderes natos, se tornando, assim, mulheres comuns iguais a todas as outras. Mireille, através da sua poderosa magia, criou uma droga chamada Dytrin , que agravava o Mal de Anelli. Posteriormente, o Dytrin foi usado contra todas as Sartori fuoriclasse para enfraquecê-las ainda mais, as impedindo, assim, de recuperar facilmente os seus superpoderes e a sua invulnerabilidade natos.

- Quem foi a fuoriclasse seguinte? – perguntou Petra bastante curiosa.

- Lorena Sartori, que viveu entre 985 e 1004. Tinha 1,84m e era física. -Manfredini continuou. - Anna Sartori, que viveu entre 1078 e 1102, foi cronista e amiga da princesa bizantina Anna Comneno (também cronista).

Ela participou da Primeira Cruzada que, na verdade, foi a única bem-sucedida, tendo os cristãos tomado Jerusalém das mãos dos muçulmanos ou sarracenos em 1099. Os fofoqueiros da época diziam que Anna Sartori teve um romance com o jovem Tancredo de Tarento, neto de Roberto Guiscard. Tinha 1,86m de altura. Petra mais uma vez o interrompeu:

- Li que a Primeira Cruzada ficou conhecida como a Cruzada dos Príncipes e Godfrey de Bouillon foi um dos líderes junto com Tancredo de Tarento. Na verdade, seu reinado não durou muito, pois ele morreu em 1100.

- Isso mesmo, Petra! Você sabe mesmo sobre as Cruzadas! – disse Manfredini com entusiasmo. Continuando, a quarta Sartori fuoriclasse foi Mariana, que viveu entre 1179 e 1206. Na verdade, ela era a versão italiana da lendária Lady Marion Fitzwalter, foi namorada de Roberto Lochili, que por sua vez, era a versão italiana de Robin Hood. Mariana tinha 1,84m de altura e participou da Quarta Cruzada.

- A Quarta Cruzada foi uma cruzada de cristãos contra cristãos, sendo o verdadeiro objetivo ignorado. Os venezianos tomaram Zara. A Quarta Cruzada ocorreu de 1202 a 1204.

- Estou impressionado com a sua cultura, Petrina ! Bem, continuando, a quinta Sartori fuoriclasse foi a bela Claudia, conhecida como La Rossa , que viveu de 1278 a 1304. Seus tios eram frades franciscanos que viajavam com frequência para o Extremo Oriente e, um dia, resolveram levar a jovem Claudia com eles para Cathay. Tinha 1,85m de altura.

- Em Khanbalik, então capital do Império Mongol (o Imperador que reinava era Kublai Khan). - Petra, impulsivamente, interrompe mais uma vez Manfredini. - Kublai Khan era neto de Genghis Khan, mas, na verdade, não foi tão cruel como o avô.

- Bem, Claudia Sartori participou de vários torneios de guerra, tendo vencido diversos homens, sendo que alguns estavam literalmente à sua altura. A jovem Shalankut era uma das melhores guerreiras de Kublai Khan e possuía 1,84m de altura. Enfurecida porque supôs que uma ocidental estivesse humilhando seu povo, a tártara, que também era uma superatleta nata, desafiou Claudia a um duelo até à morte. A fuoriclasse acabou vencendo a guerreira de Kublai, para desespero do Imperador. Shalankut usava uma veste mágica que a tornava invulnerável. Então, eu revelei a Claudia que somente a Adaga de Dorgon seria capaz de destruir a roupa mágica da concubina de Kublai Khan. Dorgon, uma cidade há muitos séculos abandonada e que possuía diversas cavernas, ficava às margens do rio Orkhon e a ruiva partiu para lá. Ela descobriu que a Adaga de Dorgon estava numa antiga caverna pré-histórica e era protegida pelo semideus Dolugen contra o ataque dos salteadores. Claudia disse a ele que não tinha a intenção de roubar a Adaga de Dorgon (que era de ouro puro cravejada de pedras preciosas), mas que precisava dela porque foi desafiada por Shalankut a um duelo até à morte e era a única arma capaz de penetrar na roupa mágica de sua oponente. Dolugen disse-lhe que várias pessoas antes dela haviam inventado diversos motivos para se apoderar da Adaga por ser uma jóia rara com poderes mágicos e, além disso, era benta. Para saber se elas estavam sendo realmente puras de coração, ele as desafiava a um duelo até à morte. Todos fracassaram e pereceram. Dolugen então desafiou a jovem Claudia, tendo ficado impressionado com a sua força sobre-humana e percebeu que ela era invulnerável. Quando a ruiva derrubou Dolugen e o desarmou, este lhe perguntou:

- O que está esperando, Claudia La Rossa ? Você me venceu! Por que não me mata?

A fuoriclasse respondeu:

- As Sartori fuoriclasse vieram ao mundo para fazer justiça e não para espalhar o terror! Só usamos a nossa força sobre-humana como meio de defesa pessoal e para ajudar os oprimidos! Não matamos por prazer!

Dolugen percebeu que as palavras de Claudia eram sinceras e que ela não estava falando apenas da boca para fora. Pelo fato de a ruiva ter vencido o semideus numa luta justa, poupando, inclusive, a sua vida, este lhe disse:

- Claudia La Rossa , você foi a única pessoa que veio atrás da Adaga de Dorgon para usá-la como um meio de defesa pessoal e não pelo simples fato de se tratar de um tesouro raro e valioso bento e com poderes mágicos! Por isso, eu a darei de presente a você justamente para usá-la como arma nas situações de maior perigo e não para guardá-la como uma jóia valiosa! Minha missão aqui na Terra terminou! Adeus, fuoriclasse !

Tendo se despedido de Claudia, Dolugen repentinamente deixou o mundo terreno e ascendeu ao céu. A Adaga de Dorgon passou, a partir de então, a ser uma poderosa arma para todas as guerreiras Sartori, tanto as normais quanto as fuoriclasse .

 

AS GUERREIRAS SARTORI (2ª parte)

 Manfredini continuava a contar a história das guerreiras Sartori fuoriclasse para a curiosa Petra.

- A Sexta Sartori fuoriclasse foi Laura, que viveu entre 1393 e 1416. Tinha 1,89m de altura. Por causa de seu tamanho e por ser pouco feminina, era tratada como homem. Muitos pensavam que Laura era homossexual, mas, posteriormente, ela teve um romance com o último descendente de Marco Polo, também chamado Marco, que faleceu em Verona no ano de 1418 sem Ter deixado descendentes. A Sétima fuoriclasse foi a escandalosa Francesca, que viveu de 1487 a 1516. Tinha 1,87m de altura e era compositora e poetisa. Além disso, Francesca era uma ótima jogadora de calcio e disputou diversos torneios em Florença defendendo a cidade de Verona. Seus adversários a respeitavam muito, apesar de ela ter sido a única jogadora de calcio da época do sexo feminino. Casou-se com o também poeta e compositor Giovanni Battista, que fez uma música em homenagem a Francesca chamada Fuoriclasse . Tendo descoberto que Giovanni sempre foi mulherengo e que estava namorando em segredo a francesa Charlotte Dubois, de apenas quinze anos e bem menos avantajada (Francesca, na ocasião, tinha dez anos a mais), a compositora decidiu se separar definitivamente dele, o que, para a época, representava um escândalo. No fim de sua vida, Francesca, aos 28 anos, se apaixonou por um rapaz dez anos mais novo do que ela: Piercarlo D'Assisi. Ele compôs uma música em sua homenagem chamada La Veronese . Além da diferença de idade que, na época, representava um escândalo, o jovem de Assis era vinte centímetros mais baixo do que Francesca e franzino.

- Pelo que pude perceber até agora, as Sartori fuoriclasse viviam menos de 30 anos.

- Principalmente por causa do Mal de Anelli. – disse Manfredini.

- A oitava Sartori fuoriclasse foi Irene, que viveu de 1688 a 1714.

- Espere, Manfredini. Irene nasceu no ano da Revolução Gloriosa na Inglaterra, que implantou a Monarquia Constitucional Parlamentar, acabando com o Absolutismo.

- Certo, Petra! Como uma simples jogadora de futebol pode ter tanta cultura assim?

- É, acontece! Sempre li muito, principalmente sobre história.

- Um dia, eu apareci em sonho para Irene quando esta tinha apenas 13 anos e lhe disse que ela veio ao mundo com a missão de exterminar todas as criaturas do mal, principalmente vampiros.

Ele lhe falou sobre a ameaça dos vampiros na América e, assim, Irene se tornou com o tempo uma temida caça-vampiros, partindo para o Novo Mundo. Ela se apaixonou pelo argentino Pablo Calderón, que, na verdade, era um vampiro de 70 anos com a aparência de 30. Irene conheceu a jovem norte-americana Angela Samson, também uma temida caça-vampiros. Inicialmente aliada de Irene, que, inocentemente lhe conta toda a história de suas ancestrais fuoriclasse e a sua maior fraqueza, Angela, que em segredo também era apaixonada por Pablo Calderón, acaba traindo a jovem italianona , adiantando a sua morte. Calderón foi criado pelo espanhol Gabriel Fuentes, contra quem se revoltou posteriormente, se tornando um vampiro do Bem. Pablo Calerón, junto com Fuentes e seu exército de vampiros, aterrorizaram a maior parte da América. A revolta do argentino contra seu criador espanhol simboliza a tentativa da Colônia de se libertar da sua Metrópole. Irene tinha 1,85m de altura. A nona Sartori fuoriclasse foi Alda, que viveu entre 1787 e 1815 e se tornou uma exímia nadadora e tinha 1,88m de altura. A décima Sartori fuoriclasse foi Pietra, que viveu entre 1887 e 1915. O futebol estava surgindo na Inglaterra e a jovem Pietra, a mais masculinizada das Sartori, embora não homossexual, foi rejeitada pelos próprios pais e familiares por se parecer mais com um homem. Abalada, ela deixou Verona e partiu para Londres, onde passou a trabalhar como operária e lá conheceu o brasileiro Arthur Nunes Caminha e o argentino Diego Cortez que, nas horas vagas, jogavam futebol como atacantes e eram ótimos cobradores de falta. Pietra tinha 1,91m de altura, enquanto que Caminha e Cortez eram baixinhos. Inicialmente se apresentando como Pietro , ela acabou revelando mais tarde aos dois amigos que era, na verdade, uma mulher, para o espanto deles (principalmente de Diego), pois ela jogava duro como macho e era uma marcadora implacável. A italiana apelidou-os de A Dupla CaCo . Diego, indo ao banheiro, percebeu que havia uma pequena marca de sangue no chão perto do vaso sanitário e, então, foi tomar satisfação com Pietra.

- Homem não menstrua, Pietra !

Em seguida, o argentino a esbofeteou, mas ela não revidou por causa de seu tamanho, pois achou que seria uma covardia. Mesmo depois deste incidente, os dois e Caminha continuaram grandes amigos. Pietra, negando qualquer possibilidade de reconhecer algum traço de feminilidade devido à sua altura e físico avantajado, passou quase toda a vida vestindo roupas masculinas. Por essa razão, Pietra foi a mais problemática das Sartori fuoriclasse . Casou-se com Carlo Goretti, operário que também jogava futebol nas horas vagas junto com Caminha e Cortez e era vinte anos mais velho do que ela. Pietra, na verdade, o via mais como pai do que como homem e, por achar que não tinha nenhuma feminilidade, embora seu marido discordasse dela, se recusava a ter relações sexuais com ele. Ela acabou se considerando uma homossexual enrustida. Ativa militante comunista, para o desespero de seus pais, que apoiavam os social-democratas, Pietra era, na verdade, a versão italiana da alemã Olga Benario. A filha de Pietra, Lidia, uma Sartori normal nascida em 1912, também era uma ativa comunista como a mãe. O ditador Benito Mussolini mandou fuzilar Lidia em 1937, tendo-a acusado de subversão. Para ele, o sobrenome Sartori era sinônimo de luta dos oprimidos contra os seus opressores, o que sempre correspondeu à verdade. Além de ter proibido o povo de pronunciar o sobrenome Sartori, a história das fuoriclasse , passada oralmente de geração em geração através dos séculos e desconhecida pela maioria das pessoas, acabou caindo no esquecimento por se tratar de mulheres oriundas do campesinato e não de uma camada mais privilegiada da população. Lidia teve dois filhos: Mario, que nasceu em 1934 e Rafaela, nascida em 1932. Rafaela, também uma ardorosa comunista em segredo, deu à luz Emilia e é a sua avó.

- Puxa! Se não fosse você, Manfredini, jamais as Sartori teriam saído do anonimato!

- Petra, eu só aparecerei para você e para mais ninguém! Portanto, não conte a respeito de minha existência nem mesmo para suas amigas Olga e Renata. Não é um pedido e, sim, uma ordem!

Mal Manfredini disse isso a Petra, ele desapareceu de repente.

 

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