Dossiê Secreto
O governo Olívio Dutra abriu os bingos, liberou a jogatina eletrônica e deixou correr solto os caça-níqueis

* A lavanderia montada no Clube da Cidadania.

* Dinheiro sujo na compra da sede do PT

* As viagens mal explicadas ao exterior dos líderes do PT

* Agendas apreendidas contam histórias intrigantes de viagens ao oriente Médio.

* Policiais ligados ao governo e MJDH avisaram o governo sobre os achaques aos bicheiros para as obras sociais de Dona Judite, a mulher do governador.

* Leia a conversa completa (sem censura) do diálogo gravado entre o delegado Tubino e Diógenes Oliveira.

* A reunião entre Dirceu Lopes x Diógenes com o Chfe de Polícia.

* Olívio recusa-se a receber Jair Krishke, mas denúncias são feitas pessoalmente a Rosseto.

* Também Goulart Filho, ouvidor da Segurança, recebve denúncias, assombra-se e não faz nada.

* Como termina o primeiro ano de Olívio.

* Olívio baixa decretos e leis para liberar bingos, sorteios e videoloterias, todos temas federais.

* Revista OstoÉ faz primeira denúncia contra as relações do governo do PT com os cassinos virtuais.

* Advogado Juarez Rosa da Silva, o homem dos empresários da videoloteria, sabia tudo antes do Diário Oficial.

* Ministério Pública recomenda à Loteria do Estado que não legisle sobre jogos.

* Palácio Piratini tenta censurar a IstoÉ antes da edição da reportagem sobre os jogos proibidos.

* Delegados de Polícia voltam a advertir o governo e PDT rompe com o PT.

* O almoço secreto entre o Delegado Wilson Muller e a direção do PDT, com a nomenklatura da DS de Rosseto para denunciar o acordo entre o governo Olívio e os barões do jogo do bicho.

* Nova reunião do PDT com a Executiva do PT tenta salvar o acordo com Olívio e dá ultimato para o rompimento das relações com o jogo.

* A CPI da Segurança Pública sai para apurar as relações do governo estadual com o jogo do bicho, os jogos eletrônicos e a extorsão aos bicheiros.

* O Chefe de Polícia, Tubino, procura seu desafeto, o Delegado Wilson Muller, para entregar-lhe fitas explosivas.

* O governo do ?Estado tenta impedir a divulgação das fitas, mas o Judiciário libera tudo.

* Bisol consegue trancar as fitas com seu diálogo com mulheres de brigadianos.

* IstoÉ é censurada antes de publicar novas denúncias contra o Governo do Estado.

* Denise Mantovani, mulher de Laerte Méliga, e Guaracy Cunha, escrevem cartas censurando a revista e os jornalistas.

* O repórter de IstoÉ, censurado pelo Piratini, pede censura pública a Denise Guaracy, que é concedida.

* Denise e Guaracy recorrem, ganham num recurso impossível na Fenaj e caso ainda não terminou.

Desde o começo do governo Olívio Dutra, as evidências de um amplo acordo entre o governo estadual, o PT e os barões da jogatina, foram ganhando corpo e não foi surpresa nenhuma que esta relação permissiva acabasse por engrossar o caldo da CPI da Segurança Pública, instaurada em abril de 2001.

O exemplo mais completo dos bons resultados da convivência entre as partes foi a compra da sede do PT, na Avenida Farrapos, em Porto Alegre, com dinheiro da jogatina clandestina amealhado pelo sr. Diógenes Oliveira, através de uma sociedade, o Clube da Cidadania, que montou para fazer a lavagem das colaborações, . O exemplo é emblemático, mas não é único. O dinheiro do Clube da Cidadania também foi engordado com doações e negócios mais do que nebulosos fechados com empreiteiras públicas, clientes do governo, concessionários de serviços públicos e entidades que dependem dos favores do Palácio Piratini ou da Prefeitura de Porto Alegre, ambos sob o controle do PT,

O Clube da Cidadania foi apenas um dos braços da lavanderia montada pelo sr. Diógenes Oliveira. O outro braço era uma agência de viagens, a Pangea. Ambos foram colocados a serviço da causa, do PT e do Governo Olívio Dutra.

Somente o clamor público fez o PT abrir mão da sua nova e espaçosa sede, no início de 2002, colocada desde então sob o controle da direção estadual do MST, o que coincidiu com o retorno de um dos seus mais importantes líderes, Mário Lil, do cerco a que se submeteu no apoio ao sitiado líder palestino Yasser Arafat. O sr. Diógenes Oliveira nunca explicou direito o que costuma fazer nas suas viagens ao exterior, mas quando suas agendas foram confiscadas pela CPI da Segurança Pública, dólares e roteiros de viagens ao Oriente Médio dele e de líderes do MST, como José Pedro Stédile, só não foram apreendidos porque o objeto da busca e apreensão na sua casa estaria comprometido irremediavelmente. Cópias foram feitas do material.

E não foi dinheiro apenas do jogo do bicho, mas também do seu negócio mais rentável e aparentemente legalizado no Governo Olívio Dutra, os jogos eletrônicos, além das empresas e entidades dependentes dos favores governamentais que engordaram os cofres do PT.

"Eu cansei de avisar o governo e o PT, mas não fui ouvido", lembra o ex-Delegado de Polícia e ex-Deputado Wilson Muller. "Nós também", repetem em coro personalidades e eleitores insuspeitos de Olívio, como o Presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, Jair Krishke, e o Juiz Carlos Barbosa. O PDT, que fez parte do Governo na sua primeira metade, também insistiu com o PT para que parasse com os repasses.

A evidência de que o Governo Olívio Dutra estava comprometido com o jogo do bicho foi a primeira a surgir e logo no primeiro mês de mandato, janeiro de 1999. Existiam relações permissivas muito anteriores, como chegou a confessar na CPI da Segurança Pública o sr. Diógenes Oliveira..

Quase ao final de janeiro de 1999, logo no primeiro mês do novo Governo, o próprio Chefe de Polícia escolhido por Olívio, o Delegado Luís Fernando Tubino, não escondeu o que estava acontecendo. Ao final da primeira reunião do Conselho de Administração Superior de Polícia, ele comentou de modo informal que "os bicheiros estão disponibilizando verbas para o governo e elas serão aplicadas em assistência social". O comentáro foi anotado pelos Delegados Farney Araújo Goulart, Lauro Antonio Costa dos Santos e Roberto Leite Pimentel.

Alguns dias depois, o Delegado Nelson Oliveira procurou o Delegado Tubino e teve com ele este diálogo:

Oliveira – Escuta,Tubino, como é o negócio agora ? Quer dizer que o dinheiro do jogo do bicho vai para o chefe ?

Tubino – Sim, vai para o chefe, mas o chefe não sou eu, é o Olívio, é o PT.

Oliveira – Mas que PT? Mas que conversa é esta ?

Tubino – Ah, não sei. Mas agora não tem mais esse negócio de envolv er a Polícia com bicheiro, com isso e com aquilo. As obras sociais do Governo serão exclusivamente as beneficiadas.

Apenas uma semana antes desses comentários, o Delegado Luiz Fernando Tubino da Silva recebera em seu gabinete as visitas de Dirceu Lopes, depois Secretário da Administração de Olívio e atualmente Chefe de Gabinete do Ministério das Cidades, e Diógenes Oliveira, coordenadores da campanha vitoriosa, que foram pedir dinheiro (30%) dos ocupantes de cargos de chefia e em comissão da Polícia para o PT. Foi apenas um dos temas da conversa. O ex-Chefe de Polícia lembra bem da reunião. Dirceu Lopes era na ocasião o Tesoureiro do PT e tinha sido um dos Coordenadores da Campanha de Olívio, como Diógenes. O Delegado Tubino lembra que Dirceu não largava envelopões pardos que carregava com ele.

Passados 15 dias das inconfidências feitas pelo Chefe de Polícia do Rio Grande do Sul já circulavam de boca em boca em todo o Estado. O Movimento de Justiça e Direitos Humanos, dirigido por 10 conselheiros que tinham votado em peso em Olívio, reuniu-se imediatamente e encarregou seu Presidente, Jair Krishke, para ir ao Governo exigir explicações e providências. O mínimo que se queria era um inquérito administrativo.

O Movimento de Justiça e Direitos Humanos enfrentou os anos negros da ditadura com ações desassombradas dentro e fora do Brasil. Sempre esteve ligado aos grupos brasileiros de esquerda, sobretudo do PT e do PC do B (???).

O Governador Olívio Dutra recusou-se receber Jair Krishke. Que acabou conversando duas vezes com o Vice-Governador Miguel Rosseto, ao longo dos meses de fevereiro e março de 1999, portanto ainda no primeiro trimestre do novo Governo. Krische falou curto e grosso:

- A Polícia está fazendo vista grossa ao jogo do bicho e tomando dinheiro das bancas para financiar as obras sociais do governo. Tem que acabar com essa relação. Isto vai acabar com vocês, se vocês não tomarem providências.

Nada foi feito.

Sem respostas de Rosseto e Olívio, o Movimento de Justiça e Direitos Humanos voltou a carga quatro meses depois do último encontro com Rosseto, que foi em abril. Em agosto, aproveitando a solenidade de posse do novo Ouvidor da Secretaria da Segurança Pública, o Advogado Luiz Goulart Filho, que era membro do próprio MJDH, foram visita-lo o próprio Jair, mais o Advogado Barbosa e o Jornalista Luís Milman.

- Goulart – foi logo dizendo Jair Krishke, ao mesmo tempo que estendia um dossiê em sua direção – está havendo corrupção na Polícia. Eu fui ao Governo fazer a denúncia e até agora ninguém fez nada. O MJDH considera isto tudo inaceitável.

O Advogado Luís Goulart Filho começou a sua militância na esquerda dentro da Faculdade de Direito da UFRGS e nunca mais abriu mão das suas posições. Ele ficou escandalizado com o que ouviu.

- Tu és Ouvidor. Procura ser independente. Nós não podemos coonestar coisas contra as quais sempre fomos contra.

Nada foi feito.

O aviso estava dado. O primeiro ano do Governo terminou como começara e o segundo estava chegando ao final sem novidades.

Ao contrário do que repetiu inúmeras vezes o sr. Olívio Dutra, o seu governo sabia muito bem o que estava acontecendo e era conivente com a contravenção, mandando a polícia fazer vista grossa à prática do jogo do bicho e inclusive editando leis, decretos e regulamentos para garantir a instalação e operação de jogos eletrônicos de todo gênero, como cassinos virtuais, bingos e até loterias on line, mesmo sabendo que a atividade somente pode ser regulamentada por legislação federal e não estadual. Seu próprio Partido tinha conhecimento de tudo e se beneficiava dos resultados.

O Ministério Público Federal advertiu Olívio a respeito da ilegalidade do que estava fazendo e chegou a atacar diretamente o titular da área no Governo, o Presidente da Lotergs, a Loteria Estadual do Rio Grande do Sul, que a partir do segundo semestre de 2000, segundo ano da administração do sr. Olívio Dutra, passou para o comando de José Vicente Brizola, filho do ex-Governador Leonel Brizola, e com quem estava rompido.

O Ministério Público Federal sabia muito bem do que estava falando. Apenas um ano depois de assumir, o sr. Olívio Dutra promulgou o decreto 40..593, no dia 16 de janeiro de 2001, estatuiu no seu Artigo 3o esta pérola inconstitucional:

"Art. 3o – A Loteria do Estado do Rio grande do Sul poderá explorar diretamente, ou indiretamente, mediante credenciamento e autorização ou concessão, sem prejuízo de outras espé cies de loterias que venham a ser criadas, além das referidas no artigo anterior, a Loteria Convencional, a Loteria Instantânea e a Loteria On Line/Real Time."

Para não deixar qualquer dúvida a respeito do que estava legislando, o Governo do Estado introduziu duas novas formas de loterias, dando nova redação aos incisos I e III do artigo 2o do Decreto anterior. Desta vez o Governador Olívio Dutra tratou de criar também o Bingo Tradicional Gaúcho, comercialização de cartelas para sorteios de dezenas realizados em salas especiais, com distribuição de prêmios em dinheiro, bens ou serviços, e as Chances Múltiplas, que não passa da comercialização de volantes para sorteios de dezenas realizados em datas e horários predefinidos, com distribuição de prêmios em dinheiro, bens e serviços.

No dia 18 de maio, o Governo voltou a carga com o decreto 40.765, para revogar o inciso II do artigo 2o do Decreto 40.593. Com isto suprimiu a modalidade de Videoloteria. Um reconhecimento de que andava em má companhia ao legislar sobre um assunto de competência federal exclusiva. Os outros jogos foram todos mantidos, inclusive a Loteria On Line/Real Time, sistema de apostas de última geração, só operado por poderosos grupos internacionais. Trata-se de um cassino virtual. Ele viabiliza qualquer tipo de jogo através de terminais de computador, que podem ser instalados até no bar da esquina.

Numa reportagem que assinaram na revista IstoÉ (edição número 1657, de julho de 2001), os Jornalistas Cláudio Camargo e Luís Milman revelaram que em troca de 9% para o Estado, o cassino virtual poderia movimentar até R$ 300 milhões por mês no Rio Grande do Sul. Uma parte substantiva, 31% , ficaria com os empreendedores, cabendo 60% para os sorteios.

Em nenhum momento os srs. Olívio Dutra, Miguel Rosseto, Flávio Koutzi, Arno Augustin e João Vicente Brizola, respectivamente Governador, Vice-Governador, Chefe da Casa Civil, Secretário da Fazenda e Diretor da Loteria Estadual, agiam movidos apenas no interesse público. Eles eram acionados o tempo todo pelos grupos interessados diretamente nas mudanças. Um dia antes da edição do Decreto que acabou com as Videoloterias, o Advogado Juarez Rosa da Silva documentou em carta que sabia com antecedência não apenas da mudança, mas conhecia também instruções internas da Loteria Estadual que sairiam nos próximos dias para regulamentar o funcionamento dos caça-níqueis, que é como é conhecida a Videoloteria no Brasil.

O Advogado Juarez Rosa da Silva é cunhado de João Carlos Franco Cunha, dono do Bingo Roma, na época a maior casa de jogos de máquinas caça-níqueis de Porto Alegre, localizada a duas quadras do QG da Polícia. Ele também é sócio de Thales carvalho, dono da maior banca de jogo de bicho do Estado.

O Governador Olívio Dutra, antes disto, em dezembro de 2000, assinou a Lei 11.561, que a pretexto de alterar as Taxas de Serviços Diversos, listadas na Lei 8.109, de dezembro de 1985, tenta dar por legais atividades de bingo, loterias instantâneas, loterias de chances múltiplas e loterias on line/real time. Esquecendo-se do que editara em maio, o Governo incluiu na lista as Videoloterias, que por isto voltaram a contar com aparente amparo legal.

No dia 22 de fevereiro de 2001, os Procuradores da República, Vitor Hugo Gomes da Cunha e Waldir Alves, entregaram um inédito ofício de três laudas ao próprio José Vicente Goulart Brizola, recomendando "à Loteria do Estado do Rio Grande do Sul que se abstenha de usar qualquer legislação estadual para credenciar, permitir, conceder ou autorizar toda e qualquer espécie de sorteio". O Ministério Público Federal também mandou que o Governo do Estado revogasse e anulasse eventuais credenciamentos, permissões, concessões ou autorizações já efetivadas, já que a atividade administrativa da área é de competência exclusiva da Caixa Econômica Federal.

Nem o Governo e tampouco José Vicente prestaram atenção ao que advertia o Ministério Público Federal.As agendas do Governo continuaram povoadas de entrevistas marcadas por Advogados especializados em advocacia administrativa.

As notícias sobre o que estava acontecendo dentro do Governo Olívio Dutra começaram a pipocar nas redações dos jornais de São Paulo, do Rio e de Brasília. No Rio Grande do Sul os jornalistas sabiam de tudo, mas ninguém noticiava nada. O Chefe da Assessoria de Imprensa do Palácio Piratini, o Jornalista Guaracy Cunha, mantinha as rédeas curtas com o uso simultâneo de patrulhamento e fartas verbas de publicidade.

Na redação da revista Istoé começava a se armar uma tempestade sobre o Governo do Rio Grande do Sul. A troca de telefonemas entre jornalistas da revista e colegas jornalistas gaúchos passou a ser frenética. O Governo do Estado soube o que estava acontecendo e pôs-se de sobreaviso. Logo a articulação palaciana alcançaria as redações de São Paulo. Os gaúchos não gostam de ver notícias suas na imprensa de São Paulo e Rio. É que isto só acontece quando é coisa ruim.

Jornalistas paulistas como Jaime Brenner e Cláudio Camargo, ambos da Istoé, de São Paulo, não eram exceções. Eles passaram a receber sinais do que estava acontecendo no Rio Grande do Sul através de seus colegas e amigos gaúchos e começaram a montar uma conexão com Porto Alegre para esclarecer tudo.

Logo o noticiário iria para as primeiras páginas dos jornais. Em São Paulo, a revista IstoÉ preparava-se para assestar um duro golpe no Governo do Rio Grande do Sul, mas antes disto passaria por conflitos internos que demonstrariam até que ponto o Jornalista Guaracy Cunha e o PT possuíam ligações capazes de interferir até mesmo na publicação de notícias decididas pelo Editor da revista.

Desta vez o Jornalista Guaracy Cunha pagaria caro pelo atrevimento. Por causa do incidente, ele foi premiado com a condição de primeiro Jornalista do Rio Grande do Sul punido pela Comissão de Ética do seu próprio Sindicato, o Sindicato dos Jornalistas de Porto Alegre.

Atento ao que estava acontecendo, o Ministério Público Federal do RS advertiu o Governo que era inconstitucional a legalização de qualquer tipo de jogo de azar em âmbito estadual.

O cerco começava a fechar em torno do Governo Olívio Dutra.

Os dados foram lançados.

Em Porto Alegre, o Movimento de Justiça e Direitos Humanos achava que não poderia ficar mais calado. Seria conivência da pior espécie.

As pressões sobre o Governo não vinham apenas de Jair Krishke e seus companheiros do MJDH. Também entre os aliados do Governo Olívio Dutra, no PDT, as notícias sobre as inconfidências do Delegado José Tubino causavam grande desconforto. O Secretário Geral do PDT, o ex-Deputado Wilson Muller, da mesma forma que Tubino, também ele um Delegado de Polícia e além disto irmão de outros dois Delegados, tentava convencer o Governo a fazer alguma coisa.

A insistência de Wilson Muller durou todo o período dos primeiros dois anos do Governo, até que o PDT acabou rompendo com Olívio, logo no início de 2000, o segundo ano do novo Governo. Isto provocou uma nova dissidência no Partido de Brizola no RS. Algumas lideranças do PDT resolveram ficar no Governo e filiar-se ao PT. Muller, que fazia parte da dissidência, tinha dúvidas porque não confiava mais em Olívio.

No dia 23 de março de 2000, ao meio dia, no Restaurante Copacabana, na Cidade Baixa, em Porto Alegre, o ex-Delegado Wilson Muller reuniu-se num almoço com lideranças da Democracia Socialista, a DS, tendência trotskista do PT do Rio Grande do Sul, para comunicar que não iria filiar-se ao Partido dos Trabalhadores. Muller estava ali com outros companheiros seus do PDT, que tinham decidido abandonar o Partido para ingressar no PT, diante da posição de Brizola de se afastar do Governo do sr. Olívio Dutra. Estavam ali com ele os srs. Sereno Chaise , ex-Presidente do PDT, Milton Zuanazzi, Secretário do Turismo de Olívio na quota do PDT, e Marcos Klasmann, Ex-Vereador do PDT, mais os principais líderes da DS, entre os quais o Vice-Governador Miguel Rosseto, o Secretário da Fazenda, Arno Augustin, e o ex-Prefeito de Porto Alegre, Raul Pont.

Wilson Muller quis aproveitar o almoço para denunciar formalmente ao Partido, ao PT, e não mais ao Governo apenas, a existência de um acordo entre o Governo do sr. Olívio Dutra e os barões gaúchos do jogo do bicho . Se o Partido fizesse alguma coisa, ele talvez revisasse sua posição de ficar independente. Raul Pont, ex-Prefeito de Porto alegre, e Arno Augustin , então Secretário da Fazenda, saíram perplexos do almoço. Os outros convidados já conheciam o caso.

As denúncias de Muller eram recorrentes, porque ele já vinha pedindo providências há mais de um ano, desde o início da nova administração, como único membro do PDT no Conselho Político do Governo. Fez isto numa reunião de março de 1999, primeiro ano do Governo, ao próprio Secretário da Segurança Pública, José Paulo Bisol. Muller e Bisol tinham sido colegas na CPI que resultou no impeachment de Collor, ele pelo PDT e Bisol pelo PPB. Embora do PSB na época, Bisol obteve a vaga numa cortesia do Senador Espiridião Amin, do PPB, que estava brigando com seu Partido.

O Secretário José Paulo Bisol não se surpreendeu com nada do que lhe disse seu ex-colega de Congresso. Ele já sabia de tudo e avisou que estava investigando o caso. Bisol não gostava do seu Chefe de Polícia, José Tubino, escolhido antes dele por Olívio. O Secretário achava Tubino incompente e faria tudo para derrubar seu Chefe de Polícia, o que conseguiu um ano depois, antes da instalação da CPI da Segurança Pública. Iria pagar caro por isto.

No dia seguinte, dia 24 de março de 2001, ele voltou a carga, mas desta vez numa reunião fechada com a totalidade da Executiva do PT. Ali contou todos os detalhes. O que disse e o que ouviu está registrado numa ata que a seu pedido redigiu o ex-Vereador de Porto Alegre, Marcos Klasmann.

As investigações que o Governo do Estado negava-se a fazer e o PT fazia questão de ignorar, explodiriam com toda a sua selvagem verdade poucos meses depois, na CPI da Segurança Pública, deixando a opinião pública brasileira perplexa e horrorizada. Seus efeitos devastadores aniquilariam todas as pretensões político-eleitorais de Olívio Dutra, como já tinha ocorrido apenas três anos antes com seu antecessor, Alceu Collares, também por força de outra CPI, a CPI da Propina. Naquele caso o algoz do PDT tinha sido o PT, mas neste caso o algoz do PT viria a ser o PDT.

Poucos dias depois, no dia18 de abril, foi instalada a CPI da Segurança Pública. Os 40 deputados que subscreveram o pedido de CPI listaram 12 fatos que geraram o requerimento e nenhum deles tinha nada a ver com as relações permissivas entre o jogo do bicho, os jogos eletrônicos e a extorsão de clientes do Governo do Estado. Isto só apareceu mais tarde.

Da mesma forma que ocorreu com o aparecimento do motorista Eriberto França (o caso da camioneta Elba) na CPI de Collor, também a CPI da Segurança Pública mudou surpreendentemente de rumo quando o ex-Delegado Wilson Muller, investido na sua condição de Advogado, entregou aos deputados uma fita que lhe alcançara poucos dias antes o ex-Chefe de Polícia, José Tubino.

Wilson Muller e José Tubino nunca foram o que se pode chamar de amigos. A maior parte da vida profissional de ambos foi marcada por desavenças graves. Não foi por outra razão que o ex-Chefe de Polícia procurou-o para entregar-lhe um pacote de fitas que abiscoitou cuidadosamente durante o primeiro ano do Governo do sr. Olívio Dutra. Ele sabia que o Secretário José Paulo Bisol conspirava abertamente contra a sua permanência no cargo e que não apenas seria derrubado, mas que além disto seria perseguido administativamente por ter vazado notícias sobre o triângulo jogatina-clientela pública-governo. Seus arapongas recolheram farto e comprometedor material de escuta.

A gravação do diálogo entre o Delegado Tubino e o sr. Diógenes Oliveira foi um ação muito simples. Não é o caso mais sórdido que guarda o ex-Chefe de Polícia. Quem ouviu as outras fitas acha que o sr. Olívio Dutra estava com toda a razão ao denunciar "ameaças de chantagem" contra o seu governo. O sr. Dutra nunca citou Tubino, Muller, Vieira da Cunha, Barbosa ou Jair Krishke, mas todos eles ouviram as conversas gravadas, mas nunca quiseram utiliza-las, nem mesmo na CPI da Segurança Pública, porque reproduzem cenas altamente comprometedoras da vida pessoal de autoridades estaduais de alto grau.

As fitas existem e as cópias não estão não apenas em poder do ex-Chefe de Polícia, José Tubino.

O Governo do Estado tentou impedir o conhecimento das duas fitas finalmente apresentadas aos Deputados por Wilson Muller. No primeiro caso, a gravação com a conversa entre Tubino e Diógenes, acabou liberada pelos Desembargadores, mas no segundo caso, a gravação de uma tentativa de intimidação praticada pelo Secretário José Paulo Bisol sobre duas mulheres de brigadianos, não pode ser mostrada na CPI da Segurança Pública.

Esta é a degravação completa da conversa que o Chefe de Polícia do Governo Olívio Dutra, José Tubino, manteve com o sr. Diógenes Oliveira, eminência parda do PT e do Governo, depois que Tubino procurou seu chefe no Palácio Piratini e obteve dele a recomendação de que fosse ao encontro solicitado pelo presidente do Clube da Cidadania:

" Diógenes: E aí Tubino, e aí meu caro, como vai? (inaudível) agora dei para fumar cachimbo.

Tubino: (inaudível) que cachorro tu tens aí?

Diógenes: Tem meu cachorro vira-lata.

Tubino: Ah é vira-lata? O teu guri taí?

Diógenes: Não. Botei na casa de uns amigos meu para brincar. Senta aí!

Tubino: E aí, tchê? Tudo tranqüilo?

Diógenes: Tenho dois guris, uma mulher européia (inaudível) Lisboa e o outro foi numa casa ali da vizinha para brincar, senão tu não agüenta.

Tubino: Que idade tem eles?

Diógenes: Eu tenho um guri de treze e outro de oito.

Tubino: Eu tenho um de dez e um de dezesseis. Muito esperto.

Diógenes: Que idade tu tens?

Tubino: 47, 48 eu fiz em janeiro agora.

Diógenes: (inaudível)

Tubino: Tu foste brigadiano?

Diógenes: Não. Até acho que falei demais na brigada. Mas quero te contar a minha história só pra tu entender, depois vou entrar num assunto sério. Como é que tu ta de tempo?

Tubino: Eu to com um pessoal me esperando no carro, ali. Eu tenho uma pessoa, tem duas pessoas me esperando, mas tenho tempo, não há problema.

Diógenes: Vamos conversar uns vinte minutos, uma meia hora.

Tubino e Diógenes: Prosseguem mais alguns segundos (inaudível)

Diógenes: Vamos tomar uma cervejinha?

Tubino: Não, não quero.

Diógenes: No ano retrasado (inaudível)... Brigadianos. O Ludwing (inaudível) fomos para Cuba.

Tubino: É, eles fizeram um curso, ciclo completo de polícia, o coronel Castro, o Ludwing, o Martin.

Diógenes: Martin não tava. Quem foi para Cuba conosco foi Ludwing, o Mafalda (inaudível). Esta gente aí. Eram trinta e tal brigadianos. Por isso que eu me tornei conhecido desta gente. Mas agora eu constatei – eu me dou bem com o Ludwing. – constatei que os malandros pegaram e botaram o Ludwing lá no QG e os outros se encastelaram todos ali na Casa Militar, por causa da tal da FG.

Tubino: Claro, tu sabes como é que ta na Casa Militar? Vinte brigadianos no gabinete do Vice-governador!

Diógenes: O Rosseto?

Tubino: É. E na casa Militar tinha cem, 107 ou cento e..., não 97. Hoje tem 70. Então 97 CCs, aquelas vantagens deles lá, ficou 90 na Casa Militar, 20 no gabinete do Vice-governador e as outras foram para a Secretária da Segurança Pública.

Diógenes: Eu quero te explicar o seguinte: Não tenho nada que ver com a Brigada.

Tubino: Não, eu sei disso.

Diógenes: Na campanha do Olívio eu coordenei as relações empresariais.

Tubino: Fizesse o controle do caixa deles.

Diógenes: Não, o tesoureiro era Davis Stival. Eu ajudei na campanha, vamos aqui falar entre nós (inaudível).

Tubino: Campanha se gasta e muito dinheiro.

Diógenes: A nossa deve ter custado aí cinco seis milhões de reais. E eu sou o presidente do Clube de Seguros, comprei aquela sede do Partido e coordenei esta parte, assim, do atacado, entende, da campanha. E agora o Olívio pediu para aproximar as relações deles na área (inaudível). Eu queria conversar contigo duas coisas. Primeiro, vamos entrar direto no assunto.

Tubino: Eu até estranho, que eu não sei, o Diógenes teve lá com o Dirceu falar da arrecadação, depois ele disse que ia falar comigo, eu digo, até hoje não tive nenhum assunto com ele que não fosse no Palácio da Polícia. Em todo caso...

Diógenes: Em todo caso, eu falei com o Olívio e disse que ia falar contigo. Perguntei pro Olívio: tu não acha que seria melhor tu telefonar pro Tubino e dizer que eu vou falar com ele, ou posso falar direto? Não, fala direto. Isso foi..., eu almocei com ele domingo, depois segunda-feira de manhã ele me ligou. Porque eu to articulando uma maneira de (inaudível) sair desta enrascada e preciso de um retorno. Ah não! Isto é uma coisa muito séria.

Tubino: A situação é crítica, na tchê?

Diógenes: Ah é, olha é bom tu falar com o Tubino, ele é um amigo meu, uma pessoa muito boa, mas não é muito afeito a essas coisas do PT. Que que eu quero? Duas coisas que quero falar contigo: uma vou direto e a outra é uma análise mais geral das questões da segurança pública e dos agentes intervenientes neste processo. Tenho conversado muito com ele desta e outras tantas questões. E esta coisa do PT – seja franco comigo, heim! – nós temos que jogar aberto, depois quero dar um toque pro Olívio. Sabe que ao longo desta campanha do Olívio e da outra do Tarso e das outras, nós sempre tivemos uma relação muito boa, muito estreita, com esse pessoal do Carnaval e do Jogo do Bicho.

Tubino: Sim.

Diógenes: É uma coisa histórica. É um assunto delicado, tu conheces melhor do que eu, eu não quero perder tempo nisso. Eu queria ter a tua opinião, porque nós achamos (inaudível) na campanha do Olívio, que tu separando o que é o crime organizado e a questão do JB, o que é, que tu achas, da a tua visão disso aí.

Tubino: Tchê, eu vejo o seguinte, a minha visão.

Diógenes: Mas bem franco!

Tubino: Não, bem franco, bem franco. Desde que eu entrei na Polícia sempre se comenta relações do jogo do bicho com a polícia. Comigo nunca tive relações. Quando ninguém, eu tenho, eles fazem o jogo do bicho, mas a primeira relação que eu tive, a primeira pessoa que me visitou um dia, na delegacia de Polícia, foi o, eu entrei delegado de Polícia, no primeiro dia, na primeira visita, eu não era policial antes, foi o de um bicheiro. Ele era vereador do PMDB em Serafina Corrêa e ele veio lá e disse: Olha delegado, eu vim aqui saber qual é o esquema. Eu disse: não tem esquema. Tu faz o teu jogo e eu faço a minha polícia. Se houver comprometimento de uma com a outra eu to te ferrando; e assim eu levei.

Diógenes: Veja, olha aqui, ó: eu não quero entrar no mérito de toda esta questão do Vale dos Sinos e aquele cara lá do (inaudível) bicheiro. A nossa relação com esse pessoal é aqui em Porto Alegre. Por quê? Porque na prefeitura, na Secretaria Municipal de Cultura, no carnaval, na campanha, sempre tinha uma relação bastante boa. O Olívio conhece os caras, eu conheço, o Pilla Vares conhece, todo mundo conhece. Bom, eu não vou dizer nomes, não é o caso. Então eu queria te falar especialmente sobre este aspecto, porque, senão, aquilo que eu to brigando com o Augustin, qualquer dia eu vou detonar, o Arno Augustin da Fazenda. O Olívio entra num bar pra tomar um trago ou pra comer um pedaço de peixe frito ou vai num restaurante pra almoçar, e o cara pega, olha aqui governador, to com um problema aqui de ICMS. Eu disse pro Arno: Arno, tu tem que aparar essas coisas. Tu não pode deixar o governador importunado, porque um cara lá quer reparcelar o ICMS e tal. E mais uma vez ele ficou de marcar – e eu até te agradeço por ter vindo aqui falar comigo – e eu vou dar retorno disso pro Olívio imediatamente. Eu vou agora na presença do Arno. O Luiz Fernando Tubino veio prontamente, atendeu um convite meu para a gente conversar. E aí vão dizer, não mas este pessoal... mas na primeira oportunidade que eles encontram o Olívio – encontraram domingo ali na Casa de Cultura, ... ô Governador, como é que é, sei lá, não se o que e tal e a nossa situação? Eu acho que o Governador Olívio não tem que ser importunado com isso. Existem problemas muito mais graves para resolver. São problemas da própria governabilidade do Estado e da estabilidade.

Tubino: Antes tu falaste na Arno Augustin, eu me lembrei: Não sei, até podia ver isso aí, tem um empresário conhecido meu, ele quer compensar, ele tem um crédito de três milhões de ICMS e quer dar este crédito em pagamento de uma outra empresa.

Diógenes: Não, é uma coisa banal. O Arno ta me devendo. E se ele amanhã não falar comigo, eu vou detonar este cara. Qual o teu papel? Eu quero que tu entendas isso: eu sou amigo do Olívio, conheço ele há muitos anos, ajudei a fazer a campanha e to assessorando o Olívio, eu digo, na área das relações empresariais, mas eu amplio um pouco mais isso, na área de sociedade. Eu não vou nunca te perguntar o que tu ta fazendo na Polícia, porque é a tua área de competência. Não sou de me atravessar nas coisas nem de fazer (inaudível). Mas algumas coisas a gente tem que aparar para que o governador não fique empastelado no meio de pequenos problemas. Qual é a tua visão aqui, especificamente, sobre a situação do Jogo do Bicho, aqui em Porto Alegre.

Tubino: Porque é que não é liberado isso? Porque não há uma liberação formal, porque que não há..., eu não tenho nada, eu pra mim não me constrange nada. O problema, eu não vejo cartelização, é..., eu não vejo outro envolvimento desse pessoal com outros crimes, a não ser sonegação fiscal, a não ser conformação e organização de quadrilha, de bando, a não ser com a corrupção e a não ser com a improbidade, improbidade não, os crimes contra a ordem econômica e tributária, aonde foram buscar, na prova, e a prova passa a ser produzida. Eu fiz recentemente umas máquinas eletrônicas, cuja matéria jornalística dá que é um cartel, que é uma máfia no Brasil, isso é lavagem de dinheiro. Que eles teriam dois milhões de dólares pra botar na mão de policiais e não sei o que mais, está na matéria. Mas, na realidade, se botaram, botaram na mão do Pelé. Botaram na mão do Pelé, há uma legalização do jogo, há uma legalização dessas máquinas eletrônicas, nos bingos. Tem um expediente que eu fiz, montamos, eu desenvolvi com uns delegados uns grupos ai, mandamos pro ministério Público. Aqui, no Ministério Público, entendeu que não há legalidade, então é assim, ó: fica as relações humanas, elas são complicadas, eu estas questões. Desde que eu entrei na Polícia, eu mantenho esta relação, eu sou policial, eles são bicheiros. Eu cago e ando pro que eles fazem. Agora, eu não tenho repressão contra eles, eu convivi com todos, cidades como Veranópolis, como Caxias do Sul, é só perguntar minha história e ver o que é que eu tenho nesta história toda. Então, o que, chegar á Chefia de Polícia e ter conversas por aí, isto certamente tem, agora, eu não tenho nada que ver com isso.

Diógenes: (inaudível)

Tubino: O que eu estranho é que eu conversei com o Olívio e perguntei assim: primeiro, porque quando se colocou esta situação que ele me convidava para assumir a Chefia de Polícia, que quero saber o que tu queres com a Polícia, qual é a finalidade, qual é o objetivo. Conversei com o Bisol. Eles que estabelecem a política de segurança e eu executo. Eu não sei qual é o interesse dele, qual é a, vamos dizer assim, o objetivo. É pra reprimir, não é pra reprimir? Eu conheço a história, meu pai foi político, lá no tempo do Menegetti, o Dutra, meu pai hoje tem 86 anos, um homem velho, se aposentou como procurador de Estado, consultor jurídico da Assembléia Legislativa, na qual passou 38 ou 39 anos ali e ele tinha uma boa relação também com o Brizola, tinha uma boa relação com várias pessoas que passaram por aquela oportunidade pelo governo do estado, e um dos governadores é, uma vez, determinado momento, usou de recursos do Jogo do Bicho pra campanha e quando ele sentou no Governo, a política é do Governo. Agora, eu não, eu pra mim, isso... eu convivo com eles sem problema algum. Agora se tiver que fazer caixa, se tiver que fazer alguma coisa, ai o senhor, que é o intermediário dos empresários, pode ir atrás deles e fazer. Agora, eu não posso fazer isso.

Diógenes: Não, não. Eu não to te dizendo isso, absolutamente não. Eu só quero te deixar uma coisa bem clara. Não quero me imiscuir na tua esfera de competência. Das relações da Polícia, das atividades precípuas da polícia, aquilo que ela tem que fazer são orientações do secretário de segurança, do Governador e do Chefe de Polícia e do comandante Geral da Brigada Militar. Sou muito amigo do Ludwig, sou muito amigo do Olívio, mas eu jamais vou me meter numa coisa dessas. O que eu estou te dizendo, conversando contigo por determinação do Olívio, falei com ele, ele disse que não só era bom como era necessário que eu falasse contigo, é te dizer para tu saber dessas relações que nós temos com esse pessoal, desde que eles não interfiram no crime organizado.

Tubino: Lógico.

Diógenes: E ai tu é que tem que dizer onde é interfere ou não.

Tubino: Não, eu acho que tem um comprometimento deste segmento com outros segmentos criminosos. Acho que tem. Eu já nem faço referência à questão de tóxico, que eu acho que eles não misturam essas coisas do tóxico, como no Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro há um comprometimento maior na questão da, do tóxico, talvez com o Jogo do Bicho. Aqui, na realidade, se pegarem isso ai, e disso se vale várias instituições para se locupletar disso aí. Se pegarem isso aí e foram fazer realmente umas verificações, há outros crimes envolvidos. Isto não pode passar despercebido. Agora, eu só vou reprimir, eu só vou fazer uma repressão, até porque a Polícia hoje carece de efetivos para a repressão, numa ação organizada entre Ministério Público e Polícia Civil, para que se possa fazer e atacar isso aí com eficiência. Senão houver uma eficiente, um combate eficiente, só serve para complicar as coisas. Aí reprime uma banca, não sei o quê, aí diz, não... eles tão forçando pra morder. Aí se disser, não, se não reprime mais, já acertaram o caixa. Então tu sempre, o discurso de que ou tu ta pressionado para ganhar dinheiro ou tu já afrouxou porque já ganhou dinheiro.

Diógenes: Então assim, ó: O que que eu queria ver contigo. Tem uma boataria sobre esta questão do bingo, aquele bingo ali da Rua da Praia que burla, eu nem entro no mérito desta questão. Se eu vejo um bingo funcionando e aquelas máquinas ali e tal, com porta aberta, olha, alguém permitiu aquilo. Alguém legalizou, alguém... não sei.

Tubino: O bingo tem importação ilegal das máquinas. O bingo tem o estelionato no chip das máquinas, né. Tu altera o chip, tu modifica tudo. O bingo tem, fundamentalmente, a sonegação fiscal contra a Fazenda Estadual, porque eles operam, antes o imposto era da fazenda Estadual e isso agora passou para a União, pela lei Pelé. A lei Pelé modificou e o Pelé, se alguém se locupletou disso tudo foi o Pelé, que ganhou dinheiro da Máfia, porque permitiu que nas salas de jogos de bingo, tivessem máquinas eletrônicas para divertimentos eletrônicos. Então isto tem um cartel, tem tudo que está por trás disso ai e que isso ai se o Governo mandar reprimir, nós vamos reprimir. Se não mandar, deixa assim. Se negociar o Governo com eles, o problema não é meu.

Diógenes: Mas eu acho que é assim, ó: o Governo do Estado, de repente se isso é uma lei federal, tem que ter uma postura sobre estes bingos. O problema é que são dez ou vinte bingos, abertos pelo Estado.

Tubino: Centenas de bingos.

Diógenes: Centenas, tu ta dizendo! Não sei como é que funciona, que amparo legal tem, se alguém fiscaliza ou se não fiscaliza ou se o Arno um dia vai lá e vê como os bingos estão.

Tubino: Tem que fiscalizar, quem fiscaliza esse assunto era a Fazenda Estadual, fiscalização dos bingos. Mas, parece que passou tudo à competência da União. E quando a Fazenda fiscalizava, tributava, pagavam, eles tinham uma receita em torno daí 500 mil reais para a fazenda Estadual por mês, com uma sonegação de 90 por cento e uma legalização muito pequena deste jogo. Então, imagina regulamentado! E depois parece que passou tudo para a esfera da União, perdendo então a Fazenda, esta arrecadação e o controle dos bingos. Eles tinham um setor ali de controle dos bingos. A lei Pelé levou para a União estes recursos. Então isso também é uma questão política, é uma questão de governo, de verificar esta legislação, de verificar o interesse público, porque isso é uma máquina de renda fantástica, é uma loucura que estes caras têm na mão. E hoje, certamente, pela miserabilidade deste povo, nem o Jogo do Bicho tem expressão alguma. Eu acho que hoje só esta máquina eletrônica, passa a ter este faturamento, um faturamento elevado e estes caras todos, eles mudam o foco, eles vão para um faturamento eletrônico, para o sistema eletrônico. Isso aí tem...

Diógenes: Eu não quero entrar nesta questão de bingos, se eles tão misturado ou não, eu não entendo isso. O que eu me refiro é esse pessoal da Associação essa, que tem aqui na Avenida Ipiranga, do Carnaval, do pessoal, eu vou ali num bar. Eu tenho uma agência de viagem ali na Cristóvão Colombo, enfrente à Brahma. Um bodegueiro ali, que eu tomo um martelinho, um rabo de galo, ele faz Jogo do Bicho. As vezes eu vou ali e faço o Jogo do Bicho. E isso é uma praxe, uma cultura tão disseminada (inaudível). É deste assunto que eu queria te falar, porque este pessoal...

Tubino: Eu me criei, fazendo com a minha avó, fazia com todas as extrações do Jogo do Bicho ela fazia. Eu era guri, ia pela mão com ela e fazia o Jogo do Bicho.

Diógenes: Então, falar deste assunto, eu deixo à tua ponderação, ver qual é a tua posição política. Nós achamos que não tem que reprimir esta gente! É contravenção! Se for na letra fria, põe estes caras na cadeia!

Tubino: Na realidade, a contravenção existente no jogo, ela é hoje descriminalizada. Tu pega eles pela sonegação fiscal, tu pega pelos crimes contra a ordem contra a ordem econômica e tributária, que vai dar na sonegação. Tu pega eles em qualquer outra organização.

Diógenes: Mas como eles não podem pagar imposto, é que nem um táxi lotação. Aqui em Porto Alegre, eu fui secretário de Transportes quatro anos do Olívio. Se tu pegar o táxi lotação, tem quatrocentos táxis lotação rodando na cidade. Nenhum tem roleta. Nenhum paga imposto. Ou seja, nenhum paga imposto. Tudo caixa dois. É a vida. Tu não tem como pegar esses caras. Se tu for botar roleta, como é que tu vai botar roleta em táxi lotação? Não bota. Como sabe quantos passageiros ele transporta? Não sabe. Como é que tu vai cobrar imposto? Então não cobra nada. É uma caixaria desgraçada. O bicho é isso, esta coisa antiga. Eu fui muito amigo do falecido Glênio Perez. (inaudível). Eu tive no exílio, o Glênio lutou pela anistia. Eu hoje to no Brasil, eu reconheço, um dos que lutou para que eu tivesse aqui foi o Glênio Perez.

Tubino: Eu me lembro do Glênio.

Diógenes: Era um bicheiro. O irmão dele tocava o Jogo do Bicho.

Tubino: Ah, isso eu não sei.

Diógenes: Ah, mas eu sei.

Tubino: Eu sabia que o Glênio era daquele (inaudível)

Diógenes: (inaudível) bêbado. Mas era uma grande figura.

Tubino: Ele era o macho daquele, do cara que era do Touring. O Goidanich.

Diógenes: Humm! Dito isto, meu companheiro Tubino, eu queria passar para um outro assunto contigo. Eu acho que eu conversei, eu não quero conversas essas coisas (inaudível). Eu acho que ele não merece. O Olívio é um grande político. Ele é um cara que ta projetado para ser uma figura nacional, com um rescaldo destas coisas todas e nós estamos montando uma saída, pra ele não se embretar e ter governabilidade. O Itamar amanha resolve (inaudível) botar o Estado num brete e decretar uma moratória (inaudível). O Olívio não vai fazer isso. Nós estamos construindo uma alternativa para que ele saia bem e se projete como uma liderança nacional. A outra questão que eu conversei com o Olívio é a questão da governabilidade (inaudível). É interesse dele se fortalecer na política. E não ficar nestas crises tira e bota. Tu viu o que aconteceu hoje com o presidente do Banco Central?

Tubino: Se fortalecer na política?

Diógenes: Não na política! O chefe de Polícia é permanente no Governo do Olívio. Sem crise, sem tumulto, sem burburinho. Ele tem muita noção (inaudível). A Secretaria de Segurança, não vou te falar o que que é. É um bando de gente que não entende nada do riscado.

Tubino: Vão fazer um laboratório naquilo lá e vai ser uma pena. O Olívio vai pagar caro por esse...

Diógenes: Mas, Tubino, eu quero que tu tenhas consciência do seguinte: se tu tiveres uma noção exata deste experimentalismo, deste amadorismo daquela gente ali, as Isabel, do Lauro Managno, Bisol, daquele outro cara lá, que botaram na Susepe. Aquilo ali é tudo um bando de aprendiz de feiticeiro. Nem soa aprendizes de feiticeiro. São amadores. Tinham que ter chamado homens experientes da Polícia pra dar uma conversada. Ah, vocês não podem continuar esta guerra com a Brigada.

Tubino: Mas quem está estimulando a guerra, ô Diógenes, é o próprio Bisol e a própria Brigada. O Bisol ta repetindo o mesmo erra do Eichemberg.

Diógenes: Mas nós não podemos continuar nisso, senão nós vamos botar o Olívio, que tu conhece, que é um homem público que quer governar, num brete, que tem que estar decidindo entre a sarjeta e a cloaca.

Tubino: Agora, isso eu disse pro Olívio, há seis anos atrás, numa reunião lá, que ou ele fazia tudo com a Brigada no primeiro dia ou ele tava morto. E ele já está morto pela Brigada. A Brigada é a instituição que vai solapando, vai corroendo.

Diógenes: Não, não, não.

Tubino: Não vai atrás disso.

Diógenes: Eu conheço o Olívio, conheço o PT, cara. Eu sou mais velho que tu, me permite esta liberdade. Eu não to te tratando aqui com o Chefe de Polícia. O Olívio não é homem de se deixar enganar por este ou aquele setor, ou por ser levado no bico. Não vai acontecer. Tudo o que ta ai neste burburinho, ele está perfeitamente ciente disso. Ele ta deixando, dando corda na linha, mas vai chegar o momento, ele vai botar isso nos eixos"

É fácil imaginar a repercussão do incidente.

Chamados a CPI, os srs. Diógenes Oliveira e Tubino confirmaram a conversa, mas Diógenes, submetido a pressões invencíveis, alegou que dera apenas um carteiraço no Chefe de Polícia. Isto aconteceu momentos antes de encenar a ocorrência de graves distúrbios emocionais que o levaram a interromper o depoimento e ser levado às pressas para o Instituto de Cardiologia, de onde jamais retornaria à Assembléia. Depois disto ele foi desautorização pelo Governador Olívio Dutra, seu velho amigo e companheiro, acabou saindo do PT para não ser expulso e passou a vagar como um sonâmbulo entre os antigos amigos e companheiros que não queriam mais ser vistos em sua companhia.

Foi um fim melancólico para quem passou a vida a serviço da causa.

A mídia brasileira não podia mais ignorar o que estava ocorrendo no Rio Grande do Sul.

Em São Paulo, a revista IstoÉ resolveu repercutir as denúncias que estavam ocorrendo na CPI da Segurança Pública e na imprensa gaúcha. O Jornalista Jaime Brenner, lembrou-se que tinha um amigo gaúcho, o Jornalista Luís Milman, com quem já tinha trabalhado junto no Correio Brasiliense, em 1997. Ganharam até prêmios juntos. Ele manteve o primeiro contato com Milman. O passo seguinte foi costurar uma reportagem a quatro mãos entre o Jornalista Cláudio Camargo e Milman, no Rio Grande do Sul.

A revista Istoé passou todo o Governo Fernando Henrique Cardoso criando-lhe problemas, ao mesmo tempo em que fazia concessões de todo o tipo ao PT. Ela apostou suas fichas na eleição de Lula.

Não seria nada fácil publicar uma reportagem denunciando o Governo do PT no Rio Grande do Sul. Milman sabia disto e Claujdio Camargo também. As resistências seriam enormes – internas e externas. Milman confiava no taco de Camargo, porque sendo Editor da revista, a reportagem dificilmente iria dormir nas gavetas.

No início de junho de 2001, o Jornalista Cláudio Camargo voou para Porto Alegre e ficou uma semana na cidade. O que ele e Milman desvenderam ? O mesmo que concluiu bem mais tarde a CPI da Segurança Pública: o governo do sr. Olívio Dutra e o PT, através do Clube da Cidadania, mantinha uma relação íntima e promíscua com o pessoal do jogo.

No Rio Grande do Sul, por obra e graça do Governo Estadual e do PT, o jogo do bicho foi franqueado e os seus barões estavam migrando para a exploração de jogos eletrônicos que começavam a ter amparo em leis e decretos ilegais gerados dentro do próprio Palácio Piratini.O mais visível desses jogos são os bingos e as máquinas caça-níqueis. São todos operados por bicheiros gaúchos ou de outros Estados, como também por aventureiros internacionais argentinos e espanhóis.

Uma mídia paga inédita inundou jornais, rádios e televisões do Rio Grande do Sul.

O Jornalista Cláudio Camargo voltou no final da primeira semana de junho de 2001 para São Paulo e na semana seguinte editaria a reportagem na revista Istoé. Na quinta-feira à noite, 7 de junho, Camargo fechou a reportagem, que baixaria no dia seguinte, sexta-feira, dia fatal para as revistas semanais nacionais. Ela já estaria rodando na Internet na própria noite da edição.

Em Porto Alegre, estavam todos avisados e ansiosos.

Nos porões do Palácio Piratini, o Jornalista Guaracy Cunha e seus assessores também sabiam o que estava acontecendo. Olívio Dutra foi avisado muito antes, até porque Milman e Camargo tentaram entrevistar-se com ele e com outros membros do Governo e saíram das ante-salas palacianas de mãos abanando. Ninguém quis falar nada.

A reportagem de Cláudio Camargo e Luís Milman não foi publicada.

1. Você está acordado ?

Era Cláudio Camargo, de São Paulo, sábado de manhã, quem estava

Do outro lado da linha. Luís Milman ouvia perplexo o que o amigo estava contando.

- É que entrou outro material mais importante e tive que disputar espaço, mas perdi a parada.

"O pessoal do Palácio Piratini não perdeu tempo", pensou Milman, que continuou ouvindo o amigo pelo telefone. Muita gente da redação da IstoÉ tinha compromissos ideológicos e partidários com o PT, prevalecendo os apelos dos companheiros de Porto Alegre. Isto acontece em qualquer publicação. Na queda de braço, Camargo e Milman tinha sido momentaneamente derrotados.

2. Mas vamos dar tudo na semana que vem.

Veio a outra semana e no dia 16 a revista circulou novamente sem a reportagem.

A reportagem não saiu mais.

As pressões feitas pelo Governo do Estado não foram nem um pouco discretas para cima dos editores da IstoÉ. A Jornalista Denise Mantovani, mulher do Chefe de Gabinete do Governador Olívio Dutra, Laerte Méliga, também ele Jornalista, e Adjunta do Chefe da Assessoria de Imprensa, Guaracy Cunha, despachou uma correspondência oficial para a revista, censurando a publicação da reportagem que ainda estava sendo elaborada em São Paulo. Cláudio Camargo confessa que nunca viu nada semelhante. Ele foi bombardeado com telefonemas ameaçadores e e-mails inquietantes expedidos de dentro do Palácio Piratini.

A carta da Jornalista Denise Mantovani pressionando IstoÉ a fazer censura prévia à reportagem, valeu-lhe uma censura pública da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas de Porto Alegre, que se seguiu a outra punição igual tomada contra seu Chefe, o Jornalista Guaracy Cunha. São casos únicos na história do jornalismo do Rio Grande do Sul. Um fato insólito, ainda mais porque o Sindicato dos Jornalistas é tradicionalmente reduto do PT.

Em Porto Alegre a CPI da Segurança Pública ganhara dimensões de escândalo político depois do episódio das fitas apresentadas pelo ex-Delegado e Advogado Wilson Muller. A opinião pública estava estarrecida com o que viu na TV, ouviu nas rádios e leu nos jornais. O sr. Diógenes Oliveira escondera-se no hospital.

Foi quando outra fita devastadora para o Governo Olívio Dutra e o PT surgiu na Assembléia Legislativa. Desta vez, um Tesoureiro do Diretório Regional do próprio PT, o sr. Jairo Carneiro, numa entreista a dois jornalistas de Zero Hora, o principal diário gaúcho, denunciava a trama diabólica montada por Diógenes Oliveira, mas com uma riqueza de nomes, datas e locais estarrecedores.

Em São Paulo, o âncora do jornal do SBT, Boris Casoy, narrou o novo incidente, encerrando sua intervenção com o bordão que costuma horrorizar quem tem culpa em cartório:

- Isto é uma vergonha !

Era 4 de julho de 2001, um mês depois que Camargo e Milman tinha começado a garimpar a notícia em Porto Alegre. Desta vez os editores da revista IstoÉ acharam que era demais. Eles estavam sonegando do conhecimento da opinião pública brasileira episódios escandalosos e a publicação poderia ser cobrada por esconde-los dos seus leitores. Ninguém mais conseguiu impedir a publicação da reportagem elaborada a quatro mãos por Cláudio Camargo e Luís Milman. Ela foi capada em duas páginas, mas ainda assim as quatro páginas que saíram foram devastadoras para o Governo do Estado e para o PT.

A publicação da reportagem desnorteou o Governo e o PT, porque pegou-os desprevenidos. Eles imaginavam que o episódio fora desmontado para sempre no início de junho e de se desmobilizaram. Foi um erro fatal.

A demora de IstoÉ também extraiu da reportagem do dia 4 de julho todo o impacto e toda a novidade que ela teria causado um mês antes, porque o próprio Milman, com autorização da revista, tratou de aproveitar os termos do material recolhido para produzir um documento oficial em nome do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, denunciando o Governo do Estado de envolvimento com a jogatina.

A reportagem publicada em São Paulo é esta:

No mesmo dia 4 de julho, as 9h51 da manhã, o Chefe da Assessoria de Imprensa do Palácio Piratini sentou-se diante da sua velha escrivaninha de madeira, virou-se em seguida para o seu surrado microcomputador Unysis e disparou uma irada mensagem de sete páginas para Hélio Campos e Carlos Drummond, ambos da Direção de IstoÉ, em São Paulo. Ele estava indignado com o que acabara de ler a partir da página 36. "A reportagem violenta todos os códigos de ética conhecidos da imprensa brasileira", escreveu logo de cara Guaracy Cunha, que atribuiu esta sua constatação a um inacreditável vício de origem:

- Um dos autores da reportagem, o Jornalista Luís Milman, é militante do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, porrtanto co-autor de um relatório intitulado "Denúncia ao Poder Legislativo", no qual o Governo do Estado é denunciado por supostas vinculações com o que chama de jogatina clandestina.

Depois de rebater as denúncias da revista, coisa que não quis fazer antes para o Jornalista Cláudio Camargo, a carta lembra que o Palácio Piratini quis impedir a publicação da reportagem, cujo teor não conhecia e não quis comentar previamente: "Por fim, cabe observar que, no decorrer da semana que antecedeu a publicação desta reportagem, Istoé foi devidamente alertada – na pessoa do Jornalista e Editor Cláudio Camargo, através de contato telefônico e correspondência eletrônica – sobre o erro que cometgeria com a veiculação de matéria comprometida pela dupla personalidade de um dos seus autores".

O Diretor de Redação da Istoé, Hélio Campos, não conseguiu acreditar no que estava lendo. Jamais passou pelas suas mãos um documento tão atrevido de autoridade pública do escalão em que se colocava Guaracy Cunha. "O que é que este caipira está pensando ?", vociferava Hélio Campos pela redação, indignado com o tom provinciano da reclamação, que no entanto era o mesmo que costumava ser aceito sem reclamações pelos editores dos jornais, rádios e TVs do Rio Grande do Sul. Apesar disto ele resolveu editar a carta, expurgar dela as ofensas pessoais a Milman e Camargo, e reforçar a denúncia em matéria editorial de resposta. Foi o que acabou acontecendo.

Nem dez dias depois, no dia 17 de julho, o Secretário Especial do Interior, Dirceu Lopes, que acabara de desembarcar novamente em Porto Alegre, vindo da cidade onde morara, a interiorana Rio Grande, endereçou uma Representação Criminal ao Procurador-Geral de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, contra Luís Milman e Cláudio Camargo. Ele se sentiu pessoalmente atingido pela reportagem, porque a matéria fez uma breve referência a visita de Lopes e Diógenes Oliveira, logo no início do mandato de Olívio Dutra, em janeiro de 1999, para cobrar dele as comissões de 30% que o PT costuma exigir dos ocupantes de Cargos em Comissão e Funções Gratificadas. O Ministério Público Estadual acolheu a absurda denúncia e iniciou os procedimentos para processar os dois Jornalistas.

O Governo do sr. Olívio Dutra usou e abusou da prerrogativa legal de denunciar Jornalistas ao Ministério Público, à Polícia Civil ou à Procuradoria Geral do Estado, para conseguir advocacia gratuita. Foi a maneira que encontrou para manter sob cerco cerrado os críticos do Governo, ameaçados de ir para a cadeia, ter seu patrimônio dilapidado por indenizações ou perder a primariedade. Uma diabólica censura oblíqua.

Desta vez Guaracy Cunha, Denise Mantovani e Dirceu Lopes não ficariam sem sem resposta. As punições ao atrevimentoque demonstravam, já estavam vindo a cavalo. É que desde o dia 28 de junho de 2001, antes mesmo da publicação da matéria censurada de IstoÉ. Neste dia o Jornalista Luís Milman protocolou no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul endereçou um curto requerimento de 25 linhas à Comissão de Ética, pedindo censura pública contra a Jornalista Denise Mantovani, Adjunta de Guaracy Cunha na Assessoria de Comunicação Social do Piratini.

- No dia 27 de junho, a Jornalista Denise Mantovani endereçou e-mail ao Jornalista Cláudio Camargo, Editor Internacional da Revista Istoé, correspondência na qual investe contra a liberdade profissional do requerente, ferindo, assim, o nosso Código de Ética (artigos 5o e 9o).

Não era preciso mais do que 25 linhas. A prova: a carta de Mantovani.

O Jornalista Luís Milman, também professor de filosofia, mestre e doutor em Filosofia não é um rapazote inexperiente que não sabe o que faz. Ele é um especialista em reportagem investigativa.

Um mês depois, no dia 7 de agosto de 2001, uma nova representação foi protocolada no mesmo Sindicato dos Jornalistas, mas desta vez contra o próprio Guaracy Cunha. A prova anexada foi a cópia da carta enviada a Cláudio Camargo, onde Cunha reforçou as críticas de Mantovani e acrescentou outras contra o próprio Camargo e Milman.

A Comissão de Ética nunca foi um aparelho do PT, como era o caso da diretoria do Sindicato dos Jornalistas, porque o PT jamais viu sair dela qualquer decisão. Acontece que as coisas estavam mudando. O Presidente da Comissão de Ética, um Jornalista e Professor, mas também um parlamentar do PSDB, atual Vice-Governador do Rio Grande do Sul, Antonio Hohfeldt, não pôs panos quentes na denúncia e puniu Guaracy Cunha e Denise Mantovani com advertência reservada "por falta de ética profissional".

No Rio Grande do Sul somente dois Jornalistas foram punidos em toda a sua história por falta de ética profissional. A lista inclui apenas os Jornalistas Guaracy Cunha e Denise Mantovani.

A partir daí uma seqüência de requerimentos e representações de funcionários do Governo e militantes do PT entulharam a caixa de correspondência da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas. A idéia era que a Comissão de Ética voltasse atrás no caso Guaracy Cunha e Denise Mantovani e passasse a um imediato processo de punição do Jornalista Luís Milman. Apesar dos nomes envolvidos, a Comissão de Ética ignorou a disputa e manteve sua decisão. O mesmo grupo voltou a insistir inúmeras vezes, pedindo a reabrtura do caso ao próprio Sindicato dos Jornalistas. A lista dos signatários incluiu nomes conhecidos como Antonio Oliveira, André Pereira, Ayrton Kanitz,, João Aveline e Divino Fonseca. Ayrton Kanitz e Divino Fonseca foram os mais insistentes.

Nos bastidores, as ligações políticas e ideológicas dos dirigentes sindicais dos Jornalistas de Porto Alegre, São Paulo, Rio e Brasília, operavam resultados mais eficazes do que as atrapalhadas reclamações de Antonio Oliveira, André Pereira, Ayrton Kanitz, João Aveline e Divino Fonseca.

Passando por cima da Comissão de Ética e do próprio Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul, os Jornalistas Guaracy Cunha e Denise Mantovani encaminharam recurso diretamente à Comissão Nacional de Ética da Federação Nacional dos Jornalistas. Já tinham acertado tudo com seus companheiros de Partido, o PT. O Secretário Geral da Fenaj era nada mais e nada menos do que o ex-Presidente do Sindicato gaúcho, Celso Schroeder.

O recurso não está previsto em lugar algum. Foi uma decisão política e Guaracy e Mantovani buscaram a alternativa porque sabiam que a identidade ideológica de ambos com a direção da Fenaj era garantia da absolvição. O Código de Ética dos Jornalistas é explícito ao garantir aos inconformados com decisões das Comissões de Ética Regionais, recurso às Assembléias Gerais do Sindicatos, num rpazo máximo de dez dias (Art. 24, parágrafo único). Isto não foi feito. Aliás, também sobre a fase de instrução do requerimento de Milman, Guaracy Cunha e Denise Mantovani negaram-se a se defender, apesar de notificados.

O recurso à Fenaj foi apresentado no dia 25 de outubro de 2001, portanto dois meses depois da punição imposta pela Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul. Em momento algum eles tinham aproveitado os prazos do Código de Ética para oferecer defesa, nem mesmo quando a primeira denúncia de Milman fora encaminhada a Antonio Hohfeldt.

A decisão da Comissão Nacional de Ética da Fenaj foi pela absolvição de Guaracy Cunha e Denise Mantovani, sem que o Jornalista Luís Milman tivesse sido notificado a qualquer tempo da existência do recurso e portanto sem obediência ao necessário contraditório. Além disto, os Jornalistas que assinaram a carta enviada a Milmann no dia 24 de março de 2002, comunicando a decisão, todos eles profissionais experientes, como Agostinho José Muniz Filho, José Hipólito Araújo, Francisco José Castilhos Karam e Pedro Luiz da Silveira Osório, sabiam muito bem que não tinham poderes para fazer o que fizeram. Eles não se deram sequer ao trabalho de requisitar os autos do processo original da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas.

No Rio Grande do Sul, o Sindicato dos Jornalistas expediu nota oficial respaldando a grotesca armação da qual seus principais dirigentes tinham participado.

O insólito episódio não terminou com a condenação de Luís Milman, como queriam os jornalistas chapas-brancas e seus aliados.Ele terminou com uma ineficaz e nula revogação da pena imposta pela Comissão de Ética gaúcha e com uma tentativa de censura ao comportamento de Milman. Ele não foi condenado e nem poderia,porque não estava sendo acusado de nada. A Comissão nacional de Ética interveio ilegalmente na Comissão de Ética do Sindicato, episódio fascista sem precedentes e que recebeu respaldo da diretoria do Sindicato.Por isso, o MJDH, juntamente com a Arfoc e a OAB, afastaram o sindicato da organização do Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, em carta aberta publicada nos principais sites de imprensa nacional).

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