1. Cronologia
| 1497 | Viagem de Vasco da Gama à Índia. |
| 1500 | Chegada da Armada de Cabral ao Brasil. |
| 1525 | Nascimento de Luís Vaz de Camões, filho de Simão Vaz de Camões e de Ana de Sá, provavelmente em Lisboa. |
| 1527 | Publicação de Os Estrangeiros, de Sá de Miranda: primeira obra clássica portuguesa. |
| 1547 | Estabelecimento definitivo da Inquisição em Portugal. |
| 1549 | Camões é ferido na luta contra os mouros em Ceuta. Em conseqüência, perde a vista direita. |
| 1552 | Prisão de Camões durante um ano, por ter ferido um oficial do rei. |
| 1553 | Engaja-se no serviço militar e parte para o Oriente. |
| 1556 | Termina o serviço militar de Camões. O poeta é nomeado "provedor-mor dos bens de defuntos e ausentes." |
| 1561 | É preso em Goa. |
| 1567 | Representação do Auto do Filodemo nas festas de posse do governador da Índia. |
| 1569 | Regressa a Lisboa, à custa de amigos que o encontraram em situação de indigência em Moçambique. |
| 1572 | Publicação de Os Lusíadas. Vive miseravelmente em Lisboa, com uma pequena pensão concedida por D. Sebastião, até sua morte. |
| 1578 | Morte de D. Sebastião em Alcácer Quibir, no Marrocos. |
| 1580 | Morte de Camões em extrema miséria. Perda da independência política de Portugal, que passa para o domínio castelhano. O domínio se prolongou até 1640. |
A vida de Camões ainda permanece pontilhada de dúvidas. Admite-se como data mais provável de seu nascimento o ano de 1524. Era filho de Simão Vaz de Camões e de Ana de Sá de Macedo, e descendente de uma família de fidalgos decadentes. Teria freqüentado por algum tempo a Universidade de Coimbra. Serviu como militar no norte da África, onde, ferido em combate, perdeu o olho direito. Com certeza, em 1550 vivia em Lisboa e freqüentava a corte; em 1552 foi preso por ter agredido um oficial do rei e só foi posto em liberdade em 1553, indo direto para o exílio. Inicia-se assim uma longa jornada de 17 anos de exílio, tendo o poeta vivido nas colônias portuguesas da África e da Ásia, chegando a morar em Macau, colônia portuguesa na China. Foram anos de dificuldades econômicas e algumas passagens pela cadeia. Só retorna a Portugal em 1570, após a morte de D. João III, já com Os Lusíadas terminados; em 1572 é publicada a primeira edição do poema. D. Sebastião, rei de Portugal a quem havia sido dedicado o poema, concede-lhe uma pensão de 15000 réis por ano, quantia que o poeta recebeu sem regularidade.
Morre na miséria em 10 de junho de 1580, sendo enterrado como indigente, em vala comum.
Sua obra é composta de poesias líricas, uma poesia épica, três peças para teatro e algumas cartas.
3. Introdução
O estilo literário de Camões está inserido no Classicismo português, que teve início no ano de 1527. Vinda da Itália, a medida nova (versos decassílabos), já cultivada por Dante Alighieri e Francesco Petrarca, tem extrema influência na obra camoniana.
O século XVI, considerado período áureo da arte, traz ao lado de maravilhosos monumentos arquitetônicos, a produção Humanista (prosa e teatro popular, já em fase de transição com o Classicismo) e o Renascimento português, que encontra sua expressão máxima em Camões. Também é no século XVI que a língua portuguesa assume mudanças definitivas, iniciando o período do português moderno.
No final desse mesmo século, Portugal, abalada econômica e politicamente, sofre a unificação da Península Ibérica, sob o domínio Espanhol. Esse fato marca o fim do Classicismo, e sob a influência espanhola, inicia-se o Barroco.
4. A Poesia Classicista
Adota certas formas poéticas livres, sujeitas a algumas regras, o que faz surgir um novo conceito de poesia. Os temas poéticos são vários, como a reflexão moral, a filosofia, a política, e o lirismo amoroso. Ao lado da herança medieval representada pelas redondilhas, usa-se a medida nova.
5. A Poesia Lírica Camoniana
Camões é tradicionalmente considerado o maior poeta lírico português. A poesia lírica de Camões apresenta-se marcada por uma dualidade: ora são textos de nítida herança da tradicional poesia portuguesa, inclusive escritos em redondilhas; ora são poesias perfeitamente enquadradas no estilo novo do Renascimento. Entretanto, não se pode dizer que Camões tenha conseguido isolar suas influências; pelo contrário, elas aparecem misturadas, fundidas, resultando daí uma obra típica do século XVI. Para uma visão da poesia lírica de Camões, passamos a uma rápida caracterização dos principais temas abordados:
Redondilhas – versos singelos da tradição popular, de cinco ou sete sílabas métricas (redondilha maior e menor, respectivamente).
Poesia Tradicional – a herança das cantigas trovadorescas em Camões aparece principalmente nas redondilhas. O mar, a fonte, a natureza surgem constantemente em diálogos, lembrando as cantigas de amigo:
Cantiga
Cantiga Alheia:
Lavando a talha e chorando
Às amigas perguntando:
Vistes lá o meu amor?
Posto o pensamento nele,
Porque a tudo o amor obriga,
Cantava, mas a cantiga
Eram suspiros por ele.
Nisto estava Lianor
O seu desejo enganando,
Às amigas perguntando:
Vistes lá o meu amor?
Como se observa, é a temática das cantigas de amigo, só que agora escrita em terceira pessoa, e não mais em primeira, ou seja, o poeta não mais escreve sobre a mulher angustiada à espera do seu namorado.
As idéias platônicas em Camões – Platão e sua filosoafia marcaram fortemente toda a produção literária do Renascimento. Percebe-se nitidamente essa influência platônica em várias composições de Camões, tanto em alguns sonetos como nas redondilhas de Badel e Sião.
Platão concebia dois mundos: o mundo sensível, em que habitamos, e o mundo inteligível, das divinas essências (Deus, o Belo, O Bom, a Sabedoria, o Amor, a Justiça, etc). No mundo sensível, as realidades concretas são simples sombras ou reflexos dessas essências. As almas, que são imortais, habitam o mundo inteligível; quando caem da esfera inteligível para a sensível, conservam uma recordação que podem avivar por meio da reminiscência. Há, dessa forma, uma constante busca do ideal, que não é mais do que uma tentativa da ascensão do mundo sensível (das realidades concretas, meras imitações particulares) ao mundo inteligível (da essência, a verdade universal). No mundo sensível temos, por exemplo, amores particulares; no mundo inteligível, temos o Amor (a maiúscula indica sempre a essência, a idéia), ou melhor, o Amor Platônico.
A partir do século XV, percebe-se uma tentativa de aproximar a filosofia platônica dos princípios do cristianismo.
O Amor – um dos temas mais ricos da lírica de Camões é o Amor visto como idéia (neoplatonismo) e como manifestação da carnalidade. No Amor enquanto idéia ou espiritualidade, é nítida a influência da poesia de Petrarca (e, por extensão, de Dante Alighieri). A mulher amada é retratada de forma idealizada, recorrendo o poeta a uma constante adjetivação, que descreve um ser superior, angelical, perfeito. Por outro lado, a própria vida atribulada do poeta, sua experiência concreta, leva Camões a cantar não mais um amor espiritualizado, mas um amor terreno, carnal, erótico (é a Vênus que aparece em inúmeras poesias). A impossibilidade de obter uma síntese desses dois amores se revela algumas vezes pelo uso abusivo de antíteses.
O "desconcerto do mundo" – esse foi um dos temas que mais perturbou o poeta português, manifestando-se nas injustiças, no prêmio aos maus e no castigo aos bons; na ambição e na tentativa de guardar bens que acabam no nada da morte; nos sofrimentos constantes que aniquilam as prováveis conquistas; enfim, num conflito violento entre o ser e o dever ser. Portanto, o mundo é um "desconcerto" e:
ou quem terá tão livre o pensamento
(ao)ver e notar do mundo o desconcerto?
6. Exemplos
MOTE
Descalça vai para a fonte
Leanor, pela verdura;
Vai formosa e não segura.
VOLTAS
Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
saindo de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura;
vai formosa e não segura.
Descobre a touca a garganta,
cabelos de ouro trançado,
fita de cor de encarnado ...
Tão linda que o mundo espanta!
Chove nela graça tanta
que dá graça à formosura;
vai formosa, e não segura.
Eu cantarei de amor tão docemente,
por uns termos em si tão concertados
que dois mil acidentes namorados
faça sentir ao peito que não sente.
Farei que amor a todos avivente,
pintando mil segredos delicados,
brandas iras, suspiros magoados,
temerosa ousadia e pena ausente.
Também, Senhora, do desprezo honesto
de nossa vista branda e rigorosa
contentar-me-ei dizendo a menos parte.
Porém, para cantar de vosso gesto
a composição alta e milagrosa,
aqui falta saber, engenho e arte.
Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário por entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que se ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence o vencedor;
é ter, com que nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Busque Amor novas artes, novo engenho
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.
Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.
Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
alguma cousa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,
roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.
Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade
Quero que seja sempre celebrada.
Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando à terra claridade,
Viu apartar-se de uma, outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada;
Ela, só viu as lágrimas em fio,
Que, duns e outros olhos derivadas,
Juntando-se formaram largo rio;
Ela ouviu as palavras magoadas,
Que puderam tornar o fogo frio
E dar descanso às almas condenadas.
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia o pai, servia a ela,
Que a ela só, por prêmio, pretendia.
Os dias na esperança dum só dia
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: - "Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!"