Relatório censurado
pela OMS afirma que a maconha é menos prejudicial
do que o álcool e o tabaco.
"Quem toma um uísque com os amigos não tem moral pra proibir um baseado" Rita Lee, cantora e compositora.
Em fevereiro, a revista científica britânica New Scientist estampou em sua reportagem de capa a informação de que o capítulo que comparava os efeitos da maconha aos do álcool, tabaco e heroína foi suprimido pela OMS. Segundo a publicação, a decisão de retirar o estudo comparativo havia sido feita por pressão do governo americano e de dirigentes do Programa Internacional de Controle de Drogas da ONU. O motivo: o trabalho informava que fumar maconha causa muito menos mal à saúde do que o cigarro ou o álcool. Temia-se que esse argumento servisse de munição às organizações que defendem a descriminalização da droga. Billy Martin, da faculdade de Medicina da Virgínia e um dos 50 especialistas envolvidos no trabalho, disse à revista inglesa que os dirigentes da OMS "ficaram malucos" ao ler a pesquisa comparativa entre maconha, álcool e cigarro.
"Acho pouco científico comparar os efeitos da maconha com os do álcool." Elias Murad, deputado federal.
Logo após ao lançamento da reportagem, a OMS disse, em nota oficial, que a exclusão do texto nada teve haver com pressão política. Segunda a doutora Maristela Monteiro não houve pressão dos americanos e a OMS não estava segurando informação. Segundo ela o texto não levava a nada, era tendencioso e ia "embolar o meio de campo". Os originais de 41 páginas, dos médicos canadenses Room e Bondy chamava-se Uma avaliação comparativa das conseqüências psicológicas e de saúde da Cannabis, do álcool, da nicotina e dos opiáceos. Eles acreditavam que seu trabalho seria condensado e incluído no livro da OMS, mas não foram sequer avisados da supressão. Robin Room disse que não foi comunicado quando a OMS resolveu tirar seus estudos. Doutora Maristela, que é formada em pela Escola Paulista de Medicina e tem doutorado em psicofarmacologia, está há 4 anos na OMS. Ela assegura que as conclusões dos canadenses foram excluídas a partir de uma decisão científica, e revelou dois trechos do material cortado para exemplificar o que diz. Na página 21, lê-se que, baseado nos padrões existentes de consumo, a Cannabis impõe muito menos problemas sérios de saúde pública do que os impostos pelo álcool e pelo tabaco nas sociedades ocidentais. O problemas, para Maristela, é que mais adiante eles ignoram esta diferença entre os poucos consumidores de maconha e os muitos fumantes e generalizam sua conclusão. Os autores afirmam existir boas razões para dizer ser improvável que o uso rivalize com os riscos de saúde pública impostos pelo álcool e pelo tabaco, mesmo se tantas pessoas usassem Cannabis quanto as que hoje bebem álcool e fumam tabaco. Esta imprecisão ajudou a OMS a desconsiderar as conclusões da dupla.
"O alcoolismo é um problema gravíssimo, mas o Ronaldinho vende cerveja na tevê." Mercelo D2, vocalista do Planet Hemp.
Maristela Monteiro alega que não há contradições nem ausência de base científica no trabalho da OMS. "Tanto que em julho, o Instituto de Pesquisa do Vício e a OMS vão publicar o mesmo trabalho concluindo que a Cannabis provoca danos muito menores do que o cigarro ou a bebida.", rebate Room. Mas, além de uma discussão sobre a maconha e os programas de saúde pública, o que efetivamente existe no estudo dos canadenses? Uma das polêmicas conclusões, por exemplo, afirma que, nas sociedade mais desenvolvidas, a maconha parece ter pouca influência no aumento da violência, ao contrário do álcool. Também assegura que, apesar das evidências de que o uso da maconha durante a gravidez acarrete perda de peso nos recém-nascidos, os dados à disposição estão muito longe de ser conclusivos. A Cannabis saiu-se melhor do que o álcool e o cigarro em 5 dos 7 testes comparativos de danos a longo prazo à saúde. O relatório diz que o consumo pesado de fumo, maconha e bebida, pode levar à dependência, mas que somente o álcool causa a chamada síndrome de abstinência. E enquanto o consume freqüente de bebida alcoólica leva à cirrose, severos danos cerebrais e um grande aumento dos riscos de acidente e suicídio, o texto conclui que são fracas as provas de que o uso crônico de maconha produza alterações no raciocínio, na memória e na capacidade de aprendizado. "Baseado em que se pode comparar o fumo de um cigarro de maconha com o consumo de um drinque? Não existe evid6encia nenhuma para isso", contesta Maristela. Segundo ela, o trabalho chegava a afirmar que o viciado em heroína pode morrer de overdose, mas que a maconha nunca matou ninguém. "É dizer o óbvio. Gostaria de saber o que é uma overdose de maconha."
"O importante é que a população seja informada e discuta o assunto." Oded Grajew, empresário.
Para quem acompanha o debate, esta seria a segunda vez que a
OMS manipula esse tipo de informação. "Em 1997, esconderam
a conclusão de que não há relação entre o
consumo de maconha e o câncer", acusa o deputado Fernando Gabeira.
"Se isso não for esclarecido, vai ficar exposta à contradição:
como uma substância que é menos nociva que o álcool e o
tabaco pode ter um tratamento jurídico mais rigoroso?" Odede Grajew,
presidente da Fundação Abrinq para os Direitos da Criança
concorda com Gabeira. "Nesse estudo ninguém está dizendo
que a maconha faz bem, mas que faz menos mal que os outros.", diz. "O
que importa, é que a bebida e o cigarro têm empresas constituídas,
são aceitas porque fazem prevalecer seus interesses, ditam as regras.