"Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece.
É a voz de um coração q te apetece,
Duma alma livre, só a ti submissa.
Por ti é q a poeira movediça
De astros e sóis e mundos permanece;
E é por ti q a virtude prevalece;
E a flor do heroísmo medra e viça.
Por ti, na arena trágica, as nações
Buscam a liberdade, entre clarões;
E os q olham o futuro e cismam, mudos,
Por ti, podem sofrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos, q combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!"
[Antero de Quental - Hino à Razão] |
"Amem a noite os magros crapulosos,
E os q sonham com virgens impossíveis,
E os q se inclinam, mudos e impassíveis
À borda dos abismos silenciosos...
Tu, Lua, com teus raios vaporosos,
Cobre-os, tapa-os e torna-os insensíveis,
Tanto aos vícios cruéis e inextinguíveis,
Como aos longos cuidados dolorosos!
Eu amarei a santa madrugada,
E o meio-dia, em vida refervendo,
E a tarde rumorosa e repousada.
Viva e trabalhe em plena luz: depois,
Seja-me dado ainda ver, morrendo,
O claro Sol, amigo dos heróis!"
[Antero de Quental - Mais Luz!] |
"Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
De noite nas fantásticas estradas,
Donde vem ele? Q regiões sagradas
E terríveis cruzou, q assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei q horror nas crinas agitadas?
Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável, mas plácido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,
Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: 'Eu sou a Morte!'
Responde o cavaleiro: 'Eu sou o Amor!'"
[Antero de Quental - Mors-Amor] |
"Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!
Mas q na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, q a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.
Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:
Pq a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade."
[Olavo Bilac - A um Poeta] |
"Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sangüínea e fresca a madrugada...
E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...
Tb dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;
No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem...Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais..."
[Raimundo Correia - As Pombas] |
"'Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!' E eu vos direi, no entento,
Q, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. e, ao vir do Sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora, 'Tresloucado amigo!
Q conversas com elas? Q sentido
Tem o q dizem, quando estão contigo?'
E eu vos direi: 'Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.'"
[Raimundo Correia - Via Láctea XIII] |
"Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Q uma grande esperança malograda.
O eterno sonho da alma desterrada,
Senho q a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E q não chega nunca em toda a vida.
Essa felicidade q supomos,
Árvore milagrosa, q sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,
Existe sim: mas nós não a alcançaremos
Pq está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos."
[Vicente de Carvalho - Velho Tema] |
"Pelas regiões tenuíssimas da bruma
vagam as Virgens e as Estrelas raras...
Como q o leve aroma das searas
todo o horizonte em derredor perfuma.
Numa evaporação de branca espuma
vão diluindo as perspectivas claras...
Com brilhos crus e fúlgidos de tiaras
as Estrelas apagam-se uma a uma...
E então, na treva, em místicas dormências,
desfila, com sidéreas latescências,
das Virgens o sonâmbulo cortejo...
Ó formas vagas nebulosidades!
Essência das eternas virgindades!
Ó intensas quimeras do Desejo..."
[Cruz e Sousa - Carnal e Místico] |
"Para as Estrelas de cristais gelados
as ânsias e os desejos vão subindo,
galgando azuis e siderais noivados
de nuvens brancas a amplidão vestindo...
Num cortejo de cânticos alados
os arcanjos, as cítaras ferindo,
passam, das vestes nos troféus prateados,
as asas de ouro finamente abrindo...
Dos etéreos turíbulos de neve
claro incenso aromal, límpido e leve,
ondas nevoentas de Visões levanta...
E as ânsias e os desejos infinitos
vão com os arcanjos formulando ritos
da Eternidade q nos Astros canta..."
[Cruz e Sousa - Siderações] |
"Nada somos, sabeis, e q seremos
Mais do q duas míseras ossadas?
As loucas ilusões em q vivemos
São estrelas q morrem desmaiadas.
Bem longe dos espíritos blasfemos,
- Pobres crianças a ouvir contos de fadas -
Ao céu as nossas almas ergueremos,
Como duas princesas encantadas.
O silêncio agoniza pelas naves...
São trindades q vão morrer no poente,
Baixando mudas como vôos de aves.
Q subam para o céu as nossas almas,
Baloiçando entre os astros suavemente,
Tão oblativas como duas palmas!"
[Alphonsus de Guimarães - Sonetos] |
"Harmonias q pungem, q laceram,
dedos nervosos e ágeis q percorrem
cordas e um mundo de dolências geram,
gemidos, prantos, q no espaço morrem...
E sons soturnos, suspiradas mágoas,
Mágoas amargas e melancolias,
no sussurro monótono das águas,
noturnamente, entre ramagens frias.
Vozes veludas, veludosas vozes,
volúpia dos violões, vozes veludas,
vagam nos velhos vórtices velozes
dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.
Tudo nas cordas dos violões ecoa
e vibra e se contorce no ar, convulso...
Tudo na noite, tudo clama e voa
sob a febril agitação de um pulso."
[Cruz e Sousa - Violões q Choram] |
"Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em q se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...
E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
As asas q Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu.
Seu corpo desceu ao mar..."
[Alphonsus de Guimarães - Ismália] |
"Há no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos de amor, d'ais compridos...
Uma ternura esparsa de balidos
Sente-se esmorecer como um perfume.
As madressilvas murcham nos silvados
E o aroma q exalam pelo espaço
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.
Sentem-se espasmos, agonias d'ave,
Inapreensíveis, mínimas, serenas...
- Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O me olhar no teu olhar suave.
As tuas mãos tão brancas d'anemia...
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
- É este enlanguescer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia."
[Camilo Peçanha - Crepuscular] |
"Eu sou a q no mundo anda perdida,
Eu sou a q na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada...a dolorida...
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E q o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela q passa e ninguém vê...
Sou a q chamam triste sem o ser...
Sou a q chora sem saber pq...
Sou talvez a visão q Alguém sonhou,
Alguém q veio ao mundo pra me ver
E q nunca na vida me encontrou!"
[Florbela Espanca - Eu] |