Poemas                                                                                   

 
"Nasce o Sol, e não dura mais q um dia,
 depois da Luz, se segue a noite escura,
 em tristes sombras morre a formosura,
 em contínuas tristezas a alegria.

 Porém, se acaba o Sol, pq nascia?
 Se é tão formosa a luz, pq não dura?
 Como a beleza assim se transfigura?
 Como o gosto da pena assim se afia?

 Mas no SOl, e na luz falta a firmeza,
 na formosura não se dê constância,
 e na alegria sinta-se tristeza.

 Começa o mundo enfim pela ignorância,
 e tem qq dos bens por natureza
 a firmeza somente na inconstância."
 [Gregório de Matos - A instabilidade das
coisas do mundo]

"Minha'alma quer lutar com meu tormento;
 Contenda inútil! É por e;e p Fado:
 Apenas de oprimir-me está cansado
 Eterna força lhe refaz o alento:

 Mais vale q delire o pensamento
 Té agora coa Razão debalde armado;
 É menos triste, menos duro estado
 A Desesperação, q o Sofrimento:

 A Desesperação soluça e chora,
 A desesperação mil ais desata,
 Parte do mal nas queixas se evapora:

 O Sofrimento azeda o q recata;
 Prende suspiros, lágrimas devora,
 Tiraniza, consome, e às vezes mata."
 [Bocage - Sonetos]

"Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza, e sem brandura,
Urgidos, pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz a tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;
Q não pode cantar com melodia
Um peito, de gemer cansado e rouco."
[Bocage - Sonetos]

"Meu ser evaporei na lida insana
 Do tropel das paixões q me arrastava,
 Ah! Cego eu cria, ah! Mísero eu sonhava
 Em mim, quase imortal, a essência humana!

 De q inúmeros sóis a mente ufana
 A existência falaz me não doirava!
 Mas eis sucumbe a natureza escrava
 Ao mal, q a vida em sua origem dana.

 Prazeres, sócios meus e meus tiranos,
 Esta alma, q sedenta em si não coube,
 No abismo vos sumiu dos desenganos.

 Deus...ó Deus! Quando a morte à luz me roube,
 Ganhe um momento o q perderam anos,
 Saiba morrer o q viver não soube!"
 [Bocage - Sonetos]

"Já Bocage não sou!...Á cova escura
 Meu estro vai parar desfeito em vento...
 Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
 Leve me torne sempre a terra dura.

 Conheço agora já quão vã figura
 Em prosa e verso fez meu louco intento.
 Musa! Tivera algum merecimento
 Se um raio da razão seguisse pura!

 Eu me arrependo; a língua quase fria
 Brade em alto pregão à mocidade,
 Q atrás do som fantástico corria:

 Outro Aretino fui...A santidade
 Manchei! Oh! Se me creste, gente ímpia,
 Rasga meus versos, crê na eternidade!"
 [Bocage - Sonetos]

"Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, q desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma for violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta Clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! reteza os músculos, reteza
nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço."
[Cruz e Souza - Acrobata da Dor]

Se a cólera q espuma, a dor q mora
n'alma, e destrói cada ilusão q nasce,
Tudo o q punge, tudo o q devora
o coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse, o espírito q chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente talvez, q inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente q ri, talvez consigo,
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente q ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!"
[Raimundo Correia - Mal Secreto]

"A Música da Morte, a nebulosa,
estranha, imensa música sombria,
passa a tremer pela minh'alma e fria
gela, fica a tremer, maravilhosa...

Onda nervosa e atroz, onda nervosa,
letes sinistro e torvo da agonia,
recresce a lancinante sinfonia,
sobe, numa volúpia dolorosa...

Sobe, recresce, tumultuando e amarga,
tremenda, absurda, imponderada e larga,
de pavores e trevas alucina...

E alucinando e em trevas delirando,
como um ópio letal, vertiginando,
os meus nervos, letárgica, fascina..."
[Cruz e Souza - Música da Morte]

"Ser miserável dentre os miseráveis
-Carrego em minhas células sombrias
Antagonismos irrecociliáveis
E as mais opostas idiocrasias!

Muito mais cedo do q o imagináveis
Eis-vos, minha alma, enfim, dada às bravias
Cóleras dos dualismos implacáveis
E à gula negra das antinomias!

Psiquê biforme, o Céu e o Inferno absorvo...
Criação a um tempo escura e cor-de-rosa,
Feita dos mais variáveis elementos,

Ceva-se em minha carne, como um corvo,
A simultaneidade ultramonstruosa
De todos os contrastes famulentos!"
[Augusto dos Anjos - Vítima do Dualismo]

"Pode o homem bruto, adstrito à ciência grave,
Arrancar, num triunfo surpreendente,
Das profundezas do Subconsciente,
O milagre estupendo da aeronave!

Rasgue os broncos basaltos negros, cave
Sôfrego, o solo sáxeo; e, na ânsia ardente
De perscrutar o íntimo do orbe, invente
A lâmpada aflogística de Davy!

Em vão! Contra o poder criador de Sonho
O Fim das Coisas mostra-se medonho
Como o desaguadouro atro de um rio...

E quando, ao cabo do ultimo milênio,
A humanidade vai pesar seu gênio
Encontra o mundo, q ela encheu, vazio!"
[Augusto dos Anjos - O Fim das Coisas]

"Vês? Ninguém assistiu ao formidável
enterro de tua última quimera!
Somente a Ingratidão, essa pantera,
Foi tua companheira inseparável.

Acostuma-se à lama q te espera!
O homem, q na terra miserável
mora entre feras, sente a inevitável
necessidade de tb ser fera.

Toma um fósforo. Acende ter cigarro.
O beijo amigo é a véspera do escarro,
a mão q afaga é a mesma q apedreja.

Se a alguém ainda causa pena a tua chaga,
apedreja esta mão vil q te afaga
e escarra nesta boca q te beija!"
[Augusto dos Anjos - Versos Íntimos]

"Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Q se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme - este operário das ruínas -
Q o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos
Na frieldade inorgânica da terra!"
[Augusto dos Anjos - Psicologia de um Vencido]

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