Poemas                                                                                   

"Pequei, Senhor, mas não pq hei pecado,
 Da vossa Alta Piedade me despido:
 Antes, quanto mais tenho delinqüido,
 Vos tenho a perdoar mais empenhado,

 Se basta a vos irar tanto pecado,
 A abrandar-vos sobeja um só gemido:
 Q a mesma culpa q vos há ofendido,
 Vos tem para o perdão lisonjeado.

 Se u'a Ovelha perdida, já cobrada,
 Glória tal e prazer tão repentino
 Vos deu, como afirmais na Sacra História:

 Eu sou, Senhor, Ovelha desgarrada;
 Cobrai-a; e não queirais, Pastor Divino,
 Perder na vossa Ovelha a vossa glória."
 [Gregório de Matos - Sonetos]

"A vós correndo vou, braços sagrados
 Nessa cruz sacrossanta descobertos,
 Q, para receber-me, estão abertos,
 E, por não castigar-me, estais cravados,

 A vós, divinos olhos, eclipsados
 De tanto sangue e lágrimas abertos,
 Pois para perdoar-me, estais despertos,
 E, por não condenar-me, estais fechados,

 A vós, pregados pés, por não deixar-me,
 A vós, sangue vertido, para ungir-me,
 A vós, cabeça baixa, para chamar-me,

 A vós, lado patente, quero unir-me
 A vós, cravos preciosos, quero atar-me
 Para ficar unido, atado e firme."
 [Gregório de Matos - Buscando a Cristo]

"Meu Deus, q estais pendente de um madeiro,
 em cuja lei protesto de viver,
 em cuja santa lei hei de morrer
 animoso, constante, firme e inteiro:

 neste lance, por ser derradeiro,
 pois vejo a minha vida anoitecer,
 é, meu Jesus, a hora de se ver
 a brandura de um pai, manso cordeiro.

 Mui grande é o vosso amor e o meu delito;
 porém pode ter fim todo o pecar,
 e não o vosso amor, q é infinito.

 Esta razão me obriga a confiar,
 q, por mais q pequei, neste conflito
 espero em vosso amor de me salvar."
 [Gregório de Matos - A Jesus Cristo
crucificado, estando o poeta para morrer]

"Num sonho todo feito de incerteza,
 De noturna e indizível ansiedade
 É q eu vi teu olhar de piedade
 E (mais q piedade) de tristeza...

 Não era o vulgar brilho da beleza,
 Nem o ardor banal da mocidade...
 Era outra luz, era outra suavidade,
 Q até nem sei se as há na natureza...

 Um místico sofrer...uma ventura
 Feita só do perdão, só da ternura
 E da paz da nossa hora derradeira...

 Ó visão, visão triste e piedosa!
 Fita-me assim calada, assim chorosa...
 E deixa-me sonhar a vida inteira!"
 [Antero de Quental - À Virgem Santíssima]

"Um homem, - era aquela noite amiga,
 Noite cristã, berço do Nazareno, -
 Ao relembrar os dias de pequeno,
 E a viva dança, e a lépida cantiga,

 Quis transportar ao verso doce e ameno
 As sensações da sua idade antiga,
 Naquela mesma velha noite amiga,
 Noite cristã, berço do Nazareno.

 Escolheu o soneto...A folha branca
 Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca.
 A pena não acode ao gesto seu.

 E, em vão lutando contra o metro adverso,
 Só lhe saiu este pequeno verso:
 'Mudaria o Natal ou mudei eu?'"
 [Machado de Assis - Soneto de Natal]

"Sol nulo dos dias vãos,
 Cheios de lida e de calma,
 Aquece ao menos as mãos
 A quem não entras na alma!

 Q ao menos a mão, roçando
 A mão q por ela passe,
 Com externo calor brando
 O frio da alma disfarce!

 Senhor, já q a dor é nossa
 E a fraqueza q ela tem,
 Dá-nos ao menos a força
 de a não mostrar a ninguém!"
 [Fernando Pessoa - Mar Português]

"Os q amei, onde estão? Idos, dispersos,
 Arrastados no giro dos tufões,
 Levados, como em sonho, entre visões,
 Na fuga, no ruir dos universos...

 E eu mesmo, com os pés também imersos
 Na corrente e à mercê dos turbilhões,
 Só vejo espuma lívida, em cachões,
 E entra ela, aqui e ali, vultos submersos...

 Mas se paro um momento, se consigo
 Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
 De novo, esses q amei: vivem comigo,

 Vejo-os, ouço-os e ouvem-me tb.
 Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
 Na comunhão ideal do eterno Bem."
 [Antero de Quental - Com os Mortos]

"Piedosa: o olhar nunca baixou à terra.
Fitava o céu, pq era pua e santa...
Tinha o orgulho fidalgo de uma Infanta
Q entre escudeiros e lacaios erra.

Deusa nenhuma, por mais alta, encerra
Em si, talvez, misericórdia tanta:
Ainda hj na minha Alma se alevanta
Como uma cruz no cimo de uma serra.

Foi-lhe a vida um eterno mês-de-maio,
Cheio de rezas brancas a Maria,
Q ela vivera como num desmaio.

Tão branca assim! Fizera-se de cera...
Sorriu-lhe Deus e ela lhe sorria,
Virgem coltou como do céu descera."
[Alphonsus de Guimarães - Sonetos]

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