Poemas                                                                                   

"Amor é fogo q arde sem se ver;
 É ferida q dói e não se sente;
 É um contentamento descontente;
 É dor q desatina sem doer;

 É um não querer mais q bm querer;
 É solitário andar por entre a gente;
 É nunca contentar-se de contente;
 É cuidar q se ganha em se perder;

 É querer estar preso por vontade;
 É servir a quem vence, o vencedor;
 É ter com quem nos mata lealdade.

 Mas como causar pode em seu favor
 Nos corações humanos amizade
 Se tão contrário a si é o mesmo Amor?"
 [Camões - Soneto do Amor]

"Pálida à luz da lâmpada sombria,
 Sobre o leito de flores reclinada,
 Como a lua por noite embalsamada,
 Entre as nuvens do amor ela dormia!

 Era a virgem do mar, na escuma fria
 Pela maré das águas embalada!
 Era um anjo entre as nuvens d'alvorada
 Q em sonhos se banhava e se esquecia!

 Era mais bela! O seio palpitando...
 Negros olhos as pálpebras abrindo...
 Formas nuas no leito resvalando...

 Não te rias de mim, meu anjo lindo!
 Por ti - as noites eu velei chorando,
 Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!"
 [Álvares de Azevedo - Soneto]

"Ardor em firme Coração nascido;
 Pranto por belos olhos derramado;
 Incêndio em mares de água disfarçado;
 Rio de neve em fogo convertido:

 Tu, q em um peito abrasas escondido;
 Tu, q em um rosto corres desatado;
 Quando fogo, em cristais aprisionado;
 Quando cristal, em chamas derretido.

 Se és fogo, como passas brandamente,
 Se és neve, como queimas com porfia?
 Mas ai, q andou Amor em ti prudente!

 Pois para temperar a tirania,
 Como quis q aqui fosse a neve ardente,
 Permitiu parecesse a chama fria."
 [Gregório de Matos - Aos afetos]

"De tudo ao meu amor serei atento
 Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
 Q mesmo em face do maior encanto
 Dele se encante mais meu pensamento.

 Quero vivê-lo em cada vão momento,
 E em seu louvor, hei de espalhar meu canto
 E rir meu riso, e derramar meu pranto,
 Ao seu pesar ou seu contentamento.

 E assim, quando mais tarde me procure,
 Quem sabe a morte, angústia de quem vive,
 Quem sabe a solidão, fim de quem ama;

 Eu possa me dizer do amor (q tive):
 Q não seja imortal, posto q é chama,
 Mas q seja infinito enquanto dure."
 [Vinícius de Moraes - Soneto da Fidelidade]

"Marília, nos teus olhos buliçosos
 Os amores gentis seu facho acendem,
 A teus lábios voando, os ares fendem
 Temíssimos desejos sequiosos;

 Teus cabelos sutis e luminosos
 Mil vistas cegam, mil vontades prendem,
 E em arte aos de Minerva se não rendem
 Teus alvos, curtos dedos melindrosos.

 Reside em teus costumes a candura,
 Mora a firmeza no teu peito amante,
 A razão com teus risos se mistura;

 És dos céus o composto mais brilhante:
 Deram-se as mãos Virtude e  Formosura,
 Para criar tua alma e teu semblante!"
 [Bocage - Marília de Dirceu]

"Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
 E triste, e triste e fatigado eu vinha
 Tinhas a alma de sonhos povoada,
 E a alma de sonhos povoada eu tinha.

 E paramos de súbito na estrada
 Da vida: longos anos, presa à minha
 A tua mão, a vida deslumbrada
 Tive da luz q teu olhar continha.

 Hoje, segues de novo...Na partida
 Nem o pranto os teis olhos umedece,
 Nem te comove a dor da despedida.

 E eu, solitário, volto a face, e tremo,
 Vendo o teu vulto q desaparece
 Na extrema curva do caminho extremo."

 [Olavo Bilac - Nel Mezzo del Camin]

"Há um medonho abismo, onde baqueia
 A impulsos das paixões a Humanidade;
 Impera ali terrível divindade,
 Q de torvos ministros se rodeia:

 Rubro facho a Discórdia ali meneia,
 Q a mil cenas de horror dá claridade;
 Com seus sócios, Traição, Mordacidade,
 Range os dentes a Inveja escura e feia:

 Vê-se a Morte cruel no punho alçando
 O ferro de sangüento ervado gume,
 E a toda a natureza ameaçando:

 Vê-se arder, fumegar sulfúreo lume...
 Q estrondo! Q pavor! Q abismo infando!...
 Mortais, não é o inferno, é o Ciúme!"
 [Bocage - Sonetos]

"Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais q desejar
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Q mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está aliada

Mas esta linda e pura semidéia,
Q, como o acidente em seu sujeito,
Assim como a alma minha se conforma,

Está no pensamento como idéia;
E o vivo e puro amor de q sou feito,
Como a matéria simples busca a forma."
[Camões - Sonetos]

"Busque Amor novas artes, novo engenho.
Pera matar-me, e novas esquivanças;
Q não pode tirar-me as esperanças,
Q mal me tirará o q eu não tenho.

Olhai de q esperanças me mantenho!
Vede q perigosas seguranças,
Q não temo contrastes nem mudanças
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, q mata e não se vê;

Q dias há de q ba alma me tem posto
Um não sei q, q nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei pq."
[Camões - Sonetos]

"Alma minha, q te partisse
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa la no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subsiste
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Q já os olhos meus tão puro viste.

E se vires q pode merecer-te
Alguma cousa a dor q me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, q teus anos encurtou,
Q tão cedo de cá me leve a ver-te.
Quão cedo de meus olhos te levou."
[Camões - Sonetos]

"Querida, ao pé do leito derradeiro
Em q descansas desta longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Q, a despeito de toda humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.

trago-te flores - restos arrancados
Da terra q nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados,

Q eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos."
[Machado de Assis - A Carolina]

1

Hosted by www.Geocities.ws