Meio Ambiente

Desmatamento da

Amazônia

O desmatamento na Amazônia voltou a aumentar entre 1997 e 1998, segundo dados divulgados ontem pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O total desmatado em 1997 foi de 13.227 km2 e as projeções de 1998 indicam 16.838 km2, um aumento de 27%.

O total dos desmatamentos na região, somados todos os anos de acompanhamento até agosto de 1997, é de 532.086 km2. A confirmar-se a projeção de 1998, o Brasil já teria perdido, em florestas, o equivalente ao Estado da Bahia.

As características mudaram quanto ao tamanho das áreas contínuas derrubadas. Em 1995 e 1996, quando foram desmatados, respectivamente, 29.059 e 18.161 km2, as ações mais representativas ocorreram em pequenas áreas (inferiores a 50 hectares). Os projetos de colonização e os assentamentos de reforma agrária foram os grandes vilões da destruição. Em 1997 e 1998, cresceram as médias e grandes derrubadas, sobretudo de áreas contínuas com 200 a 500 hectares e acima de mil hectares. Resta conhecer melhor os novos vilões.

A disponibilidade de dinheiro para investimento em novas áreas agropecuárias pode explicar parte desse aumento nas derrubadas. A associação da abertura de novas áreas a atividades madeireiras é outro fator a ser analisado. Os tipos de vegetação mais prejudicados nos desmatamentos de áreas médias e grandes, por exemplo, foram a floresta ombrófila densa, a floresta estacional e o cerradão. São tipos de vegetação de áreas onde predomina a atividade madeireira como frente de abertura de novas regiões agropecuárias. Apesar da relativa redução em importância, o desmatamento de áreas inferiores a 50 hectares preocupa, porque se deu sobretudo nas zonas de contato e na floresta aberta. As zonas de contato caracterizam-se por alta biodiversidade e a presença, embora pulverizada, de novas frentes de colonização pode ter impactos sérios sobre a fauna. Os dados foram apresentados por vários pesquisadores, entre eles Carlos Afonso Nobre, do Inpe.


Desmatamento ainda sem controle

Apesar de reduzida a 7,3% de seu território original, a Mata Atlântica começa a ter seu ritmo de desmatamento estabilizado, inclusive com áreas sendo recuperadas, como em Santa Catarina e em São Paulo, no litoral norte e Vale do Ribeira. Isso não significa que não haja mais áreas críticas. O sul da Bahia, pressionado pela crise do cacau, continua tendo um desflorestamento acelerado, o mesmo acontecendo nas matas de araucária no Paraná e em Santa Catarina, onde a atividade madeireira corre solta. Outra grande ameaça é a expansão das áreas metropolitanas. Somente na Bacia do Guarapiranga, na Região Metropolitana de São Paulo, houve um desmatamento de 15% em dez anos, enquanto o índice no estado de São Paulo, no mesmo período, foi de cerca de 3%.

Com 170 entidades reunidas na Rede de ONG da Mata Atlântica, a atuação conjunta tem conseguido melhorar o monitoramento e as pressões. A grande expectativa é a aprovação da Lei da Mata Atlântica, que deve por fim às eternas discussões sobre o domínio e uso desse ecossistema. Na Amazônia pequenas iniciativas surgem na contracorrente da devastação generalizada. Os governos do Acre e Amapá têm investido em diversos programas de desenvolvimento sustentável, na tentativa de agregar valor a produtos florestais locais e diminuir a ameaça de corte raso das florestas.

No Amazonas, a organização dos ribeirinhos e a parceria do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis, Ibama, com organizações não-governamentais (ONGs) também combate a depredação e pressão sobre a fauna. São iniciativas muito incipientes e localizadas, diante do gigantismo amazônico. Mas contrapõem uma agenda positiva a séculos de exploração predatória, que segue sendo a regra em estados como o Pará, principal pólo de extração ilegal de madeira e foco de conflitos entre índios, fazendeiros e madeireiros, e Mato Grosso, onde a fronteira agrícola se expande mais rapidamente.

No cômputo geral, os desmatamentos ainda são crescentes. Só em 1997, a Amazônia perdeu 13.227 km2 de florestas e a projeção de 1998 é de 16.838km2, de acordo com o último levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (INPE). E no rastro das árvores derrubadas, aumentam também as queimadas. As novas áreas desmatadas, em geral, são queimadas repetidamente durante 5 a 10 anos até que todos os troncos de madeiras menos nobres (inaproveitadas em serrarias) sejam consumidos pelo fogo. As queimadas deste ano, portanto, também devem aumentar, apesar dos esforços governamentais para coibir o uso não autorizado do fogo. E apesar do Ministério do Meio Ambiente testar, pela primeira vez nos 10 anos de monitoramento operacional de queimadas do país, o uso efetivo das imagens de satélite nas ações de fiscalização. Uma boa nova neste Dia do Meio Ambiente é a adesão do Ministério da Agricultura ao combate das queimadas, com um programa (enfim!) de tecnologias agrícolas alternativas ao uso do fogo.

Até o clima pode colaborar, na Amazônia, para que o aumento nas queimadas não seja tão grande, pois as chuvas lá são intensas e a umidade deve impedir que o fogo se alastre pela floresta. No Centro-Sul, ao contrário, a temporada da fumaça começou mais cedo, insuflada pela estiagem precoce, que castiga a agricultura e ameaça o abastecimento de água. Os remanescentes de Mata Atlântica, no Sudeste, Mata de Araucária, no Sul, o Pantanal Mato-grossense, os cerrados do Planalto Central estão seriamente ameaçados pelo fogo. A expectativa é de que os próximos meses de junho, julho e agosto sejam os piores dos últimos anos e é urgente proteger o entorno de parques e reservas florestais, públicas ou privadas.

A estiagem expõe, igualmente, as conseqüências do descaso para com a conservação de solos e proteção aos mananciais. A falta de água nas zonas urbanas, em especial, é uma resposta da natureza à impermeabilização dos solos, que transforma as chuvas de verão em enchentes, impede a conservação adequada dos recursos hídricos e potencializa a seca. Megacidades, como São Paulo, discutem somente a minimização das conseqüências, mas não conseguem atacar as causas e adotam como solução emergencial o desvio de águas do interior, agravando conflitos já instalados. Ainda falta olhar para as matas ciliares, que protegem as nascentes, como prestadoras de um serviço de conservação das águas, ao invés de um empecilho ao desenvolvimento. Mas isso, aos poucos, os ambientalistas tendem a mostrar à população, em meio a comemorações como as previstas para esta Semana do Meio Ambiente.

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