Lembranças, meros indícios de que um dia houve um passado.
Alegre, proveitoso, o meu foi apenas triste....
Não irei mentir dizendo que não houve felicidade, pois esta um dia existiu
Mas ela se foi...se foi junto contigo
Simplismente a felicidade se expirou sem aviso prévio, me deixando sem eira nem beira, assim como você fez.
Mas é sua escolha, lembra-las, ou esquece-las..... ou talvez não, talvez não aja escolha.
Porém, prefiro arricar, nem um nem outro.
Quero apenas que elas morram, assim como eu, assim como você me matou.
E que o grande causador de minha morte morra junto.
Desapareça....
Morra!


Algum tempo atras.....

- , meu caro amigo gato sedução! - falei saltitante.
- Fala , fala.... - falou de olhos fechados com o rosto despreocupado.
- Desce daí primeiro - ele estava sentado no topo de uma árvore.
Em um pulo ele já estava lá, parado frente a mim, a camisa branca um pouco amarrotada, com os dois primeiros botões abertos, os cabelos desgrenhados e aquela postura, indiferente.
- Assim, sim!
- Pronto, agora fale, o que quer? - indagou objetivo.
- Ah, não é nada, só queria falar aquilo - dei de ombros.
- Aquilo o quê? - se encostou no tronco da árvore.
- Caro amigo gato sedução - sorri.
- Pronto, já falou feliz agora? Pare de me irritar - frio como sempre.
- Ah ! Deixe de ser rabujento, eu só vim te fazer companhia, fica feliz, eu cheguei! - gargalhei.
- Hump - sorriu de lado desviando o olhar - Você não cansa mesmo não é?
- Me cansar do quê? - o olhei curiosa
- De mim - mirou seus olhos nos meus.
Aquele olhar inexpressivo, vazio. Estremeci por um momento, tentei falar algo mas minha voz não ecou, meus lábios tremiam, era sempre assim, ele sempre me deixava assim, sem defesas.
O barulhos do vento sobre as folhas despetou-me de meus devaneios, pisquei os olhos três vezes recobrando a consciência, tentando achar alguma resposta. Respostas haviam várias, mas as minhas eram sempre as mesmas, só saiam besteiras.
- , você só fala besteira!
- Creio que você me confundiu com si propria.
- Até parece que eu iria me cansar de você - ignorei sua frase anterior - Está certo que as vezes você é meio rabujento - passava os dedos em meu bigode falso no queixo - As vezes não.... quero dizer, sempre - susurrei - Ainda tem o seu temperamento bipolar, mas você também tem os seus momentos de extrema felicidade, saltitantes, assim como eu - parei para analisar - Acho que exagerei, assim como eu não, mas você é feliz - conclui por fim.
- Você só fala besteira mesmo - sorriu, um sorriso fraco, mas um sorriso.
- Ah, esqueci de dizer você também... - olhei para o céu - Espere aí - desviei o olhar para as orbes de - Você zombou de mim novamente, a primeira eu ignorei, mas a segunda já é abuso, ! - coloquei as mãos na cintura em sinal de raiva.
Ele riu, seu olhar já não estava mais vago, havia uma pontinha de alegria, era tão bom ve-lo sorrir. Melhor ainda era saber que eu era a causadora deste sorriso.
- Está rindo de quê? - fingi estar irritada.
- De você! - falou se levantando.
- Não tem graça, você abusa do poder, - falei divertida.
- E então, o que quer fazer? - perguntou passando o braço envolta de meu pescoço.
Enigmático, surpreendete. Talvez sejam estas algumas das palavras que o descrevem. Ele é assim, como as estações, tudo em uma pessoa só. A tempestade vem, mas logo depois a bonança surgi. Mas eu não me importava, ele era assim, estranho, mas era o meu amigo.

Flashback off.

Socou o colchão pela milésima vez, sentou na beira da cama, abaixou a cabeça, respirou fundo. Raiva, era isso o que ela sintia, muita raiva. Noites mal dormidas, lembranças que a atormentavam, era o passado, o maldito passado batendo em sua porta novamente. As batidas estavam ficando cada vez mnais fortes, não, ele não sumiu, para dizer a verdade, ele nunca sumira, só eram apenas ecos falsos no meio do nada, o nada preso dentro de ti, aprisionado, calado.
Mas esse nada, o passado, retornara e desta vez com mais força. A falsa surdez já não funcionava mais, a fantasia já não mais lhe agradara, a torre de mentiras já estava se rachando, aquela dor, aquela lembrança, aquela pessoa. Sim, ela estava querendo retornar, a prisão já não o surportara, as portas do esquecimento foram abertas, a defesa fragilisada.
Levantou e caminhou até o banheiro, ligou a torneira, jogou água em seu rosto na tentativa de acordar, como de costume para ela era sempre um pesadelo, ou seja, mais uma de suas mentiras.
Ergueu o rosto e se olhou no espelho, mas que situação.... Aos seus olhos estava deplorável, olheiras, olhos inchados e vermelhos e suada, era o suor da relutancia, a costumeira relutancia de todas as noites.
Decidiu tomar um banho, quem sabe assim as lembranças não desceriam pelo ralo junto a aguá?! Ligou o chuveiro, a água gelada percorreu o seu corpo, a envolvendo por completo. Se lavou, em mais uma de suas tentativas frustradas de eliminar aquele toque, a textura daquela pele, ou como preferia chamar " as mãos imundas" que um dia já percorreram o seu corpo. Desistiu.
Saiu do banho, se enchugou e colocou um vestido lilas, simples, porém vistoso. Seu corpo havia mudado, já não era mais aquele corpo frágil de menina inocente, era agora uma mulher. E quanto a inocência.... Está já havia ido embora a algum tempo, ele a tirou. Tirou a inocência, a alegria, o prazer de viver.... lhe tirou tudo.
A capainha tocou. Foi em direção a porta, secando os cabelos em uma toalha azul, nem se deu ao trabalho de olhar no olho mágico da porta, abriu a mesma e se deparou com mais um infortúnio.

- ! - abraçou a garota.
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