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Show Acústico no ATL Hall - 2003
Elogio a beleza e voz da Paula - 2002
Lançamento do Acústico MTV - 2002
Gravação do Acústico MTV - 2002
Crítica do disco Surf - 2001
Show do Kid no Rock In Rio - 2001
Lançamento do Coleção - 2000
Crítica do disco Coleção - 2000
Crítica do disco Tudo É Permitido - 91
Crítica do disco Kid - 89 
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Kid Abelha desplugado
Banda apresenta show acústico no Rio

        Paula Toller já vai logo avisando que, desta vez, nada de Kelly Key. "Só se fala dela. Chega, né?", sentencia a vocalista do Kid Abelha, por email. Na gravação do Acústico MTV da banda - show que será apresentado nesta sexta e quinta-feira pela primeira vez para os cariocas, no ATL Hall - Paula cantou Baba, maior sucesso da pop teen brasileira, imitando até o jeitinho ingênuo-sensual da ex de Latino.

        A brincadeira entrou até no DVD do Acústico, que já chegou a boa marca de 25 mil cópias vendidas. Comemorando 20 anos de carreira, o Kid desfruta do característico momento vivido pelas bandas que fazem um CD acústico, enfileirando os velhos sucessos. Os do Kid Abelha já levaram 250 mil pessoas às lojas. "Estamos muito felizes. Esse sucesso é um prêmio para nós, não só pelo acústico como também pelo trabalho que fizemos nos discos Surf e Autolove, que não tiveram a merecida exposição", diz Paula.

        Neste show, os fãs poderão conferir os arranjos desplugados feitos especialmente para o disco, com direito à violino e cello - ainda que a cantora admita que Bruno (Fortunato) deve tocar guitarra elétrica no final. "Ele não agüenta!". Na sexta, o grupo receberá o pernambucano Lenine, que no acústico cantou com Paula o clássico de Hyldon, Na rua, na chuva, na fazenda. Além deste, outro dueto poderá rolar: "Estamos pensando em tocar uma canção dele, mas só vamos resolver na hora. Conto, para isso, com uma banda de 'feras'. Eles já estão acostumados - eu sempre puxo músicas fora do roteiro", conta Paula.

        E é contando com suas 'feras' que a vocalista do Kid promete cantar uma música pedida pela platéia: "É um momento divertido, pois tocamos as músicas escolhidas mesmo sem ter ensaiado", diz. Além de tocar sucessos do disco, como Fixação, Pintura íntima, Como eu quero, Amanhã é 23 e Eu tive um sonho, a banda vai relembrar músicas do álbum Meio desligado, aproveitando os arranjos deste disco também desplugado.

        O repertório do show também deverá contar com Gilmarley song, uma das três inéditas do novo trabalho. Curiosamente, a faixa homenageia, além do Rei do Reggae Bob Marley, o agora ministro da Cultura Gilberto Gil. Paula Toller continua uma admiradora do baiano: "Da indústria cultural brasileira, a música é o elemento que dá mais lucro, mesmo em crise. A escolha de Lula foi sensata e ousada. Boto a maior fé", entrega. Paula admite que o desempenho do baiano em seu novo cargo ainda é uma incógnita. "Gil merece homenagens por sua vida artística, mas a ministerial ainda é uma história a ser contada". De qualquer forma, ela já faz o primeiro pedido. "Gostaria que ele promovesse uma maior exportação da nossa música". Paulinha, só nos resta torcer.

Sobe


Paula Toller e sua voz líquida

        Antes, uma consideração preliminar. A maior cantora do Brasil é Ná Ozzetti e isso não está em questão. Limpidez, modulação, timbre, balanço, a nota exata. Ná, que soe só. Ná é mais do que todas são, mesmo quando são todas juntas, e não é esse o ponto. Fim da preliminar.

        O ponto é outro, ou, melhor, o ponto é outra, digo, o ponto é a outra, a voz feminina que escorre líquida para dentro dos ouvidos da gente e transporta o corpo ao lugar que a imaginação não conhecia, uma terra clara e abrasiva onde se fica de joelhos em sinal de súplica para que ela, a dona da voz que escorre, nos acolha com os dedos de seu pé, os dedos que se deixam ver de longe, lá no palco. O ponto, enfim, é Paula Toller, é o jeito que ela tem de cantar.

        Quando eu soube que tinha saído o acústico da MTV com o Kid Abelha, há coisa de uns dois meses, saí pelas lojas de discos feito um pedinte. Mendigava com os olhos para que os balconistas reconsiderassem sua frase horrível: ''Ainda não chegou.'' Fui a uma, a duas, a três, até que achei. Mal conferi o troco e saí correndo para o carro. Fiquei ouvindo sem parar, repetidamente, por uma semana inteira. Que delícia.

        As melodias que soavam nos alto-falantes das portas do automóvel se misturavam às melodias que eu trago na memória. Ela cantava no CD e também cantava em minhas lembranças. Dentro do meu carro, indo pra lá e pra cá, eu vivi muitas vidas outra vez. Nunca amei tanto os congestionamentos, a chuva na cidade, o olhar das moças nos carros ao lado. Eu ouvia e reouvia tudo, ouvia o que ela gravou ou regravou agora e também o que ela não regravou. Eu ouvia tudo perfeitamente. Por exemplo: ''Eu tenho pressa, tanta coisa me interessa, mas nada tanto assim.'' Isso ela não regravou, oh, dor. Mas era como se ela estivesse cantando a mesma canção outra vez, ali, só para mim, como se ela estivesse no banco de trás, o queixo colado ao meu ouvido. Paula Toller sabe o sentido da minha vida. Ela prosseguia, na minha memória: ''Eu sei de quase tudo um pouco, e quase tudo mal.'' Versos como esses deveriam estar inscritos em mármore, em letras formidáveis, no alto dos portais de todas as faculdades de jornalismo. Deveriam estar escritos na minha testa. Se eu não fosse tão covarde, mandava tatuar.

        Acho que ela existe como cantora há 20 anos. Mais, talvez. E é sempre a mesma: uma loira cujos olhos se divertem enquanto vêem o que quer que seja. No CD que eu comprei vem um caderninho de fotos, graças a Deus. Ela aparece com um jeans que lhe deixa a barriga aparente e, às vezes, de cabeça baixa, olhos protegidos pelos fios metálicos de seus cabelos sobrenaturais, ela sorri, muito perto do microfone. Agora, enquanto escrevo, ponho o CD na sala de casa. Ela canta uma canção chamada Nada sei. Que ironia poética: Paula Toller sabe tudo. ''Nada sei dessa vida, vivo sem saber, nunca soube, nunca saberei, sigo sem saber.'' Eu começo a me desmilingüir. Aí vem o refrão: ''Sou errada, sou errante, sempre na estrada, sempre distante.'' Penso que as cordas vocais dessa mulher são fibras hipersensíveis que se estendem do avesso dos seios, do coração, do sexo, penso que elas são línguas que tocam e amolecem as ondas sonoras transformando-as em fios de um melado viscoso e sensual, tecendo redes em uma atmosfera irreal que me captura a alma puída. Ela sabe tudo de mim porque diz que não sabe nada, e diz que vive sem saber. Em outra canção, ela volta ao tema do saber e não saber: ''Desde que estamos aqui, eu não quero saber, eu não quero saber quem está por cima, quem está por baixo.'' Ela trina e eu tremo. Minha cabeça trepida, entregue. ''Eu não quero saber'', ela repete, e eu quase entro em transe.

        (Pausa para respiração. Acho que estou exagerando.)

        (Melhor prosseguir entre parênteses. Ultimamente, para ser franco, tenho notado que cometo alguns excessos estilísticos e, às vezes, excessos demenciais pura e simplesmente. No caso de Paula Toller, contudo, ao dizer que quase entro em transe, eu não falto com a verdade dos fatos. O transe, aqui, não se refere a um efeito mágico, mas a um efeito estritamente psiquiátrico. É muito simples. Escute, por exemplo, um CD de Jorge Benjor. Deixe-se levar por aquele ritmo, aquele balanço que poderia ser transcrito do seguinte modo: ''Jacutinga, jacutinga/ jacuti-cuti-cutinga''. Todas as letras e todas as melodias de Benjor cabem dentro da métrica dessas palavras seqüenciais, com sua musicalidade e suas tônicas distribuídas pelas sílabas preestabelecidas: ''Jacutinga, jacutinga/ jacuti-cuti-cutinga''. A repetição exaustiva desse ritmo certamente ativa mecanismos neuronais de excitação e relaxamento de uma única vez. Jorge Benjor faz bem para a saúde mental. Lulu Santos é diferente, embora seja um fator análogo. Alguns discos de Lulu Santos em breve passarão a ser vendidos em farmácias como substitutos de Prozac, com a vantagem de não ter efeitos colaterais. Ouça Lulu Santos e ganhe uma dose de autoconfiança que dura de seis a oito horas. Enfim, o que estou tentando dizer é que há de haver alguma explicação psiquiátrica para o efeito físico que alguns cantores provocam em nós. Paula Toller exerce em mim esse moto gerador de amor tresloucado, admito, mas é um fenômeno psiquiatricamente plausível. Ela me eleva o espírito a um gozo inigualável, mas é um efeito clínico, não é fetiche, eu juro. Fecho parênteses.)

        Essa mulher, sua voz líquida, suas letras ingênuas. Ela me tira o ar e me devolve a vida.

Sobe


Baba, Kelly Key
Paula Toller reconhece que melhorou e se identifica com a cantora de Baba

        O tempo não passa para as belas curvas de Paula Toller, a musa do rock brasileiro. Mas os 20 anos de estrada visivelmente deram novas cores para a voz que está à frente do Kid Abelha durante todo este período. Olhando para trás, depois de juntar os pedaços e sucessos da história do grupo para as gravações do Acústico MTV do Kid, que chega agora às lojas em CD (o DVD sai em dezembro e o programa estréia nesta sexta-feira na MTV), a cantora reconhece: "Eu não era uma cantora. Eu era uma garota que fazia parte de uma turma", analisa, em entrevista coletiva.

        Para celebrar os novos tempos, e o aniversário de duas décadas, Paula, George Israel e Bruno Fortunato receberam, no Pólo de Cine e Video de Jacarepaguá, no Rio, em setembro passado, dois convidados ilustres e com perfis distintos do pop radiofônico do grupo: o pernambucano Lenine e o guitarrista do Ira!, Edgard Scandurra. "Não queríamos ir no óbvio e por isso chamamos o Lenine, que é mais MPB, e o Edgard, que é mais roqueiro", explica Paula.

        Mas o que chocou mesmo, ainda mais do que a inclusão do hit de Claudinho e Buchecha Quero te encontrar - que, num toque de paranormalidade, eles ensaiaram pela primeira vez no mesmo dia em que Claudinho morreu - foi a interpretação de Paula para Baba, sucesso de Kelly Key.

        "Não é uma ironia. Acho (Baba) uma música legal, super divertida, pop e engraçada. Temos uma ligação com esse tipo de som, do tempo que começamos nos anos 80 e fazíamos muitos bailes e shows de playback. Todo mundo que tava estourado fazia e só alguns não, porque não gostavam de ir ao subúrbio", relembra.

        A tal brincadeira parecia fadada a existir apenas na memória dos seletos presentes nas gravações, mas algum espertinho da MTV resolveu incluir a cena nos extras do DVD. Uma atração a mais para alavancar as vendas do projeto acústico, cujas vendas costumam atingir bons patamares, para felicidade da diva: "Espero vender muito! Se eu não fizesse disco para vender eu ficaria em casa e não entraria para uma gravadora". Vender, Kelly Key já vende. Agora o resto... se bem que, se Paula Toller pôde ir melhorando ao longo da carreira, por que Kelly Key não pode?

Sobe


Kid Abelha grava seu Acústico MTV

        Foi-se o tempo em que a voz de Paula Toller suscitava críticas nem sempre respeitosas: em português claro, desafinada era o termo recorrente associado à cantora. A bela quarentona provou nesta quarta e quinta-feira que não precisou do Pro Tools (o salvador programa de computador que conserta escorregões de gente que não sabe nada do riscado) para dar a volta por cima. Os vinte anos de carreira do Kid Abelha, completados neste ano, fizeram bem à diva, que comemorou o aniversário da banda (e o seu, agora em agosto), sua excelente forma física e sua linda voz no Acústico MTV do grupo, gravado no Pólo de Cine e Video de Jacarepaguá, no Rio.

        No repertório do programa, que vai virar também CD e DVD (nas lojas em novembro), vingou a receita de sempre do formato: um punhado de inéditas, duas ou três esquecidas e vários sucessos. As novidades são Nada sei, Meu vício agora e Gilmarley song, esta última uma homenagem à Gilberto Gil e Bob Marley, idealizada quando Paula assistiu o último show do baiano, que lançou este ano um CD com músicas do rei do reggae. A nova safra marca um amadurecimento (especialmente nas letras) do conjunto, menos aficcionados nos temas amorosos e com uma amplitude quase política.

        Das velhas conhecidas estavam lá Fixação, Pintura íntima, Como eu quero, Amanhã é 23 e Eu tive um sonho, devidamente acompanhadas pelo coro da platéia, sempre escolhidas à dedo com integrantes de fã-clubes capazes de cantar todas as letras de cabo à rabo. Além do público, participou de Como eu quero o guitarrista do Ira!, Edgard Scandurra, que exibiu sua habilidade em um belo solo de violão que lhe rendeu elogios: "Seus solos de guitarra me conquistaram", se derreteu com sensualidade a vocalista, fazendo alusão aos versos de Fixação.

        O Kid aproveitou também para regravar Na rua, na chuva, na fazenda, sucesso de Hyldon que a banda já havia revisitado no disco Meu mundo gira em torno de você (1996). O conjunto contou com o habitual talento do pernambucano Lenine para dar maior beleza à canção, que teve de ser repetida quatro vezes (dentro da média, em se tratando de acústicos). Outro momento alto do acústico foi a interpretação do sucesso na voz de Cazuza, Brasil, em que George Israel (co-autor da música ao lado de Nilo Romeiro) teve seus minutos de glória, ao cantar o hit junto com Paula.

        Kelly Key - Mas curioso mesmo foi poder conferir as impagáveis imitações e performances da cantora, feitas entre uma piada e outra (umas engraçadas, outras nem tanto) que não entrarão no CD (nem no programa), mas que foram devidamente registradas pelas câmeras da MTV. Em uma delas, Paula Toller cantarolava uma canção dos Beatles quando se tocou: "Gravar Roberto Carlos já está difícil, imagina Beatles!", disse, arrancando as risadas de quem está por dentro das sucessivas tentativas frustradas de artistas que tentam regravar músicas do Rei.

        Paula emendou em seguida O Portão - aquela em que Roberto Carlos solta a voz nos versos eu voltei/e agora é pra ficar/porque aqui/ aqui é o meu lugar -, pouco se lixando para as recusas do cantor. Neste esquema quase de avacalhação, Paula avisou: "Pô, tinha prometido que hoje eu não ia cantar Baba (sucesso da Kelly Key)", brincou. A vocalista fez questão de elogiar a menina: "Me lembra o nosso começo", disse, séria, antes de começar sua hilária interpretação da música, em que abusou dos trejeitos sexy-infantis de Kelly Key.

        Vale lembrar que a sessão versões proibidas teve a participação intensa da banda, formada pelos ex-Abóboras Selvagens George Israel e Bruno Fortunato, acompanhados por Jefferson Vitor (trompete), Kadu Menezes (bateria), Rodrigo Santos (baixo), Humberto Barros (piano), Nani Dias (violão), Ramiro Musotto (percussão). Neste pacote teve ainda A festa, de Ivete Sangalo, e Smoke on the waters, o maior sucesso do Deep Purple, já gravado pelo Kid Abelha em discos anteriores.

        Paula Toller cantou ainda Quero te encontar (aquela que diz: você pra mim é tudo/minha terra meu céu meu mar), uma homenagem à dupla Claudinho e Buchecha. Claudinho faleceu recentemente, vítima de um acidente de automóvel. Esta faixa sim, vai entrar no CD Acústico, mas chegou a confundir: será que não fazia parte do script fake? Não fazia.

Sobe


Kid faz 'surf music' de brincadeirinha

        Quer chamar alguém de mané é só dizer que essa pessoa ''soltou pipa no ventilador'' ou ''jogou bola de gude no tapete da sala''. Quando a gente ouve Surf, o novo disco do Kid Abelha, e vê que de surf music não tem nada, a impressão que se tem é de que eles estão no time de quem pega onda na grama. Mas não é o caso. Eles conseguem fazer isso sem correr o risco de serem tachados de manés, de ridículos. A bela Paula Toller, o sempre-com-cara-de-sono George Israel e o sisudo Bruno Fortunato não estão querendo disputar nada com um Dick Dale da vida - esse, sim, um ícone da surf music de verdade. Depois de 19 anos de estrada e a bordo de nova gravadora (Universal Music, a maior do mercado), o trio carioca está apenas dando a seus fãs aquilo a que eles se acostumaram: cançõezinhas de amor, uma pitada de crônica do cotidiano da Zona Sul, coisas inofensivas que a gente pode ouvir no rádio, enfim.

        Surf, o esporte, tem a história de que uma onda nunca é igual a outra. É parte do que seduz quem acorda cedo e encara a água fria para ver a praia de cima de uma prancha e de um ângulo diferente. Em Surf, o disco, diferentes ondas não serão o maior prêmio de quem decidir comprá-lo. A máxima das praias não foi aproveitada no conceito da bolacha. Em "Eu contra a noite", "3 garotas na calçada" e "O rei do salão", as três primeiras faixas, uma certa sensação de repetição incomoda o ouvinte. Parece haver palavras-chaves que se repetem nos versos escritos por Paula Toller. Ela compensa isso dando certa graça e sensualidade à interpretação das historinhas.

        O fato de o produtor da moda, Max de Castro, ter cuidado de duas faixas, dando a elas um climinha black, até garante, vá lá, certa diferença. Mas "10 minutos" e "Solidão, bom dia!" são só duas num mar de 11. A primeira tem quatro minutos e meio de dualidade: é melancólica e animada; a outra, mais curta, segue a linha em que a letrista parece querer tornar-se mais íntima de seu ouvinte/fã. Ela conta que ''Deu formiga em minha cama'' e que ''Não há 1 novo amor''. É uma música sobre solidão, como diz o título. Tem um toque de intimidade - mais convidativo, até - também em "Da lama à pista", esta produzida por George Israel e Kadu Menezes. Nela, canta Paula: ''Mesmo vestida/ Estou sempre nua/ Sou de nenhuma pessoa/ A vida é bela, a vida é boa/ Da lama à pista...'' Na festa dos produtores, há ainda o hitmaker Memê cuidando dos botões em "Eu contra a noite" e na passa-que-a-gente-nem-sente "Gávea- Posto 6". Essa é a única letra do disco que Paula Toller não escreveu sozinha, tendo preferido dividir com Cris Braun.

        A única que ela não canta sozinha é "Ressaca 99". George Israel, que também produziu esta com Kadu, empresta o gogó a uma faixa que tem um dos mais poderosos refrões do CD: ''Vale a pena esperar/ Todos vão à praia pra ver o mar''. Só não vai pegar se houver praga de mãe na história, de tão grudento que é. Candidata a sucesso, é uma das que melhor traduzem a intenção de fazer crônica, pelas citações que traz: ''Hora de ir no Posto 6 e pensar no Havaí/ De comprar pão francês e passar no açaí/ De tirar xerox, de lanchar no Bobs/ Ver as maçaroca de Copa subir.''

        Ainda bem que George não quis cantar com ela "Eu não esqueço nada". A faixa é melaaaada mas, por ser também mais complexa, dá à cantora chance de se/nos entreter. O CD tem ainda "Pelas ruas da cidade" e "Quando eu te amo". Esta última escapa de ser só mais uma ondazinha graças ao jeito como Paula canta o verso-título: ''quando eu te amo''. Referindo-se a esse detalhe, diria um surfista: ''show, filé.''

Sobe


Kid Abelha detona na Cidade do Rock

        O Kid Abelha entrou na Cidade do Rock ontem às 20h55 com o jogo ganho . No show de uma hora que terminou com um " obrigado por esses 18 anos " dito por Paula Toller , o público pulou , cantou todas as músicas junto com a banda e foi muito mais animado do que os músicos no palco . Como não precisava se esforçar para ganhar o público , que já estava no bolso , o Kid deu uma certa burocratizada no show . O melhor parâmetro para isso foi a hora da apresentação dos músicos , quando alguns deles , como Dunga (baixo) , Kadu Menezes (bateria) e Cezinha (percussão) mostraram , que tinham muito mais na manga do que estavam mostrando .

        O Kid entrou no Palco Mundo quando a dupla Touré , Touré , do Senegal , estava encerrando um dos melhores shows deste festival na subestimada Tenda Raízes , a maior novidade do Rock in Rio . O ronco do poderoso P.A. tocou uma versão eletrônica de Deus , com Paula cantando Deus apareça na televisão , enquanto o telão mostrava o nome da banda e ilustrações coloridas ao estilo dos quadrinhos . A banda entrou com "Eu tive um sonho" , com Paula Toller esplendorosa num mini vestido prateado aberto dos lados com um shortinho por baixo e botas de cano alto , puxando o primeiro coro da noite .

        As 14 canções foram todas radiofônicas por serem sucesso e por terem duração inferior a três minutos , com exceção da dançante "Fixação" e de "Pintura íntima", estendida para a apresentação dos músicos. "Alice" teve um solo inaudível do sax de George Israel, com um visual ié-ié-ié total. A identificação do Kid com a Jovem Guarda continua forte como nunca nas levadas de várias músicas como "Te amo pra sempre", sem falar, claro, na cover que banda gravou de "Pare o casamento", da Wanderléia . Aliás, Paula está com cabeleira loura farta como a da Vandeca.

        No meio do show Paula reclamou que tinha "um cara falando em inglês no meu ouvido o tempo todo" , referindo-se a problemas no retorno de ouvido que ela já vinha acusado desde o começo. O povo não negou fogo em canções como "Na rua, na chuva, na fazenda" e na volta aos anos 80, como ela disse, com "Lágrimas e chuva", sucesso do segundo LP, de 1985, ano em que tocaram no primeiro Rock in Rio .

        Um bom momento semi-acústico com George ao violão e Bruno Fortunato fazendo intervenções criativas na guitarra teve as canções "Amanhã é 23", "Grand' Hotel" e "Desculpe o auê", de Rita Lee , homenageada por Paula com um "viva Rita Lee, deusa do rock brasileiro e mundial". Depois do hit "Como eu quero", Paula puxou "Fixação" e os marmanjos vibraram quando ela dançou de costas e a câmera fechou no derriére com as bochechinhas de fora.

        Para encerrar, "Pintura íntima". "Cantei essa no videokê e tirei 97, vamos ver que nota vocês tiram", provocou ela . E todo mundo foi atrás berrando a letra inteira. Um 100 com louvor. O Kid está gravando seu primeiro CD por uma nova gravadora, a Universal, num importante momento de redefinição de sua sonoridade pop. A bagagem acumulada lhes garante um lastro confortável junto ao público , mas eles tem diante de si um futuro desafiador.

Sobe


 Kid Abelha voa no tempo
Grupo relê clássicos em seu novo CD, indo de Ben Jor a Wanderléa

        No fim deste ano, o Kid Abelha completa 18 anos de bzzzz nos nossos ouvidos. Animada com a maioridade na carreira, que coincide com o lançamento do CD-com-jeito-de-vinil Coleção, a bonita Paula Toller aproveita para confessar que ela e seus companheiros de banda, Bruno Fortunato e George Israel, nunca foram santos. "Na verdade, esse disco fecha um ciclo de cercas que a gente pulou. Coisas que a gente fez por fora. Estamos reconhecendo esses filhos", diz, referindo-se ao repertório, todo pescado de discos não de carreira mas dos quais participaram, como o tributo a Roberto Carlos produzido por Roberto Frejat. Há apenas três inéditas na bolacha, o resto é tudo regravação. Tem por exemplo a animadíssima Pare o casamento (em duas versões), uma homenagem a Wanderléa.

        "Gosto muito dela. Wanderléa é o máximo", elogia Paula Toller, para quem o disco é como uma reunião de singles e "não está vintage". A abelha rainha prossegue: "A gente queria gravar uma música que fosse bastante animada, bem rock. Tínhamos mais opções, mas "Pare o casamento" atropelou todas as outras. Era a preferida dos técnicos, dos músicos, virou a preferida da gravadora também... E os arranjos não ficaram nostálgicos."

        Com a mesma aura aparece "As curvas da estrada de Santos", de Roberto e Erasmo Carlos, além de duas de Jorge Ben Jor: "Mas, que nada" (esta com participação especial do autor) e "O telefone tocou novamente". Sem falar de "Teletema", que tem até um barulhinho no início da faixa, algo como que simulando um vinil que começa a ser tocado. Mas não pegue isso para incluir o trio em qualquer clubinho de revival do formato fonográfico de nossos avós. Eles dizem não estar aqui para isso. Dizem também ser difícil acreditar que essa faixa, "Teletema", foi produzida pelo DJ Memê. "É que ele é todo modernoso", brinca a cantora do grupo.

        George Israel tem uma explicação para o bom casamento entre as faixas: "Quando escolhemos participar de songbooks ou projetos que homenageiam alguém, não é só aceitar. A gente escolhe a música que quer fazer. Então, juntando todas essas músicas, elas têm a ver umas com as outras."

        Para eles, nem a meio brega (o que não quer dizer que seja ruim) "Pingos de amor", originalmente do CD Rider hits (de 1997), quebra essa unidade. Pecado que também não cometem as três inéditas: "Deve ser amor", "Eu sei voar" e "Um momento só".

Sobe


Crítica - Coleção
Mel de boa qualidade

        Deu bom resultado a preocupação do Kid Abelha na hora de reler clássicos como os que eles incluíram em Coleção. Ponha o som em volume de festa, reforce os graves no seu equalizador e ouça a doce "Pare o casamento" para conferir. Talvez não fosse preciso ter duas versões da mesma música, uma abrindo e outra fechando o disco, já que, como você vai poder conferir no seu som (então num volume que não incomode os vizinhos), há apenas sete segundos de diferença entre as duas. Bem que poderia ser uma daquelas extended mix, para aproveitarmos mais o contrabaixo e a voz da nova Wanderléa.

        A primeira impressão que se tem vendo as cores desbotadas da capa, sem falar nas diversas referências aos compactos no miolo do encarte, é mesmo a de que se trata de algo com clima de antigamente. Mas não é bem assim. Na hora da audição, esse clima não vai além do fato de a maioria das músicas ter sido composta numa época em que nem se sonhava com CD. Tirassem o chiado de "Teletema" e o som não teria nada de "antigo".

        Se no disco anterior, Autolove, Paula Toller se mostrava mais segura nas composições, com esse não vamos poder saber se a abelha está voando ainda mais alto. Como são antigas as três inéditas que estão no trabalho, elas retratam uma outra compositora. Sem contar que são parcerias, às vezes com George Israel ("Um momento só"), às vezes incluindo uma terceira pessoa (Cris Braun em "Deve ser amor", ou o outro Kid, Bruno Fortunato, em "Eu sei voar"). Mas dá para "ver" que ela está se divertindo catando esse repertório. A voz da abelha está um mel, doce mesmo. Leve um pote.

Sobe


Kid Abelha chega a fase adulta

        O Kid Abelha deixou definitivamente de ser a banda do pop açucarado do Rock Brasil. O LP anterior, Kid, de agosto de 1989, mostrou uma virada do trio depois do insosso Tomate. O novo LP, Tudo é Permitido, consolida caminhos de uma banda pop adulta e muito profissional. Ao contrário de grupos como o Barão Vermelho, sempre elogiado pela crítica, o Kid Abelha cresceu debaixo de pau, obtendo na aceitação popular a compensação pela enxurrada de pichações dos críticos.

        Na abertura de Kid, Paula anunciava o fim da puberdade e a eficiência demonstrada então comprovou suas palavras. Desta vez, a mudança mais acentuada ficou por conta dos dotes poéticos de Paula Toller, revelando-se de uma crueldade insuspeitada por trás do visual platinum blonde que insiste em manter. Tudo é Permitido mostra Paula como autora de versos (brancos) mais inspirados aqui, menos ali, mas a média se mantém em alta. Bruno Fortunato (guitarra) se apresenta como um instrumentista sofisticado, pilotando duas a três guitarras e violões por faixa com timbres diferentes e de bom gosto. George Israel continua a ser um músico passional, que toca com arranjos frenéticos, dobrados e multiplicados por efeitos. Além de Nilo no baixo, o Kid convocou para a bateria Kadu, um dos melhores instrumentistas brasileiros.

        Que o Kid não é mais o mesmo ficou explicito em "Grand’ Hotel", a primeira música de trabalho estourada nas rádios. Uma balada trabalhada em cima de violão, várias guitarras, piano e uma letra eficiente sobre um amor que se transformou em "bom dia". Mas o disco abre com três faixas que servem para Paula mostrar seu lado de sexo, crueldade e pop’n’roll. Um violão com acordes que lembram "Pinball wizard" (The Who) abre "A palavra forte", uma balada onde brilha o baixo de Nilo Romero, também produtor do disco.

        Um mantra abre a faixa seguinte, "Lolita", mais standard, com sax e guitarra anunciando uma Paula encarnando a Lolita de Nabokov: "Toda menina já foi Lolita na vida/ Não por amor mas por desejo de poder/ Praticar a crueldade e se satisfazer/ Sexo fácil, companhia e prazer," destila Paula com uma interpretação sensual, sussurrada e irônica ao final: "Você pensou que me ensinava/ bebia na fonte da juventude/ mas era eu que bancava o jogo/ Mas era eu que possuía o seu corpo."

        Encerrando a trilogia, "A indecência", inspirada no poema erótico de D.H.Lawrence A indecência pode ser saudável: "Tudo é permitido/ Se o sentimento for verdadeiro/ Mas se o cérebro vier primeiro/ É tudo proibido", proclama o refrão que calca versos tipo "A indecência pode ser saudável/ A indecência pode ser normal/ Um pouco de indecência é sempre necessário/ Para manter uma vida normal".

        A surpresa do disco fica por conta de duas covers - "Não vou ficar" e "Fuga nº II" - e de "Eletricidade", a estréia de George Israel no vocal. "Não vou ficar", de Tim Maia, gravado por Roberto Carlos nos tempos da Jovem Guarda, recebe aqui uma versão que deve ganhar as rádios e pistas de dança com um naipe que tem os convidados Sena (trombone) e Demétrio Bezerra (saxofone), além do órgão de William Magalhães. "Fuga nº II" recebeu uma boa versão mais é dificil superar a gravação original dos Mutantes, uma banda até hoje insuperada no rock brasileiro.

        Para estrear no vocal, Israel recebeu um santo de Otis Redding como acontece quando ele canta na Midnight Blues Band. "Eletricidade" é dele, do Nilo e de Cazuza e o arranjo é Sitting on the dock of the bay total. Israel se esgoela e os metais suingam numa faixa bem adrenalina. "Eletricidade" é uma gata que "não presta e nem quer prestar" como dizem os versos de Cazuza.

        Um fã do Kid Abelha assina um dos releases do LP, Renato Russo (o outro é de Tom Leão), definindo o Kid numa boa frase: "Sem pretender desvendar os grandes mistérios da psiquê humana ou tentar um registro destes tempos conturbados, o Kid acaba fazendo exatamente isso e de maneira ao mesmo tempo incisiva, bem-humorada e extremamente dançante."

        Para embalar Tudo é Permitido, o Kid convocou o talento de Flávio Colker, o fotógrafo-mór do Rock Brasil, que bolou uma linda capa e encarte em preto e branco, deixando o colorido para uma foto do encarte duplo, onde os Kids brincam de guarda-chuva numa praia. Gravado com apuro técnico por Paulo Junqueiro, Antoine Midani e Mauro Bianchi, Kid Abelha entrega um disco capaz de vencer o retraimento de um mercado assolado pela recessão.

Sobe


Vida longa aos Abelhas

        Na primeira faixa de trabalho do novo LP, "Agora sei", Paula Toller anuncia o fim da puberdade, com a ressalva de quem nem se lembra mais da primeira vez que deu. Essas lembranças sexuais perdidas no passado se juntam às lembranças das críticas virulentas arremessadas contra o Kid Abelha ao longo de sua carreira. Cazuza, autor da letra "De quem é o poder", lembra numa mensagem anexada ao disco que, nos primórdios do Kid e do Barão Vermelho sob a lona do Circo Voador, não gostava dos Abelhas "nem daquela garota tímida miando no microfone" (hoje, ele se considera um Abelha honorário).

        Esse tipo de pichação sempre perseguiu Paula Toller mas, agora, ela dá o troco em grande estilo, brilhando de ponta a ponta no quarto LP de estúdio da banda, batizado simplesmente de Kid. Reduzido no nome, com o abandono de Os Abóboras Selvagens, e na formação, agora mero trio, com George Israel (sopros), Bruno Fortunato (guitarras) e La Toller (vozes). O Kid Abelha lança um disco quase impecável, produzido por eles com o Abelha honorário Nilo Romero, responsável pelo baixo encorpado e quase solo de todas as faixas, mais a indispensável assessoria técnica de Paulo Junqueiro.

        A embalagem do LP é forte concorrente a melhor do ano, um quebra-cabeça a cores montado por Gringo Cardia, da Bela Arte, o designer que fazia a programação visual da Blitz com Luiz Stein. Um trabalho apurado, com cortes na capa para que apareçam figuras e montagens do envelope e, na contracapa, dois Kids e meio, com a cara do Bruno partida pela metade. O click é do fotógrafo-mór do Rock Brasil, Flávio Colker.

        Os Abelhas sempre foram desafiadoramente pop, conquistando o aplauso do público e a ira dos críticos mas, desta vez, conseguiram dobrar até a crítica paulista, que os elegera como representantes máximos do descartável rock do balneário, em contraposição à densa produção das bandas de Sampa, principalmente as do circuito independente.

        As músicas do Kid têm melodias fáceis, uma levada limpa e pouco agressiva mas a sonoridade é absolutamente pessoal. Ao longo das nove faixas do disco, George Israel busca timbres diferentes para seu sax. Bruno se alterna entre os timbres limpos na levada das músicas e os solos distorcidos, que dão um toque rock e uma leve sujada no som limpo da banda, num contraste bem interessante.

        No ano passado, Paula Toller causou verdadeiro frisson nos shows do saudoso Alternativa Nativa. Um ventilador que devia apenas fazer a saia dela esvoaçar numa música, acabou detonando um furacão que lhe deixou à mostra as calcinhas, alçando-a ao pedestal de sex symbol, algo que já vinha sendo ensaiado com os cabelos louríssimos e as roupas provocantes. A visão das calcinhas embotou o fato de o Kid estar ali oferecendo um show hiperprofissional, com nove músicos no palco e uma produção ousada para os nossos eternos tempos de crise.

        Neste LP, Paula brilha por um aspecto inédito, o apuro técnico. Além de estar cantando melhor do que já cantou, faz todos os vocais do disco fazendo a primeira, segunda, 15º e 28º vozes com timbres inusitados. Como letrista, Paula melhora cada vez mais, numa progressão do aprendizado de poeta a que teve que se submeter pela necessidade de suprir o vácuo deixado pela saída de Leoni.

        Como sói acontecer com o Kid Abelha, quase todas as faixas têm cara de hit. O quase aí fica por conta de "Paris Paris" (que é capaz de estourar só pra me desmentir). Trata-se de uma incursão pelo cool jazz, uma área totalmente estranha para o Kid. Se tivesse sido gravada com o Nouvelle Cuisine, provavelmente a banda teria uma música hors concours no repertório. E a letra tem sacadas ótimas da Paula: "Em Paris, Paris/ a nova luz da Tour Eiffel/ no céu, no céu/ iluminando um quarto de aluguel/ gente de aluguel/ desfilando pelos trottoirs de Paris". Outras boas sacadas estão na faixa final "Cantar em inglês", um sarro com essa fixação (fantasmas no meu quarto) que anda tomando conta das bandas nacionais: "Cansei de ser famosa no Oiapoque/ quero ser alguém em Nova Iorque."

        No resto do disco estão letras bem feitas ou nem tanto sobre os temas amorosos que consagraram o Kid Abelha mais a faixa-hit com a letra de Cazuza, "De quem é o poder?", que podia se chamar Burguesia II, tal a identidade com a primeira música de trabalho do novo LP do Caju: "De quem é o poder? Quem manda na minha vida?/ Uns dizem que ele é de Deus/ Outros, do guarda da esquina/ Uns dizem que é do presidente/ E outros, que vem mais de cima/ É do ativo ou do passivo/ De quem é?". No pop nacional, o poder é do Kid Abelha. Long live the Kid...

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