Quando Paba Curinã Macuna’imã – criador de tudo e de todos – resolveu juntamente com Pia, seu irmão gêmeo, vingar a morte de sua mãe pelos tigres, filhos de Konaboáru, a Rã da chuva, e que mora nas Plêiades, ainda não havia na terra nenhuma forma de vida. A terra era tão somente uma rocha informe encoberta por cinzas e ácido sulfúrico que emanavam dos grandes vulcões pré-cambrianos. Depois de subjugar e matar a Konaboaáru, Tomou então Paba Curinã Macuna’ímã a terra como nova morada e a transformou. Mandou grandes águas encobrirem todos os grandes vulcões que incendiavam a terra e deixou de fora as terras boas e criou os rios, cachoeiras, todas as plantas e animais da floresta, ouro e diamante. Tudo vivia em perfeita harmonia na terra. Depois Paba Curinã macuna’imã criou a flor, e quando por fim, criou o homem e lhe deu o poder do fogo. Então trouxe o homem a destruição, os conflitos e o desequilíbrio. Foi tão grande a decepção de Paba Curinã macuna’imã, que ele resolveu dormir eternamente para que jamais voltasse a ver o fracasso de sua criação. Então dormiu no extremo norte da floresta e até hoje, lá ele dorme seu sono profundo no seu próprio corpo gigantesco que, agora, também é seu túmulo – a serra de Caburaí.
Mas Paba Curinã macuna’imã, deixou antes de morrer, um filho entre as mulheres mortais, e o chamou de makunaima.
Certo dia, makunaima e seus irmãos por parte de mãe, Akúli, Jingué e Kali, estavam na floresta a procura de frutos. As árvores frutíferas ficaram escassas e muito dispersas na floresta após a ida de Paba Macuna’imã ao seu sono eterno. Makunaima, Akuli, Jingué e Kali, começaram a sentir fome e eles só tinham comido Pupu, um fruto de uma palmeira de gosto muito ruim. Ainda que fosse o mais novo makunaima era o mais inteligente de todos. Então reuniu makunaima a seus irmãos e ordenou que cada um fosse em lugares diferentes em busca de frutos. Depois de perambularem por horas floresta adentro, voltaram ao ponto de onde partiram e se reuniram. De todos que foram à caça dos frutos, Akuli foi o único que voltou tranqüilo, mesmo dizendo que não havia encontrado nada. Os demais voltaram de mãos abanando e muito nervosos. Makunaima notou que Akuli, de vez em quando palitava os dentes com um pequeno graveto e não reclamava de fome. Então makunaima começou a desconfiar de Akuli.
No dia seguinte, ordenou makunaima mais uma vez que seus irmãos fossem em busca dos frutos, e de modo escondido, seguiu Akuli.
Foi então que Makunaima teve uma grande surpresa. Ele descobriu que Akuli encontrara uma enorme árvore que produzia todos os frutos da floresta com grande abundância. Imediatamente Makunaima batizou-a de Wazaká – a árvore da vida. Makunaima convidou todos os animais da floresta, inclusive os pássaros, para um uma grande festa embaixo da Wazaká. Todos comeram e estragaram muitos frutos. E sempre voltavam para comer e estragar as frutas, o que deixava Makunaima muito triste. Por isso Makunaima resolveu cortar a árvore de vida, a Wazaká, pelo tronco. E assim foi feito.
Os galhos que tinham frutas caíram para o norte, por isso, a mata que fica para o norte é mais fértil e tem mais banana. A seiva do tronco de Wazaká começou a correr formando novos rios que hoje correm pela Venezuela, guiana e amazonas. O tronco da árvore da vida – Wazaká – é hoje conhecido como o monte Roraima.
Adap. Roger Silva