WALESKA ARMINOVA

 

Oh, waleska, tu que ainda dormes o sono dos inocentes, desperta-te, pois já é chegada a hora nona, e tu comigo deverás hoje partir.

A lua rubra no horizonte já de toda se mostra a essa noite escura e solitária. Essa noite que, a parir de hoje, nos será eterna; nela viveremos sempre juntos; esta noite que agora começa, será nossa casa; será nosso eterno lar.

Esta é a noite dos nossos antepassados, oh, minha doce Waleska. Tu hoje os conhecerás. Tu hoje estarás entre nós, e serás a minha querida debutante nas festividades de iniciação. Ah, Waleska, tu ordenarás teu próprio poder sedutor. Tu serás desejada pelos homens e amaldiçoada por suas viúvas.

Acorda deste teu sono passageiro, e vem comigo viver um sonho de eterno viver. Vem ser rainha entre imortais e deusa entre os mortais.

 

- quem és tu que a esta hora, quando já alta vai a lua dos martírios, de lugares escusos vens me assombrar?

 

- eu sou aquele que um dia quando ainda mocinha, em uma noite escura, em um sonho medonho, meu nome soubeste chamar, e ao acordar, a ajuda soube a ti prestar.

 

- oh, tu então és aquele que do pesadelo me acalentaste, e quando refeita, teu nome a ti perguntei, todavia tu não me responderas.

 

- sim, aquele fui eu, e este, outra vez, agora sou. No sono tu o sabias, todavia.

 

- diz-me tu, com que sinal outrora marcastes meu antebraço, e que explicação a meus pais eu não soube dar.

 

- o sinal com que outrora fostes marcada, esse sinal me era de herança.

 

- diz-me tu, que a estas horas já idas, de temor me envolve, de quem herdara tu também esta marca?

 

- de herança foi me dada esta marca, a marca da minha casta, que de tempos já a muito idos, e que contagem já não mais alcança o entender, em uma noite como aquela em que num sonho, um outro até mim, comigo veio ter.

 

- e de igual sorte comigo veio acontecer...

 

- sim, pois da mesma casta teu sangue nobre lhe percorre as veias.

 

- diz me então tu, agora, quem és.

 

- Maximilianus Nosferatus, é como tenho sido batizado.

 

- és romeno, daquela terra nascido?

 

- não do ventre materno, mas do gene do sangue original, sou.

 

- e de que distâncias vens tu a esta paragem eslava?

 

- incumbido fui eu através dos instintos imortais, da Escandinávia até aqui estar, e tu em meus braços à origem voltar.

 

- como certa posso estar do que falas tu, que da noite pavorosa me chega e faz tremer minha alma?

 

- se treme tua alma, por incompreensível razão, é porque da imortalidade convicção ainda não tens. Mortais temem por saber que são mortais, mas tu, minha amada Waleska, deste medo não mais te acometerás, pois imortal és tu a partir desta noite que já alta vai.

 

- do temor que sinto, é do que desconheço, senhor, e não mais tão somente da dor...

 

- preciosa minha, digo-te agora. Que do desconhecido a ti, conheço eu, há muito já. E da dor, bálsamo saberei a teu corpo dar. A alma, esta de nada mais precisará.

 

- encoraja-me agora, tu que desde minha infância, em meus sonhos sempre nas penumbras te via de mim, te ocultar.

 

- teu alívio, preciosa minha, será teu próprio prazer a te deleitar. Esta será a maior dor que sentirás.

 

- oh, vem então. Dá-me deste teu segredo que a mim é de grande enigma. Mostra-me a verdade das tuas palavras, se é que delas posso eu depois de toda a minha vida, duvidar.

 

- preciosa és tu para mim, querida Walesca! Tua alva tez me faz os olhos cintilarem, sobre esse rubor de tua face e que escorre até teus seios e se desfaz em um róseo vívido, é o que mais nostalgia no futuro me trará.

 

- mas tal vivacidade, em tuas veias estará, senhor meu, embora tua face, com ela, jamais corará.

 

- sim, essa é a verdade. Mas enriquecerá o brilho do meu olhar, que assim como o teu, toda vez que de igual alma líquida provar.

 

- não te tardes tanto, senhor meu amo. Faz o que da tua imortal alma, prazer tanto almeja. Do rubor de minha face que sobe dos meus peitos róseos e agora desnudos, através de minha jugular, vem deles pronto tua sede saciar.

 

- ah, teus seios...por eles a última gota de tua alma vou sorver, depois que do rubor de tua face diluir através de tua jugular.

 

- ahhh...assim, senhor meu....estou sentindo como me falaste...ahh..sim...meu medo se desfaz agora em sublime prazer. Sinto fluir sensação de uma agitação da minha alma. Retira de mim essa essência mortal e me preenche com o fluxo imortal que de ti lanças até meu interior, me preenchendo de nova alma...a alma-essência dos teus antepassados, a tua casta. Me faz dona também desta noite sem fim, da qual me tornarei rainha eterna, e lançarei a todos os homens mortais que a mim quiserem também de sua essência dar, e formarei minha própria casta de súditos e encherei as noites dos mortais com o medo que têm da própria mortalidade...sim!...não pare, amo meu...bebe agora, sua última gota que ainda há dentro das câmaras do meu coração, através dos meus peitos desnudos e já sem o róseo vivido que há pouco havia, quando eu ainda era uma simples mortal.

 

 

 Roger Silva

14 de Abril de 2004 - 22:37 Hs

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