VOZES PERDIDAS NO TEMPO

 

Que alvorada verá aquele que só despertará no crepúsculo?”.

 

Certa noite eu sonhei que vivia em uma época muito antiga, onde nem mesmo no sonho me era possível saber em que momento da história da humanidade acontecia o que sonhava.

Lembro-me bem que estava no interior de um antigo templo construído sob a ordem de grandes forças dominantes, pelas quais conquistaram e subjugaram uma nação inteira, mas qual, e quando, eu não sabia.

Em uma espécie de câmara no subsolo me encontrava. A luz era muito tênue e monótona, proveniente de uma direção indefinida. Mas mesmo assim, eu podia distinguir bem as paredes que me cercavam. Eram feitas de enormes blocos de pedras justapostas em fileiras uniformes e sem nenhum acabamento. Eram paredes rústicas e largas, construídas para servirem de fundação para o resto da grande construção, a qual não pude ver seu formato exterior ou qual suas reais dimensões, mas minha consciência sabia que era muito grande o templo. O interior da câmara era muito úmido. Era possível notar facilmente essa umidade escorrendo pelas paredes até o chão, onde em alguns pontos, formavam pequenas poças de água. O chão também era forrado por grandes pedras lisas. Eu as pisava sem nenhum tipo de calçado e podia sentir a fria umidade que permeava o solo entre as pedras até meus pés. O ar era pesado, e o odor do mofo preenchia todo o local. Respirava com certo cansaço. Lembro-me que eu chegava até uma área que era como um grande anfiteatro ligado à câmara por uma estreita e baixa passagem. No seu final havia uma enorme parede com grandes prateleiras, e nelas havia muitos vasos de cerâmicas e em cada um deles havia algo escrito em alfabeto para mim desconhecido, que ao me aproximar, não sabia ler os escritos, mas paradoxalmente, eu sabia seus significados, como se alguém lesse e traduzisse para mim dentro de minha mente. Era como hoje, diria, uma biblioteca, pois dentro de cada um dos vasos havia manuscritos muito antigos, mesmo para o próprio povo que naquela época ali vivia. Mas eu não sabia em que época foram escritos, mas lá estavam e por algum motivo os guardaram ali, naquele lugar no subsolo, fora do alcance de todos os que viviam do lado de cima.

“Sobre o medo e o conhecimento...” era o que estava escrito em um dos vasos. Eu retirei sua tampa e pus dentro uma das mãos. Toquei algo que ao meu tato, me pareceu algum tipo de tecido ressecado e estava enrolado. Retirei-o do vaso.  Pus sobre a prateleira inferior que estava vazia. Abri e pude perceber que era feito de algum tipo de pele. Olhei os milhares de hieróglifos tão bem alinhados, tão bem escritos por uma mão muito hábil e cuidadosa, que se poderia pensar terem sido impressos em uma máquina primitiva, tamanha a perfeição dos desenhos e a semelhança entre os desenhos de mesmo significados.

Não compreendia uma só figura, mas, como antes, podia saber o que estava escrito em cada uma das linhas, como se fosse uma intuição divina.

A origem do medo está na razão de desconhecer sua própria origem... O conhecimento das coisas é remédio para a cura do mal do medo...”. Estava assim escrito em uma das linhas, no sentido vertical, de baixo para cima, da direita para a esquerda.

“... A maldade do Homem tem origem no medo da alma, e está relacionado com o desejo do não sofrimento” - dizia uma outra linha, e continuava: “a maior fraqueza do espírito humano é querer pensar que pode enganar a si próprio. Dizer o que não sente e ocultar o que sente. Dizer não, quando na verdade quer dizer sim, e dizer sim, quando na verdade quer dizer não”.

Em outro seguimento do mesmo escrito, dizia:

Ser mais forte não é destemer por se achar de maior força bruta, pois do que te valerá tal força se haveres de lutar contra ti mesmo? Ter bondade, ser verdadeiro, é ter maior coragem; é ser mais forte. Ter bondade com o inferior e respeito com o superior; Ensinar a fortalecer o fraco e aprender com o forte; da compaixão, tomar a decisão, e desta, vencer o medo da ação. Isso sim, é fortaleza para a alma. O resto não é admirável, pois não há admiração no que é obvio”. Ao terminar de entender essa passagem, grande impaciência me acudiu, mas, todavia, sem saber a razão. Parecia que o oxigênio da sala se extinguia, me sufocando de modo lento. Na minha agonia me debrucei sobre uns vasos na parede e um deles caiu ao chão se quebrando por completo. De dentro dele caiu um pequeno rolo amarrado com uma larga fita feita de um tecido grosso e ressecado como uma folha seca, que ao tentar desenrolar, se desfez em fragmentos minúsculos sobre o chão. Abri com dificuldade o manuscrito, e esse eu sabia ser mais antigo que os demais. Nele uma escrita diferente se apresentava. Agora, eram traços irregulares e imprecisos, mas eu podia saber tudo o que o autor escrevera. Em minha mente parecia ver a mão do escriba. Sua mão tremia, e escrevia em movimentos rápidos e frenéticos, como se estivesse com pressa, como se o seu tempo se esgotasse por alguma razão. “... porque eles farão de vossas almas, alimento para seu mal insaciável. E seu fim só se fará, quando vossa alma tiver o fulgor da luz do sol e a delicadeza da brisa do oriente, então eles morrerão pela fome...”.

Nesse momento, ao concluir esse entendimento, mais uma vez fui tomado por novo sofrimento, mas desta feita, era algo mais espiritual. De súbito, senti uma presença bem próxima a mim. Ainda não havia olhado. Não sabia quem era ou o que era, mas sabia que estava lá. Não vi sombra nem reflexo na luz que fracamente iluminava as paredes, mas sabia que estava lá, ao meu lado. Enchi-me de coragem e virei à minha esquerda, e lá estava ela. Uma mulher. Era alta, com rosto e corpo de formatos divinos. Usava uma túnica branca, e com a mão direita segurava uma pira da qual saía a luz que iluminava toda aquela sala. Era como se sempre estivesse ali e não a tivesse notado. Sua pele era incrivelmente branca, e seus olhos largos, negros e com pupilas dilatadas. Ela me olhava serena. Eu não tive reação de falar nada. Estava paralisado pelo medo do momento. Ela, todavia, não mudava a fisionomia tranqüila do seu rosto em nenhuma linha sequer. Eu continuava com o manuscrito nas mãos e me senti induzido mentalmente a voltar a lê-lo. Então, assim fiz por um breve instante. “... do que se valerá o moribundo em seu último sentimento de medo sem que esse seja da sua própria morte?...”. Foi o que me veio à mente ao passar os olhos na última linha inacabada e borrada. Voltei os olhos na mulher com a pira ao meu lado, e ela estava imutável. E calado pelo medo como antes estava, continuei. Então, em resposta, creio, a meu medo, mais do que ao meu silêncio, como um sopro de ar que me chegou até minha alma através dos meus olvidos, ouvi-a falar: “sabe...? Lá, próximo à casa onde vivi, existiu um rio de águas cristalinas, mas eram sempre águas muito turbulentas. Certo dia, ao encher o cântaro, para delas beber, mesmo sem nelas ter molhado os pés, nelas me afoguei...”. De súbito, depois de ouvi-la falar isso, acordei. Estava com a respiração ofegante e suava muito. Tudo o que eu sonhara ficou incrivelmente registrado em minha memória até hoje. Mesmo as coisas reais que me ocorreram em toda minha vida, nenhuma delas ficou tão bem gravada, tão bem vivas em minha memória. Muitas coisas sobre o que sonhei ficaram incógnitas aos meus conhecimentos. Mas a pior de todas é a que eu não consegui encontrar nenhuma correlação com o que vi, li ou senti no sonho. As palavras que a mulher me disse, ficaram na minha cabeça como uma reverberação infinita, batendo de um lado para o outro, ressonando nas paredes da minha ignorância, presas, procurando uma saída para se auto-explicar, encontrar um respaldo em qualquer conhecimento que possa existir. Por isso, escrevi em detalhes o sonho que me ocorreu, para que se alguém possuído de maior poder de concentração, alguém com maior conhecimento nas coisas ocultas entre os enigmas das palavras e do pensamento humano, possa por à luz, essa revelação final nas palavras da mulher que segurava uma tocha, que iluminava os manuscritos muito antigos, que jamais nenhum outro povo, depois dos que os escreveram, pôde lê-los ou compreendê-los, senão eu, em um sonho, antes de tudo aquilo se perder em uma destruição completa, juntamente com toda aquela civilização. Suas construções, suas conquistas, sua história e as vozes daquelas almas viventes que gritavam dentro do calabouço dos pensadores esquecidos, ignorados, que escreviam aqueles manuscritos e que para sempre no tempo se calaram.

 

 

 

 Roger Silva

 

 

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