ÚLTIMA POESIA
O poeta triste em uma tarde solitária, com o olhar profundo no infinito através da janela aberta, rebuscava velhas lembranças de sua vida, quando por fim, falou consigo mesmo:
- “tantas coisas escrevi, sobre muitas coisas dissertei...”.
Então, depois de um minuto de um silêncio amargo em sua boca, por fim por entre os lábios semicerrados, baixinho falou:
- “só me faltou uma coisa... falar da razão pela qual tudo escrevi. Que vergonha tenho de mim! Por favor, perdoe-me”
Então, abriu a gaveta de sua velha escrivaninha, retirou uma folha de papel em branco, pôs sobre a madeira envernizada do ébano, e juntando a pena, e a levando ao tinteiro, logo em seguida no papel branco escreveu:
“Por fim, tudo é Deus”.
E descansou a pena ao lado do papel.
Encerrou assim, o velho poeta sua vida com seus poemas. Retirou da outra gaveta um velho livro de capas pretas com uma fina camada de poeira. Limpou o livro com a palma da mão, e o pôs sobre o papel no qual escrevera sua última frase. Sobre o livro de capas pretas repousou seu rosto, e sobre ele adormeceu. Voltou a ser poeta. Não nas palavras, mas agora em profundos sonhos de liberdade da alma.
Roger Silva