Tau-Tau

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aquele que habita contigo a tua casa, tem a tua cara”.

                             (antigo provérbio dos índios amazônidas)

 

A embarcação aportou na margem esquerda do alto jarimã, um afluente do grande Jarí, trazendo a equipe de operários que iriam abrir a clareira para o heliporto da companhia petrolífera que ali instalaria um posto de sondagem para a prospecção de petróleo. A região era de mata fechada e de difícil acesso. O único meio de transporte era o fluvial que era feito por barcos que, vindo da cidade de Monte dourado, que é a mais próxima, demoravam mais de cinco horas de viagem. O rio Jarimã é um rio muito longo e sinuoso. Em alguns trechos ele se expande atingindo largura de mais de duzentos metros, enquanto em outros estreitava próximo dos quarenta. Suas águas barrentas, como a grande maioria dos rios amazônicos, desciam velozes provenientes da serra do Ipitinga em direção ao grande Jarí, fazendo com que retardasse em muito a viagem de subida rumo ao local onde trabalhariam na abertura da clareira.

Já se passavam das sete horas da manhã quando os operários desembarcaram. A retirada das bagagens e equipamentos de trabalho demorou mais uma hora. Depois de uma caminhada de uma hora e meia, por picada que foram abrindo mata adentro, finalmente chegaram ao local determinado para a abertura da clareira. Logo chegando, a equipe de cinco operários foram logo cortando alguns galhos e árvores para armarem o acampamento. Quando deu por volta do meio dia, todas as tendas estavam armadas e as redes de descanso amarradas entre as árvores.

Jorge era o encarregado do grupo. Homem do trecho, muito vivido nessa vida de trabalho de desbravamento de lugares inexplorados. Já havia trabalhado em muitas grandes obras por todo o Brasil, inclusive na construção da super barragem de Tucuruí, uma das maiores usinas hidrelétricas do mundo, localizada no rio Tocantins, no município de Tucuruí, no Pará. Jorge já trabalhava na empresa de prospecção de petróleo havia nove anos e mais uma vez estava liderando um pequeno grupo de cinco homens, incluído ele mesmo, com a relativamente simples tarefa de abrir uma clareira na mata para o pouso de helicópteros que trariam mais tarde, equipes de pesquisadores e geólogos com instrumentos e equipamentos para a sondagem e análise de petróleo naquele terreno.

- vamos lá, Tião. Pode botar a panela no fogo. Vamos ver se daqui pras uma hora sai o almoço. – falou Jorge.

- tem jeito não, tenho que fazer, né?

- não chora não, homem. Entre todos nós, você é o que melhor sabe cozinhar. E, além disso, se não quiser passar mal igual a outra vez que o Lucival cozinhou pra nós, é melhor você mesmo fazer o almoço, porque ele é o segundo cozinheiro. Se você não fizer, ele fará.

- vixi, rapaz. Agora me deu medo! Não precisa falar mais nada. Tá, eu cozinho.

- não se avexe não, Tião. Dessa vez eu vou caprichar, menino. – respondeu Lucival se embalando deitado na rede.

- esquece! Se não tivesse passado tão mal como daquela vez, eu até me arriscaria. – disse Tião.

- ó, pessoal, vamos pegar de volta no tranco às duas horas. Viu? – advertiu Jorge.

- então põe fogo no fundo da panela, Tião, senão esse negócio aí não vai vingar até as uma não. – disse Lucival.

- deixem de pavulagem vocês e me ajudem aqui com o fogo. Já tenho outras coisas pra fazer, e se não quiserem comer batata dura, se apressem logo.

- hei, pessoal, é melhor ouvir o homem. Sabem, o cozinheiro é o único homem da equipe que não se pode ficar contra ele. – falou Jorge.

- e é? Mas por que isso? – quis saber Renato, um outro operário que se embalava sentado na rede do lado, oposto a Lucival.

- ora, como não sabe? Ele é o único homem que pode matar todos da equipe sem sequer levantar uma mão. Se quiser, envenena todo mundo e pronto.- completou Jorge. – e todos riram.

Assim, num clima descontraído, como sempre era o momento de descanso daquele grupo de operários que já trabalhavam a mais de dois anos juntos, ficaram até a hora em que o almoço foi servido, um pouco mais das treze horas.

Depois do almoço, todos foram deitar-se em suas redes para descansar a sesta. Era já por volta das duas horas da tarde quando estavam todos cochichando, que Tião ouviu um som vindo de dentro da mata na direção norte, e não era longe. Era o som de algo se mexendo na mata. Tião ficou em alerta e sentou-se na rede. Como o som continuava e  parecia ficar cada vez mais próximo, logo chamou a atenção do pessoal, pois poderia ser um animal selvagem que se acercava do acampamento.

- hei pessoal. Tem algo vindo da mata.

- onde Tião? – perguntou Jorge.

- está vindo ali da frente.

Todos ficaram sentados em suas redes observando a mata, na direção de onde vinha o som.

- é realmente tem algum bicho ali – disse Ronaldo, um outro operário.

- será onça? – quis saber Jorge.

- é provável, aqui há muitas delas. – respondeu Ronaldo.

Todos ficaram atentos e Jorge foi até a cabana sem fazer barulho e pegou um rifle de dentro de uma caixa de ferramentas. Voltou lentamente em direção onde estava armada sua rede, mas ficou por trás de uma das árvores a qual estava amarrada. Os outros vendo, levantaram lentamente e foram cada um para trás de uma árvore e ficaram aguardando o “bicho” aparecer. Jorge que já apontava o rifle na direção de onde vinha o som, lembrou-se que não havia carregado o rifle que poderia estar sem munição, pois não havia checado antes nem durante a viagem. Abriu o rifle e conferiu a carga – estava descarregada. Fez sinal para Lucival, que era o que estava mais próximo, ir até a barraca apanhar a caixa de munição. Lucival saiu em direção à barraca com os passos lentos e abriu a caixa onde estava guardada a munição, e quando já pegava os projéteis, ouviu Jorge gritar:

- deixa. Lucival. Está tudo bem.

Lucival saiu da barraca ainda meio apreensivo e foi buscando com o olhar o que se passava; olhou na direção de onde se esperava sair o suposto animal, mas o quer viu estava totalmente fora de suas expectativas e de todos os outros também. Viu um homem. Um homem de pele morena com traços caboclos amazônico, aparentando mais sessenta anos, vestindo uma surrada bermuda com uma camiseta que já não se definia a cor, e com vários pequenos buracos. E o homem trazia debaixo do braço direito, uma melancia.

- hei, mestre. O senhor nos assustou. Pensávamos que fosse um bicho. – falou Jorge ao velho.

- poderia ter sido alvejado. O senhor mora aqui por perto? – perguntou Lucival.

O velho trazia no rosto um sorriso contínuo meio que tímido e em meio à surpresa do pessoal, falou com voz trêmula e baixa, com forte sotaque regional:

- não. Eu moro lá no javari. É que eu venho sempre aqui pra caçar.

- Javari? Nossa! Tá muito longe daqui. O senhor ta perdido? Como veio de lá?

- não. Venho numa rabetazinha.

- caramba! Deve demorar uns três dias só pra chegar aqui. E o senhor vem caçar só?

- não...Vem eu e um pessoal aí. A gente passa seis dia no mato e depois volta. Vocês também são caçador?

- não. Estamos trabalhando para uma empresa do governo. Vamos abrir a mata aqui e depois vem o resto do pessoal trabalhar.

O velho sempre sorridente olhava ao redor e para cada um dos trabalhadores como se esses fossem muito diferentes dos homens que conhecia.

- cadê o resto do pessoal, mestre? Estão aqui próximo?

-não...tão longe. É que nós separemos. Mais tarde a gente se junta de novo, lá em cima do otro lado do rio.

- com o quê o senhor caça? Que arma tem?

O velho riu baixinho, de modo que parecia ser timidez.

-não...Eu não uso arma, só armadilha. Depois que pegamo a caça é que usamo as arma.

- e o senhor já pegou alguma coisa?

- não...aqui ainda não, mas daqui pra mais tarde nós vai pegar.

- não tem medo de ficar andando por aí dentro do mato sozinho? Não tem medo de bicho?

- eu conheço já esse lugar, sempre nós vem aqui. Não vou muito longe do pessoal. Vim aqui porque vi quando vocês chegou no barco. Tava lá do outro lado do rio.

- ah, mestre, o senhor já almoçou? Já comeu alguma coisa?

O velho mais uma vez riu baixinho e disse:

Já...já comi lá do otro lado do rio. Só tô aqui procurando fruta.

- e só achou essa melancia?

- é...fique com a melancia.  Ninguém lá gosta.

- não mestre, obrigado. Pode ficar.

- mas vai estragar porque ninguém gosta. Vou jogar fora, não vou levar mais. Fique com ela.

- tá, tudo bem. Obrigado.

- vocês vão trabalhar quantos dias aqui?

- ainda falta muito. Vamos abrir a clareira em dois dias e aguardar o resto do pessoal pra construção da base.

- vocês vem de muito longe?

- de Belém. O senhor conhece?

O velho deu sua peculiar risada e balançando a cabeça negativamente respondeu:

- não...só conheço o mato...não conheço esses lugar.

- o senhor nunca sai do mato? Nunca foi à cidade?

- moro numa aldeiazinha no Javari e tem tudo que nós precisa. Nunca vou na cidade.

- Monte Dourado. O senhor nunca foi lá?

- faz muuuito tempo...eu era novinho. Não me lembro mais.

- poxa...então o senhor é homem do mato, mesmo...

O velho sorriu baixando a cabeça e fechando os olhos.

- é, eu vivo no mato. Mas agora vô voltar lá pro pessoal que ta me esperando.

- tudo bem.  Tenha cuidado e obrigado pela melancia.

O velho voltou pelo mesmo caminho que veio, e seus passos dentro do mato, fazendo o barulho que assustara o pessoal, foi sumindo dentro da mata em meio aos outros sons de pássaros e macacos que ali habitavam.

- Javari? – perguntou Renato – rapaz, como esse velho vem lá do javari numa rabeta e passa seis dias dentro do mato caçando sem arma?

- o velho é filho do mato. Achamos difícil porque não somos do mato também. Trabalhamos há muito tempo dentro de matos por aí, todo cheio de equipamento e com armas e mesmo assim enfrentamos muita dificuldade e sentimos muito medo.

- e essa melancia? Por que ele trazia uma melancia se ele mesmo falou que nenhum deles gostava de melancia?

- melancia no meio da selva amazônica? Será que existe pé de melancia nessas matas?

- existe sim, é difícil, mas é possível encontrar.

- olha só, essa melancia deve pesar uns cinco quilos, e parece que ta madurinha.

- bem, vocês deixem essa melancia pra lá, e se quiserem comê-la, façam isso mais tarde, porque agora vamos pegar no batente. Vamos lá pessoal, mandem brasa!

Então Tião colocou a melancia num cantinho, junto com outras coisas na barraca. Renato pegou um toca-fitas e como era do tipo “bregueiro”, colocou uma fita cassete , aumentou o volume e partiu com a moto-serra para a missão. Cinco minutos depois toda a equipe estava trabalhando no desmatamento ao som confuso das moto-serras e o som do brega que vinha do toca-fitas de Renato. Os homens eram muito ágeis, pois já tinha vasta experiência nesse tipo de trabalho. Em uma hora de serviço já dava para perceber essa destreza. Árvores caídas no chão e Lucival com sua moto-serra, já desgalhando e cortando o tronco em pedaços menores, para mais tarde serem transportados para fora da clareira que ia se abrindo. O calor na mata é grande, pois quando se tratava de mata fechada, o vento não penetra com grande fluxo. A sensação térmica aumenta muito devido ao fato de a umidade do ar nessa região ser muito elevada, chegando facilmente aos cem por cento, o que com o calor e a pouca corrente de ar dentro da mata, faz com que se tenha a impressão de se estar respirando vapor d’água. Essa sensação é real, principalmente aos que experimentam esse clima pela primeira vez. É devido a isso, que o grupo de trabalhadores de tempo em tempo dão uma parada para descansar e beber água fresca e evitar fadiga e desidratação. Doença respiratória nesse clima é extremamente fácil de ser adquirida se não forem tomados devidos cuidados. Foi então que já por fim do expediente de trabalho daquele dia, em que todos muito cansados e sedentos se lembraram da melancia deixada pelo velhinho.

- ah, rapaz! Olha aqui. Já tinha até esquecido a melancia do velho, seu.

- e eu só na água... manda ela pra cá Tião, deixa que eu parto a bicha.

- pêra lá, deixa pegar o facão.

- vocês vão comer essa melancia aí? Se fosse vocês não comia não.

- é? E por que não?

- vocês não acharam esquisita a estória do velho?

- por que esquisita?

- você não lembra mesmo, né? O velho aparece do nada no meio dessa mata, sozinho se dizendo caçador e levando uma melancia que já acho não ser comum por aqui, e que ele mesmo disse não ter ninguém que gostasse de comê-la. Não é estranho, não?

- de certa forma sim, mas o que teria de mal nessa estória, e nessa melancia?

- sei lá, talvez ele seja um Tau-Tau – hahahahaha

- Tau-Tau? Que diabos é isso?

- nunca ouviram falar da lenda dos Tau-Tau?

- eu não, nunca ouvi não.

- é a lenda de um povo indígena ainda desconhecido da civilização e que dizem ser canibais. Dizem que eles são povos feiticeiros e só andam a noite pela selva, de dia são encantados; ficam invisíveis ninguém os nota.

- ah, mais uma, “seu” Jorge...vai inventando, vai. Da última vez foi aquela estória do mapinguary que fez todo mundo passar a noite em claro naquele serviço lá nos Carajás. Teve até “nêgo” que pediu demissão no outro dia.

- hahahaha, mas aquele garoto ficou mesmo impressionado com aquela estória, não foi?

Mesmo eu falando pra ele no outro dia que aquilo era só lenda, ele não quis mais acordo não e foi embora do acampamento. E ainda peguei uma advertência por estar provocando pânico entre os trabalhadores, vejam só.

- então é melhor parar com essa estória de Tau-Tau também se não quando voltarmos a Belém eu mesmo vou te entregar pro chefe, sacou?

- hahahaha, outro medroso?

- eu medroso? Já ouvi tanta dessas estórias que até acho que vou escrever um livro sobre lendas folclóricas da Amazônia.

- hahahahahaha, pô, vai ser legal Renato!

- é, pelo menos vai ser melhor ser escritor do que ficar socado cortando árvores no meio da selva amazônica, sendo picado de todo jeito por esses carapanãs, passar mal nas noites de chuvas com frio e acordar com minha bunda gelada porque durante a noite vazou água pra dentro da barraca e me ensopou toda a roupa. Que é que vocês acham?

-uhh !! hehehe. Já tô até me arrependendo dessa viagem. Só falta vir a chuva mais tarde pra completar tua profecia, Renato.

- se vier, mais um motivo para repensar na possibilidade de mudança de profissão.

- cara, você chora a toa. Pelo menos você vai ter histórias para contar para seus netinhos.

- é...Talvez. E se eu não morrer até antes de ter meus filhos...

- não seja pessimista. Talvez você até chegue a conhecer seu tataraneto, hahahahaha.

- já me contentaria só com os netos.

- bem, enquanto vocês continuam com essa manguaça, eu vou é comer logo essa melancia.

- me dá um pedaço, Tião.

- então quer dizer que vão comer mesmo, é? Depois não estejam chorando.

- bem, se existir mesmo os tais Tau-Tau, e se for verdade que eles sejam canibais, não vai nem dar tempo chorar mesmo.

- bem, então comam vocês. Eu não vou querer não. Apesar de ser bem diurética, a melancia é também bem indigestiva.

- bela desculpa. Está mesmo é com medo dos Tau-Tau.

- é, e do mapinguary e do boto também.

-hehehehe, mas o único bicho do mato que você não tem medo é do Athaíde, né?

- hahahahaha, mandou bem Lucival.

- é por isso que ele gostava de ficar na beira daquele igarapé, lá em Salva-Terra...hahahaha.

- pois é, hahahaha, ficava esperando o Athaíde, era Jorge? Hahahaha.

- dizem que é bem dotado mesmo, hehehehe.

- deixem de pavulagem, bando de machos! Quero ver é quando vocês encontrarem ele pela frente. Quero tirar uma dúvida. Quero saber se vocês vão correr para longe ou vão correr para cima do homem, hahahahaha.

- é, né? Mas somos nós quem ficou o dia todo falando do Athaíde e mais tarde foi ficar sozinho na beira do igarapé pra ver se atraía o homem?

- vocês são todos um bando de “increl”!

- pelo sim, pelo não ele foi conferir, né Jorge?

- tem problema não. Um dia vocês encontram com ele. É pena que vocês não vão me contar depois suas experiências com o negão, hahahahaha.

- para que quer saber, se eu tenho quase certeza que você já teve uma experiência própria?

- hahahahaha, ei Jorge, se isso for verdade, podemos ganhar dinheiro, porque podemos escrever um livro sobre o acontecimento, e ganhar muito dinheiro.

- pois é, mas só tem um problema. Como vai conseguir viver em Belém depois de todos conhecerem a história?

-hahahahaha, mas aí tem uma solução. Como vai ganhar muito dinheiro com a venda dos livros, poderá viver em outro país, para não ser alvo de gozação em Belém toda- hahahaha.

- ó, Jorge. Larga de baitolagem, menino. Toma logo, come essa melancia. Tá bem docinha.

- vocês vão ficar na cuíra comigo, mas vou querer não. Não é pelos Tau-Tau não. É que não sou muito chegado a melancia mesmo.

- ta certo, então.

- bem, enquanto vocês terminam com a melancia, deixa que eu vou juntando lenha pra fogueira; daqui há pouco já escurece.

- é isso aí, companheiro. Junta aí que eu meto fogo depois.

- hei, vamos logo tomar banho antes que anoiteça.

- é, vamos lá. Deixa o Jorge terminar com a lenha.

E quando Jorge terminou de juntar a lenha para a fogueira que ficaria acesa durante toda a noite, foram todos do grupo para o banho no rio, que agora com a picada já aberta demorava apenas quinze minutos de caminhada do acampamento. O banho foi rápido, pois na floresta se escurece muito rápido ao entardecer, e logo em seguida estavam de volta ao acampamento. Lucival tratou de acender a fogueira, enquanto Tião preparava o café para o pessoal. Renato, Jorge e Ronaldo arrumavam as coisas na barraca e a amarravam as capas impermeáveis sobre as redes.

- aqui, ó. Quem não quiser ser chupado pelos carapanãs, tá aqui o óleo.

- dá aqui, menino. Esses bichos gostam do meu sangue não sei por quê. Sou sempre o mais atacado do grupo.

- e você não sabe por quê, né? Mas todo mundo sabe que é por causa do álcool que você tem no sangue- hahahahaha.

- é mesmo –hahahaha – não se sabe se o Tião tem álcool no sangue ou tem sangue no álcool – hehehehehe.

- se preocupem, não. Hoje não bebi nada só para deixar eles terem mais opção de escolha na hora das picadas – hehehehe.

- ta cheirando bom o cafezinho do Tião. Dá aqui um pouquinho Tião.

- lamento informar que não dispomos de serviço de quarto aqui, menino. Aqui é do tipo “self service”, levanta essa bunda daí e sirva-se. Ainda tenho que arrumar minha rede.

- cara mais jaburu.

- quem quer ouvir um breguinha básico?

- putz! Já não basta por hoje, Renato? Põe algo mais “light” aí, cara.

- vocês são muito cheios de frescuras. Tá, tá bom. Da próxima vez prometo que vou trazer a nona sinfonia e carmina burana, só pra ver se vocês largam de encher meu saco, com os meus bregas.

-hehehehe – se tiver também por lá “figaro”, traz também – hahahaha.

- é, vai colar bem Carmina Burana e Figaro no meio da floresta Amazônica –hahahahaha.

- é mais enquanto não tem esses cantos de fúnebres europeus, vamos nos contentar com o nosso bom e velho brega. Pelos menos vocês já estão acostumado.

- acostumado não seria a termo certo, mas “de olvidos calejados”, seria mais apropriado.

- tomara que essas pilhas não durem muito.

- olha só que azar o de vocês. Eu trouxe quatro... seis pares – hehehehe.

- vixi. Acho que vou chorar.

- ó, deixa pelo menos esse negócio ai com o som baixinho.

- é sim, senão essa música aí pode atrair os Tau-Tau. Parece que eles tem atração por esse tipo de batida tribal, né Jorge?

- hahahaha – se for, estamos ferrados.

- pior.

- rapaz, não sei quanto a vocês, mas eu já vou indo. Tô morrendo de sono.

- eu também. Minhas pálpebras parecem pesar quilos.

- tô moído.

- já tão cedo? O que há com vocês? Nem começou a sessão de piadas.

- amanhã a gente ri, não consigo controlar o sono....boa noite.

Jorge depois que terminou de preparar a rede, foi até a cabana e pegou o rifle de dentro da caixa. Carregou com munições e colocou no engate da rede pelo lado de fora, bem ao alcance no caso de uma necessidade, Pendurou também a lanterna na outra lateral e deitou-se na rede. Cobriu-se com o cobertor e por cima pôs a capa antichuvas. O som que vinha do toca-fitas de Renato era a única coisa que se ouvia naquele momento juntamente com os típicos sons da mata. Sons de canto de pássaros noturnos, insetos e o som agudo dos morcegos. A fogueira queimava no centro do acampamento levantando uma fumaça espessa rumo ao céu, entre os estalos da madeira queimando sob o calor do fogo. O clarão da fogueira banhava tudo ao redor com uma luz oscilante que refletia entre os caules, galhos e folhagem, fazendo aparecer vultos, figuras estranhas que “andavam” entre o movimento das sombras e a penumbra que se perdia mata adentro entre as árvores mais afastadas. A fumaça criava uma nuvem suspensa entre as copas das árvores que com a luz das chamas filtradas e difusas, fazia um tipo de abóbada iluminada por uma luz cinza e acromática. Jorge não ouvindo mais nenhum dos amigos falar, e lembrando do rodízio da guarda, falou a Renato que era o mais próximo.

- Renato! Você fica de sobre aviso depois das dez.

Não houve resposta a não ser o som da respiração do grupo. Então Jorge vendo o pessoal entregue ao cansaço, resolveu dormir também, colocando um pequeno despertador para o acordar depois das dez. Nesse horário acordaria algum deles para ficar de sobre aviso com o rifle. Feito isso, meia hora depois estava dormindo. A noite passou lenta. Sons de trovão podiam ser olvidos vindo de longe. A chuva torrencial das florestas não tardaria a chegar. O vento da tempestade anunciou-se primeiramente em forma de brisa que se infiltrava por entre as árvores balançando suavemente a folhagem e chegava até o acampamento onde todos dormiam. Era já próximo das dez horas quando o vento se intensificou. As copas das árvores se agitavam intensamente de um lado para o outro. As folhagens produziam um som como um chiado forte que fazia parecer que já caia a chuva por sobre a floresta. O vento de repente alcançou sua máxima intensidade e produzia um sibilar agudo ao passar entre os caules e galhos. Relâmpagos agora explodiam em clarões tão intensos que parecia que por alguns momentos era dia. Os trovões vinham cada vez mais próximos das descargas atmosféricas, indicando que as grandes massas carregadas estavam cada vez mais próximas. Em um dado momento estourou um raio que explodiu ao mesmo tempo do trovão. A descarga foi muito próxima. Em seguida um som intenso. Um som assustador que ecoava distante e se acercava pela indicação do aumento de sua intensidade. Como se um mar estivesse caindo sobre a grande floresta. Um som ensurdecedor tomou conta da floresta. Raios, trovões, o som intenso de toneladas de massa líquida desabando por sobre a floresta negra, juntamente com os zumbidos agudos e estridentes de alguns insetos, faziam com que tudo aquilo se transformasse em um lugar de horror para os seres que não fossem daquele mundo misterioso. Jorge, dentro da rede encoberta pela capa impermeável, se encolhia tentando amenizar o frio que sentia. A fogueira agora totalmente apagada só produzia fios de fumaça que com dificuldade teimavam em ascender, mas que não passava de alguns metros, retornavam ao solo em forma de fuligem encharcada. A escuridão era total. Não se via nada ao redor. O maior medo que Jorge sentia no momento não era o das sensações da sonoridade bizarra que ouvia, mas sim o do perigo de uma descarga atingir uma das árvores na qual estavam armadas suas redes, pois isso seria fatal. Então, não podendo fazer nada em tal situação, e se sentindo frágil e insignificante frente a descomunais forças da natureza, apenas fechou os olhos e orou a Deus para que os protegesse da fúria indomada da grande natureza viva.

A tempestade atingiu seu apogeu meia hora depois que começou. O vento cortante mesmo entre o grande número de árvores, fazia balançar as redes como se não houvesse ninguém nelas. Os pingos eram tão pesados e em tão grande quantidade que parecia que se estava debaixo de uma cachoeira e não sob uma chuva. A chuva das florestas é assim, Repentina e intensa, mas curta. Depois de quase uma hora do início, sua intensidade diminui, e tão súbita como começou, cessa. Depois fica uma fina neblina que dura mais tempo que a própria tempestade. Ouve-se agora o pinga-pinga da água acumulada nas folhagens e coaxar dos sapos e rãs, que fazem uma sinfonia lúgubre pós-caos.

Jorge olhou no pequeno despertador e viu que já se passaram da meia noite. Levantou a coberta da rede e ligou a lanterna. Viu a fogueira apagada sem mais nenhum vestígio de fumaça se quer. Focou em direção das redes dos seus colegas e viu todos lá, quietos. Ninguém se mechia. Como não teriam acordado com aquele inferno? Focou o chão debaixo de sua rede e não o viu, mas sim um rio de água. Não poria os pés nela de modo algum. Suas botas, logo abaixo da rede estavam cheias de água. Então esperou mais um tempo até secar mais a água no solo. Não conseguiria mais dormir naquelas condições. A rede totalmente molhada por fora e úmida por dentro, não dava condições de deitar-se e dormir.

Ficou sentado dentro da rede sob a coberta e esperou. O solo da floresta é muito permeável e meia hora depois já dava para notá-lo. Jorge pegou as botas e derramou a água contida nelas. Calçou e desceu da rede com a lanterna na mão e foi em direção do pessoal. Primeiramente foi até a rede onde estava Renato, e chamou por ele.

- Renato! Renato! – nem uma resposta  a não ser o ronco de quem dormia tranqüilo.

- Tião! – chamou em outra rede e como resposta, teve o silêncio.

Assim fez nas outras duas redes. Ninguém lhe respondeu. Balançou a rede, bateu no rosto, mas não havia reação. O que havia acontecido?, Pensou. Tentou mais uma vez com mais violência e mais uma vez não obteve reação. Nesse momento, um medo terrível lhe acometeu. Voltou até sua rede, pegou o rifle, verificou a carga e deitou-se apavorado com o rifle nas mãos. Tentava imaginar o que estava acontecendo com o pessoal; que sono se apoderara deles que nem o dilúvio tropical conseguiu acordá-los. Essa seria a mais longa e malfadada noite de sua vida, pensava.

Entre os sons da selva ficou ali, pasmado imaginando que ele era o único ser humano consciente e acordado no meio daquela floresta inóspita. Orava a Deus para que o tempo corresse, mas parecia acontecer exatamente o contrário, o tempo parecia parar. Olhava o relógio a todo o momento, e a aflição lhe preenchia cada vez mais a alma. “Deus, quando isso vai acabar?” – pensava consigo mesmo.

Sons da selva agora lhe pareciam ter outros donos. Agora lhe pareciam ser originados não mais dos seres vivos que sempre conhecera nessa vida de desbravador, mas agora lhe pareciam ignotos e aterrorizantes. – “é o medo”, pensava. “O medo faz a mente produzir fantasias”, concluiu.

Mas era quase real, e ele sentia grande angústia só em pensar na possibilidade do que estava ouvindo agora, ser absolutamente verdadeiro. Aquilo não era o som de nenhum animal que conhecia, e ele os conhecia quase todos. Entre o coaxar dos sapos, piados de corujas, cantos de outras aves noturnas e alguns macacos silvestres, parecia ouvir, entre eles, de vez em quando, algum som peculiar. Um som que tinha medo só em imaginar na possibilidade de ser o que pensava. O som parecia ser de gritos! Vozes errantes, distantes. Não de um ou alguns, mas de muitos. A grande agonia se apoderava de seus sentidos. Não conseguia mais raciocinar com razão, estava se entregando ao poder do medo, do pavor. Pois em um instante, viu o que lhe faltava para estampar de vez o pânico em sua face e encher todo o seu corpo de um tremor incontrolável. Um calafrio brusco percorreu-lhe toda a extensão de sua coluna vertebral. Seus olhos eram puramente o retrato do desespero de sua alma. Eles viam agora entre as árvores distantes, luzes. Muitas luzes em pontos diferentes. Luzes que apareciam e sumiam, para logo depois reaparecerem em outro local. Muitos pontos luminosos oscilantes, e na mesma direção que vinham os sons de gritos e vozes como sendo de muita gente. Com grande esforço conseguiu sair da rede, levando o rifle e a lanterna. Andou com passos errantes, na direção contrária a do som que vinha de dentro da mata. Embrenhou-se pelo mato em desesperada caminhada.  Olhando sempre para trás, via as luzes se aproximarem e cercarem a área de um lado a outro. Percebeu com o pouco de raciocínio que lhe restara, que não poderia continuar na fuga. Seria impossível ir muito longe. Parou e teve que tomar uma decisão rápida. Não poderia continuar com a lanterna acesa, pois seria facilmente notado. Focou rapidamente em uma árvore próxima e que era bastante alta. Apagou a lanterna, a pôs no bolso, passou a cinta do rifle por cima do braço esquerdo de modo que o rifle ficou em suas costa, e começou a escalar a árvore. Subi-la foi tarefa bastante difícil devido estar bastante lisa por estar molhada. Com grande esforço conseguiu alcançar os primeiros galhos, e depois desses os outros mais altos até chegar ao ponto mais elevado entre as copas da árvore. Lá arrumou-se de modo ficar sentado em um ramo mais forte, por trás do tronco ao qual ficou abraçado, imóvel. De onde estava, dava para ver as luzes se aproximando, e logo percebeu se tratar de tochas acesas em pedaços de pau, mas ainda não distinguia quem as trazia. Quando as tochas chegaram à clareira, Jorge sentiu o ápice do seu terror, pois agora viu o aspecto de quem as segurava. Eram muitos, por volta de mais de trinta. Eram de alguma raça de índios de pele clara, extremamente altos e muito esguios, e com rostos de aspecto animalescos. Tinham adornos por todo o corpo e gritavam algumas palavras em dialeto indígena. Cercaram todo o acampamento que com todas aquelas tochas acesas ficou muito iluminado. Jorge em cima da árvore não cria em seus próprios olhos. “Meu Deus. É um pesadelo! É um pesadelo! Por favor, me faz acordar desse pesadelo”. Orava a Deus com pensamento angustiado. Olhava tudo acontecer no acampamento e chorava por ver o que aconteceria com seus amigos desacordados nas redes. Viu quando vários deles começaram a abrir as redes e quando aberta, outro se aproximava e com algum instrumento na mão, degolava um por um dos seus amigos indefesos. Depois enrolavam novamente a rede, cortavam-lhe os punhos e pondo nas costas de um outro a carregava como um saco de carga. Jorge assistiu tudo isso atônito e incrédulo. Nesse momento, não se distinguiam os sentimentos do seu coração. Era um misto de todos os temores e incredulidade reunida em uma só pessoa. Jorge, a partir daí, não invocaria jamais o nome de Deus. Tudo em que cria até então, foi sepultado debaixo de um único sentimento, que parecia ser o último que lhe restava naquele momento, o sentimento de total fraqueza espiritual e impotência física e moral. Nesse estado lamentável em que as emoções de um ser humano são levadas ao limite extremo do insuportável, foi que Jorge viu um por um dos seus quatro amigos serem executado em uma cerimônia antropofágica com requintes celebracionais. As cabeças de seus amigos eram repassadas uma a uma nas mãos dos indígenas, que abriam a boca e bebiam o sangue que ainda caia das jugulares. Depois as cabeças foram espetadas em estacas e postas ao redor de tochas enquanto um indígena com adornos diferentes dos outros fazia algum tipo de oração e quando terminava de recitar alguma frases, todos os outros ao redor, segurando uma tocha gritavam “Tau” .

Jorge não ousou usar o rifle. No estado de nervos que se encontrava seria fatal a si próprio. Em um certo momento, Jorge pôde compreender por completo o que tinha acontecido de verdade com todos eles. Enquanto os outros indígenas participavam da cerimônia, saiu do meio deles, um outro índio totalmente diferente dos demais. Era baixo e de pele morena. E dirigiu-se a rede onde Jorge dormira. E vasculhando a rede, gritava alguma coisa que despertou a curiosidade dos outros. Ele apontava para a rede, fazia alguns sinais com a mão e depois disso, todos os outros começaram a olhar em volta. Outros avançaram pelas árvores em volta da clareira e entravam mata adentro com as tochas. O índio moreno pegou também uma tocha e adentrou a mata junto com os outros enquanto a maioria ficou no centro da clareira juntamente com o que parecia ser o feiticeiro do grupo. Cada árvore era cuidadosamente olhada ao redor, mas não nas copas que eram altas e escuras. O grupo se aproximava da árvore onde Jorge estava. O humo da mata ainda ensopado fazia um som peculiar quando era pisado pelos índios. Estando mais próximos da árvore onde Jorge estava escondido, uns pararam e outros avançaram em direções divergentes. O índio moreno ficou ligeiramente à frente da árvore e Jorge, embora em uma altura de uns quinze metros, pôde perceber claramente de quem se tratava, não tinha mais dúvidas. Era o velho que trouxera a melancia. Atordoado e totalmente tomado pelo terror dos acontecimentos, Jorge apenas entregou-se a fadiga emocional. Encostou seu corpo no tronco da árvore e desfaleceu abraçado ao mesmo. Os índios demoraram certo tempo procurando pelo quinto homem. O índio velho falava sempre para os demais e fazia muitos gestos. Depois de certo tempo todos se concentravam novamente no centro da clareira. O que parecia ser o feiticeiro dizia algumas palavras e os demais gritavam “Tau” várias vezes. Terminando o que parecia ser a cerimônia. Pegaram as estacas com as cabeças dos amigos de Jorge e levantavam com certo tipo de grito de guerra. O suposto feiticeiro ia à frente e os com as estacas logo atrás. Depois vinham os que carregavam os corpos enrolados em redes sobre as costas, e por último iam os restos dos índios. Seguiam em uma certa ordem e gritando sempre “Tau” depois das frases do “pajé”. Os gritos foram ficando cada vez mais fracos até se transformarem em longínquos sussurros nas profundezas da mata.

O sol da manhã projetava seus raios por entre as folhagens oscilantes das árvores e atingia o rosto de Jorge que ainda dormia recostado no tronco. Os pássaros selvagens faziam grandes alaridos dentro da mata juntamente com os gritos de macacos que por ali pulavam entre os galhos das árvores. Uns se aproximavam de Jorge que estando dormindo, não os notava a aproximação. Desconfiados eles se aproximavam e logo em seguida pulavam para o galho ao lado. E assim ficavam o tempo todo. Uns mais corajosos chegavam a tocar a roupa dele e logo se afastava em pulos, para depois vir outro fazer o mesmo. Num desses toques Jorge despertou-se em um susto, fazendo com que todo o grupo de macacos saíssem em saltos todos ao mesmo tempo como se sincronizados, para todas as direções. Depois do susto do despertar, Jorge logo em seguida foi acometido de outro susto. O de estar em cima da árvore. Recobrou os sentidos e por alguns momentos ficou parado tentando se localizar. No que sua mente ia rebuscando suas lembranças da véspera, seu semblante ia se desfazendo em uma feição de total desgosto pela existência. Começou a chorar descontroladamente e ali ficou por muito tempo. Em certo momento desejou a si mesmo ter tido o mesmo fim dos seus amigos, que “pelo menos morreram sem sentir nenhuma dor. Sem nenhum sofrimento” - pensou. O sol já se erguia alto sobre a floresta, quando Jorge resolveu descer da árvore. Com o rifle nas mãos, andou até o acampamento. Lá estavam as barracas, todas reviradas. As cinzas e o carvão da fogueira, e os punhos das redes ainda amarrados nas árvores, e sobre o humo molhado muito sangue coagulado. Jorge fechou os olhos e virou-se para o lado contrário. Seguiu rumo a barraca e apanhou algumas coisas, entre ela um bote inflável e os remos que faziam parte do material de viagem. Pôs a mochila nas cotas, rifle nas mãos e desceu pela picada até a margem do rio. Retirou a mochila das cotas desamarrou o bote e pegou o fole de encher. Adaptou a mangueira na válvula e pôs-se a pisar enquanto o bote se inflava lentamente. Quinze minutos depois o bote estava totalmente inflado; fechou a válvula, pôs o bote no rio, colocou a mochila dentro juntamente com o rifle e depois subiu a bordo e com os remos levou o bote até o meio do rio. Lá deitou-se e deixou o bote ser levado pela corrente.

Passaram-se dois dias até o bote ser encontrado por uma embarcação que descia ao Jarí. Ao ser resgatado Jorge estava desacordado e falando palavras de modo inconsciente. Delirava todo o tempo, e o que mais falava era algo que a tripulação do barco não podia encontrar algum significado. Falava as palavras “a melancia” e “o velho”. De repente sentava-se subitamente e com os olhos arregalados e cheios de pavor, olhava as pessoas que estavam próximas e gritava “acordem! Acordem! Não durmam, não durmam!”. Jorge enlouquecera.

O barco chegou no outro dia na cidade de monte dourado. Lá tentaram saber a identidade dele, mas em vão, pois não havia nenhum documento de identificação com ele. Não conseguiam que falasse nada com lógica. Somente conseguiram identificar a empresa para a qual trabalhava, pelo logotipo no bolso do uniforme de trabalho. Demorou dois dias até que chegasse na cidade, dois funcionários da empresa que reconheceram Jorge e o levaram para Belém. Lá foi internado em um hospital psiquiátrico já com fortes crises emocionais. Depois de começar a tomar os medicamentos, Jorge passou de agitado para o estado catatônico, e deste nunca mais saiu. Sete meses depois de internado, Jorge veio a falecer. Jamais ninguém veio saber o que aconteceu de verdade naquela noite, naquele pedaço de selva perdida entre os rios amazônicos do Jarí e Jarimã.

A imaginação popular dos que habitavam aquela região do Jarí foi enriquecida depois que a notícia do acontecimento se espalhou entre eles. Velhas lendas retomaram seu lugar nos contos relatados principalmente pelos mais velhos. Até mesmo em uma pequena aldeia subindo o rio Javari, sob um manso luar amazônico, à beira de um pequeno trapiche de madeira, um velhinho de traços caboclo e sorriso tímido, contava a seus netos uma antiga lenda já quase esquecida pelos povos da região. Ele lhes contava a antiga lenda do povo da floresta negra. Os que andavam na escuridão - Os índios Tau-Tau.

 

 

 

 Roger Silva

 

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