A PORTA PERDIDA

 

 

Rebuscou-me, um certo dia, a minha alma, velhas lembranças que havia muito tempo estavam guardadas no esquecimento profundo.Lembranças que passavam em tal velocidade, que era como se os anos fossem segundos. E vi antigas paisagens, antigas pessoas, antigos amigos, agora perdidos. Senti antigos sentimentos, antigas dores, antigos sofrimentos, e relembrei antigas doutrinas. Tempos em que o mundo me parecia muito maior, desconhecido e cheio de mistérios.

De um salto, cheguei em um outro mundo. Um mundo de transição. Um mundo entre a realidade e a utopia. Havia o descoberto. Havia chegado a um mundo que começava a corrigir o defeito do outro, e vivia eu nos dois mundos. Era o diplomata que agia entre os dois universos. Eu tinha o segredo da passagem. E o novo mundo crescia, modelava-se e tornava-se perfeito e invejável em função da desimportância do outro. Até que em certo momento, tornei-me cidadão do mundo novo, e lá comecei a viver.

Um outro salto, e estava eu em um mundo às avessas do anterior. Era o retorno para o velho mundo. Mas ele estava mudado, muito mudado: estava pior. E eu fui forçado a voltar para nesse mundo viver, pois a passagem mágica havia se perdido e nunca mais tornei a encontrá-la.

Em um novo salto, como em um segundo, me deparei com novas paisagens, novas pessoas, novos amigos. Novas dores e novos sofrimentos. Novas doutrinas me foram impostas. E me encontrei enclausurado em um mundo muito pequeno, com fronteiras tão acercadas de mim. Tornou-se esse mundo uma esfera, e me disseram que se chamava aldeia. Limitada e com limites dentro dos limites maiores, e me disseram que não podia transpô-los.

Um gosto cáustico senti quando puseram em minha boca as novas palavras que deveria usar para com diferentes pessoas. E falaram ainda que teria que me definir quanto às divisões entre os grupos que nesse mundo habitavam.

Então sentei-me uma noite, à beira de um abismo, em um penhasco de uma cordilheira de um lugar qualquer, que não lembro mais. De lá foi que vi, em outro salto mágico desse tempo furtivo e indomável, passar um rastro reluzente que se desenhava na celeste abóbada carmesim de um alvor deleitoso. E não sei porquê, tive a impressão de ver naquele rastro cintilante, a porta que havia perdido outrora em algum lugar qualquer no tempo.

 

(Roger Silva)

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