O Velho Navio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Era uma tarde de mar calmo, de águas espelhadas, que refletiam a luz dourada de um sol ameno. O vento não soprava e não havia no céu nenhuma nuvem.
O velho navio singrava suave como se deslizando por águas vitrificadas, seguido de um roncar surdo do velho motor no inferior de sua popa. Rumava em direção ao pôr do sol, desenhando em sua retaguarda um rastro espumoso de pequena turbulência provocada por suas hélices.
Era um navio realmente velho, seu casco todo enferrujado trazia as marcas de sua história trajetória em cada porto por onde passou; seu nome e o nome de sua pátria de origem já não se distinguia entre a ferrugem. A bandeira desfraldada no mastro principal não passava de um trapo de cor indefinidda. Seu calado, já enfraquecido pelo tempo, a água salina do mar e as pesadas cargas que transportara desde muito tempo, rangia com os ferros de sua estrutura resvalando uns nos outros pelas folgas entre as peças. O som do ferro se perdia ao longe, ao longo de sua trajetória.
Raramente se via os tripulantes passeando pelo convés, mas quando apareciam, era impossível não deixar de se surpreender com seus aspectos. Olhares sempre voltados para o infinito, sempre buscando algum ponto, algum referencial e a expressão da face justificava o olhar. Era como se esperassem por algo, como se esperassem por uma resposta que no fundo da alma sabiam que jamais chegaria. Expressão de angústia profunda, mesclada com um medo interior, um medo intenso, todavia sem saber do quê. Eram como corpos sem o vigor da vida, sem ânimo e sem vontade; andar pesado e lento, como se contassem os passos; nunca se falavam e nunca trocavam olhares. Era como se um não notasse o outro, ou não fizesse diferença o outro estar ali. As roupas pregadas ao corpo encurvado como se levasse o peso do mundo nas costas e não dormissem há tempos e tempos.
Era como a visão de um ataúde flutuante que levava seus ocupantes para uma viagem eterna até seu descanso final ao seu túmulo que seria o próprio mar. Ninguém guiava a embarcação; ela seguia sempre em rumo próprio, levando seus ocupantes, os condenados por um crime imperdoável até seu destino frente a frente com seu algoz.
No fim da tarde, quando os últimos raios pálidos de sol refletiam já moribundos, sobre a superfície do mar pumblífero, veio do leste grande nuvem negra e medonha seguida de forte vento que agitava o mar com vagas enormes e violentas. Os olhares dos tripulantes voltaram-se para estibordo com grande terror. Viam ali chegando, seu carrasco impiedoso e insaciável, com grande fúria, executar a ordem capital, a sentença injustificada de um juiz frio e cruel. Expressões horrorizadas estamparam os rostos dos condenados com uma angústia que vinha do mais profundo recôndito da alma, aflorar nos nervos e em todas as articulações daqueles corpos trêmulos e já sem nenhuma força.
O forte vento logo deu origem a um poderoso ciclone, fazendo o barco ficar bem ao seu centro. Grandes correntes de ventos varriam a superfície do mar provocando vagas enormes que lavavam todo o convés;a embarcação pendia de um lado para o outro, e em certos momentos, parecia que adernaria. Os tripulantes já sem a mais remota das esperanças, ainda seguravam-se na amurada, mas por puro instinto, e não por esperarem salvar suas almas da mão do impiedoso destino.
Uma hora depois do início, a tempestade chegou ao seu apogeu. A escuridão era total. E o que se via de longe, era uma pálida luz que vinha do interior do barco. Seus tripulantes se refugiaram, então, em seu interior; o navio mergulhava por completo sob as vagas, e tempo depois, voltava à tona, como um ser gigantesco que, se afogando, busca desesperadamente preencher seus pulmões de ar para conseguir sobreviver por mais unm instante debaixo da água. O vento se intensificava mais e mais. Tudo estava acabado! Não havia mais o que dissimular.
Em um desses mergulhos violentos, a grande e negra embarcação sucumbiu ao furor da matéria. Deixou o mundo da superfície para traz, para nunca mais voltar. E o que se viu num último relance, foi o rosto de um tripulante colado à uma das janelinhas de vidro, olhando para fora, quando o navio já era tragado para as entranhas do mar, com a expressão de um rosto que faz um vivente quando a alma parece querer sair de dentro do corpo através dos olhos. Uma expressão de dor, angústia e desespero; a expressão de quem olhava tudo aquilo acontecer e, impotente, contra seus algozes, apenas os olhava em seu último momento para lhes perguntar “por que?”.
 

 Roger Silva

 

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 "...se um veleiro repousasse na palma da minha mão..."

(porto solidão - Jessé)

 

 

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