CONTO DE FADA

"O amor existe?"

 

O

 Reflexo no Espelho

 

 Este é mais um conto de fadas, e como toda história deste tipo, começa com “Era uma vez...”

 

Bem, era uma vez um belo príncipe que encontrara uma linda princesa com a qual se encantara e, sem sombra de dúvida, pensou conviver com ela todos os dias de sua vida. Casaram-se e para completar o “viveram felizes para sempre”, tiveram um bonito menino que encheu de amor todos os cantos do castelo e algum tempo depois veio a linda princesinha que fez derreter de vez o coração do príncipe que agora já era Rei.

 

Como Rei e administrador de um próspero reino ele tinha muito trabalho, a Rainha queixava-se de suas ausências, mas ele sempre justificava que era para o bem da família e, principalmente, para o bem da nação. Lógico que de vez em quando o Rei se cansava daquela vida tão cheia de obrigações, queria mais era voltar a ser príncipe e curtir  uma bela história de amor, mas pensava que isto era coisa de contos de fada e que o importante era viver de forma mais racional, porque considerava que a expressão da emoção era algo que se poderia controlar ou talvez idéia inventada para desviar o homem das obrigações, do trabalho e do pensar responsável e sério. Era e queria ser sempre o exemplo de rei honesto e justo, sempre se preocupava com todos e com tudo, participava ativamente de todas as reuniões que fossem agendadas por seus ministros, queria estar por “dentro” de tudo o que acontecia no reino. E apesar do cansaço queria constantemente mostrar sua fidelidade aos princípios que o tornava um grande Rei. Já tinha passado por muitos problemas e até por guerras, mas sempre estava disposto a enfrentar novos desafios. Muitas vezes mal dormia, mal tinha tempo para se cuidar, para lembrar das coisas que gostava. Do que gostava mesmo ? Sua mente se esforçava para lembrar mas sempre era interrompida por um novo compromisso, reunião, problema ...não era nada fácil ser Rei.

 

A vida estava passando muito rápida, os dias, os meses, os anos...para onde estava indo, de que forma estava indo, por que estava indo? Se é que estava indo, porque muitas vezes tinha a sensação que não estava chegando a lugar nenhum, mas tinha que ir a algum lugar? Que compromisso infindável o prendia? Que responsabilidades infinitas o sugavam? Era isso que a vida tinha para ele ou era ele que impunha isto a sua vida? E se fosse ele, por  que faria isto?

 

Sua cabeça mal começava a pensar nestas coisas quando novamente é interrompida pelos compromissos firmados. Tinha se comprometido a conhecer todo seu reino, queria conhecer o seu povo, seus súditos, e começou a viajar. As viagens começavam também a fazer parte de sua rotina. Conheceu diversas e diferentes realidades e percebeu como o povo esperava muito dele, e sua vontade de trabalhar em benefício do reino foi ficando mais forte.

Uma noite, cansado, e aproveitando que todos dormiam, saiu e foi andar ao redor de seu castelo. Andava leve...pensativo a contemplar a lua, a olhar as pedras no chão, a ver as casas humildes e o povo em silêncio. Tudo parecia em pausa. Tudo parecia acalmá-lo e a fazer pensar em sí mesmo como há muito tempo não fazia. Sorriu e parou diante de um banco embaixo de uma árvore e ficou assim por alguns segundos. Foi quando percebeu que não estava só. Encostada na árvore e bem mais mergulhada em seus pensamentos estava uma camponesa. Ele começou a observá-la, olhou seus cabelos negros e lisos a cair nos ombros, viu sua pele morena, que parecia convidá-lo a tocá-la; seus olhos tristes que começaram a brilhar e sua boca carnuda a expressar um sorriso tímido, foi quando percebeu que também estava sendo observado e sorriu. Os dois ficaram um tempo olhando um para o outro, esquecidos de suas condições, de suas vidas, de seus problemas e de suas diferenças. Ele se aproximou e experimentou um beijo suave, ardente que o encantou, ficou com vontade de ficar mais um pouco mas ao ouvir um movimento de soldados no castelo logo entendeu que estavam sentindo sua falta. Uma vez mais olhou para ela, seu coração se encheu de ternura, mas teve que partir.

 

A camponesa nunca irá esquecer a noite que conheceu aquele homem. Estava uma noite sem lua, um pouco mais escura que já tinha visto, mas o céu estava fervilhando de estrelas. Piscavam tanto que a camponesa imaginou que pudessem estar chamando ou que estivesse iluminando uma grande festa, mal sabia ela que saindo naquela noite iria encontrar o misto de felicidade e tristeza. Ficou absorta a contemplar o céu, ficou mergulhada naquela visão, tinha a impressão que algo maravilhoso iria acontecer, mas não compreendia a dor no peito que ficara forte e profunda, de repente se viu observada e virou o rosto. Naquele instante viu um homem, e sentiu uma imediata ternura que nem mesmo sabia porque correspondera a um sorriso de um estranho e muito  menos não compreendia o motivo que não permitiu resistir ao seu beijo.

 

Quando ele teve que partir e o viu colocar um manto que tinha tirado, ficou trêmula ao reconhecer o Rei. Não sabia se ficava feliz, envergonhada ou triste, e por isso sentiu tudo ao mesmo tempo. Olhou mais uma vez para o céu antes de ir para casa e ao chegar em seu lar, correu para frente do espelho para ver se estava bem apresentável diante do Rei, mas o que viu no lugar de seus olhos foram estrelas, no lugar de sua boca mais uma brilhante estrela, todo seu rosto estava iluminado, refletia no espelho a imagem da felicidade, o reflexo do amor no espelho.

 

Nas noites seguintes o Rei esperava que todos novamente dormissem e corria para os braços daquela camponesa e o que mais faziam era se olhar e se beijar. Ele tinha tantos compromissos, só queria vivenciar aquela história sem parecer mais um compromisso, caso contrário quebraria todo o encanto. Mas estava ficando cada vez mais difícil escapar do castelo sem ser percebido e por mais que a camponesa entendesse a situação não deixava de queixar-se de sua saudade, de sua vontade de estar com ele. O Rei se sentiu pressionado por todos os lados e resolveu encerrar aquela história, já não queria correr o risco de ser pego fugindo do castelo para se encontrar com  uma camponesa, isto não era papel de Rei responsável e sério.

 

A camponesa, entretanto, ainda passou um bom tempo indo sempre ao lugar dos encontros, muitas vezes sem perceber acabava dormindo no banco embaixo da árvore. Seus olhos foram ficando cada vez mais tristes, sem esperança, e começou a cultivar o hábito de se trancar em casa, só saí quando fosse necessário. Os livros de contos de fada que sempre gostava de ler passou a ser vistos por ela como um bom material para alimentar o fogo da lareira. Começou a detestar os livros que tinham como final “e viveram felizes para sempre”, sabia que não estava gostando de um príncipe, mas de um Rei que não poderia jamais parar com seu cavalo branco para levá-la a um lindo castelo, não queria mais ouvir falar de histórias deste tipo, só queria crer na doce magia do encontro de dois olhares, e aqueles belos olhos claros e brilhantes, daquele que para ela não importava se era Rei ou plebeu, ficariam por muito tempo em sua memória. Às vezes ia se juntar ao povo para ver a comitiva do Rei passar, raras vezes conseguiu que ele a visse, mas percebeu que logo ele desviava o olhar. Outras vezes ia sentar no banco embaixo da árvore para relembrar aqueles momentos que considerava que foram felizes, no início esperava que ele aparecesse, mas com o passar dos dias, meses, viu sua esperança trocar de lugar com uma bondosa tristeza que trazia junto sua filha saudade, era com “elas” que sempre passava a noite.

 

Uma noite em que adormeceu no banco uma fada apareceu e, compadecida da camponesa, permitiu que seus desejos fossem realizados no mundo dos sonhos. E a partir de então a camponesa sonha sempre com o Rei e nos sonhos ela pode viver feliz até despertar um novo dia.

 

Todos os dias ela tem um sonho diferente. Uma vez sonhou que estava numa carruagem e se deparou com o Rei na companhia de dois ministros bem a sua frente. Desde o momento que ele foi sentar ao lado dela e a beijou até o momento em que acordou, ao romper de um novo dia, tudo parecia muito real. Em outro sonho ela estava do lado de fora do castelo, no jardim observando uma festa que acontecia no salão real quando se surpreendeu com o Rei ao seu lado pegando sua mão e levando-a a passear no jardim dizendo que a amava, ela dizia não acreditar, mas estava se deliciando com cada palavra daquela frase que queria tanto ouvir, sem se importar com a corporeidade da palavra em ação. Houve um sonho em que o avistava longe e ela corria, corria até alcançá-lo, abraçá-lo e ficar grudadinha em seu corpo. Tivera muitos sonhos, mas sempre acordava com uma saudade imensa daquele homem, que já não sabia se estes sonhos eram presentes para alegrá-la ou para entristecê-la. Foi quando decidiu ir procurar a fada para que pudesse substituir o presente dos sonhos por algo que estava pensando já algum tempo.

 

    

 

A

 Fada dos Sonhos e o Pedido da Camponesa

 

 

Ferna, a camponesa, amanheceu feliz. O dia estava ensolarado e acreditava esperançosamente que iria conseguir convencer a fada a mudar o presente que tinha lhe dado por algo que considerava mais concreto. Fez todas as suas obrigações bem ligeiro, cantava feliz.

 

-         Como eu não havia pensado nisto antes? – pensou consigo mesma.

 

Assim que terminou seus afazeres correu para o banco embaixo da árvore e fechou os olhos concentrando-se no pedido que queria e chamando a fada. A fada apareceu e Ferna euforicamente começou a falar, falar e falar deixando a fada atônita.

 

-         Espere Ferna, fale devagar, não compreendo você.

 -         Desculpa, minha querida fada, não quis confundí-la, apenas estou feliz pois acredito que achei a solução para o meu problema e sei que você pode me ajudar.

 -         Minha doce e ingênua Ferna, sempre posso lhe ajudar.

 E então Ferna começou a contar seu pedido, seu desejo, sua alegria. A fada sem querer interromper escutou pacientemente . Ao final, porém comentou:

 -         Doce Ferna, seu pedido é viável sim, mas não creio que possa solucionar seu problema, eu acredito que é melhor não tentar...

 Ferna, entretanto, interrompeu os conselhos da fada e suplicou tanto em meios às lágrimas que a fada cedeu ao seu desejo, mas alertou que ela poderia se entristecer mais ainda. Neste momento Ferna não mais escutava a fada, feliz por ela concordar com sua idéia.

 E ao balançar da varinha, como mágica, o tempo voltou atrás.

No mesmo lugar, aos arredores do palácio real, Ferna se encontrava encantada ao se ver novamente  com 19 anos, não que estivesse mais linda ou mais atraente, mas por ter a oportunidade de conhecer o Rei – por quem se apaixonara- ainda príncipe, ainda solteiro.

 Correu até ao palácio na esperança de poder deixá-la entrar, de poder ver e falar com o príncipe. Acreditava que o príncipe assim que a visse teria o mesmo encantamento que tivera ao se encontrarem, mas que desta vez nada impediria o amor dos dois.

 Ao tentar entrar no portão foi bruscamente impedida e, por mais que suplicasse não conseguiu sequer colocar os pés dentro do pátio real. Ficou pensativa, triste, mas não iria desistir. Poderia ficar ali para sempre até o príncipe passar. Ao ficar imaginando a cena do encontro, Ferna ouviu alguns guardas comentarem sobre a festa que seria realizada em homenagem ao príncipe.

 -         Uma festa ?! Eu poderia ir, como na história de Cinderela, serei a plebéia que casará com o príncipe...- pensando assim perguntou a um dos guardas.

-         Quando e que horas ocorrerá a festa ?

-         Para que tu queres saber? Por acaso tu serves a alguma princesa?

-         Como ? Não, não sou serva, eu...

-         Então qual motivo tens para ficar interessada no baile?

-         Ora, eu gostaria...aliás, eu estarei neste baile! – falou confiantemente.

-         Sinto informar a tão petulante plebéia que só serão convidadas jovens altezas. Estarão aqui lindas e ricas princesas para o príncipe escolher uma esposa. – informou o guarda.

Ferna ficou pensativa:

-         De que forma entrarei ? – pensou imediatamente na fada – Ela dará um jeito, me vestirá divinamente e serei escolhida para me casar com o príncipe. Vou querer o vestido mais lindo...

Ao chamar a fada fez o pedido com tantos detalhes, falou com tanta paixão, que acabou se atrasando para o baile.

 Linda e elegante chegou ao palácio. Entretanto para sua surpresa o príncipe estava dançando com uma linda jovem de 17 anos. Uma encantadora princesa que o fazia dançar como se estivesse voando e seus olhos brilhavam.

 Ferna não podia acreditar no que estava vendo.  Voltara ao passado para conquistá-lo e o que presencia era o momento do encontro entre ele e a futura rainha. Seus olhos ardiam, seu peito dóia, uma dor que parecia não suportar. Tudo parecia que iria desabar, queria sair dali e procurar um canto para chorar. Pensou que não poderia ir contra o destino. De repente se acalmou, sorriu e pensou :

 -         Ora, vou procurar a fada e pedirei que eu entre no baile e me encontre com o príncipe antes dela.

 Chamou a fada e, euforicamente explicou seu plano. A fada, sábia, ainda quis aconselhar, mas Ferna suplicava tanto que a Fada dos Sonhos teve pena e cedeu a sua vontade.

 Ferna entrou radiante no baile e com ela dezenas de outras moças, todas com a mesma vontade de serem escolhidas pelo príncipe. Ferna percebeu que o príncipe não se interessa muito vendo tanto entusiasmo e ansiedade daquelas jovens. Ferna não desistiu e se aproximou ao máximo do príncipe até conseguir que ele a visse. Por alguns segundos seus olhos se cruzaram e ela sorria expressando uma felicidade no olhar que o príncipe não resistiu e a convidou para dançar. Ferna estava tão feliz e repetia, encostando seu rosto no ombro do príncipe:

 -         Meu amor, que saudades...

 O príncipe sorriu e perguntou:

 -         Saudades? Pelo visto você tem acompanhado minha vida ou visto meu retrato. O que tem ouvido de mim?

-         Que você é um administrador sério, preocupado e muito justo.

-         Oh-oh, a donzela deve estar falando de meu pai, o Rei, por enquanto não administro nada

-         Oh, claro, é verdade, isso é o que esperam de vossa alteza.

-         É, eu sei que esperam que eu dê continuidade ao reinado justo de meu pai. Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance.

 Neste instante entra no salão real a linda e jovem princesa que faz com que o príncipe pare de dançar para ficar olhando para ela. Ferna se desespera e tenta voltar a dançar com seu amado, continua a falar do seu futuro reinado, mas nada mais parece interessar ao príncipe. Ele deixa Ferna imóvel no meio do salão e vai ao encontro da jovem.

 Ferna ainda vê os dois abraçados dançando,  olhos como que hipnotizados e percebe que contra aquele encontro nada pode fazer. Chorando corre até onde pode chamar a fada. A fada dos Sonhos surge, e presencia o sofrimento da jovem Ferna. Entre soluços ela repete diversas vezes:

 -         Eu quero morrer....eu quero morrer...

-         Por que? Porque pensava conquistar o Rei e se casar com ele ? Você não consegue perceber o que presenciou? Você não viu o amor presente naqueles jovens? Logo você que está fazendo tudo isso por amor?

-         Mas....

-         Mas quando você o conheceu ele não parecia amar a esposa, não é isso?

-         Sim...

-         E você acha que se tivesse conseguido casar com o Rei ele viveria feliz para sempre com você? E que nunca apareceria nenhuma outra para encantá-lo? Que você sempre conseguiria ser amável, gentil, compreensiva e atraente ?

-         Você quer dizer que o amor acaba?

-         Não, Ferna, o verdadeiro amor não acaba, mas ao longo do tempo a gente vai colocando outras coisas na frente dele e de repente se esquece aonde o colocou. Na necessidade de carinho, afeto pode-se até arrumar um substittuto, mas sabe-se que não é o que se procura. Compreende isto, Ferna?

-         Talvez, mas é muito dolorido...principalmente quando você finalmente percebe que foi usado e...

-         Não, Ferna, não julgue desta forma, você não foi usada. Você, igualmente ao Rei, estava carente e cheia de necessidades afetivas, deixou-se levar por emoções e foi por demais egoísta.

-         Egoísta?!

-         Sim, você esteve o tempo toda preocupada com seus sentimentos, com suas emoções, com suas dores e esqueceu de uma outra mulher que esteve ao longo destes anos todo ao lado do Rei. O que você viveu com ele?

-         Mas..não, fada, eu só queria...

-         Só queria ser feliz ao lado dele, não é? Ia querer constituir uma família com ele? Filhos talvez..? Ferna, esta jovem que você acabou de presenciar deu a ele seus melhores anos, deu a ele dois lindos filhos, mantém e ama a família que eles decidiram ter.

-         Fada, assim você está me fazendo achar que sou uma pessoa ruim.

-         Não, Ferna, você e eu sabemos que você não é ruim, e nem alimentaria sua felicidade com a tristeza dos outros, mas está sendo egoísta ao querer resolver este “problema” usando como eixo norteador apenas e unicamente sua vontade de tê-lo. Como reagiria os filhos dele? Que felicidade este homem teria afastado de seus filhos? Você poderia ter mais uns dez filhos dele, mas sempre ele amaria e queria estar próximo de todos os  filhos.

-         Fada, por favor, leve-me de volta ao presente, quero sair daqui, estou me sentindo mal...

 A Fada dos Sonhos atendeu-a imediatamente

 

   

 

O

 Amor Presente

 

 

De volta ao presente, a sua vida na aldeia, Ferna sentiu-se vazia, sem vontade de viver, um tanto quanto abobalhada para as coisas que antes se interessava e indiferente às pessoas. Resolveu então  mergulhar no trabalho. Ferna era uma exímia bordadeira, fazia trabalhos belos e delicados, muitos já haviam entrado no palácio e estavam sobre a cama na qual desejava possuir, não pelo leito real,  mas pela presença noturna e constante daquele que ocupava seu coração. Ferna permaneceu assim dia e noite ocupando-se para esquecer de seu amor e esquecendo de sí própria.

Em mais um dia de trabalho manual, em que nem havia arrumado os cabelos, com roupas simples, à toa, bate a sua porta um vendedor ambulante. Ferna, mais de forma mecânica do que gentil, recebeu o vendedor e o fez sentar, viu-o falar. Isto mesmo: “Viu”, por que não escutava uma única palavra. Um vazio enorme tomou conta de seu corpo e em um repente seu peito se encheu e pesou, uma força muito forte desembocou em forma de choro convulsivo que deixou o vendedor atônito.

Ferna então começou a falar do amor que tinha por um homem impossível, falou de seus riscos, de suas preocupações, de suas loucuras, do quanto faria para ter aquele amor e do quanto estava arrasada por perdê-lo.

O vendedor limitou-se a escutar até que Ferna envergonhada do seu desabafo pediu para que ele se retirasse. Ferna enxugou suas lágrimas e voltou ao bordado.

Dois meses depois o vendedor bate novamente em sua porta e Ferna ao reconhecê-lo se sente incomodada por mais uma vez estar desarrumada e também pelo “escândalo” que havia feito, mas assim mesmo o recebeu.

-         Desculpa, Sr., mas não estou precisando de nada.

-         Perdão, Sta., mas sou eu quem está precisando de algo

-         O Sr. Deseja ver meus bordados?

-         Não, Sta.. Meu nome é  Jésar. Qual seu nome?

-         Ferna...

-         Ferna, quero lhe dizer que desde aquele dia que eu estive aqui....

-         Oh, desculpe meu choro, o Sr. não precisava ter presenciado meu estado.

-         Desde aquele dia fiquei pensando em você. Em como queria ser amado daquele jeito. Seus olhos brilhavam, suas lágrimas escorrendo, seu corpo trêmulo, seus soluços, você pulsando inteira por amor....ah, como desejei ser este homem, como desejei ser amado assim. A ternura que senti por ti, que vontade de ter te consolado, te abraçado, não parei mais de pensar e então criei coragem para voltar e saber como você estava e perguntar se você não quer me aceitar como...

-         Espere...

-         Não posso esperar, quero você e espero o tempo que for necessário para você me amar.

Ferna ficou pensando em uma maneira de se livrar daquela situação, porque não sabia o quê fazer.

-         Espere, antes preciso saber se você está sendo sincero. Só aceito sua corte se o Sr. Espalhar pela comunidade que você me quer.

Jésar sorriu e começou ali mesmo a gritar.

-         Atenção todo mundo, eu Jésar, vendedor errante, cansado de viajar de um lugar para o outro, vendendo produtos e sonhos, quero fixar meu coração em um único endereço. Desta vez não quero vender nada, quero doar, entregar meu amor à doce e bela Ferna.

 

Ferna corou e tímida entrou em sua casa enquanto Jésar ia gritando pela rua o seu amor por ela. Ferna sorriu, sorriu como há tempo não fazia, e ficou pensando como o amor nos torna tolos.

Jésar retorna a sua casa e diz:

-         Ferna, terei que partir hoje à noite e voltarei a te ver daqui a oito meses, pois além dos produtos que preciso entregar terei que visitar meus pais. Você me espera?

-         Não, é muito tempo. Você traz o sorriso de volta aos meus lábios e depois pede para eu esperar oito meses? Não, não Jésar, não irei te esperar.

-         Mas Ferna, por favor...

-         Eu quero ir contigo. Posso?

Surpreso, Jésar abriu um belo sorriso, fazendo seus olhos verdes ficarem mais brilhantes. Por alguns instantes os dois ficaram se olhando sorrindo e Ferna esquadrinhou aquele belo homem. Seus cabelos lisos loiros, seu nariz pequeno, seu porte elegante, parecia mais um príncipe disfarçado. De repente se viu envolvida pela cintura e rodada num apertado e meigo abraço, sentiu-se voando, pois seus pés já não tocavam no chão. Delicadamente escondeu seu rosto no ombro acolhedor de Jésar. Sentiu uma felicidade enorme e a certeza de que o amor existe.

 

FIM

(Adelice Braga)

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