Vocês me matarão...Eu morrerei, Não tenham dúvidas!
Vocês parecerão ficar felizes e satisfeito por terem se livrado de minha pessoa, por saberem que nunca mais voltarão a me ver entre vocês. Mas não tenham pressa! Aproveitem cada momento deste ato, façam deste momento um grande espetáculo que faça encher de falsa satisfação o vosso ego, mas antes que concluam sua festa carniceira, eu quero lhes dizer algo, falar-lhes de algo que talvez precisem conhecer. Não! Lamento decepcioná-los, Mas não me ouvirão declarar-me inocente; não me ouvirão pedir ou implorar por clemência, nem tão poucos vos pedir perdão pelos meus atos. Eu sou culpado, sim, por todos os atos pelos quais me acusam. Eu realmente os pratiquei, e todos em sã consciência. Então, não tenham nenhum medo ou remorso, por menor que seja, de acharem amanhã, que talvez tenham matado a um inocente. Façam o que tiverem de fazer com a consciência tranqüila por este ato, pois não é com isto que terão de se preocupar amanhã, mas sim com o próprio amanhã e todos os outros que se seguirão.
Eu vivi uma vida indigna durante toda minha existência, e o que sou hoje, não é resultado de uma decisão estudada ou projetada, mas sim o resultado da germinação de uma semente que caiu em uma terra árida e desenvolveu-se em espinhoso arbusto. Uma planta que se adaptou conforme o terreno em que cresceu. Eu nasci envolto a barbárie e cresci em meio a violência, por isso sou discípulo dela. Não tento justificar o meu fim através dos meios, mas talvez justificar os meios através do início; é que uma estrada sempre leva a outra e nunca a lugar algum. Tive que percorrer uma estrada sinuosa e estreita até chegar a outras mais largas com altos aclives e profundos declives por toda a minha caminhada, até chegar no fim, à beira de um abismo; o abismo ao qual estou preste a me lançar hoje, neste momento.
Eu sou mau, mas não sou o mal. Mas o que tentam punir não sou eu, mas sim o que represento; o que está em mim; pelo o que tenho vivido.
O que realmente desejam condenar com suas leis é algo bem superior a mim, a vocês ou toda a humanidade. O que fazem neste momento, não é nada mais que um símbolo da vossa vontade, do vosso desejo. O que fazem neste momento é esconder vossa fraqueza, vossa impotência para com algo muito superior a vossa força, Ocultá-la atrás de uma cortina chamada justiça dos homens. Contra quem lutam, vocês realmente não o conhecem, mas vêem seu caminho, sabem por onde passa, sabem por onde vai e até mesmo quem o acompanha, mas que, todavia, não podem tocá-lo nem tão pouco atingi-lo. Ele é parte da natureza das coisas e da natureza humana também.
Quando me executarem, estarão tentando executar o mal que habita em mim; estarão tentando por fim no escravizador de almas, que saibam, nunca será atingido, mas não sabem isso.
Confundem-me com essa força, contra essa entidade.
Matem-me pensando que sou eu a origem e o senhor do mal que habita em mim, e verão amanhã eu renascer novamente.
Matem-me hoje e me verão renascer nos espinhos dos arbustos que perfuram e sagram seus pés amanhã.
Matem-me hoje e me verão renascer na doença que apodrece vossa carne amanhã.
Matem me hoje e me verão renascer nas blasfêmias proferidas por tua língua contra outrem amanhã.
Por fim, matem me hoje e me verão renascer na mesquinhez e na avareza, na inveja e na ganância, em todos os corações dos que viverão amanhã.
Porque o mal é parte de vós e de todas as coisas que os cercam, e todos vocês fazem parte dessa grande trama traçada por uma natureza incorrigível. Não podem se separar dele, pois vocês são o próprio mal. Ele faz parte de vocês como faz parte o que chamam de amor; a diferença é que têm sentidos opostos, pois um o acolhe e o outro o repele, esta é a lei natural das coisas e não se pode mudar. Todos praticam o mal de um modo ou de outro, com maior ou menor rigor, com maior ou menor condenação, contra poucos ou contra muitos, mas praticam.
Por favor, continuem!
Matem me agora, para que eu renasça amanhã transformado no medo que sentem pela serpente e a escuridão da noite, na hipocrisia dos vossos atos quando rezam pedindo perdão a Deus da mesma forma que dizem ter perdoado vossos ofensores.
Matem me agora, para que eu renasça outra vez em todos os corações de todos os homens, amanhã.
Agora, Puxem a corda...
Rogério P. Silva