Deus e o diabo
Certa vez, em um elevado monte próximo a uma grande e antiga cidade oriental, um homem sentado sobre uma rocha contemplava toda a planície abaixo, que se estendia desde o sopé até se perder no horizonte onde começava um imenso deserto. A grande cidade se destacava ao longe. Muros muito elevados e largos. Através de sua porta principal pessoas iam e vinham. Muitos guiavam pequenos rebanhos de caprinos, outros em seus camelos e cavalos levavam e traziam mercadorias variadas. Soldados passeavam sobre o muro empunhando seus arcos e levando à cintura as longas bainhas de suas espadas e sabres. Do lado de dentro do muro a cidade fervilhava em um vai-e-vem constante de transeuntes, que se assemelhava a um grande formigueiro humano. As ruas estreitas se cruzavam em todas as direções, formando um grande labirinto de vielas. Pequenas casas, prédios enormes, palácios construídos em mármore com suas longas escadarias e seus pilares elevados vigiados por mais soldados com seus capacetes de metal polidos e suas fisionomias graves. No centro da cidade, no ponto mais elevado, uma enorme cúpula dourada se destacava com grande majestosidade. Cobria a parte central de um grande templo todo construído em mármore branco. Em sua fachada principal, sete grandes colunas sustentavam o mezanino frontal. À sua frente, a praça. Uma escadaria se elevava desde a praça até o púlpito de entrada do grande templo. Pessoas andavam pela praça, outras subiam ao templo e outras desciam à praça. Os sacerdotes caminhavam pelo púlpito outros se encaminhavam para seu interior. Era chegada a hora da oração do fim do dia, e todos se apressavam em se acomodar em seu interior. E era exatamente para o grande templo, onde havia a maior aglomeração de pessoas, que o homem sentado sobre uma rocha, no elevado do monte próximo ao lado externo do muro da cidade, lançava seu olhar sereno.
Deleitava-se com a paisagem do fim da tarde serena e o frescor da brisa no alto do monte. Seu olhar terno e contemplativo denunciava que estava em profunda meditação. Sem desviar o olhar do seu objetivo, pressentiu que não mais estava só. Alguém próximo o observava em silencio.
Então, o homem sobre a pedra por fim falou ao presente, sem se voltar a ele e sem mudar a serenidade do seu rosto:
- então, tu também gostas de visitar este lugar a esta hora?
- ora, ora... Devo dizer que estou muito surpreso. Não esperava encontrá-lo tão próximo aos homens, Jesus.
- na verdade, nunca estive longe deles.
- humm, sei, sei...
- mas diga-me, o que faz por aqui tu que sempre em pessoa te escondeste do homem, e tenta manter-te afastado de mim?
- hahaha...Ah, Jesus...Você quer sempre tudo de bom só para você e para seus homens? Pois saiba que também sou criação do seu Pai, então de algum modo, sou seu irmão. Então também tenho direito de usufruir das coisas boas de sua criação. Eu também gosto desta paisagem. Gosto de ver o por do sol; gosto de sentir a brisa fresca no meu rosto e nos meus cabelos.
- ah, Lúcifer, tu és sempre contraditório. Vens falar de direito com o filho do Homem? Vens reivindicar teu direito de filho rebelde ou estás querendo ser o filho pródigo neste momento?
- sem ironias, Jesus, sem ironias...
- então, o que é?
- sabe, Jesus, eu, às vezes, sinto inveja dos seus homens.
- então, por que não te tornas um deles? Farias um grande favor a toda a humanidade e ao Pai, também.
- humm...Acho que ainda não. Estou querendo dizer que sinto inveja dos prazeres que podem os homens sentir. O prazer do plano físico é muito interessante. É por isso que venho aqui de vez enquanto, sentir esse frescor da brisa, esse sol dourado no horizonte longínquo, sentir a sensação de pisar esta terra com os pés descalço, sentir a chuva molhar o corpo e o calor dissipar-se dele no vento nordeste. São ótimas sensações, não? Não tenho isso no plano espiritual. Você certamente também não, não é mesmo?
Ah! Vês como sorri? Seu sorriso o denuncia, meu caro Jesus. Mas não se sinta tão constrangido. Pelo menos uma coisa temos em comum, não é mesmo?...hahahaha...Essas sensações, essas reações físicas são ímpares, sim? Eu gosto delas, se bem que algumas são bastante confusas pra mim.
Lúcifer se aproximou de Jesus e sentando ao seu lado, na rocha continuou:
- permita-me sentar-me aqui, Jesus. É coisa rara lhe ver por aí, então queria aproveitar para conversarmos, sabe? Divagar um pouco sobre esse nosso mundo o qual disputamos. É que as coisas ficam monótonas do meu lado, você lá eu por aqui...Nunca tiramos uma prosa.
- e sobre o quê especificamente queres tu conversar, Lúcifer, sendo tu meu antagonista declarado?
- ora, sobre isso mesmo. Esse mundo aqui, os nossos homens lá embaixo...
- nossos homens?
- é, quer dizer, seus, por enquanto. Você sabe muito bem Jesus, que o seu Pai vai entregá-los a mim, não é mesmo?
- não tão facilmente; não da maneira como estas pensando.
- ora, é só questão de tempo para que isso ocorra. Sabe que muito mais da metade, a grande maioria, não tem remédio que os cure.
- isso parece deixá-lo feliz
- pra falar a verdade, me deixa envaidecido.
- por que?
- ora, Jesus, está me tirando?
- tirando-lhe o quê?
- Humm...Deixa pra lá. Mas você sabe muito bem que temos uma disputa desde a muito tempo, não é?
- disputa de tua parte, não da minha.
- humm, um homem sem modéstia. Isso é bom. Mas olhe, vês todo aquele povo lá embaixo? Qual deles verdadeiramente o ama ou guarda tuas ordens ou a do Teu Pai? Aponta-me daqui um deles?
Ah! ficas em silêncio! Não podes negar! És a verdade em pessoa! Então eu sinto agora teu coração, Jesus. Ele se entristece, torna-se duro, dolorido. Eis a reação do corpo físico denunciando o sofrimento espiritual.
- se houver em toda a humanidade um só homem justo, toda ela será poupada por causa deste.
- como? Então a vida de um único vale mais que a de todos os outros demais?
- não se discute o valor da vida, mas da fé, da retidão. Da bondade e do amor.
- ah, o amor...Quem realmente ama neste mundo? De que forma? Com que verdade? Com que intensidade?
- na verdade, te digo que o coração do homem é mistério para ti. Tu não conheces tão profundamente quanto eu. Conheces tão somente as fraquezas, as necessidades básicas dos homens e te aproveitas delas para plantar em seu coração toda sorte de sentimentos mesquinhos que o leva mais cedo à sepultura. Tu envenenas a alma do homem e o corrompe pela necessidade carnal, e finda por lhe contaminar a alma, levando consigo todos que lhe cruzam o caminho, espalhando desta forma por toda a terra essa semente do ódio, da inveja, da avareza e outras mazelas que lhes sufocam o espírito.
- ora, e eu sou o culpado das necessidades do homem? Por que você e seu Pai não providenciam, não suprem essa necessidade do homem? Desta maneira não dariam ouvidos as minhas tentações, não é mesmo?
- o planeta foi dado ao homem como seu grande celeiro. Todas as necessidades matérias aqui são dadas.
- então? Por que se matam para comer e beber?
- não se matam por isso. Matam-se por quererem mais.
- ah, ambição...Isso é do homem, ou é de mim?
- o homem teme por seu futuro. Às vezes escondem seu alimento para que outro não o saqueie e lhe venha faltar amanhã. Mas isso não é o justo. O justo é todos poderem ter o bastante para si sem que afete aos outros. Há pestes e fome espalhado pelo planeta desde sua queda, Lúcifer. Você bem sabe. Mesmo a terra sendo um planeta formado de matéria bruta, se rebelou contra tua presença odiosa e rancorosa, fazendo com que todo o sistema de coisas se desalinhasse do seu estado harmonioso. Tua presença aqui contaminou a terra, a água e o ar. A terra nunca mais foi a mesma, nem voltará a ser enquanto nelas teus pés pisarem.
- não vejo deste modo Jesus. Não senhor. Eu também tenho minhas idéias sobre a ruína deste planeta e sua criação. Ora, tudo que aqui há, obedece a leis intrincadas que interagem com outras, e que por fim, formam um sistema inteiro de leis que formaria a harmonia universal. Ora, uma só regrinha quebrada, todo o resto vai sofrer as conseqüências por um efeito em cadeia até que por fim atinja a cada ser vivo, a cada pedra, a cada gota d’água que caia de uma nuvem.
- e o que quer dizer?
- quero dizer que por um descuido qualquer, alguma coisa saiu errada no laboratório da criação, e assim, fez com que no decorrer do tempo o paraíso se transformasse neste planeta com seus homens loucos e cheios de defeitos, deformados do seu caráter original.
- tu és além de insolente, arrogante e atrevido, Lúcifer.
- defendes com grande veemência a inocência cega do homem. Não lhe cabe então um mínimo de culpa? Então por que o expulsou do seu paraíso?
- não foram expulsos. Tentas distorcer a história para que tua pregação seja aceita pelos que não buscam pela verdade. Todo o planeta era o paraíso originalmente. Não haveria lógica em se fazer um planeta onde apenas uma porção de terra entre o Tigre e o Eufrates fosse a terra da fartura e todas as riquezas materiais. Se fosse assim, como habitariam o resto do planeta inóspito? Quando se tornasse pequena aquela terra para toas as gerações vindouras para mais onde iriam habitar? Um lugar fora da terra da abundancia que não produziria um único fruto? Claro que não! O que ocorreu é que toda a terra, como já disse, deixou de ser o jardim de outrora e não somente aquele pedaço de chão, devido a tua presença por aqui. O homem saiu daquela terra onde originalmente começaram habitar, para procurarem um lugar ameno. Saíram em busca de conhecer o planeta que habitavam, pois dali em diante, eles seriam posto à prova de sua sapiência, iriam ser o homem que governaria e transformaria este planeta conforme suas atitudes, e não mais seriam como apenas peças de alegorias em um jardim. O preço que paga o homem hoje, é produto de suas próprias decisões e atitudes. Não é da intenção do Pai criar o homem sob o julgo de uma lei rígida e inflexível. Antes, o homem tome seu rumo conhecendo os lados opostos de cada dilema; que faça de sua odisséia terrena, o caminho que o levará ao grande final da sua história.
- grande final? Então quer dizer que realmente teremos um fim. Está tudo planejado e calculado para ter um início, um meio e um fim?
- exatamente não! O que digo é que o grande fim poderá ser a destruição da raça por si mesmo ou a grande vitória humana com a descoberta da potencialidade espiritual em conjunção com o supremo espírito criador, e a entrada para uma nova era de prosperidade com o fim de todo aniquilamento da matéria pela matéria.
- não acredito no espírito humano, Jesus. Olhe bem para eles. Observe estes homens de agora e projete-se ao futuro e veja o quanto pioram, o quanto aumenta sua sapiência materialista e o quanto se afastam do espiritual. Verás o quanto te jogam de lado, o quanto o renegam a um cantinho escuro em um altar de um templo, simbolizado por uma porção de barro sem vida, apenas para interpelarem em busca de ajuda nos momentos em que não podem fazer mais nada com seus haveres materiais nem com suas filosofias hipócritas. Aí, sim te buscaram e logo depois outra vez te esqueceram.
- pois te digo que meu nome não será esquecido até a última geração da humanidade. Terão o exemplo para lhes servir de bálsamo para aliviar o fardo de suas dores.
- e eu vos digo também Jesus, que muitos criaram entre os próprios homens, santos que serão posto como intercessores entre seu Pai e os homens, desvirtuando seu posto, esquecendo deste modo, o seu nome. Então, o seu exemplo terá sido em vão.
- a verdade será conhecida por todos, mas muitos não a acatarão. Todavia, se uma pequena parte guardar a mim, terá sido vitoriosa a minha missão.
- tolice! A vitória será sempre da maioria. O que fará com meia dúzia de homens, quando milhões se perdem pelos caminhos traçados por eles mesmos e que mais tarde chegaram até mim, me buscaram conscientemente, pois sabem o que fazem, não serão mais crianças. Sabem distinguir o que é bom ou o que é ruim a eles próprios. O homem busca felicidade por si mesmo, mas a felicidade para eles é aquela em que é suprida sua necessidade material, aquela em que seu estômago é abastecido de alimento e o resto do seu corpo é saciado com os prazeres carnais.
Os valores morais serão substituídos por valores materiais. Até criarão um objeto que será a ruína moral e espiritual do homem. Um objeto que será desejado dia e noite pelo homem. Por ele matarão, por ele morrerão; usurparão; enganarão; condenarão e absolverão. Usaram o teu nome para terem acesso a esse material e confundirão o teu nome com o dele. E esse objeto material será o novo deus te todos aqueles que te esquecerão, Jesus. E viverão em função dele, e para ele. E lhes darão o nome de “dinheiro”, e todo homem, do que esmola à porta da sinagoga, seu templo, ao que governa uma nação; e toda nação, da mais insignificante à mais temida, se dobrará ao seu poder persuasivo e tentador.
- eis aí o grande mistério da alma do homem. Não posso condená-lo pelo desejo ao material. Não posso condená-lo por ser seduzido pelas riquezas materiais, pois o homem também é matéria. Está preso, envolvido pelo mundo concreto, pelo que ele toca, pelo que ele respira e pelo que ele vê. A parte espiritual do homem foi abalada e está adormecida, enclausurada em seu interior. Mas seu espírito espera. Ele anseia pelo livramento da prisão. Espera pelo dia em que os elos que acorrentam sua alma sejam quebrados, para libertá-lo para a vida plena, uma vida repleta na abundância, não a abundância das coisas materiais, mais a que enche e faz transbordar o cálice onde a vida está servida. Onde a vida é bebida deleitosamente em êxtases e deslumbramento plenos das convicções do ser vivente e consciente de ser parte de um universo infinito; um universo que não tem começo e nunca terá fim. Um universo que abriga infinitos outros em seu substrato adimensional. Então, uma vez liberto desta cadeia finita, que delimita o seu intelecto físico do intelecto universal espiritual, onde, aí sim, ele entendera Deus. Verá a razão por si mesma. E esse novo homem, com seu espírito liberto à plenitude da idéia universal da extra-ordinária existência divina, verá o quão limitado esteve enquanto se preocupava, brigando por sua disputas mesquinhas nesta terra condenada a destruição completa.
- se o tempo lhe fizesse efeito, eu diria: “não perca tempo” com essa idéia, Jesus. Você mesmo disse que o homem é matéria e vive pela matéria. Como fará para que ele vire-se para seu interior sendo ainda matéria? Por que não o ajuda? Torne as coisas mais fáceis, mais práticas para ele. O homem por si mesmo jamais vai conseguir despir-se do seu corpo físico que ele tanto cultua.
-não subestime essa criatura. Creia, se o homem fosse dado ao fracasso por suas aparentes fraquezas físicas ou espirituais, ele já estaria descansando em sepultura a milênios. Ele já passou por muitas provações desde sua criação, e quando parecia que ele fraquejaria, que ele cairia, ele se superava, se reerguia mais forte, mais doutrinado e com um novo ensinamento marcado em seu corpo e, principalmente, em sua alma. A alma do homem é fortalecida em cada queda, em cada escape, em cada dor sofrida e curada no decorrer de toda sua existência. Ela adquiriu imunidades para muitas mazelas e aprendeu ser perseverante. E essa perseverança não é cega, sem sentido. Essa perseverança é a esperança que ele tem em encontrar a paz e a vida plena. No fundo, ele sabe que tem um espírito inseparável de Deus. Essa idéia pode ficar adormecida, escondida dentro, sob a penumbra do seu orgulho próprio. Mas quando o homem está só, quando ele sente, próximo do seu fim, ele se entrega de todo ao espírito supremo, pois sabe o quanto se rebelara contra essa lógica que o criou. Sabe que sua existência não é despretensiosa, que não é obra do acaso, pois se acha muito superior a uma criação desgovernada, um aglutinado de matéria bruta transformado em matéria viva que se reproduz e muda o mundo em sua volta; molda o mundo em que vive conforme sua necessidade. O homem é um ser extraordinário, e ainda lhe resta muito tempo para que ele descubra toda sua potencialidade física e espiritual. Esse tempo que lhe é fundamental para seu crescimento, seu aprimoramento, será dado. Todavia, ele não poderá esquecer jamais da sua origem, pois se assim fizer, quando estiver conquistado um conhecimento maior, achará que sempre foi esse homem poderoso de intelecto e espiritual. Mas se lembrar de suas origens, vai sempre ter em sua alma, a serenidade, a humildade que será essencial para que busque sempre a presença do criador, compartilhando assim, desse aprendizado dirigido, que o levará ao conhecimento universal em harmonia com todos os demais universos.
- quanto mais tempo der a eles, mais eles afundarão na areia do seu egoísmo. Eles estão fadados ao fracasso. Não aposte em um jogo visivelmente perdido, Jesus. Deixe esses pobres ingratos comigo. Refaça sua criação. Crie um novo homem e habite um outro universo com eles. Deixe este para mim. Eles e eu nos entenderemos. Somos parecidos. Eles fazem o que gosto e o que ordeno. Fazem tão bem que não terei trabalho nenhum em reinar sobre eles. Serão ótimos servos. Farei deste mundo, um mundo pelo qual você ficaria fascinado se aqui voltasse em alguns milênios. Teria orgulho dos seus homens, Jesus. Que tal? Façamos isso. Dê-me eles e faça tudo novo. Esses aqui não têm cura. O seu mal é latente em suas almas. Algo realmente saiu errado na criação. Tente outra vez! Vamos! Façamos assim como lhe digo! Hã, que acha?
Houve um minuto de silencio sobre o monte...nem o vento soprou neste período. Por fim, Jesus falou:
- e o que vai fazer com ele?
- ora, vou fazer com que vivam suas vidas da maneira mais proveitosa possível. Vou me servir deles, claro. Vou usá-los para criar o maior reino que não houve até hoje neste lado do universo.
- e depois? Depois que tiver conseguido tudo. Depois de escravizá-los? Depois que criar seu reino e todas as coisas que quiser?
- bem, aí depois que tiver meu reino poderoso e com criaturas superiores a essa futura sub-raça, eu os aniquilarei. Porei termo a eles e um novo mundo, com novas e superiores criaturas será criado e se expandirá a todos os quadrantes desta galáxia e outras vizinhas. Ah! Eu já posso imaginar tudo, será magnífico. Será maravilhoso de se ver. Ficarei orgulhoso quando aqui voltar e lhe mostrar o que construí inicialmente com a ajuda dos seus homens.
- é o que tem em mente? É isso?
-sim, é isso. Quero eles para a construção do meu grande reino. Aí, sim, será mais justa a nossa disputa.
- tu serás morto por eles, lúcifer. Não seja tolo. Não subjugues essa criatura! Eles são mortais, sim, mas eles possuem um espírito soberbo quando em provação. A dor fará deles grande o bastante para se superarem e derrotá-lo.
- bobagem. São fracos! Medrosos e se vendem por tão pouco. Diante da ameaça da dor eles tremem e se entregam.
- não é verdade, Lúcifer. Tu estás enganado.
- tolo! Você os conhece mais do que eu. Por que tenta se iludir? Se você fosse um deles provaria de suas fraquezas e sentiria na pele o que é ser limitado, mortal e teria a noção do que é o medo da carne.
- incrédulo é teu nome. Mas faço contigo um acordo, se é que de tuas palavras tu tens convicção.
- humm...e qual seria esse acordo, meu caro Jesus?
- dizes tu que um homem como aqueles que habitam aquela cidade lá em baixo, se acovarda diante da dor, do medo ou da morte e nega a tudo aquilo em que ele tem convicção, tudo aquilo pelo qual ele vive?
- exato!
- bem, então eu faço contigo o seguinte acordo: eu viverei entre os homens pelo período de trinta e três anos, como um homem. Nascerei como um homem, viverei como um homem, sentirei as mesmas dores, os mesmos medos e terei as mesmas necessidades, até o dia da minha morte.
- e como será essa morte?
- tu escolhes!
- oh! Vejo que está sendo muito corajoso, ou demasiadamente tolo, meu caro, Jesus.
- mas...Se na hora do meu maior medo como homem, diante do meu tormento espiritual eu fraquejar e negar o que disse sobre o espírito humano, temer a dor a ponto de me arrepender, você será o vencedor. Então tu poderás ficar com toda a raça humana para si. Serás o senhor dela, para o servir eternamente. Mas, de outro modo, se na hora do meu martírio, na hora do meu maior sofrimento físico e espiritual, eu não negar as minhas convicções em Deus, e em meu espírito; se eu vencer o medo da dor e da morte, me sobrepondo acima de todos os sofrimentos terreno, na pele de um homem mortal, eu recriarei a fé do homem, eu acenderei a chama da fé na alma de toda a humanidade. Eu refarei a história do homem e mudarei seu destino! E tu voltarás ao recôndito do teu reino maldito e lá ficarás trancado, aprisionado por milênios e não mais farás os planos de escravização do homem, e tu reconhecerás que o homem é um ser que embora mortal, tem um espírito imortal e desafiador. Tu, então serás desrespeitado por eles e teu reino maldito somente se dará aos desprezíveis. Tu e os que te seguirem e habitarem teu pequeno covil de demônios, serão chamados de párias da criação e viverão no lodo até sua destruição final. Estás de acordo ou tu não crês nas próprias palavras?
- hahaha...no que não acredito é no que ouço. Vai perder seus homens em uma aposta tão tola? Aliás, aposta é coisa do homem, e também é um mal deles. Que ironia! Mas está feito! Não pensava que fosse tão fácil conquistá-los.
- então, assim será. Nos veremos no momento exato.
- estarei lá para reivindicar meu premio.
O sol já se deitava completamente sob a areia do deserto ocidental. As tochas das lanternas dos soldados bailavam de um lado a outro sobre o grande muro da cidade. As duas presenças foram-se com um forte vento que soprou no topo do monte.
O tempo passou e passou...
Certo dia, muitos anos depois, sobre o mesmo monte no qual estavam os dois personagens, um homem agonizava em seus últimos momentos de vida. Seu corpo estava em sangue. Marcas e cortes profundos em toda extensão do corpo por onde vertia sangue. Em sua cabeça, um emaranhado de espinhos lhes perfurava a fronte. Tinha seus pés e suas mãos pregadas em dois grandes pedaços de madeira bruta, trespassados por grandes e enferrujadas cunhas de ferro. Em seu flanco direito, um grande e profundo corte fazia verter do seu estômago, ácido e sangue. À sua frente, uma multidão. Homens e mulheres observavam. Uns choravam outros lhes proferiam blasfêmias e insultos. Mas em meio a dor indescritível, havia em seu olhar certa serenidade. Então em voz baixa, compassada e recortada, falou sem que os que estavam próximo pudessem ouvi-lo:
- olhe! olhe-me agora! Estás aí? Veja! Veja, incrédulo dos incrédulos! Olhe para mim e veja. Veja que agora, neste exato momento, eu faço nova todas as coisas.
E morreu.
FIM
Roger Silva
Sábado, 06 de Novembro de 2004 – 23Hs 07min.