- O que está fazendo, Zezé? – perguntou Gilson com o ar cansado por causa da corrida que dera de sua casa até a casa de Zezé.
- não está vendo? É o lançador do foguetee. Te falei que ia construir hoje, não foi?
- sim, eu sei, mas eu pensei que ainda nãão tinha conseguido a pólvora preta.
- na verdade eu ainda não consegui, mas eestou preste a conseguir.
- com quem Zezé?
- falei com o Tom, o filho do seu Sandovaal, o dono do armazém.
-ah, verdade? E ele disse que ia conseguiir?
- claro, mas fez uma exigência.
- exigência? Qual?
- a que ele também participasse da nossa equipe.
- e o que você disse?
- bem, estamos precisando da pólvora, né??
- é, estamos sim.
- então, eu disse pra ele que tudo bem.- mas aí quando ele vai nos trazer a pólvvora negra?
- bem, pra falar a verdade já era para teer trazido.
- não quer que eu vá até a casa dele pegaar?
- não. Deixa que ele vai trazer. Ele deu sua palavra. Além disso, se você for lá, pode dar mancada e o pai dele pode descobrir tudo.
- só quero ver como ele vai tirar a pólvoora do armazém sem o pai dele ver, ele nunca sai de lá.
- isso é com ele. Ele me garantiu, então....
- aposto que ele vai dar o maior furo, issso sim.
- hei Zé. Tem um garoto lá fora te chamanndo – falou a mãe de Zezé.
- acho que deve ser o Tom – disse Zezé.- se for, está sem a pólvora – respondeu Gilson.
- larga de ser pessimista, cara. Vamos láá com ele.
- oi Tom.
- hei, Zé. Aqui está a pólvora. Já faço pparte da equipe?
Zezé olhou para Gilson com cara de vitorioso, e Gilson devolveu com cara de desdém.
- claro, Tom. Entra aí. Já estamos montanndo o lançador.
- legal! E quando lançaremos?
- calma. Vamos por parte. Se o lançador fficar pronto ainda hoje, antes do final da tarde podemos lançar o bicho.
- e cadê o foguete, Zé? – perguntou Gilsoon.
- já vou pegar. Está guardado.
- deixa eu pôr logo a pólvora enquanto voocê pega o foguete.
- tá, toma aqui. Tem que pôr tudo, depoiss tem que prensar bem, antes de tampar.
- tá deixa comigo, eu sei.
Minutos depois Zezé voltou com o protótipo de suas invenções. Um pequeno foguete feito de uma lata cilíndrica de óleo comestível vazia. Tinha adaptada na ponta, um tipo de cone também de lata. Na base tinha quatro pequenos guias em formas de aletas, que segundo Zezé, era para dar estabilidade de direção ao pequeno invento. Gilson estava terminando de comprimir a pólvora em um pequeno cilindro de metal juntamente com Tom.
- pronto, Zé. O lançador já está com pólvvora. Só falta o tampão e o estopim.
- tá, o estopim é esse aqui. O tampão voccê corta desse pedaço de papelão de forma que entre bem justo no cilindro.
- tá, me dá aqui.
Gilson colocou o estopim no cilindro, cortou o tampão, fez um furo bem no centro e passou através dele o estopim.
- pronto Zé. Aqui está o lançador.
- tá, vamos adaptar no foguete. Coloca elle aqui dentro do corpo, e depois colocamos esses quatro calços laterais para centralizar o cilindro de propulsão.
- mas ainda tá faltando o isolador de baiixo. Cadê aquele pedaço de borracha?
- sei não.
- peraí, deixa ver se eu guardei.
- tá, pega lá.
Cinco minutos depois, Zezé volta com um pedaço de borracha preta e corta um pedaço em disco e adapta ao fundo do pequeno foguete.
- pronto. Agora é só pôr o cilindro.
- peraí, deixa eu colocar. Me dá os calçoos laterais – falou Zezé – pronto! tá feito. Agora é só prender bem esses calços com estes parafusos. Me dá um preguinho. Deixa eu furar primeiro,para depois parafusar...
- perfeito Gilson. Vamos botar o bicho prra subir às cinco horas em ponto, lá na prainha daquele lago perto do açude.
- então tá. Eu vou pra casa e que horas aa gente sai daqui?
- todos estejam aqui no máximo às quatro e quinze, entenderam?
- tá certo, estarei aqui – respondeu Gilsson.
- eu também vou estar – completou Tom.- eu não esperarei além desse horário. Quuem chegar atrasado, vá direto à prainha.
Os garotos foram para suas casas e ficaram esperando chegar a hora em que iriam para o local onde lançariam o foguete.
Quando deram quatro horas da tarde, os garotos estavam em frente à casa de Zezé. O foguete já pronto estava dentro de uma caixa de sapatos que Zezé carregava nas mãos.
- toma Gilson, segura esse pedaço de comppensado.
- pra quê isso?
- você saberá na hora.
- tá bom...
- vamos indo. Temos que preparar tudo anttes das cinco – falou Zezé.
- tá tudo aí, Zé? Trouxe o resto da pólvoora?
- claro, né,Gilson. Passamos um mês para montar esse foguete e na hora eu ia esquecer a pólvora para o lançamento?
- e por que não? Naquela vez você não esqqueceu de levar a lâmina quando íamos fazer a operação no sapo?
- ah, mas isso foi devido a pressa. O sappo já estava quase morto
- e daí?
- como e daí? Não íamos fazer uma operaçãão pra ver o coração do bicho?
- era.
- e como íamos ver o coração funcionando se ele morresse antes?
- mas você não falou que sabia reviver o sapo?
- e eu sei! Só que aquele sapo estava muiito anêmico.
- anêmico? Como assim, anêmico?
- ele estava com pouco sangue. Por isso qque o coração não voltou a bater. Ele devia estar com ar nas veias.
- com ar nas veias? Do que está falando ZZé? Eu nunca ouvi falar disso.
- o que você entende de sapo, Gilson?
> - e o que você entende de coração de bichhos?
- estudei isso na escola, tá?
- estudou? O máximo que deve ter visto fooi um desenho de um sapo aberto, só isso.
- a professora falou sobre Ana...anatominnha...anatonia dos bichos.
- anatomia! Tá vendo só? Nem isso você saabe falar.
Vendo os garotos discutirem, Tom, que os acompanhava atento a discussão dos dois, não se conteve e perguntou.
- mas para quê vocês iam operar o sapo?- experiência – respondeu Zezé.
- que tipo de experiência?
- ele ia dar um nó nas veias do coração ddo sapo – entregou Gilson.
- dar um nó? Mas que malvadeza! Para quê iam fazer isso?
- queríamos saber quanto tempo mais o sappo viveria com o sangue preso no coração.
- que diabos de experiência malucas essa de vocês! E vocês fizeram mesmo isso?
- sim, ele fez – afirmou Gilson.
- mas ainda a pouco você falou que não tiinham lâminas.
- mas ele abriu com um caco de vidro de ggarrafa.
- e deram um nó no coração?
- em uma veia.
- com o que deram o nó?
- um pedaço de linha de nylon.
- e o sapo?
- morreu!
- logo?
- durante a operação.
- por que?
- sei lá, acho que foi falta de anestesiaa. Acho que não suportou a dor.
- mas eu acho mesmo que foi devido ao álccool.
- álcool? Para quê?
- esterilizar!
- quando o sapo foi aberto, e antes de feechar a veia, peguei um pedaço de algodão, molhei no álcool e pinguei bem dentro dele. Aí ele esperneou e morreu.
- meu Deus que malvadeza!
- que malvadeza, Tom? Isso é ciência!
> - ciência? Vocês são loucos!
- pois é, já ouviu falar de cientista malluco? – perguntou Gilson a Tom.
- vocês vão todos pro inferno!
- mas que bobagem, Tom! Não vem com essa ladainha.
- está bem, depois não digam que não avissei.
- como quer fazer parte da nossa equipe ccom todo esse seu medo?
- não é medo. Só não quero participar desssas torturas com os bichos indefesos.
- não é tortura, é experiência e é pro beem da ciência.
- ciência...bah! Deixa a ciência com os ccientistas de verdade.
- peraí, Tom! Você vai querer ou não partticipar da equipe?
- eu quero!
- então para com essa frescura.
- só não vou participar de experiências ccom os bichos.
- olhe, tudo bem se você não quer particiipar de algumas experiências, mas você não fique falando que estamos torturando os bichos.
Os meninos foram conversando até a chegada próximo ao açude, por onde havia uma pequena estrada paralela ao mesmo. A estrada seguia am frente e depois fazia uma curva para a esquerda, descendo rumo ao açude. Antes dessa curva, havia uma outra pequena estrada à direita que levava até uma lagoa, onde havia uma pequena faixa de areia em forma de meia-lua e que chamavam de “prainha”.
Chegando na prainha, os garotos começaram a armar o pequeno foguete em uma base de madeira na qual ficava atracado o foguete e que os garotos chamavam de lançador. Depois colocaram uma pequena quantidade de pólvora na base do lançador e onde estava o estopim em contato. Um estreito filete de pólvora foi traçado da base até uma distância de aproximadamente uns trinta metros, onde ficaram os garotos.
- Gilson, pega o compensado e traz pra cáá.
- tá aqui.
- quando riscarmos o fósforo, e acender aa pólvora, colocamos aqui na frente.
- tudo bem.
- deixa eu acender, Zezé.
- não senhor! A honra é minha, além do quue, você é do contra, esqueceu?
- fresco!
- hihihihi, ser fresco tem suas vantagenss.
- é mesmo? Tipo que?
- acender a pólvora de um foguete! hihihiihi
- idiota!
- vamos logo com isso – reclamou Gilson –– já são cinco horas.
- contagem regressiva, camaradas! O tenennte da força aérea soviética, José Nikolai Antonov, vai parir para o espaço a bordo do super foguete orbital Zegito!
- esse é o nome?
- é!
- é russo?
- que russo? São nossas iniciais, camaradda Gilson.
- que piegas!
- sala de controle de lançamento...Está ttudo sob controle? – perguntou Zezé, olhando para Tom.
- que?
- está pronto?
- o que está pronto?
- tudo.
- como tudo? Não é só acender?
- ai meu Deus...
- você tem que dizer sim, Tom. Para poderr começar a contagem.
- ah, é? Mas pra que tem que perguntar?- caramba, Tom! Isso aqui é uma simulaçãoo de um lançamento de um foguete de verdade, iguais aos russos, entendeu?
- ah, tá bom.
- outra vez...Sala de controle, tudo pronnto para o lançamento?
- sim, senhor tenente antonov!
- então, começar a contagem regressiva....Major Gilson, pode começar.
- dez, nove, oito, sete...Três, dois, um....Ignição!
- fogo no lançador!
- vai agora, acende!
- pronto, foi!
- sai, sai...Coloca o anteparo...O compennsado, Gilson!
- ta...Pronto.
O risco de pólvora foi queimando pela areia em direção da pequena plataforma, deixando um rastro de fumaça esbranquiçada para trás e deixando os garotos tensos, olhando por cima do anteparo de compensado. Quando o fogo chegou até a base do lançador e inflamou uma maior quantidade de pólvora que ali estava contida, para o estopim, os garotos se esconderam por completo atrás do anteparo.
- é agora!
- protejam-se
- ai, meu Deus – rezou Tom, baixinho sem os outros ouvirem
Mesmo esperando que o pequeno foguete ascendesse ao céu, os garotos, por puro instinto, colocavam as mãos nos olvidos.
Depois que a pólvora de combustão do estopim inflamou por completo fazendo um forte chiado e produzindo uma nuvem de fumaça sulfurosa, o que se ouviu depois por trás do anteparo, foi barulho de um estouro violento, fazendo os garotos caírem no chão com o anteparo por cima deles. Depois da explosão, os garotos estavam atordoados. Voltaram-se para a direção na qual estava antes o foguete, e viram se dissipar a nuvem espessa de fumaça, que agora envolvia todos eles. Depois de dois minutos, já era possível ver tudo em volta. No local onde antes estava o pequeno foguete com sua plataforma, não havia mais nada a não ser um buraco e pequenos pedaços de madeira e latas espalhados para todos os lados. Os garotos se levantaram e olhavam para cima como se estivessem procurando pelo foguete – curta esperança - mas não viram nada, pois se o foguete tivesse realmente subido, teria deixado um rastro de fumaça no céu, o que não ocorrera.
Zezé já decepcionado pelo fracasso do seu projeto, procurava entender o que teria acontecido de errado. Andava de um lado pra o outro com as mãos na cintura, de cabeça baixa a procura dos pedaços do que restou do foguete, o que não era muito.
- mas que droga! – desabafou Zezé.
- o que saiu errado, Zezé? – quis saber GGilson.
- sei lá. Bem que eu queria saber.
- será que não foi muita pólvora? – perguuntou Tom.
- não, não foi isso não. A quantidade de pólvora só teria a ver com a duração do vôo.
- então foi algum erro na construção – cooncluiu Gilson.
- isso é certeza, mas a certeza que eu quueria ter era “o quê” deu errado. Porque se não souber, vamos cometer o mesmo erro de novo na próxima vez.
- então acho bom a gente voltar do zero ee repensar a construção passo a passo para ver se descobrimos alguma falha.
-hei, por que não fazemos igual aos carass que constroem foguetes de verdade? – indagou Tom.
- e o que os caras que constroem foguetess de verdade fazem, Tom?
- eles não constroem o foguete inteiro e lançam. Eles testam cada parte construída separadamente para ver se funciona, e estando tudo aprovado, vão montando a estrutura.
- não acredito – e Zezé segurando com as duas mãos a cabeça de tom, que era um pouco menor que ele, continuou – até que enfim vejo alguma coisa boa sair dessa cabecinha de babaçu. Até que enfim uma coisa inteligente.
- por que Zé? Pensava que eu fosse burro??
- até ainda há pouco.
- e se você fosse tão inteligente, como sse diz ser, não teria construído todo o foguete para testar, sem antes ter testado só o cilindro de propulsão.
- eu não disse que era inteligente, sua aanta! E quanto ao teste do cilindro separadamente, eu realmente não havia pensado nisso. E mesmo se tivesse, não tinha mais grana. Não sobrou nada da verba do projeto. Teria que comprar mais pólvora e outras coisas.
- é que você só me avisou do projeto someente ontem, isso porque precisou da pólvora, senão nem teria comentado comigo sobre o foguete.
- eu ia falar, sim.
- claro que ia. Mas só depois dele ter exxplodido e você me pedir pólvora para o próximo, não é? Você é um egoísta, Zé!
- hei, vá com calma aí. Eu também não podderia sair espalhando pra todo mundo sobre o foguete. Já imaginou isso aqui cheio dos meninos lá da rua, atrapalhando tudo?
- boa desculpa. Se avisasse a mim, não avvisaria a todos e do mesmo jeito estaríamos aqui, eu dando ou não a pólvora.
- agora não adianta vocês ficarem aí se eespetando. Vamos cair fora – interrompeu Gilson, aborrecido.
Os garotos juntaram o que tinha de levar e tomaram rumo de volta pra casa. A tarde já se findava. O sol já se escondia no horizonte oeste, refletindo seus raios pálidos por detrais da vegetação rasteira que se elevava em uma colina do outro lado do açude.
Os meninos já viam descendo pela rua que dava acesso a estradinha do açude. Lá mais em baixo da rua havia uma pequena aglomeração de crianças e adultos à beira da rua. Chegando mais próximos, os garotos viram pessoas gesticulando e falando, outras com olhares espantados, de vez em quando olhavam para o céu. Então Zezé, curioso, disse aos outros:
- vamos ver o que é.
- vamos lá – respondeu Gilson.
Se chegaram junto ao pessoal que estavam em torno de uma outra pessoa, um homem já idoso segurava alguma coisa nas mãos enquanto gesticulava e falava sobre alguma coisa que tinha visto. Enquanto falava balançava os braços em todas as direções, o que fazia com que Zezé não conseguisse ver o que era. Zezé tentava acompanhar com os olhos, mas os movimentos eram rápidos e não paravam por um instante. Zezé já estava apavorado, de olhos arregalados procurando pelo objeto na mão do homem. Até que em um dado momento o homem deu uma paradinha nos movimentos e Zezé arregalou ainda mais os olhos ao ver o objeto. Ficou de boca entre aberta e paralisado por um instante. Depois esboçou involuntariamente um sorriso impreciso e voltando para os outros garotos que estavam mais atrás, disse:
- olha só! Olha só! Gilson, Tom!
- o que é Zé?
- olha só, vocês não vão acreditar!
- mas o que é?
- o nariz!
- que? Que nariz?
- o nariz do foguete!
- sério? Cadê?
- o homem tem nas mãos, vê só.
Gilson e Tom meteram-se entre as pessoas e tentaram ver o que o homem tinha nas mãos. Depois de certo tempo conseguiram.
- é mesmo!
- caramba! Veio cair aqui?
- nossa! A explosão foi tão forte que lannçou o nariz do foguete até aqui.
- e estão dizendo que caiu do céu.
- você ouviu? Estão falando até de satéliite e disco voador.
- hahahahaha
- tá todo mundo assustado.
- hahahaha...ah se eles soubessem.
- poxa que legal, pessoal! Pelo menos demmos o que falar.
-se foi? Mas não vamos dizer pra ninguém.. Vamos ver até onde essa estória vai dar.
- é sim, hahahaha. Eu quero ver também.Os meninos foram descendo a rua com ar de orgulho estampado nos seus rostos, por terem provocado comentários e estórias fantasiosas nas pessoas, que nem imaginariam de onde viera aquele pedaço de metal deformado que caiu do céu naquele finzinho de tarde. E até mesmo eles, aproveitando a situação e para dar mais asas às fantasias dos outros garotos da rua, disseram ter visto que naquela tarde, um objeto luminoso que voava bem baixo por ali, e que depois que chegaram no local e viram o objeto, ele se elevou rapidamente e depois de alguns movimentos, teriam ouvido um barulho vindo do alto e algum objeto caindo em direção a terra. Os outros garotos ouviam os relatos fictícios de Zezé, Gilson e Tom, e ficavam de olhos brilhantes e pensativos, imaginado como eram sortudos os garotos por terem presenciado aquele “acontecimento” inédito na cidade. Os meninos olhavam para si e sorriam sempre que ouviam alguém falar sobre o acontecido. Nem lembravam mais do fracasso do lançamento do foguete, pois, agora, era como se o projeto tivesse tido sucesso absoluto. Sentiam-se orgulhosos de si próprios por terem sido os protagonistas secretos do mais novo assunto em moda na pequena cidade
Roger Silva