Foi em uma dessas tarde de
solidão, bem me lembro, que cavalgando por uma
estradinha de terra batida, cercada por
vegetação de arbustos rasteiros, te encontrei.
Caminhava cabisbaixo e com
os olhos úmidos. A brisa do leste cuidava em
enxugar do meu rosto, os caminhos molhados
deixados pelas lágrimas precipitantes.
O fim da tarde já se
aproximava, e a lua já despontava no longínquo
horizonte oposto. Minha alma era comprimida
dentro de mim por uma angústia terrível e
dilacerante. Sentia-me sufocando, e com grande
agonia buscava encher meus pulmões de ar.
O rumo que tomava era
incerto, me deixava levar pela estradinha, sem
saber onde ela ia parar, pois para mim, não
fazia diferença. Na minha mente somente uma
idéia me acometia: nunca parar até encontrar um
fim, fosse qual fosse, perto ou longe, bom ou
ruim. Não esperaria por mais nada, nada mesmo.
Em vez de esperar, fui buscar.
Então, continuei a seguir
a estradinha. Em uma determinada parte do
caminho havia uma suave curva que era encoberta
por uma vegetação mais elevada. Fui contornando
a curva e ela foi se desfazendo, abrindo uma
nova paisagem, com um novo e belo horizonte.
Mais à frente haviam
várias pedras de variados tamanhos, e sobre uma
grande delas, logo à margem da estrada, eu te
avistei. Ah, bem me lembro! Era a paisagem mais
linda do mundo. O crepúsculo anunciante era
banhado pela ainda tímida luz do luar que
suavemente ia tomando conta de toda a paisagem.
Você, no meio
daquele deserto de esperança, brilhava como uma
pérola azulada pela cor do seu vestido. Tinha a
cabeça baixa sobre os braços cruzados e apoiados
sobre seus joelhos. Seus lindos cabelos
balançavam ao sabor da brisa suave que soprava
constantemente do leste.
Aquilo para mim foi como
uma visão prodigiosa; uma visão onírica que só
se encontra nos sonhos mais fantasiosos. Parei
bem à sua frente, e como não tivesse notado
minha presença, desci do cavalo e me aproximei
de você. Soluçava baixinho, de modo quase
inaudível.
“Por que está chorando?”
– perguntei. “Porque sinto-me só, e ninguém
me toca a alma jamais”.– respondeu você com
a voz ofegante, mas de uma doçura ímpar,
todavia, sem levantar a cabeça. Ah! Foi como se
eu tivesse ouvido a doce voz de Calíope. Tal
resposta adentrou meu ser de forma que me fez
sentir incapaz de exprimir uma expressão melhor
do que a que disse a seguir:
“se jamais ninguém te
amou de verdade, preciosa donzela, ou se jamais
sentiu tua alma ser tocada, eu te peço que me
olhe, pois de igual sentimento sofro eu, e sinto
ânsias de provar de tal sublime afeto do qual
sentes tanta falta”.
Então tu levantaste teu
lindo rosto. E foi como se o sol de um novo dia,
uma nova manhã nascesse dentro de minha alma.
Tinha os olhos vermelhos, mas cintilantes e
rasos de lágrimas. Ajoelhei-me próximo a ti, e
afagando tua mão continuei:
“se tu és um anjo que
dos céus veio me ajudar, diz-me, por favor,
terei eu a sorte final? Terei eu a bênção divina
de provar e viver o profundo sentimento de
afeição que trago dentro de mim, mas que,
todavia, não há no mundo a quem possa dar?”.
E tu nada me
respondeste, mas um sorriso brilhante como a
aurora vespertina, iluminou tua face e tu me
abraçaste. Ah, bem me lembro! Eu te carreguei no
colo, e a pus sobre meu cavalo. Subi eu depois,
e com um beijo, que foi a mais doce coisa que
até então haviam meus lábios provado em toda a
minha vida, perguntei-te se eu poderia te amar,
e se tu querias do meu amor provar.
E tu, com teus olhos
radiantes como as estrelas de órion no
firmamento, e com um sorriso meigo e cativante
disse-me “sim”. Então saímos em galope por
aquela estradinha que nos conduzia ao horizonte
ocidental, lá onde o sol se punha, escondendo do
dia o seu brilho, e onde foi nascer o brilho do
fulgor do nosso eterno amor.