A BEIRA DO ABISMO
Oh, sim, minha querida. Eu ainda me lembro.
Lembro-me ainda como se fosse hoje
A terra à nossa frente era seca
E apenas um estreito caminho nos guiava
A poeira cobria nossos pés ao caminhar
As escassas vegetações que existiam por ali
Eram como fantasmas de vegetais que por um tempo
Brigaram contra a morte, mas a morte prevalecera.
E lá ficaram como um aviso aos errantes que por ali passavam
A morte caminhava ao redor daquele caminho
O céu mostrava-se aberto de todo
O sol escaldante evaporara de lá, qualquer vestígio de nuvem
E o solo refletia de volta ao céu sua energia mortífera
O ar parecia não existir
Um silencio profundo dominava tudo
A solidão do lugar era atroz
As pedras fissuravam-se, tranformando-se em fragmentos de rochas.
O sangue parecia querer evapora-se de dentro no nosso corpo.
Os olhos secos ardiam sob a intensa luz refletida do solo
Era o inferno sobre a terra
Esperança não havia em nossas almas
Andávamos sem nenhum alento que nos fizesse ver o futuro da próxima hora
Cada minuto parecia ser o último.
Pensamentos, eram naquela hora, uma confusão de idéias desconexas
Fragmentos de sentimentos imprecisos e desconhecidos
Não existia mais a menor idéia do existir como seres vivos
Mas uma coisa desconhecida ainda perdurava em nós.
Algo mais forte do que o próprio corpo e a mente.
Algo sustentava aqueles corpos secos de vida
E que ainda se arrastavam juntos
Um abraçado ao outro como se fosse um corpo só
Nossas pernas atrofiavam-se
As articulações pareciam Enrijecer-se
Os ossos pareciam transformar-se em pedras
Mas mesmo assim, elas teimavam em caminhar
Arrastando os pés naquele pó ardente
Que parecia querer cozinhar a pele ressecada e os tendões
O estômago vazio produzia no ventre uma dor grave, insuportável
Que fazia revirar nossas entranhas vazias
A boca seca dilatara a língua e espessara a saliva intragável
Eu te buscava com os olhos sem expressões
E conseguia te ver como um rosto em um retrato desbotado
Teus olhos eram olhos vazios
Não caracterizavam o medo
Nem a dor
Nem esperavam
Eram apenas olhos secos, vazios, opacos e sem vida.
Teus lábios que outrora reluziam como uma bela e aromática maçã
Foram transformados em um fruto ressecado, sem o menor traço do brilho de outrora
Teu rosto empoeirado lhe transformara o que antes era a aurora vespertina que me trazia vida
Agora era a própria face do vazio das emoções
Mas tu ainda me abraçavas
E andávamos seguindo aquele caminho do inferno
Quando em um certo momento fraquejamos em nossas pernas e caímos
Com os rostos ao solo, no pó ardente.
A respiração ofegante nos fez aspirar aquele pó abrasivo para dentro dos nossos pulmões
E sentimos o ardor nos queimar a alma agonizante
Em tão grande agonia ficamos caídos abraçados
O ardor logo depois cessou e então perdemos o pouco sentido que tínhamos
O tempo passou...
Um olor suave comecei a sentir
Era como o olor vindo de um jardim
Meu corpo parecia emanar calor e não mais absolver
Minha pele começou a sentir o contato com um substrato macio e delicado
Meus pulmões começavam a sentir encher-se de um ar ameno
Um frescor de brisa me envolveu
Senti um braço macio e acolhedor me envolvendo
Era você
Deitada ao meu lado me abraçava ainda
Olhei teu rosto e teus olhos pareciam voltar a brilhar
Teu sorriso, todavia, não apareceu.
Levantamos nossos rostos e olhamos à nossa frente
Lá havia agora um final da terra
Havia um precipício; um abismo.
E uma ponte feita de cordas e tábuas unia um lado a outro da terra
Levantamos com um pouco mais de força que antes
E fomos até a beira do abismo
E no seu fundo havia um rio
Um profundo rio de águas turbulentas
E do outro lado recomeçava a terra árida
Continuava o inferno
E lá em baixo, no fundo do abismo, um rio de águas claras
Que corria em velocidade entre cordilheiras que se estendiam até perder de vista
Não havia como descer o rio
Os paredões do precipício eram totalmente verticais
Às nossas costas o inferno ardia, e à nossa frente ele continuava
Mas do fundo do precipício, lá onde corria o rio, vinha um vento suave.
E trazia um suave perfume de flores.
E nós ficamos no início da ponte a olhar o rio no fundo do precipício
Depois de um longo tempo de silencio, sentamos à beira do abismo, ao lado da ponte
Muitos anos se passaram...
Certo dia, chegaram a este mesmo lugar, homens e máquinas. Eram trabalhadores que ali estavam para abrir uma estrada e construir uma ponte de concreto sobre o precipício.
Parece que um dos homens ao se aproximar, encontrou próximo à ponte, velhos trapos de roupas de homem e de mulher, nada mais.
Roger Silva
02 de Novembro de 2004 - 23:30 Hs