As Marionetes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sim, senhora! - disse José quando sua mãe o mandou ir até a mercearia comprar manteiga para o preparo do bolo de Jaqueline, sua irmãzinha mais nova, que naquele dia completaria seis anos de idade. José saiu correndo pela rua em direção da mercearia de “seu” Miguel que ficava em uma outra rua transversal à rua de sua casa. Naquele dia havia chegado na pequena cidade de Areia Branca, um pequeno teatro de marionetes que se instalara em uma pequena praça próxima ao comércio onde compraria a manteiga. José olhando aquela tenda armada no meio da pracinha e os vários meninos que ali a cercavam, não conteve a curiosidade e foi conferir o que acontecia na pracinha.

“Circo de marionetes”, era o que estava escrito em um tosco pedaço de tábua, logo na entrada da pequena cabana.

- o que é isso? – perguntou José a um outro garoto que estava próximo.

- é um circo de bonecos, não está vendo?

- não, não estou vendo! Só vejo uma cabana.

- então veja também se consegue ler o que está escrito!

José se afastou do garoto que lhe parecia aborrecido, e foi para a parte de trás da cabana. Havia muitos garotos circulando por ali, pois aquele mini circo era a única atração na cidade daquele momento e a garotada se apinhava para querer ver e saber mais da novidade que chegara na pequena cidade. Na parte posterior da barraca, havia um homem. Estava arrumando algo ali, como se estivesse terminando de aprontar as amarras. José observava sem nada perguntar a ninguém, e no meio dos outros meninos ficou. Sem se preocupar com o tempo, pois já tinha esquecido que deveria ir à mercearia do seu Miguel.

- quando vai começar, senhor? – perguntou um garoto no meio do resto – quando vai começar o circo de bonecos?

- à tarde! À tarde! – respondeu o homem.

- quanto tem que pagar, senhor? – perguntou o outro garoto.

- um cruzeiro! Um cruzeiro – respondeu outra vez o homem do circo.

Estas perguntas eram as que queria fazer, e as respostas eram as mesmas que queria ouvir, pensou José com ele mesmo. Com essas informações, José voltou correndo para casa, mas no meio do caminho se lembrou de seu compromisso.

 – a manteiga! Caramba, já tinha me esquecido da manteiga.

Voltou correndo até a mercearia de “seu” Miguel. Comprou a manteiga e voltou correndo para casa, louco para dar a notícia ao seu irmão e seus amigos próximos a sua casa.

- tem um circo na praça! Tem um circo na praça! – chegou gritando feliz por dar a notícia.

- circo? Onde? Perguntou surpreso Francisco, seu irmão, dois anos mais novo.

- na pracinha! Chegou um circo de bonecos e vai começar à tarde, e o ingresso é um cruzeiro, disse o homem do circo.

- caramba! Onde vamos conseguir um cruzeiro cada um?

- não sei, mas temos que tentar conseguir. Vamos ter que dar um jeito.

- mas como? A mamãe não vai nem deixar nós sairmos de casa hoje à tarde.

José entregou a manteiga a sua mãe, e com a esperança de tê-la em um dia feliz, arriscou:

- mãe. Tem um circo de bonecos na pracinha e começa hoje à tarde, posso ir junto com o Chiquinho?

-não!

- ah, mãe, mas por que?

Hoje é aniversário de sua irmã e vocês vão ficar aqui para cantar parabéns para ela. Não vai ter muita gente no aniversário, é só um bolinho com suco, além disso, teu primo Joãozinho vem aqui também para o aniversário junto com seu tio.

José saiu da cozinha desanimado e foi sentar-se no batente da porta da frente. Com a mão no queixo ficou lá, maquinando o que fazer para ir à tarde ao teatro de marionetes sem ter que sofrer na volta nas mãos de sua mãe.

- hei, Zé. Já sabe do circo? – perguntou Gilson, seu melhor amigo e que morava próximo sua casa.

- já, eu sei, eu vi na pracinha.

- e aí? Você vai?

- mamãe não deixou.

- caramba! A mamãe também não deixou e hoje vou ficar de castigo.

- castigo? Por que?

- não sabe? Me derrubaram por causa do gato.

- gato? Que gato, cara?

- o gato que matamos.

- caramba! Já tinha até esquecido! Quem contou, quem contou?

- não sei, mas acho que foi o Wagner.

- filho da mãe!

- o pior é que eu não vou pro circo nem vou vender os pirulitos para dona Raimunda hoje.

- eureca!

- que?

- hei, Gilson, quem então vai vender os pirulitos para a dona Raimunda, no seu lugar?

- ninguém. Já disse a ela que não ia poder hoje e ela até guardou o tabuleiro.

- hei, Gilson, será que eu poderia ir vender pra ela? Quanto ela te paga para vender os pirulitos?

- se vender tudo, ela me dá um cruzeiro.

- legal! Vou lá com ela. Vou pedir para que eu venda hoje os pirulitos lá no circo, e com um cruzeiro que ganhar, eu pago o ingresso.

- mas você acabou de dizer que sua mãe não deixou você ir.

- eu vou dar um jeito. Vem comigo até a casa de dona Raimunda?

- tá, vamos lá, então.

- peraí, vou falar pro Chiquinho. Ele também vai querer ir.

Saíram então os três garotos rumo a casa de dona Raimunda, uma senhora idosa e viúva que morava sozinha na rua do fim da ladeira, em uma humilde casinha de taipa de único compartimento, cercada por uma cerca de ripas curtas amarradas com alguns pedaços de arames enferrujados.

- dona Raimunda! Chamou Gilson pelo portãozinho de ripas trancado por uma tramela.

- oi Gilson, meu filho, você voltou? Falou dona Raimunda com sua voz cansada.

- dona Raimunda, não vou poder mesmo. Mas meu amigo José quer vender os pirulitos pra senhora, lá na pracinha onde tem um circo de bonecos.

- ah, meu filho. Graças a Deus, um anjinho apareceu...Entrem meus filhos. Aqui está José, o tabuleiro. Esse aqui tem vinte pirulitos. Se você vender tudo lhe dou um cruzeiro, tudo bem?

- sim, senhora!

Saíram os três garotos da casa de dona Raimunda. José era o mais entusiasmado. Levava o tabuleiro com certo orgulho estampado no rosto. Encarava como uma tarefa de responsabilidade e oportunidade de conseguir o que mais queria naquele dia – entrar no circo de bonecos à tarde.

Chegando próximo de sua casa, José pediu a Chiquinho que reparasse o tabuleiro enquanto ia ver como estavam as coisas lá dentro. Lá na cozinha, estavam sua mãe a pequena Jaqueline e mais uma vizinha que ajudava na preparação do bolo. Entrou, foi até o pote, e tirou um copo com água e bebeu. Como se não tivessem notado sua presença e não terem falado nada a ele, saiu devagarzinho e foi até a porta da frente. Lá fora estavam Gilson e Chiquinho que segurava o tabuleiro de pirulitos.

- olha, é melhor a gente ir agora. Podemos vender os pirulitos e ver o circo, depois retornamos para o aniversário. Ainda é cedo, dá tempo. Que você acha, Chiquinho?

- então vamos logo.

- eu já vou indo, antes que minha mãe me pegue na rua – falou Gilson.

- está bem, Gilson. Valeu.

Saiu José e Chiquinho pela rua abaixo rumo a pracinha do bairro, na esperança que fossem assistir o tão almejado circo de bonecos. Chegando na pracinha, a aglomeração de garotos estava bem maior que antes, pela manhã. Ficaram andando por ali por duas horas e depois desse tempo, estavam com somente sete pirulitos sobrando no tabuleiro. Já haviam faturado dois cruzeiros e sessenta centavos.

Já eram quase seis horas da tarde quando o teatro foi aberto para a criançada. Houve logo de início um tumulto na entrada, devido todos quererem entrar ao mesmo tempo.

- vamos! Vamos! – gritou José para Chiquinho – vamos logo senão não pegamos lugar lá dentro!

- mas como vamos entrar? Cadê o dinheiro?

- está aqui.

- o dinheiro dos pirulitos?

- é, a dona Raimunda não vai me pagar um cruzeiro pela venda?

- sim, mas se vendermos tudo, e ainda faltam sete!

- vendemos depois que terminar o circo.

- mesmo assim, são dois cruzeiros, eu e você.

- eu pego mais um com a vovó, eu peço a ela, ela vai me dar.

- você que sabe, Zé.

Então os dois garotos entraram no meio do tumulto. Os garotos gritavam e empurravam. José e Chiquinho no meio daquele tumulto, tentavam não se perderem um do outro e procuravam ter todo o cuidado com o tabuleiro dos pirulitos.

- calma! Calma! Há lugares para todos! Vamos com calma criançada – gritava o homem do circo, com medo das crianças derrubarem a barraca do pequeno teatro de marionetes.

- cuidado Zé! Os pirulitos! – gritou Chiquinho apavorado quando viu José se abaixar para pegar a sandália que quebrara devido aos pisões dos outros garotos. Quando ele baixou, junto com ele foi o tabuleiro com os pirulitos, e os garotos tendo ao alcance, começaram a retirar os pirulitos do tabuleiro. Chiquinho vendo isso partiu para cima dos meninos, empurrando e batendo neles.

- sai daqui, seu filho da mãe! Sai!

José vendo seu irmão já se atracando com um “bolo” de meninos, partiu para cima deles também, enquanto outros garotos o empurrava de um lado para o outro.

- hei, vocês! Parem com essa bagunça! Calma aí! Eu vou pegar vocês, seus bagunceiros! – berrava o homem do teatro, já com ar de desespero.

O tumulto na entrada do pequeno circo foi geral. Os garotos menores se machucavam no meio da bagunça e choravam desesperados para saírem do meio daquele “monte” de meninos descontrolados.

No meio da confusão, o tabuleiro com os resto dos pirulitos caiu das mãos de José, se espalhando pelo chão, no meio do emaranhado de pés da garotada descontrolada. Daí a coisa realmente piorou. Com toda aquela algazarra, a meninada agora se atirava no meio daquele “mar” de pernas e tentavam juntar os pirulitos caídos. No meio da confusão alguns garotos caindo, seguravam se nas pequenas colunas de madeira que sustentavam a lona do circo, fazendo com que desmontasse a parte da frente, caindo ao chão a tábua que anunciava o circo. José e Chiquinho se desesperaram. Partiram para o braço com toda força rumo aos garotos. José recuperou o tabuleiro já sem nenhum pirulito e o atirou na cabeça de um dos garotos que o empurrava. O tabuleiro partiu-se em pedaços e o garoto acertado começo a gritar, chorando com as mãos na cabeça. José vendo a guerra perdida gritou no meio da turba de garotos:

- corre Chiquinho, corre!

- corre também tu, Zé.

E saíram entre os chutes e os tapas, do meio daquele aglomerado de garotos que os perseguiam até se afastarem da pracinha. Com as camisas rasgadas e sem as sandálias, correram até a rua onde moravam, depois de dar voltas por outra rua para despistar seus perseguidores.

- e agora, Zé? O que vamos dizer pra dona Raimunda? E pra mamães?

- caramba, Chiquinho. Se soubesse que ia acontecer isso, nem teria ido para aquele circo.

- o pior é que a gente voltou sem o dinheiro, sem o tabuleiro e sem os pirulitos...coitada da dona Raimunda.

- coitado de nós, isso sim. Hoje não tem jeito, Chiquinho. Vamos pegar um surra da mamãe e nem adianta se esconder igual à outra vez, quando gazeteamos a aula e fomos empurrar aquele caminhão atolado na lama e chegamos como porcos com a roupa toda enlameada.

- estamos fritos, Chiquinho. Como vamos sair dessa?

- sei lá. Por onde começamos? Com a mamãe ou com dona Raimunda?

- ai, meu Deus...Já me dá vontade de chorar antes mesmo de apanhar.

- que tal falar pra dona Raimunda que houve uma briga na pracinha e o pessoal veio pra cima da gente e derrubou o tabuleiro com pirulito e tudo, e os meninos pegaram tudo?

- não estaremos falando muita mentira...Foi quase isso que aconteceu, com a diferença que nós fomos querer entrar no circo com o dinheiro dos pirulitos.

- eu queria sumir agora.

- ou me transformar num bichinho bem pequenininho para ninguém poder me encontrar.

Não teve jeito mesmo, naquele finzinho de tarde os meninos da rua da ladeira, na parte de cima, pegaram uma surra de sua mãe que teve que reembolsar o prejuízo de dona Raimunda. Ficaram uma semana de castigo sem sair de casa, a não ser pra escola. O pequeno teatro de marionetes foi embora uma semana depois e os meninos não assistiram a nenhuma apresentação. Mas o advento daquele pequeno circo na pequena cidade, atiçou a imaginação das crianças que dias depois do fim do castigo, com algumas espigas de milho e retalhos de tecido, improvisaram certa vez, um pequeno teatro de marionetes, e cobrando como ingresso na entrada, notinhas de carteira de cigarros e tampinhas de garrafas de refrigerantes, atraíram muitos meninos da sua rua e vizinhança que foram ver a apresentação das marionetes de Chiquinho e José, que esquecendo aquele dia fatídico da confusão na pracinha, entravam num mundo de fantasias e faziam felizes por alguns momentos, algumas criancinhas humildes daquela pequena cidade litorânea do nordeste do Brasil.

 

 Roger Silva

 

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