PROFUNDO ABISMO DA ALMA
Contemplava eu uma noite muito escura e estrelada. Os astros do céu apareciam em uma explosão de pontos cintilantes por toda a abóbada celeste, que se perdiam na quantidade infinita na qual meus olhos não podiam juntar em um único relance, uma poção finita deste delírio da mágica criação de matéria e luz. Foi quando perdi a referencia do espaço no qual estava. Tudo o que era sólido e próximo à minha volta se dissolveu em uma bruma rarefeita que dissipou-se entre as frestas raras dos astros cósmicos. Vi-me envolto em chispas infinitas que bailavam ao meu redor e ao longe por trilhas que divergiam em direções remotas e inimagináveis. Sentia o infinito, não no exterior, mas sim, dentro de mim. Então meu "eu" mergulhou dentro do meu próprio ego, e me vi sozinho, acompanhado apenas por uma solidão atroz. O infinito interior me era mais medonho que o exterior, o infinito cósmico. Então eu perdi a noção das proporções físicas terrenas, e me senti a parte ínfima de um colossal organismo que vivia em uma outra dimensão superior. Senti-me pequeno; desprezível; insignificante.
De uma escuridão sufocante, ao infinito, relances repentinos e raros de uma luz de matiz desconhecido, comecei a observar. Era essa uma nova referencia que eu tinha. Não havia nada, além disso, a não ser unicamente a idéia de existir. Uma idéia própria que dizia “eu existo, pois tenho noção disso. Eu ainda penso”, embora não tivesse mais nada de físico em mim. Os relâmpagos vertiginosos aumentavam a cada espaço de tempo. Não o tempo como outrora tinha como certo, inexorável, mas era um tempo entre um pensar e outro, e não mais um tempo entre um pular de ponteiro ou mudar de dígito. Não era mais um tempo de tardar, mas sim, de acontecer, de se mostrar. E essas luzes chamejantes foram cada vez mais ficando freqüentes, e tendiam a circundar o espaço distante de mim até elas. Todavia não era mais o espaço como antes conhecia. Não mais era aquele espaço de ocupar. Não era mais aquele espaço de caber, finito, mensurável. Eu não mais existia como físico, então não havia referencia entre mim e qualquer coisa. Eu apenas existia. Apenas existia a consciência de existir. A distancia entre minha essência e as luzes era uma distancia de alcance espiritual. Era algo transcendental à própria lógica mundana. A distancia que diminuía, era a distancia do alcance entre minha consciência e a consciência do verbo; da palavra original que é a razão do próprio existir como ser.
Eis que em um momento do existir consciente, as luzes eram em mim, como eu próprio me era em tudo. Não era a "luz", a energia; a onda eletromagnética que se origina da matéria e atravessa o vácuo ou é refletida nos sólidos. Não! A luz que se percebe a essência era uma luz que iluminava a palavra; a luz que ressaltava, que apurava ao próprio ego, que clareava as idéias do espírito. E as luzes não eram somente claridade de espírito – elas próprias eram espíritos. Superiores espíritos de consciências sublimes e incorruptíveis. Chegaram até mim, ou seja, sondaram minha existência e se aproximaram pela ação da junção do verbo existencial – aproximaram-se, juntaram-se em uma oratória de pensamentos das consciências, da qual repartiu um diálogo insólito, jamais por mim experimentado, jamais por mim imaginado. Então, um espírito – direi assim – falou-me:
- entre nós é ainda desconhecida tua façanha.
- eu sou o medo em espírito – disse eu, e continuei - sem o anteparo físico sinto-me perdido.
- pulaste dentro do teu próprio abismo, e vês que é profundo o teu próprio ego.
- tão profundo que não me encontro em nada. Nada me é familiar. nada de mim existe no meu próprio interior.
- não te admiras nisso. Teu interior é vazio, como vazio foi teu exterior quando nasceste.
- então, creio que tenho que ter um novo nascimento aqui dentro.
- assim há de ser quando for necessário.
- tenho uma grande dúvida que me sobrepuja a própria idéia da existência.
- diz-me qual é, todavia.
- se tenho a consciência da existência e posso interagir contigo e tu me interpelas, é porque temos os dois, consciências. Mas não sinto mais do que um vazio a sondar outros pensamentos próximos para que possa com eles me interar. Qual a razão desse abismo? Qual a razão da consciência existencial, embora interagivel, em um vazio de ação, se é que realmente não se pode agir, ou com quê se age e para quê ou com quem se age em um nada absoluto a não ser de idéias.
- tu assim dizes porque vazio é ainda o que tens, e não porque realmente é vazio onde sondas. O meu universo está repleto, pleno, a transbordar pelas ilhargas do meu ego. Mas este universo é meu; ele não o atinge porque é um universo interior, dentro do meu próprio ser. Ele me é ilimitado, todavia não o toca. Ele é infinito dentro de si mesmo.
- como fizeste para preencher esse universo infinito a transbordar? Como poderei preencher o meu universo vazio se dentro dele não há nada além do abismo que o engole a si próprio?
- no inicio de tudo, quando o mundo físico não existia, o universo era esse mesmo abismo infinito. A energia contida em um único ser que era o próprio vazio dentro de si, deu origem a toda sorte de matéria e energia, preenchendo todos os recônditos no universo.
- e era somente um vazio? Como pode o vazio preencher a si próprio com nada?
- um rio!
- um rio?
- no plano físico conheceste aos rios. Os rios não se formam por si mesmo. Mas há uma vertente inicial, um veio inicial que é preenchido em seu curso por inúmeros outros até que se forme um imenso rio que segue rumo ao mar, a um lago ou a outro grande rio. Assim é preenchido o universo. Cada universo assim é preenchido.
- que vertente é essa? Quem é essa vertente que preenche a todos os universos vazios até derramar pelas quedas do abismo a preencher outro?
- ora, como tu sendo do mundo físico ainda não paraste para pensar?
- podes tu, portanto me ajudar a entender.
- quem encerrou em seus punhos os quatro ventos da terra? Quem arrastou em seu vestido as águas dos oceanos, e prendeu em seu olhar todos os astros do firmamento? Quem em uma carruagem celeste transportou o luminar diurno no alvorecer do oriente e o escondeu sob o ocaso do ocidente?
- ora, são perguntas que me são enigmáticas. Não posso respondê-las. Sou muito limitado no entendimento das coisas da origem do mundo.
- o mundo não é tudo. Você não precisa entender o mundo; não é necessário que você venha a entender aos outros. O mundo é você mesmo. Entenda a você e entenderás o resto do mundo.
Então, vo-lo dizer mais uma vez para que tua dúvida seja a resposta à tua própria escassez:
Quem em seus devaneios de criação projetou sua sombra sobre o abismo vazio e infinito, e o preencheu com toda sorte de fantásticas formas de matéria e energia, como se quisesse contar através de extraordinária alegoria, um poema heróico da suprema criação?
As presenças espirituais como por uma metamorfose descabida, saltaram do representativo abstrato verbal para o físico concreto, limitado e coercível – cintilaram em suas próprias idéias e tomaram o espaço ocupando suas vagas na abóbada pontilhada, flamejante de astros.
Levantei-me dentro do meu próprio corpo e o solo reapareceu sob meus pés; o horizonte se estendeu pelo círculo longitudinal à minha volta. Novamente retomei minha orientação física, me encontrando na terra. Já quanto a meu reencontro espiritual, esse ainda não aconteceu. Deverá ser muito difícil encontrá-lo dentro de um abismo vazio sem antes encontrar aquela vertente que preencheu o grande rio do universo no qual vivo dentro, preso.
Roger Silva
26 de Outubro de 2004 22Hs 05Min.