Entrevista 1

1- você foi eleito como o melhor performance ao vivo, e você recentemente lançou um álbum ao vivo.

Manson: melhor performance ao vivo? Bem, eu agradeço. Fico feliz que as pessoas reconheçam todo o trabalho duro com que fazemos nossos shows. Quanto ao album, nunca fui muito fã de albuns ao vivo, me senti estranho fazendo um, mas quando ouvi a gravação, fiquei surpreso como eu gostei mais das músicas ao vivo do que no album gravado em estúdio. Acho que funcionou, por que a performance ganha vida sozinha, e claro, tem os discursos turbulentos, eu gosto de interferir aqui e ali.

2- e você é também o pior ator de acordo com a revista "poll".

Manson: eu não sei de onde eles tiraram isso, não sei se foi minha participação em "anjos da lei" quando eu tinha 18 anos, meus 30 segundos em "jawbreaker", ou meus 30 segundos em "a estrada perdida", mas eu realmente não tenho muito tempo para "manchar" minha carreira de ator. A menos que eles estejam se referindo a eu fingir ser um ser humano, nesse caso eu falhei como ator.

3- você também está planejando um novo filme.

Manson: eu tenho me encontrado com diretores. Eu acabei de conhecer Alejandro Jodorowsky, ele é um dos meus ídolos, um dos melhores diretores de todos os tempos.

4- é esse seu próximo projeto?

Manson: não, o próximo é o novo album. In the valley of the shadow of death (no vale da sombra da morte), que completará a trilogia que começou com Antichrist superstar. Mais uma vez é bem diferente das outras coisas. É a mais obscura e violenta música que nós jamais fizemos, provavelmente por causa de todo o abuso da mídia que eu suportei ano passado, eu pensei que se eles tivessem que reclamar de algo que fosse por um motivo real. Esse album vai faze-los querer que eu nunca tivesse nascido.

Marilyn Manson


Entrevista2 "Folha de N.Y."

Folha - como eu devo chama-lo: Brian Warner, seu nome de batismo, ou Marilyn Manson? Brian Warner ainda existe?

Manson - as únicas pessoas que me chamam de Brian Warner são aquelas que me fazem desligar o telefone na hora. Até minha mãe me chama de Manson. Mas eu não me importo. Você escolhe.

 

Folha - seu último álbum "antichrist superstar" (1996), foi lançado no Brasil há apenas alguns meses. Como você descreveria esse disco para os brasileiros que não conhecem seu trabalho muito bem e deparam com o CD nas lojas?

Manson - é um disco que fala sobre Ter uma transformação na vida. Em lidar com coisas que ninguém nunca iria acreditar. Em se jogar de cabeça no inferno para moldar o indivíduo. De um certo modo, é a história da minha vida.

 

Folha - como você se definiria?

Manson - eu me considero um artista, porque eu tento usar minha mente para me expressar, por meio de minha música, de minha representação no palco, tirando fotos ou atuando em clipes...

 

Folha - o que você pensa sobre a discussão de que o rock está morrendo e o futuro - ou já o presente da música - é o tecno?

Manson - as pessoas costumavam dizer a mesma coisa em 1989, quando o rock industrial foi criado. Mas eu admiro aqueles que incorporam em sua música os melhores elementos da eletrônica, como o drum e bass, os teclados. E também tiram elementos dos 80, de Bowie, que tirou de Brian Eno. Não sou muito fã, mas acho que sempre haverá toques da eletrônica em tudo daqui pra frente.

 

Folha - sua banda pertence a uma chamada cena metal de fim de século, que inclui bandas como Nine Inch Nails, Tool. Você se sente bem na companhia desses nomes?

Manson - acho que minha banda tem, digamos, o mesmo espírito agressivo desses grupos. Mas, particularmente, com nosso último disco acho que provamos para as pessoas que não estamos criando apenas música pesada e sim colocando nela sentimento, nossos medos, algo mais profundo, que fazem as pessoas pensarem.

 

Folha - quais as bandas que mais influenciaram o Marilyn Manson?

Manson - nesses anos todos, Bauhaus, Stooges, David Bowie, Alice Cooper, Black Sabbath. Em tempos mais recentes, Jane's addiction, Nirvana, Radiohead.

 

Folha - dos grupos que são populares hoje, quais você gosta?

Manson - gosto muito do Radiohead. E, de um modo estranho eu admiro o Oasis. Eles tem atitude. Sabem o que fazem, sabem quem são. É uma banda que não tenta ser outra coisa a não ser ela mesma. Tenho respeito por eles.

 

Folha - de onde veio a inspiração para o modo que você se veste?

Manson - provavelmente de filmes a que assisti, de livros que li. Eu sempre fui fã de Stanley Kubrick, Terry Gilliam, de filmes de David Lynch, de "laranja mecânica". Minha inspiração veio disso tudo. Sempre me senti um personagem de cada uma dessas obras, desses diretores...

 

Folha - como foi atuar no filme "a estrada perdida" de David Lynch? Você gostou do filme?

Manson - na verdade eu gostaria de Ter uma participação maior no filme, mas a agenda da minha banda não permite. E eu só fui capaz de fazer um papel muito pequeno. Acho o filme muito bom...

 

Folha - de volta ao rock. Com "antichrist superstar" e suas polêmicas recentes turnês, você se tornou uma figura notória. E com a notoriedade vieram rumores sobre coisas que você teria feito. Como você lida com esses rumores?

Manson - eu acho que realmente não importa o que é verdade ou não nesses monte de coisas que as pessoas falam de mim. Se muita gente acredita, os rumores se tornam verdade de qualquer jeito. As pessoas são curiosas sobre como é o nosso show e ouvem muitas histórias a respeito. Acho que elas deveriam ver por elas mesmas.

 

Folha - é verdade que sua mais bizarra experiência com drogas foi triturar ossos humanos que você pegava de um velho cemitério, botar um pó em um cachimbo e fumar?

Manson - aconteceu. Foi bem estranho. E numa noite que experimentamos outra drogas.

 

Folha - você mostra uma certa androginia no palco, fotos e clipes. Há uma opção sexual definida?

Manson - eu sempre procurei experimentar diferentes tipos de coisas, mas eu acho que predominantemente eu gosto de mulheres.

 

Folha - você não é o primeiro a trazer nas letras referências ao céu e ao inferno. Por que você acha que sua música e seu estilo aborrecem tanta gente nos EUA?

Manson - porque nossa música tem o poder de causar essas polêmicas. Qualquer um pode surgir e dizer o que quiser sobre minha música, mas se ninguém tiver argumentos suficientes para ir contra, as pessoas não vão dar bola.

 

Folha - a sua vinda ao Brasil vai ser relâmpago. Pelo divulgado você chega em SP no Domingo à noite, faz a checagem de som na Segunda à tarde, toca em show único à noite e parte na manhã seguinte. Sua banda vem para estes lados para cumprir algum tipo de obrigação? Como o Brasil foi incluído na turnê do Marilyn Manson?

Manson - o que eu posso responder é que não sou eu quem cuida dessas coisas. Eu decido sobre os lugares que vamos tocar, mas quanto ao esquema de horários... eu procuro me concentrar mais na minha performance e fazer o que eu sei fazer. É o que posso dizer.

 

Folha - pode-se anunciar por aqui a chegada do anticristo ou isso é papo para vender discos?

Manson - fale para as pessoas irem ao show. A resposta estará lá


Entrevista 3
 

(...) Com o auxílio dos produtos químicos de um cabeleireiro e com seu novo estilo musical pop-glam, Marilyn Manson evoluiu do personagem de seu penúltimo disco Anti-Christ Superstar para uma criatura mais glamurosa. Um dândi. Parece que isto tinha mesmo que acontecer. O personagem que ele encarnava em Anti-Christ era muito Fausto pra viver e muito Wilde pra morrer. Manson é um grande fã de Oscar Wilde, com o qual ele diz se identificar, principalmente no que se refere à perseguição. Manson tem uma mente ágil e esperta, e manteve sua transformação documentada. Fica bem claro em seu livro autobiográfico que era apenas uma questão de tempo até ele se limpar, visualmente falando. Uma revisa chegou até a publicar que ele se recusaria a vestir roupas pretas novamente (veremos...). Atualmente ele está morando com a atriz Rose MacGowan, conhecida por sua atuação em "Geração Maldita", do diretor gay Greg Araki, e filha do pernicioso culto das Crianças Cristãs de Deus, que enviava suas discípulas à prostituição, para obter delas a conversão sincera. É claro que ela nem chegou a freqüentar tal seita.

Fazia muito tempo que os americanos não viam tanta androginia em um homem só. Mas não se engane! Manson não é gay, ou "um bissexual que nunca teve uma experiência homossexual", como declarou o vocalista do Oasis sobre si próprio. Mas dizer que ele é "careta" também é ridículo. Manson chupou o pau dos caras da banda, conforme ele relata em seu livro, e já esteve em situações onde o contato com homens e mulheres foi muito além de sexual. O lance é que ao invés de guardar suas experiências para si, Manson está compartilhando-as. É por isso que os boatos devem acabar. (...)

Que tipos de protestos sua turnê está enfrentando desta vez? Algum tipo de censura pra impedir menores, ou...?

Desta vez quem está no nosso pé são os anti-gays, mas estou fazendo o melhor que posso pra chupar o pau de todos eles.

Qual está sendo a reação do público ao seu novo álbum?

Coceiras. Convulsões. Cuspidas. Mãos dadas.

Você é um fã de Oscar Wilde. Algum conceito favorito?

A idéia de se fazer arte pela arte.

O que é luxúria pra você?

Ter alguém pra bater a sua cocaína.

Qual seu estilo favorito, e por quê?

As pessoas te tratam melhor quando você tem seios.

O que é glamour pra você?

Ter todos os dentes.

Você parece ficar cada vez mais feminino à medida que a sua carreira progride...

Mais andrógino. E ao mesmo tempo menos sexual - pois eu estou mostrando todos os detalhes. Feminino e vulnerável, eu acho.

No seu livro você botou uma lista de evidências pra se dizer que o cara é gay. Tipo "não ficar excitado ao assistir A Feiticeira", "ter cortado o cabelo alguma vez na vida como o Morrissey", "ter tido contato com o esperma de outra pessoa", "ter trepado com uma garota fã dos Smiths"...

Eu estava zoando. As pessoas são tão conservadoras a este respeito. Eu queria tornar o assunto menos tabu. Na verdade, a gente quebra todas essas "regras". Um monte de gente tem medo de falar sobre homossexualismo, e tem sempre tanta fofoca a meu respeito, e a respeito da minha sexualidade...

Deixando de lado suas preferências, você foi atacado por homofóbicos desde o início. Isto te afetou?

Me sinto mais agredido pelo techno tocado nas boates gays...

Por que você acha que as pessoas se atacam tanto por suas preferências sexuais hoje em dia? Gays atacam bissexuais, pervertidos atacam fetichistas curiosos, caretas atacam todo mundo...

Jesus foi o primeiro modelo gay, o primeiro astro. Eu só gostaria de ser tão sexy quanto ele.

Agir como você não é bom pro cristianismo? Você não está colaborando pra manter a religião nas manchetes?

Infelizmente, acho que eu devo ter contribuído pra difusão do cristianismo. Essa é a ironia do Anti-Christ Superstar. Mas também mostrei que o reino do rock e o culto à personalidade são tão ridículos quanto o cristianismo. Sabe, quando eu estou no palco tirando com a cara de políticos e líderes religiosos com a minha sátira ao fascismo, eu também estou tirando uma com o rock. E as pessoas que estão lá acabam percebendo a beleza desde paradoxo. É o que eu mais gosto.

Você não se preocupa com as ameaças de morte que recebe?

Acho que as pessoas à minha volta se levam mais a sério do que eu as levo. Compreendo o perigo. Cada show fica mais divertido... como se cada um fosse o último! Aquilo que aconteceu com Larry Flynt, eu achei que foi fanatismo. Sempre há um risco, mas acho que é isso que faz valer a pena. Pelo menos estou dizendo algo que as pessoas se importam em parar pra ouvir. Se algumas pessoas odeiam, então deve ter o seu valor.

Prazeres do cristianismo?

É como comprar um falso sentimento de segurança num domingo à tarde. Cristo acaba sendo uma apólice de seguro para o desconhecido. A justificativa das pessoas procurarem por Deus é que elas têm medo de morrer e não sabem o que vai acontecer depois. Eu acho que a humanidade em geral deseja ser boa. Mas acho que o pecado faz parte da natureza humana. Tudo o que se chama de "pecado" vem naturalmente das pessoas.

Seu trabalho lida com temas e questões amplas...

Algumas pessoas curtem como entretenimento, e outras olham com mais profundidade. Eu tenho necessidade de explorar estas questões para o meu próprio prazer, ou sofrimento, acho, até algum nível. Mas eu tento bolar coisas com as quais as pessoas possam lidar a diferentes níveis de profundidade. Alguns podem pisar. Outros podem cortar seus cabelos, ou começar novas religiões.

O velho truque de chocar as pessoas?

Eles transformam numa coisa depreciativa quando dizem que a gente quer "chocar". Como se fosse uma coisinha barata. Eu tento ser provocativo. Tento criar imagens e fazer as pessoas pensarem. E algumas pessoas vêm com essa de "chocar". O logotipo do Anti-Christ Superstar, por exemplo. Um raio. É o símbolo universal para o perigo de choque. O que realmente me choca é a estupidez das pessoas. Acho que um monte de gente tem medo de acreditar nelas próprias, porque crescem ouvindo dizer que se você não tem o carro certo, se não usa a pasta de dentes certa você não vai ser aceito. Você já sofreu uma lavagem cerebral desde pequeno, por causa dos comerciais e da TV. É muito difícil pra alguém assumir o controle e dizer "Eu vou tomar minhas próprias decisões" com Beavis & Butthead e a MTV dizendo que tipo de música você deve gostar. Você não pode mais nem assistir TV e tomar suas próprias decisões. Daqui a pouco vão fazer um computador que vai compor músicas pra você, e tudo mais... É pra onde o mundo está caminhando - a neutralização da alma. Um monte de corpos sem alma dentro. A única coisa que a tecnologia não consegue criar é a alma. Foi daí que veio o Mechanical Animals.

Este álbum não vai escandalizar menos o público? Os cristãos irão odiá-lo tanto quanto o anterior?

Acho que eles vão cair de pau em cima do que consideram como um incentivo ao uso de drogas, ou então porque promove a androginia. Mas eles sempre procuram por algo. Se eu estivesse apenas sorrindo, eles iam ficar pensando: "Mas por que esse cara tá sorrindo?!" Porque agora, tudo o que eu fizer será tomado no contexto do que eu fiz no passado, o que se torna mais desafiador pra mim. O último álbum, Anti-Christ Superstar, fazia tipo um paralelo com a história de Lúcifer, a queda das graças, do paraíso, e é a história do que acontece quando ele chega. Sobre como é tornar-se humano e sentir aquelas coisas pela primeira vez.

Você sonha com o Anti-Cristo?

Eu nunca conseguia ver seu rosto quando eu era criança, e aquilo me assustava, mas à medida que eu fui me tornando mais velho, eu vi que era eu, e aquilo não me assustava mais. Eu me vejo nos meus sonhos. Uma porção de vezes eu estou fora de mim mesmo, o que é bem legal. Não importa quão assustador seja, você sempre vai acordar no final.

Nos EUA e boa parte do ocidente o ideal do núcleo familiar parece estar acabando. Na sua opinião, o que serial ideal?

As pessoas deveriam fazer um teste antes de se reproduzir, tipo um exame de motorista. E deveria ser aplicada pena de morte aos que falhassem no exame de QI.

(...) Manson não acredita no abracadabra religioso mais do que ele acredita naquelas estátuas da Virgem Maria que choram, mas ele compreende a necessidade que as pessoas têm de acreditar em alguma coisa, e na necessidade delas de convencer os outros a acreditarem também. Agora ele está deixando de lado aquela roupagem do último personagem pra usar uma outra mais eloqüente. Não importa o quanto os cristãos reclamem. Manson não está aqui para roubar suas almas. Mas para lembrá-lo de que sua alma pertence a voce.
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