
Parte cinco
O PORÃO
Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre, nesta rede, Dentro do ângulo diedro da parede, A alma do homem polígamo e lascivo?! Este lugar, moços do mundo, vêde: É o grande bebedouro colectivo, Onde os bandalhos, como um gado vivo, Todas as noites, vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo, A antecâmara lúbrica do abismo, Em que é mister que o gênero humano entre, Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre!
(Augusto dos Anjos, in O Lupanar)
Eu passava os dias na biblioteca pública, lendo livros fantásticos ou de terror, como as obras completas de H. G. Wells, entre outros: Clive Barker e Peter Straub, Clive Barker, Richard Mathenson, Patricia Highsmith, F. Paul Wilson, William Peter Blatty, Colin Wilson, David Seltzer... Quer prazer! (Escrever e ler sobre o Terror é como ancender uma vela no vasto lado escuro da mente humana. É necessário. É necessário 'saber'. A inocência, a 'ignorância é fraqueza', escreveu George Orwell em 1984. Os índios pré-colombianos que o digam. Os sobreviventes de Auschiwitz que o digam). Ou então eu lia em casa; sou filha única e vivia somente com meus pais na casa-caveira, no subúrbio da cidadela (um lugar que eles chamavam de 'O Cerâmico'. Uma antiga e imponente construção vitoriana, toda podre e cheia de mistérios rangentes. Aquele maldito casarão acompanhava minha literária família a pelo menos seis gerações e sua biblioteca estava atulhada de velhos livros. Eu gostava especialmente dos livros de meu renegado tataravô Hilton Straub Oldbooks. Ficavam trancados numa velha cômoda, junto com os livros sobre sexo, mas desde os 11 anos eu sabia onde ficava a chave (no Salão das Armas, dentro da boca de uma das extintas bestas africanas caçadas e empalhadas por meu bisavô Alichino Aesilé, com seu exótico nome que lembra os demônios da Divina Comédia de Dante e as Hyades da mitologia grega). Um destes livros falava do parducho, uma das minhas criaturas preferidas. O Parducho, descreve H. P. Lovecraft, é uma espécie de ratazana humana com rosto de homem barbado, que mora nos ângulos de certas mansardas e, de noite, escava o peito de quem estiver dormindo, para comer o coração. Na Noite do Porão - quando as coisas realmente começaram a acontecer - eu não pensava no pobre Parducho. Como uma donzela do século XIX, eu lia na cama do meu quarto, inocentemente. 'Candidamente', diria Lester. Na cômoda, um luncheon (que palavra tão encantadoramente dedaliana!) de Boston Baker Beans, feijão cozido no forno à moda de Boston, bolinhos de canela e leite maltado. Acariciando meus pés, o peludo Walther Cockroach. Meu quarto era bem espaçoso. Pertencera a uma antepassada ilustre, Pollabella Passarada, poetiza intimista citada no Finnegan's Wake de James Joyce. Eu gostava de imaginar os sonhos de Pollabella, uma imaginativa donzela do século XIX. Afinal, os sonhos aconteceram dentro do mesmo quarto e os mais vetustos da família dizem que eu me pareço com ela. Pollabella casou-se aos 14 anos com Tuborg Genius, um rico comerciante de peles, poeta do spleen e semi- gay. O que ele fez com ela, numa noite de tempestade-alcáli, foi sem dúvida nauseante. Mas não cabe nesta narrativa. Num dos cantos, um quadro com uma reprodução de 'Le Cauchemar', de Fusseli. Às vezes, penso que aquele quadro maligno teve algo a ver com os acontecimentos subsequentes. E, ah, Walther não é um amante fogoso; é apenas meu gato. Um gato gordo, enorme... 'Que gato grande!' - exclamou uma vez o pequeno Isaac ´Mumps´ Leibniz (uma mistura de Tom Sawyer e Huckleberry Finn), um dos garotinhos de quem eu cuidava na época de babysitter. - 'O que ele come?'. 'Ele come outros gatos' - respondi-lhe, repetindo a frase de Nora Dinsmoor em Grandes Esperanças, de Charles Dickens. Bons tempos, quando eu aterrorizava Isaac e as pequenas belezinhas Heléné-John Bowers e Jassica Iparaguirre com histórias de Edgar Allan Poe. Bons tempos quando minha vida ainda não tinha se tornado um enredo de Dean Koontz!
Bem, o livro que eu estava lendo? Era 'Jerusalem´s Lot', daquele sujeito hirsuto lá de Bangor, no Maine Ocidental. Sou fanática por ele e não admira que fragmentos de seus escritos nefastos misturavam-se aos meus sonhos: uma espécie de plágio onírico. "Sonhos, Keira, my little bitch, são a versão mental dos livros condensados pelas Seleções do Reader´s Digest" Meus pais não aprovavam seus romances, 'estórias cheias de monstros de faz-de-conta e uma montoeira de palavras indecentes', dizia Kate, minha mãe. Barry, meu pai, dizia que os escritores bebem como gambás e só se interessam em perverter mocinhas (não sei até que ponto me perverteram, mas certamente me influenciaram; perdoem, assim, uma certa pieguice antiquada no meu estilo). Os Antigos diriam que leituras tão horríveis e fantásticas não são saudáveis para antes de dormir. Para dizer o mínimo, não inspiram bons sonhos. Talvez estejam mesmo certos. Quem sabe? Mas eu não me considero especiamente susceptível ou assutadiça. Longe disto. Tanto que logo adormeci e, se acordei, embora abruptamente, com certeza não foram por causa dos sonhos. Senti a casa tremer nos ossos. No porão, a porta de madeira rangeu, solta como um dente velho numa gengiva podre. Um dos meus filmes preferidos é Alien3, de David Linch, com sua atmosfera sombria, desesperante. Aqueles tons pesados de sépia, um mundo todo cinzento. Há uma cena em que a protagonista Ripley (uma versão Sci-Fi de Joana Darc, tanto quanto a Trinity de Matrix, se querem saber minha opinião) diz sobre o alienígena (comparado, por sua vez, ao Dragão do Apocalipse´): 'Ela está no porão'. Mas o filme passa-se todo numa velha penitenciária, e, assim, todo o local é mesmo um maldito e imundo porão. É uma metáfora, sua estúpida! O porão é o nosso fogo frio nosso subconsciente (uma pitadinha de Freud, para deixare algumas pessoas felizes; mas os Antigos já sabiam que pode haver uma água muito envenenada - ou muito podre - no fundo dos poços de cada um de nós). Porão das Raízes. Assim, minha avó materna HollyKoimbra Yastrisemmisky, uma curandeira velhaca, chamava a antiga adega de meu avõ Jules 'Pink Floyd' LaVerne, um famoso historiador em sua época. Mas os preciosos bourbons e cervejas Pabst a muito haviam explodido ou simplesmente desaparecido, e nos velhos alvéolos só restavam sedosas teias de aranhas e ninhos de outros bichos imundos (assim eu os considerava na época... risos). O porão cheirava a estuque úmido e papel de parede apodrecido. Provavelmente camundongos andavam dentro. E havia outras coisas vivas no porão, de onde vinha um cheiro amarelo e ruidos semelhantes a risadas numa boca sem dentes e nem gengivas. e úmido. Havia muitas armas antiquadas e outras coisas que meu tio Algemon Blackwood trouxera do exército. Um triste arremedo de Albert Qace, o Caudilho Demoníaco de Fagnes. Por toda parte, havia montes de tranqueiras da loja 'Junkie-A-Toryum' do meu tio Ozzy. Enormes caixa de farinha de aveia Quaker embolorada. Antigos barris de tripas de porco ainda fedendo. Antigas gravuras e caricaturas de Graham Wilson, em molduras esdrúxulas. Velha cômoda estilo Hepplewhite. Uma inevitável tábua Ouija. Um prendedor de gravatas VFW, dos Veteranos da Guerra-Assédio no Exterior. Também havia pilhas de revistas The Saturday Evening Post dos anos 30, com suas gravuras de Norman Rockwell e Keirinha, alguém está enterrado no Porão. Juro que o pensamento simplesmente me ocorrera em itálico, seguido por exclamações, parecidas com as usadas em Histórias em Quadrinhos. enormes livros velhos e mofados. Provavelmente havia entre eles alfarrábios preciosos, relíquias de sebos. Dondi, o Menino Enjeitado (uma história absolutamente arrepiante!). Bobby, o Motorista Cibernético. A Aldeia Sagrada, e outros livros da coleção Taquara Poca, do Frisco Marins, entre exemplares do "Livro de São Cipriano", ou da "Capa Preta". Um livro de Maurice Sendak chamado "Onde Estão as Feras?" Livros de fotografias de Diane Arbus com suas mulheres barbadas e anões a fumar; ou Robert Mapplethorpe, com fotos um gajo a mamar noutro! 'Ninguém imaginaria que um gajo fosse capaz de enfiar um bocado tão grande do pau de vassoura pela boca abaixo...!' (d´aprés Stephen Kings´s Rose Madder)' E, segundo uma lenda da familia Bauhütte, uma edição do abominável Necronomikon (Libro de los Muertos), do árabe louco Abdul Al Khayr Strondeiam. Segundo o estudioso Jim Fitzgeraldo/Peladán Qevedo y Saavedras: 'El titulo original, 'Al Azif' es una palabra que designa un ruido nocturno...' Ainda não acredito no sobrenatural. Sou uma garota intimorata e, de outra forma, não teria descido ao Porão. As tábuas rangeram desagradavelmente sob meus pés descalços e Alguma coisa parece estar arranhando as paredes do Porão das Raízes, como se te chamasse. abri a porta. O som de um alçapão de patíbulo se abrindo. O vento encanado acariciou minha cabeleira negra e causou um arrepio no meu corpo quase nu, mal protegido por uma prosaica camisolinha de seda e rendas. O ar estava abafado e Quero sair. Aqui os fantasmas estão muitos animados e quero sair. insalubre, seco e acre como um bafo de podridão antiga. Um cheiro doce e enjoativo, um azedo decomposto, loucamente fermentado. Enfim, havia no Porão uma aura de maldade velha. Um sopro psiquíco de túmulos. Eu senti novamente aquela 'coisa-ruim', enquanto respirava o ar viciado de coisas velhas e, num silêncio tão denso e palpável quanto dez anos de poeira acumulada eu 'Ele' está no Porão. Ele está vivo. Ele está faminto. Ele quer te comer! Ok, quem é ele? Você já sabe. Sempre soube. Ele é o Cawboy Espacial. Ele é o Gângster do Amor. Ele é o Colhedor de Paixões. escutava os chiados empestados das ratazanas. Como se, ao abrir aquela porta eu tivesse finalmente libertado alguma coisa que deveria ter ficado presa. - e, ao fazê-lo, me amaldiçoado. E, então, eu vi a coisa. Uma criatura ignota e frustrada, desajeitada e arrasada, saltando e arrastando-se como se fosse um repelente saco de aniagem cheio de ossos secos e alvacentos, não-humanos. E ouvi uma risadinha lamurienta, que liquefez as minhas tripas e fez minha pernas bambearem com um tremor gelatinoso. Um singular risinho cacarejado e agudo, doce e perverso. Como se fosse uma criança ensandecida. E, depois, o sussurrante som de algo sendo chupado.
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