Parte nove
O MESTRE




Androscogin: Um anjo de fogo líquido Jaz no Centro da Terra. Por trás de seus ombros, Não há plumagem angélica Mas duas asas de morcego Obscurecendo o céu e as idéias.
(Versos centrais de 'O Tarot', poema de Dédalo Vandalbrain atribuído a Albert Qace)


Lester Silvius viera recentemente da Nova Inglaterra, acompanhado de seu antigo servo Raymond Andrew Joubert, personagem do livro Gerald´s Game, de Stephen King. Aliás, na noite em que me atacou, Lester usava um colar que Lester ganhara de seu amiguinho Joubert e dizia dar-lhe muita sorte. Seis pênis humanos enfiados num fio de juta. Joubert era um violador de túmulos. Em fevereiro de 1989, conforme descrito em Gerald´s Game de Stephen King, no Cemitério de Chilton, foram encontrados dois cadáveres de crianças, sem os narizes - aparentemente removidos com martelo e formão. Quando Jpubert foi finalmente capturado, a pior coisa foi o sanduíche no banco do lado do motorista de seu furgão. A coisa que saia por entre as duas fatias de pão de forma era sem dúvida uma língua humana. Tinha sio borrada com aquela mostarda amarelinha que as crianças gostam. Lester Silvius era um nosferatu-rei. Lasher 'Slowfoot' Silviusscarborough, o Conde (le Cont) de Old Woodsman`s Hill, 'the Saladmaster Yarmyouth'. Ou, simplesmente, Lester Silvius. Como Albert Qace, era conhecido como um nazista aposentado, um conde de mentira. Seus antepassados são citados no poema anglosaxônico do Beowulf, o Belo Lobo. Pandolfo, a Bandeira de Lobo, ainda é sua insígnia. Desde o século mais abjeto da História da Humanidade, o século XIII, dedicava-se aos ofícios pervertidos e secretos de Androscoggin, o Criador dos Criadores. (Nestes ofícios, Lester esta auxiliado por Crockette Broo, seu novo servo animalesco; Eu nunca gostei do Servo. Talvez devido ao modo que me olhava, aqueles olhos tão esbugalhados que mais pareciam ovos cozidos, enquanto roía as cartilagens reluzentes das carcaças que roubava nos matadouros. Para mim, Broo era um tarado).


	Quanto a Lester, sua possessão não era cristã. Em absoluto. 
	O Bem (o Mal) era mais elementar - e muito menos refinado. Era como um minério tosco 
lançado na terra crua em pedaços nus. Não havia um nome para aquilo. Era a Força, o Poder. 
	Aquilo era e é o que move as maiores rodas do Universo.
	Os Nosferati são os reis entre os predadores não-humanos. É o mítico Predador Europeu, 
o Preacher, a criatura do velho mundo. No civilizado ocidente, há três variedades bem conhecidas 
no 'nosso meio': Os Krvopijac são nosferati búlgaros e também são conhecidos como Obours. Eles 
até que parecem normais, até que se repare que têm apenas uma narina e uma língua longa e 
pontiaguda. Podem ser imobilizados se colocadas rosas em seus sepulcros e podem ser 
destruídos se conjurada uma palavra mágica numa garrafa (Klaatu barada nictu!!!, acho eu) e a 
mesma atirada numa fogueira. Os Vlokoslak são nosferati sérvios, também chamados de Mulos. 
Eles normalmente aparentam-se com janotas trajados de branco; tão diurnos quanto noturnos, 
podem assumir a forma de um cavalo ou de uma ovelha. Comem suas vítimas assim como sugam 
suas... veias. Podem ser destruídos se decepados os dedos dos pés, ou com um prego 
transpassado no pescoço (considero as duas opções bem desagradáveis!). O célebre conde 
Vladimir, ou Vlad, o Empalador, injustamente mitologizado no romance do senhor Bram Stocker, 
era um tipo de Vlokoslak da Dácia, na Transilvânia, as 'Terra Além da Floresta'. Os 'Vlkoslak', raça 
à qual pertencia meu mestre, Lester Silvius - são nosferati que têm origem na Polônia e na Russia 
e também são chamados de Upierczyi ou Viesczy. Ficam ativos a partir da meia noite e só podem 
ser destruídos por fogo extremo. Quando incendiados, seu corpo irá explodir, dando origem à 
centenas de pequenos e repugnantes animais (larvas, ratos, ugh!). Se algumas dessas criaturas 
escapar, então o espírito do Vlkoslak escapará também, e retornará para reclamar vingança. Os 
antepassados dos Vlkoslak são os mitológicos Ekiminu, malígnos espíritos assírios (metade 
fantasma, metade nosferatu), causados por um sepultamento impróprio. Eles são naturalmente 
invisíveis e são capazes de possuir humanos. Podem ser destruídos sendo usado armas de 
madeira, ou por exorcismo. Os Vlkoslak são também os nosferati mais esnobes, desprezando os 
africanos Asanbosam, que possuem cascos ao invés de pés e tendem a morder suas vítimas no 
polegar, os indianos Baital, metade homem, metade morcego, tendo mais ou menos um metro e 
meio de altura, e os chineses Ch'Iang Shih. Estas criaturas exóticas são criadas se um gato pular 
sobre o corpo de um cadáver. Eles se levantarão para a vida e podem matar com um bafo 
venenoso além de poderem drenar o... sangue de suas vítimas. Se um Ch'Iang Shih encontra uma 
pilha de arroz, ele tem que contar os grãos antes de passar. Sua forma imaterial é uma esfera de 
luz.




	Como todo Vlkoslak, Lester possuía um nojento ferrão sob a língua, ao invés das presas 
tradicionais. Vendo aquela coisa, era possível voltar a acreditar naquela história da carochina de 
que um beijo engravidava e que o bebê seria gerado na garganta da mãe, até asfixiá-la.
 	Aliás, apesar de todos seus esforçados disfarces, restava pouca coisa de humano em 
Lester. Os músculos abaixo da pele semitransparente (ele a cobria de pancake) eram longos, 
encordoados, cinzentos. Os pés eram estreitos, não dispondo precisamente de artelhos. Em vez 
disto, cada pé encurvava-se numa garra única, espessa e quitinosa, como o esporão de um 
pássaro. Um pássaro que tivesse o tamanho de um abutre gigantesco. Ou melhor, um urubu-rei 
(Sarcoramphus papa) de plumagem tão eriçada e áspera quanto carnavalesca.


	Uma outra palavrinha sobre meu mestre: Era um velho. 
	Um velho e charmoso pedófilo que fazia dos sonhos dos jovens a sua proteína  (Há 
quanto tempo, a quantos anos, o imoral Lester vinha me observando? Nunca saberei Mas já tinha 
estranhos pesadelos quando meus seios eram apenas duas mordidas de mosquito no peito 
informe de um corpo envolto na graça ambígua e instável de moleca, criança-adolescente).

	'Ameixas de inverno, Keira. Ameixas aquecidas pelo sol. Ameixas de uma floresta 
encantada onde a fruta jamais cai dos galhos. Onde as flores nunca murcham e morrem'.

	Um velho, sim, velho,
	Hoje quero uma criança, Sweet Keira. Sinto-me uma mãe...quero uma criança!
	velho como a Macedônia. Mas não se comportava como um velho. Eu conheceria outros 
predadores Vlkoslak, mas nenhum como Lester: Ele era como o bicho de Alien3; até se movia 
mesmo de maneira diferente. Movia-se com calma desnaturada e glacial, com uma graça e 
agilidade incomum nos velhos de sua idade grotesca, que parecem costituídos de pelancas e 
crostas de feridas. Lester dirigia um velho Mercury Colgar 351 cor de rosa 'chock', com 
acabamentos dourados; uma banheira que nunca passava despercebida. 
	Em sua juventude, Lester foi um lindo homem e amou celebridades como Irina Ioana 
Sirbbu, da Romania, Nina Blackemoor e o Duque Spadafora.
	Hoje, Lester lembrava-me o escroto Dmitri Karamazovi de 'O Caminhante': 'Alto e 
magro demais para ser um homem de verdade. Parecia um doente de macrocefalia. Tinha as 
feições de um alienígena que tentasse imitar as feições humanas, sem muito sucesso. Rosto 
afilado, com a palidez cerosa de um cadáver. O queixo para dentro e a testa alta se estofava como 
um grotesco bulbo vegetal. Nariz fino como uma faca de manteiga. Os cantos dos lábios grossos 
como talhos de frutas erguiam-se num sorriso seco, revelando molares descoloridos e caninos 
pontudos como as presas de um vira-lata' (Gerald´s Game).
	E havia os olhos...
	Olhos de um tom cinza-fumaça que tentava ser azul irlandês, mas ficava um pouco 
aquém, tão desbotados que eram quase incolores, orlados de vermelho, pavorosamente 
cintilantes, extasiados, estranhamente ávidos, encovados, tão grandes e redondos que lembravam 
as órbitas vazias de um crânio. Absolutamente inexpressivos. 



	
	Lester não tinha pálpebras (nem precisava delas, já que existia apenas na escuridão). 
Obviamente, também não tinha glândulas lacrimais. Como Mason Verger, o personagem de 
Thomas Harris que teve seu rosto comido por cachorros durante uma festinha com Hannibal 
Lecter, Lester Silvius usava uma espécie de monóculo... uma traquitana complicada e cara, 
mantinha seus olhos úmidos na medida do possível. 
	Assim era meu mestre: 'Ele tinha muito dinheiro, mas era incapaz de derramar uma lágrima'.
	Aliás, Thomas Harris faz uma descrição subreptícia de Lester na obra Hannibal (As 
tentativas de descrever Lester quase sempre resvalam na literatura!):
	"Quase sem nariz, e sem lábios, sem tecido vivo sobre o rosto, era todo dentes, como uma 
criatura do oceano profundíssimo. Habiatuados como estamos com máscaras, custa acreditar que 
aquilo é um rosto com uma mente por trás. Aquilo emexe nossas entranhas apenas de articular o 
maxilar ou virar o olho para nos encarar. 
	Para ver nosso rosto humano e normal."
	E o cabelo de Lester era negro, com tiras de grisalho, arrumado numa trança 
suficientemente comprida para arrastar pelo chão, se ele não a enrolasse pelo pescoço, como se 
fosse uma echarpe. As tranças brilhavam como escamas superpostas.



	
	Vocês percebem: Lester esforçava-se. 
	Até podia passar despercebido como um senhor de aspecto respeitável, mas efeminado. 
Os cabelos pesados de laquê, restos de maquilagem barata no rosto, batom nos lábios 
desbotados, cílios longos, e as mãos...! Tinha mãos pálidas e delicadas, aristocráticas, com dedos 
extraordinariamente longos. Bem cuidadas, unhas pintadas com base, e descreviam exuberantes 
arranjos florais enquanto ele falava, com aquela voz que parecia velha e enferrujada, cheia de 
cascalho. A pele era, como eu disse, clara, quase translúcida, as feições que um dia foram 
aquilinas, hoje eram quase femininas, como uma velha feiticeira. Impossíve não lembrar de um 
velho álbum de Rock'n' Roll, com a foto de um travesti na capa, o perfil contra um fundo negro 
cheio de lápides, a face dúbia sangrando com ruge e pinturas. E o título: "Eles só saem à 
noite". 
	(Por coincidência, era amigo íntimo de alguns dos mais glamourosos travecos de nossa 
época corrupata. E estou falando de divas internacionais como Tiffany Ciani, Vanity Faire, Lorna 
Lynne, Jahna Steele, Holly Gramm, Pascale Ourbih, a grega Jenny Hiloudaki, Rickard Engfors, 
Holly Woodlawn, Wendy Seymone, Natayla Sereshka, Paninya Kiatbusaba, Michelle Dumaresq, 
Gokgorn Benjathikul e Laetitia-Ines Seignard de la Margues)
	Em suma, Lester Silvius era uma bicha velha, um Lestat dos trópicos, que inspiraria a 
composição do personagem do professor Molina Troncoso, em 'O Caminhante', de Dédalo 
Vandalbrain. Ele costumava vestir elegantes shorts e lederhosen alpinos, mas parecia uma 
boneca-dama de Effanbee.
	No entanto, embora usasse os mais caros perfumes, seu 'corpo' desprendia um aroma 
empoeirado e malévolo. E seus olhos pareciam buracos feitos por algum cigano, e depois 
preenchidos com toda a crueldade da face da Terra. Foram estes arremedos de olhos que me 
examinaram languidamente durante toda aquela noite.
	En l'heure bleu, no entanto, os olhos perderam o hábito humano de disfarçar o interesse 
extremo. A última coisa que eu vi na vida foi sua cara tenebrosa, riscada por ideogramas 
alienígenas desenhados pelas sombras do luar. Ou melhor, a última coisa que eu vi foi seu feroz 
sorriso mordente, predatório - o sorriso horrível de quem acabou de fazer uma sequência do 
mesmo naipe numa rodada de pôquer valendo muito dinheiro - enquanto ele se preparava para 
fazer uma coisa muito feia comigo.
	Os livros ('Teoria Geral da Administração' (TGA), do Chiavenatto, e 'Administração, 
Conceitos e Aplicações', de Megginsley, Mosley e Pietri) caíram dos meus braços. 
	E, de repente, o suor quente de minhas faces tornou-se gelado e, com repugnado horror, 
aspirei um pó branco e seco como ração de ossos. Eu estava paralisada mas consciente, como 
uma abelha picada por um besouro. Ou melhor: Era como ver algo acontecer num filme. Em 'The 
Abominable Dr. Phibes', uma das infelizes vítimas da criatura tem todo seu sangue substituído por 
um estranho líquido esverdeado, através de um sofisticado sistema de sondas. Assim eu me 
sentia. Um terror escuro e entorpecedor pareceu estar invadindo-me as veias geladas, como uma 
nova substância: um líquido espesso, orgânico, fétido. Um cheiro que lembrava ostras com creme, 
o cheiro das mãos depois que seguravam um punhado de moedas e o cheiro do ar pouco antes de 
um temporal. Alho velho... cebolas podres.. caçotes enterrados... pés enlameados. E aquele som... 
címbalos apodrecidos, castanholas melecadas, o vago e gorgolejante uivo de um mondrongo mal 
alimentado e sem sorte, afogando-se. Uma onda de escuridão surpreendentemente estrelada 
singrou minha cabeça, como um em enorme galeão pirata fantasma com enormes velas negras 
esfarrapadas. E assim minha vida foi interrompida como um nó de madeira estourado em uma 
fogueira. Minha vida foi destruída como uma banana de dinamite dentro de uma abóbora podre.




	No alto, a lua era uma fornalha sobrenatural de luz, contornando o círculo negro chapado 
no céu anil. Como um eclipse no meio da noite. 
	Uma mão branca e sapuda, safada. Pequenos beijos sinistros, viscosos. Um hálito que 
cheirava a coisa podre, rançosa e amarela. Cheirava um bocadinho a bolor, a mofo, a 
decomposição muito avançada, e na verdade não era nada disto. Suor velho, talvez. Ou outros 
fluidos. Semen, foi o que lhe ocorreu. E sangue. Mas o pior eram seus olhos. Os olhos que 
saltavam das órbitas como berlindes de mármore. Havia nos seus olhos alguma coisa fria e 
especulativa que me causou um arrepio. 
	Seu bigodinho antiquado parecia uma minhoca morta na chuva.
	Eu queria gritar, porém desta vez não havia ar em seus pulmões. É assim que nós nos 
reproduzimos: pela escravidão. Vermes esguicham como sêmen de um monstruoso pênis ereto. 
Foi a primeira e única vez em que, na vida e na morte, experimentei algo semelhante ao ferrão de 
mel do orgasmo.










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