Parte oito
O GATO PRETO




Você vai ter que me entender Quando olhar pra trás Procurando e não me ver Chegou a hora de recomeçar
('Não Sei Viver Sem Ter Você', CPM22)


A maioria dos casos médicos sugere que a mente humana reage aos traumas extremos da mesma forma que o polvo reage ao perigo: envolvendo a paisagem inteira em uma núvem de tinta escura. Ao chegar em casa, estava tontinha, como se eu tivesse fumado, sozinha, um cachimbo inteiro de haxixe. Minha cabeça doía e latejava. Uma dor imprecisa corroía minhas têmporas. Esticão de dor cromada. Cortina vermelha de dor. A dor - uma dor perfumada - engoliu- me como a baleia engoliu Jonas. Minha cabeça se dividia, como se alguma costura apodrecida tivesse se rompido. A dor atingira um ponto em que parecia que tinha dentro da cabeça um feto horrível a querer nascer. Era como uma coisa viva querendo sair de dentro do meu peito, como o Alien saindo do peito do astronauta Kane, no filme original de Ridley Scott. No meu estômago havia uma náusea redemoinhante como se ali se debatesse uma porção de pássaros. Apanhei uma caixa de cereais Red Razberry Zingers, promovidos pelo Professor dos Cereais, da Ad Wox: Nada, nadinha de errado com isto aqui! (d'aprés Stephen King's Cujo) Pareceu-me que os flocos de milho coloridos com anilina eram coágulos de sangue azedo e vomitei abundantemente na pia da cozinha. O que saiu em jatos pela minha garganta não foram pássaros, mas sim uma coisa cor de sangue, exatamente como se fosse coágulos. Parecia carne podre. E o cheiro era tão forte, tão nauseabundo, que lágrimas correram à minha face. Meus olhos estavam vermelhos como se eu estivesse enterrada até os cotovelos, em cebola picada. Hoje penso que o que eu vomitei foi a velha Keira, enquanto a nova renascia num parto ritualístico e grotesco. Quando terminei, tomei um copo de água de poço. A água era de um negro baço, como piche. Uma água insípida e espessa, como xarope frio. Estranhos sais e brometos. Com o sabor da terra sem memória. Não só o paladar... todos meus sentidos estavam a mil! ouvia o sangue sendo bombeado com energia em cada veia mais recôndida de meu corpo. Meu coração era uma máquina passional poderosa que mal cabia no peito. Sentia os rins pesados, poderosos e os músculos eram como cabos de aço. Quando meus olhos clarearam, percebi que meu gato, Walter, evitava minha presença. Ainda, estonteada, apanhei-o e ele, assustado ante minha violência, feriu meu rosto com uma unhada certeira. Até hoje trago a cicatriz. No momento, uma fúria demoníaca apoderou-se de mim. Senti-me mais zangada que um touro com um cabo de macaco enfiado no cu (), comentário de mal gosto do presidente Agamenon Comstock, quando finalmente encontra o Qasar de Guerra (d'aprés Stephen King's Cujo). Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo e uma perversidade mais do que diabólica, causada pela genebra, esticou e vibrou as fibras do meu corpo. Como se eu fosse um personagem das Histórias Extraordinárias, de Edgar Alan Poe, tirei da bolsa o canivete que habitualmente me defendia dos tarados, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente, arranquei da órbita um de seus olhos.


	Neste ponto da narrativa, a minha percepção do tempo começa a derreter. 
	Quando rememoro todos aqueles anos da minha transformação, como esquecer aquela 
aguda dor de cabeça inicial? E as vozes palpitando dentro da minha cabeça? Uma vez eu disse 
(ou me mandaram dizer?) ao meus pais, Kate e Barry: 

	'Deixem-me me paz, deixem-me transformar-me me paz!' 
	
	Coitados. Não havia como resistir às covardes, furtivas, modificações no meu corpo - e 
principalmente na minha mente. Minha 'vida' tornou-se uma espécie de filme de terror de classe B 
. Uma coisa de mal gosto, meio Monstro-Dunga, meio Mary Shelley, meio Boris Karloff. Quando 
estava com Lester, minha vida era uma ópera-bufa e pornográfica ('Eu vou te preparar pedaço por 
pedaço', dizia ele, imitando o sotaque britânico de Charriots of Fire). Às vezes, chegava a sentir-
me como se eu fosse uma personagem de uma obra como 'The Sensuous Exorcist', de Sybil Leek. 
No entanto, minha preferida sempre foi Anne Rice, que inovou o gênero ao mostrar a ótica do 
Predador, e não da vítima. Magia branca, benegris-gris. Em essência, tudo isto trata da essência 
recrudescente do Mal.



Kubin,Alfred (Austrian, 1877-1959)-Road to Hell



- Temos que atravessar águas amargas, antes de chegar à 'doçura'. - dizia Lester Silvius, acariciando um copo repleto de um líquido opaco, parecido com vinho. - Passar por rios de sofrimento, profundos vales de terror, abismos de desepero, acidentes geográficos de pesadelos, sobre os quais acreditamos que jamais falaremos a alguém. Achamos que a solidão é absolutamente oportuna e e agradecemos a Deus por ela. Enfim, estivemos na faixa de passagem do eclipse e emergimos (de certa forma purificados) da escuridão. Mas não são as imagens hodientas, os aromas putrefatos ou os odores mefíticos que me interessam. Não, ao rememorar todos aqueles anos, o que me emociona é sempre a Música. Creio que, sem a Música, eu não teria suportado o que Lester chamava pedantemente de 'A Nona Configuração'. Mas não qualquer música. Tem que ser a Música. 'O Rock'. Embora eu também aprecie o trabalho do jazzista Telonius Monk, Rock pra mim é o melhor estilo de música que existe, o Rock fez parte da minha vida - tanto quanto faz parte da minha morte. Enquanto eu me transformava, eu ficaria horas e horas trancada no quarto, esquecida do mundo, acompanhada apenas ao som do Nirvana. Acho que essas bandas revelam o meu lado obscuro, o qual a maioria das pessoas não conhece - e nem imagina que exista. Por outro lado, o Rock me ajudou nessa minha nova "vida". Atráves dele pude camuflar minha verdadeira condição aqui na Terra.


	"A pouco tempo atrás, fui em um show de rock em um estádio lotado. Foi simplesmente 
demais... o som da guitarra junto a bateria chegava a arrepiar o corpo, fazia-me sentir uma 
emoção inexplicável... você sabe, outra maneira de reviver o êxtase sexual dos vivos..
	Além de mexer com minha cabeça e provocar reações inusitadas no organismo, Rock pra 
mim é cultura, representado por um dos maiores poetas já existentes, Renato Russo, o vocalista 
do Legião Urbana. "Legio Urbana Omni Vincis", mofejava Lester Silvius, com seu riso casquinado, 
cacarejado, nas nossas eternas noites insones, de refestelos e acepipes ou quando faziamos 
curativos em nossos ferimentos, sob a luz difusa das auroras boreais. "In hoc signo vinces". As 
músicas do Renato Russo sempre me contagiaram e há muito tempo me traz lembranças. 
Principalmente de quando eu ainda estava viva.
	Sim, adoro Rock n’ Roll. Comecei curtindo o rock satânico. Marylin Manson. Black Sabath. 
Necrosis. Emperor & Venon. Depois, passei para Guns n’ Roses (sou uma predadora moderninha, 
ora bolas!), Foo Fighters, Charlie Brown Jr., Iron Maiden, Linkin Park e até Oasis: As Músicas da 
Keira. Posso comparar essa minha paixão a uma religião. A propósito, já me indagaram se sou 
atéia, já que o Rock já me serviu de desculpa para fugir de igrejas e santuários. Afinal, as pessoas 
costumam associar essas músicas a coisas ruins, cantores alucinados que uivam, comem 
morcegos e cagam em cima da Bíblia".



	Bem, por falar nisto, cruzes, rezas e água-benta são inúteis contra nós. Aquele papo de 
queimar nossos corpos em poucos segundos... coisa de filmes (Hollywood.. bah!). Basta pensar 
um pouco. A igreja é corrupta, o Vaticano está atulhado de ouro e pedrarias roubadas dos judeus 
e da América Pré-colombiana. E os padres...  O padre Fernandão Capelo Gayvota é um devasso, 
que costuma acariciar meus seios pequenos e roliços durante a confissão, distraidamente (que 
pecados pode ter uma jovem aprendiz de nosferatu?). Ainda sinto sua mão deslizando pelo interior 
das minhas coxas, aproximando-se do meu sexo como uma cobra parda e empoeirada... e eu só 
tinha 11 anos. 
	O seu superior, o reverendo Raimundo Fagner Dimmesdale é um boylover empedernido, 
um rábula hipócrita que vive irritado com o jugo de um papado esclarecido. Bebe Jim Beam: Tem 
bom gosto, o filho da puta. Está escrevendo uma História da Igreja Católica na Nova Inglaterra e 
temos longas conversas sobre os poetas da nossa Idade do Ouro: Whittier, Longlellow, Russel, 
Holmes... Este pessoal. Também sou uma preacher erudita, eh, eh!
	Quanto às igrejas, Deus não vive ali. Certa vez entrei numa catedral. As estátuas 
transmitiam a imagem do nada. Eu era o sobrenatural, ali. Eu era a única coisa imortal que jazia 
consciente sob o teto! Solidão. Solidão até a loucura. Em minha visão, de repente, a catedral 
estremeceu. Os santos balançara e caíram. Ratos comeram a Santa Eucaristia e se aninharam 
nas vigas. Uma ratazana solitária, com uma enorme cauda peluda, continuou roendo a toalha 
podre do altar, até candelabro cair e rolar pelas pedras cheias de limo. E eu continuei de pé. 
Intocada. Imoral. Imortal. Agarrando subitamente a mão de tinta da Virgem e vendo-a quebrar-se 
em minha palma, esfarelada por meus dedos.
	Onde está a Fé, hoje em dia?





Giger-Hiveguardian by Stephe Garofalo





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