Parte seis
O CORVO




Numa meia-noite agreste, quando Keira lia, lenta e triste, Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais, E já quase adormecia, ouviu o que parecia O som de algúem que batia levemente a seus umbrais. "Uma visita", ela se disse, "está batendo a meus umbrais".
(O Corvo, de Edgar Alan Poe, traduzido por Fernando Pessoa e adaptado)


Na próxima do que foi uma série de noites terríveis, adormeci durante a leitura de 'Satan's Sex Slaves'.


	Para finalmente convencê-los do meu gosto pela leitura, eis mais um trecho do meu 'Diário 
dos Primeiros dias da Mutação':

	"Gosto de ler livros de histórias reais que abordem temas como: política, economia, 
relatos reais de pessoas que passaram por algo que fez história no mundo, seja ela boa ou ruim; 
assim como Estação Carandiru de Drauzio Varella. Como médico, ele passou alguns anos  no 
presídio do Carandiru e lá conviveu com milhares de presos e ouviu muitas histórias. Aquele lugar 
era um verdadeiro criadouro de animais, onde não viviam, mas sobreviviam. O Carandiru era 
sinônimo de doenças, tristeza e ódio. Outro livro ótimo que eu li já faz alguns anos foi Se Houver 
Amanhã do Sidney Sheldon; adoro a linguagem que ele usa nos livros, totalmente próximo a mim, 
parece até que eu o conheço; você entra totalmente nas estórias: é como se estivesse vendo um 
filme. Neste livro, ele conta a estória de uma moça que é traída por várias pessoas, principalmente 
amigos e parentes e acaba na cadeia inocentemente. Lá, ela articula planos, e quando consegue 
sair da prisão, vinga-se de todos. Esta é a melhor parte. Ela faz estratégias inacreditáveis, 
engenhosas. Só lendo para entender - Mas é muito bom. Outro do Sidney que eu também li foi o 
Nada Dura para Sempre. Há outros que não recordo os nomes no momento. Observação: Meu 
próximo livro vai ser '120 Dias de Sodoma', do Marquês de Sade, sobre as abjetas orgias do 
Duque de Blangis, de Dorcet e do Presidente Curval, com suas meigas filhas Julie, Aline, Adelaide 
e Constance, mais uma dúzia de infelizes, durante uma semana num velho castelo em Limonges". 




	Após ler tais coisas, com o quê sonha a Keira? Nada de excepcional, exceto naquela 
segunda noite. Não foram sonhos nobres, apresso-me em dizer. Foram sonhos ingratos, loucos e 
confusos. Uma sessão intensa de 'sonhos ruins', como diria minha bisavó materna, Thurlowa 
Tremain. Pois, quando acordei, estava toda pegajosa e febril.



	Ainda era madrugada. A lua espiava pela janela do quarto, como se fossem os olhos 
apertados e brancos de um morto. Por algum motivo escuso, meu coração batia com uma lentidão 
dolorosa. O medo era como um bloco de gelo sobre meu peito. O medo me nauseava, formando 
um bolo em minha  barriga, como uma gravidez medonha.
	A Coisa estava enconchada sobre o meu ventre. 










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