Parte quatro
O ÁS DE PAUS




Hálito do imóvel. Um rosto de animal assustado ante a santidade do azul. Poderoso é o silêncio da pedra. A máscara noturna de um pássaro. Três doces sons sonham num. Keira! Teu rosto inclina-se mudo sobre a água azulada. Oh calados espelhos da verdade. No sonho de marfim o solitário aparece no reflexo dos anjos caídos.
(Georg Trakl in Canção Noturna)


E falarei: Eu estremeci, quase gritei, mas acabei rindo sozinha. Fora apenas um daqueles momentos de calafrios psicológicos que as pessoas atravessam: Nem mais, nem menos. Uma fuga momentânea da realidade. Eles aconteciam: era tudo. Lembram daquele conto de Natal? O que tio Scrooge dissera ao fantasma de Jacob Marley? `Talvez você não seja mais que um pedaço de carne mal cozido dentro de mim. Antes um problema de digestão do que uma ressurreição`. o escritor Charles Dickens tinha razão: Fantasmas não existem. Que tolinha! Nesta época, eu ainda não sabia que a racionalidade humana não passa de um fino verniz. "Keira-bonequinha, a mente humana não passa de um cemitério construído sobre um lugar escuro e oco, onde répteis monstruosos se arrastam miseravelmente pelo fundo lamacento". Quando abri a janela do quarto, vi uma linha de pegadas na neve, indo até a portinhola externa do porão. As pegadas não eram de homem, nem de mulher. Tinham sido impressas por cascos fendidos - como de uma criatura bestial.

	
	Nesta época, eu ainda não viera ao Brazil (falarei sobre meu exílio voluntário em outra 
ocasião; por hora, direi que, entre as razões da minha escolha, está ser este um país de 
população jovem e vigorosa, quente e líquida, ah, cores vivas, sobretudo o vermelho, a nossa cor 
preferida). 
	- Você se esconde entre os jovens. Eu, entre os corruptos. - disse Lester, lúbrico, 
acariciando a calva de Crockette Broo, o qual sugava uma taça de gelatina onde flutuavam 
pedacinhos de carne ou fruta em calda, como insetos gordos metidos em âmbar..
	Eu ainda estava nos confins de um estranho país, cujo nome prefiro omitir, mas pode ser 
adivinhado. Basta dizer, por hora, que era escuro como são os países agrícolas. Eu morava em 
Monsom´s Creek, uma aldeiazinha abafada entre morros velhos e cansados de uma espécie de 
Nova Inglatera, próxima a cidadelas como Alfred, Deadwood, Dodge City, e Woolwich, na orla da 
Grande Floresta do Big Injun, no extremo norte do Lago Kashwakamak - a área conhecida como 
Baía Notch. Um dos últimos refúgios dos índios Micmac e antro de famílias milenares como os 
Piacsek, Kleinwachter, Stormvikings, Aroonstoock, Bryllocream e Arckhimbourghs. 
	A propósito, meu nome completo é Keira Vlata Knightley-Bauhütte&Seelenvogelanden 
Youngblood. Nomes crespos como uma chuva de primavera. Nomes que lembram cavaleiros 
puros, castelos longínquos, almas e pássaros (É mais fácil mesmo me chamar de Keira 
Youngblood. Alguns de meus amigos me chamam de Keirinha (!?). 
	Há uma pessoa que me chama de Keira-a-Bonequinha.



	Sou salada de gens raciais. Minha avó paterna, Mamaliga Wholewoman, era uma maga 
romena e, como eu, uma ovelha negra da família (herdei, inclusive, sua célebre receita de 
Impletata (beringelas recheadas de carne e temperadas com páprica 'hendl' dos Cárpatos). Minha 
tataravó, Gladys Cherryberry, era filha de um confeiteiro belga de Village Washtoob e casou-se 
aos 15 anos com Euclídio Corvin-Corax, o célebre inventor do mirmecotombógrafo, originário do 
Qersoneso Táurico, atual Criméia. Um de meus antepassados, Dirceu 'Fractus' McDaemon, foi um 
baronete alsaciano que, por duas vezes, caçou perdizes portuguesas (Alectoris rufa) na Prússia, 
com o próprio Kaiser. Outra antepassada, a albanesa Stregoica Honfoglalas foi espulsa de seu 
esconderijo na Cítia, por ter copulado com Ordog Godalming, um demônio do deserto, e suicidou-
se no Promontório de Qettleness. Não importa. Quando tudo isto começou, pode ser que os 
espíritos dos mortos estivessem vagando ao meu redor, mas os vivos estavam ausentes. Para 
variar, eu estava sozinha. 



	Entretanto, hoje tenho consciência de que eu amava minha antiga vida, como prova este 
outro trecho sobre meu habitat, pinçado do meu velho 'Diário da Tribo':
	"Todos sempre acham que tudo que é relacionado a nosferati, fantasmas, almas 
penadas, etc; sempre se encontra em lugarejos perdidos no meio do mato, esperando alguém 
chegar para que se possa atacar. Isso são coisas de filme e imaginação de escritores. Eu, por 
exemplo, sou uma criatura totalmente urbana. Nada melhor que se sair pela cidade à noite, se 
você se encontra em um lugar perdido no meio do nada, onde dê para apreciar a lua. A cidade 
grande é meu habitat natural, apesar de o medo dominar todo mundo, pois a violência é geral. 
'Bobagem, bonequinha Keira', dizia Lester Silvius, 'Ninguém ameaça uma vida que pode durar até 
o fim do mundo!' Mas não nos esqueçamos que Lester veio de outros séculos. 



	Por outro lado, sair na 'night', nem que seja só para bater-papo, é muito desestressante. E, 
nestes momentos, posso, às vezes, colocar minha verdadeira identidade em prática; afinal, 
ninguém está muito preocupado com nada mesmo: só querem relaxar. Em algumas ocasiões, até 
consegui me fartar de nosso alimento líquido primodial, vermelho e fresco, embora com um leve 
teor alcoólico, malditos bebuns! Sempre é bom. O melhor lugar é sempre o que Lester chama de 
´Erebus´ ou 'Pokol, o Inferno', ou seja, o centro velho de uma cidade, pois lá estão as grandes 
aglomerações de gente, principalmente nos encontros noturnos da galera. É ali que, quase 
sempre, se satisfazem as pretensões de uma... do que quer que eu seja".
	É isto aí, amigos. Este é 'O Planeta da Keira': Dias de friaca alternados com dog-days de 
canícula, que ironia para meu futuro!



	"Canícula: S. f.1.  Etimologia: Do latim caniculae: 'cadelinha', 2. Astr. . [Com cap.] Nome 
da estrela Sírius (V. Sírio1) ou de sua constelação. Época do ano em que Sírio está em conjunção 
com o Sol.  O nascimento de heliaco da estrela Sirius, da constelação do Grande Cão, no 
hemisfério boreal se dá no início de agosto, coincidindo assim com os intensos calores de verão; 3. 
Grande calor atmosférico: 1635 é a data para a acepção p.ext. 'calor' "É o momento infernal dos 
maiores calores. 4. Opressão. A atmosfera asfixia." (Martins Fontes, Verão, p. 33)"

	Vejam: Eu sentia o cheiro da loucura num vento que ainda não chegara!
	Ao entardecer, ocultos na mata, cantavam os bacuraus. Grilos trilavam por toda parte. As 
noites eram densas, cegas e malcheirosas. Eu ainda não sabia, mas 'eles' estavam nas ruas. 
	Ah, eu não sabia de nada.










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